Uma verdadeira epidemia de ansiedade

Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável

Brasileiros são os que mais sofrem com os transtornos ansiosos, que atingem 9,3% da população

A ansiedade é uma característica natural, adaptativa e fundamental aos seres humanos, porque possibilita que estejam sempre preparados para possíveis situações de perigo. No entanto, preocupações e medos exagerados, isolamento social, sensação contínua de que algo negativo vai acontecer e falta de controle sobre os pensamentos, que se repetem com frequência e independentemente da vontade, são sinais de que a ansiedade pode estar se transformando em uma patologia, classificada entre os transtornos mentais e comportamentais. Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil vive uma verdadeira epidemia de ansiedade e ocupa o posto de país mais ansioso do mundo – com aproximadamente 18,6 milhões de indivíduos atingidos pelo problema. Isso significa que 9,3% da população convive com alguma das manifestações, sejam fobias, estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de pânico. Embora o problema atinja países de todos os continentes, com números que chegam a 260 milhões de indivíduos globalmente, as Américas lideram o ranking de ansiedade no mundo.

De origem multifatorial, os transtornos ansiosos são resultantes de uma combinação de agentes ambientais e genéticos, embora indivíduos que carregam os genes só apresentem a doença caso o ambiente em que estejam inseridos ofereça as condições para o desenvolvimento do transtorno. Apesar de a prevalência da ansiedade nas Américas atingir mais o sexo masculino, do total de pacientes diagnosticados no Brasil 2/3 são mulheres. Isso se explica devido a fatores biológicos ou socioculturais, como o fato de as mulheres estarem mais abertas a discutir sobre saúde mental, entender o problema, buscar os gatilhos e o tratamento mais adequado às suas necessidades, enquanto os homens ainda têm certo tabu em aceitar tal condição, por isso, procuram menos os serviços de saúde. Especialistas acreditam que o aumento da frequência esteja associado, principalmente, a questões ambientais, ao crescimento populacional e ao estilo de vida. Segundo a médica psiquiatra Ana Luiza Ache, colaboradora do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), para indivíduos que já possuem alguma predisposição, certos fatores podem ser determinantes para o desenvolvimento da doença. “O ritmo de vida atual, o imediatismo e as exigências cada vez mais presentes em nossa sociedade, bem como hábitos de vida menos saudáveis em relação à alimentação, atividade física e ao sono, por exemplo, são fatores que contribuem para piorar os quadros de ansiedade e, consequentemente, para o aumento da prevalência desta patologia”, avalia.

Apesar de os sinais de alerta emitidos pela ansiedade natural serem importantes para o indivíduo sobreviver e direcionar seu comportamento na sociedade, quando se torna patológico esse sinal passa a ser hipersensível e, de certa forma, distorcido para o exagero, afetando o pensamento, a percepção e o aprendizado, causando comprometimento e um sofrimento cognitivo acentuado que impede o indivíduo de fazer atividades habituais, como sair de casa, conviver em sociedade, ir à escola, trabalhar ou viajar. “Alguns pacientes relatam a sensação de algo muito angustiante e sufocante, tanto fisicamente quanto emocionalmente, e as preocupações podem chegar a um nível que paralisa as atividades do dia”, afirma a médica psiquiatra Tatiana Mourão, professora doutora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No geral, não é possível identificar o que desencadeou reações tão abruptas e extemporâneas, mas sabe-se que a intensidade, duração e frequência da ansiedade são desproporcionais à probabilidade real ou ao impacto do evento antecipado.

Entre os sintomas físicos associados durante uma crise estão dificuldade para respirar, suor excessivo nas mãos e nos pés, náuseas, tensão muscular, sensação de fraqueza e cansaço, tontura, tremores, batimento cardíaco acelerado e arritmias, sinais que podem ser confundidos com angina, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (leia boxe na página 4). No entanto, essa é uma reação normal do organismo e ocorre porque os hormônios adrenalina e cortisol são liberados em doses maiores em uma situação de ansiedade – que pode ocorrer, por exemplo, no dia anterior a uma viagem, na expectativa para o casamento ou a formatura, na véspera de um concurso importante –, preparando os músculos para a ação por meio da dilatação de vasos sanguíneos. “Já nos transtornos de ansiedade há uma desregulação na resposta do cérebro às situações de perigo ou estresse. Com isso, o organismo passa a interpretar situações corriqueiras como ameaçadoras e, então, libera adrenalina e cortisol de forma desregulada, causando todos os sintomas clássicos do transtorno“, explica o médico psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL) e diretor superintendente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Democrático

Diferenciados entre si pelas situações que desencadeiam medo, esquiva ou ideação cognitiva associada, os transtornos de ansiedade podem atingir qualquer faixa etária, manifestando-se de acordo com a fase de desenvolvimento do indivíduo e questões ambientais associadas. Na prática médica, os transtornos são classificados de acordo com suas particularidades. Os mais recorrentes são o transtorno de pânico, caracterizado por ataques imprevisíveis de ansiedade grave que não estão restritos a um conjunto de situações específicas; a fobia social, que se reflete no medo de se expor a outras pessoas; outras fobias, como medo de animais, do escuro, de lugares fechados ou muito lotados, que despertam a busca rápida para um lugar seguro; e o transtorno de estresse pós-traumático, que faz com que o indivíduo reviva muitas vezes uma situação traumática. “Entre as modalidades, certamente o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é o mais persistente e de difícil controle, pois o indivíduo pode apresentar sintomas por meses sem motivo aparente, envolvendo elementos de apreensão, inquietação e irritabilidade”, enfatiza a psiquiatra Tatiana Mourão.

Sintomas se confundem com eventos cardíacos

Indivíduos diagnosticados com transtornos de ansiedade apresentam indícios recorrentes de preocupação, aflição, angústia e medo que podem se intensificar, sem aviso prévio, para uma manifestação extrema com sintomas físicos importantes, como taquicardia, dor no peito, náuseas, tremores e dificuldade para respirar, sendo facilmente confundidos com ocorrências cardíacas. Seja pela falta de acompanhamento médico ou por demanda do próprio paciente, o transtorno do pânico causado pela ansiedade leva muitas pessoas aos setores de pronto-atendimento, por vezes sem motivo, e tem sido causa frequente de indicação de exames e internações desnecessários. Entretanto, mesmo que as crises de ansiedade não representem necessariamente um evento cardíaco, o problema aumenta as chances de o paciente desenvolver, por exemplo, hipertensão, que é ocasionada pelo estresse excessivo, ou de pensar que está no meio de uma crise de pânico e minimizar os sintomas de um problema mais grave.

Segundo o professor doutor Abrão Cury, cardiologista e clínico geral do Hospital do Coração (HCor) e médico assistente da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante os episódios crônicos de ansiedade, especificamente no transtorno do pânico, a produção hormonal é afetada, fazendo com que o organismo libere mais adrenalina e noradrenalina. Esses hormônios elevam a frequência cardíaca, geram taquicardia, alteram a pressão arterial, dificultam a respiração, aumentam os tremores e a sudorese. Soma-se, ainda, um quadro de preocupação, próprio do transtorno, que pode intensificar essas manifestações. “O importante é nunca subestimar a queixa do paciente, sendo essencial levar em consideração frequência e intensidade da dor, assim como o quadro geral de saúde, a idade, se é fumante e tem histórico familiar de doenças metabólicas, como diabetes e hipertensão, que aumentam as chances de um problema cardiovascular”, orienta.

Apesar de terem sintomas parecidos, as sensações são distintas e podem ser diferenciadas. Nos ataques cardíacos, o sintoma mais clássico é a dor opressiva na região do tórax, que causa uma forte pressão no peito e é comum se refletir nos ombros, braços, no queixo e até no abdômen. Além disso, a pessoa sua frio e tem falta de ar. “O diagnóstico diferencial da dor cardíaca em relação à dor da ansiedade é que a segunda costuma vir acompanhada de sensação de angústia, desespero e vontade reprimida de chorar, e costuma aliviar conforme a pessoa respira fundo e vai soltando o ar bem devagar”, descreve a cardiologista e professora adjunta do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Meliza Goi Roscani. Uma vez que o diagnóstico é estabelecido, o indivíduo é orientado para a melhor forma de tratamento, com terapias e medicamentos associados.

Psicoterapia ameniza os sintomas

Embora exista mais de um tipo de transtorno mental, a literatura médica aponta que a maioria ocorre por processos semelhantes, uma vez que os pacientes tendem a se sobrecarregar facilmente, principalmente por sentimentos negativos diante de situações desagradáveis, estressoras e que causam medo. Na tentativa de lidar com essas emoções, a primeira reação é evitar situações ou experiências que causem a ansiedade, mas o que ocorre na maioria das vezes é o efeito contrário, pois esses indivíduos alimentam – embora não intencionalmente – os elementos ansiosos. Por isso, diagnosticar o transtorno, seus gatilhos e a melhor forma de controlar os sintomas e seus reflexos na qualidade de vida é essencial. A partir daí, as possibilidades de tratamento serão definidas individualmente, de acordo com as características do paciente, da patologia desenvolvida e da rede de apoio familiar existente. “Basicamente, o tratamento está alicerçado em psicoeducação e psicoterapia nos quadros mais leves e, nos casos moderados a graves, é indicada a combinação com tratamento farmacológico que é, sem dúvida, o mais eficaz”, relata a psiquiatra Ana Luiza Ache.

A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é a que possui maior número de estudos para tratamento dos transtornos de ansiedade, pois não tem abordagem única, mas um processo que se concentra em trabalhar os fatores que causam e mantêm os sintomas individuais de ansiedade do paciente. Considerada altamente eficaz no tratamento de transtornos de ansiedade com o auxílio de um psicólogo, com a TCC é possível identificar e gerenciar os fatores que contribuem para a manifestação do transtorno. O princípio básico, que reflete uma postura construtivista, é de que as representações de eventos internos e externos determinem as respostas emocionais e comportamentais, reconhecendo pensamentos ou cognições disfuncionais e negativas que resultarão em padrões de pensamentos funcionais e adaptativos para reduzir a intensidade e a ocorrência das crises. “Este é um processo colaborativo, com resultado individual e exclusivo, de acordo com a aceitação e a resposta do paciente que, ao identificar suas preocupações específicas e formas habituais de interpretar e representar eventos, expande as habilidades para lidar com a ansiedade”, orienta a neuropsicóloga Thaís Quaranta, pesquisadora e coordenadora de pós-graduação em Saúde Mental e Psicopatologia da APAE-SP.

Parte fundamental do tratamento, especialmente quando a psicoterapia não é suficiente, as indicações farmacológicas dependerão de cada caso. Entre os medicamentos prescritos normalmente estão antidepressivos, ansiolíticos, betabloqueadores e anti-histamínicos. “Embora existam protocolos para o tempo de duração do tratamento, este poderá durar alguns meses ou se prolongar por um período maior. O objetivo é a resposta em curto prazo do paciente, mas também a remissão do quadro ao longo do tempo”, comenta a psiquiatra Tatiana Mourão. O tratamento farmacológico, que consiste na combinação ou não de medicamentos, também dependerá da indicação do especialista, que avaliará o tipo de transtorno, o grau de intensidade, a faixa etária, o estilo de vida e os impactos causados na saúde.

Sem gatilhos

Para alívio dos sintomas os especialistas sugerem, sempre que possível, o afastamento dos gatilhos que desencadeiam as crises. “Caso o trabalho represente um fator diretamente agravante ao quadro de saúde, é possível solicitar o afastamento laboral pelo tempo necessário para tratamento do indivíduo e para sua plena recuperação”, destaca o médico Antônio Geraldo da Silva. Além disso, estudos apontam que a alimentação saudável e a prática de exercícios físicos podem ser fatores protetivos ao aparecimento e desenvolvimento de quadros psiquiátricos, principalmente na depressão e nos transtornos de ansiedade (leia mais na página 11). Algumas estratégias podem auxiliar no tratamento, como atividade física, de lazer ou um hobby, práticas de respiração e relaxamento, a exemplo de meditação e mindfulness; suspensão ou redução significativa do consumo de álcool, cafeína, tabaco e alimentos estimulantes, que interferem no metabolismo e, consequentemente, na absorção dos psicofármacos.

Transtornos ansiosos também prejudicam crianças e adolescentes

A infância é um período de muitas mudanças e aprendizagem, em que o grau de ansiedade passa por oscilações conforme a criança vai crescendo. Seja no início do ano escolar, nas alterações de rotina ou nas mudanças no ambiente familiar, os estímulos externos geram novas sensações e emoções que, geralmente, desaparecem naturalmente. O problema é quando o medo e a ansiedade se tornam disfuncionais e impedem a criança de realizar tarefas simples, como dormir, ficar longe dos pais, brincar com outras crianças ou ir à escola. Segundo dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), no âmbito nacional, cerca de 10% da faixa etária pediátrica apresenta algum transtorno relacionado à ansiedade, que é diagnosticada como patológica ao afetar seu desenvolvimento. Isso ocorre quando se manifesta com frequência ou com intensidade que atrapalha a rotina social ou escolar, dificultando o uso das habilidades que a criança adquiriu anteriormente ou impossibilitando a aprendizagem de novas competências importantes para o seu desenvolvimento.

O psiquiatra Fernando Asbahr, coordenador do Programa de Transtornos Ansiosos na Infância e Adolescência do IPq-HC-FMUSP,  informa que nessa faixa etária os transtornos se manifestam de formas diferentes, mas, em geral, podem ser incapacitantes e disfuncionais. “Observamos uma interferência na qualidade de vida, no conforto emocional ou no desempenho diário, reflexo das inconstâncias do ambiente, suas variáveis previsíveis e imprevisíveis”, alerta. Entre os diagnósticos mais prevalentes estão o transtorno de ansiedade da separação, recorrente em crianças muito pequenas que não conseguem ficar sozinhas na escola, em casa ou em outro ambiente familiar; as fobias específicas de escuro, animais e lugares fechados, entre outras, que podem paralisar a criança e intensificar os sintomas ansiosos; e a fobia social quando, conforme aumenta a necessidade de interação, a criança passa a evitar ao máximo qualquer contato, pois fica apavorada com a ideia de ir a uma festa, para uma escola nova ou mesmo de brincar com crianças desconhecidas em um parque. 

Fase de escolhas

A ansiedade é muito comum na transição para a vida adulta, porque é durante essa fase que os indivíduos experimentam novas situações e realidades, como a escolha da profissão, as provas de vestibular, o curso na faculdade, o primeiro emprego, os relacionamentos afetivos e a busca por constante aprovação. Embora as novas responsabilidades com a vida profissional, pessoal e social normalmente gerem insegurança e causem ansiedade, se o transtorno for persistente e os sintomas atrapalharem a rotina e as atividades diárias é preciso identificar as causas para oferecer um tratamento adequado. Apesar de ser difícil controlar os transtornos de ansiedade sem ajuda profissional, porque os padrões de pensamento são fortemente enraizados, o psiquiatra Fernando Asbahr é categórico ao dizer que a participação dos pais ou de outro adulto responsável pode incentivar, prevenir e colaborar com o tratamento. A família também é fundamental para que o adolescente possa lidar com os altos e baixos no decorrer do processo e para eliminar até mesmo os sintomas mais persistentes e preocupantes, sempre com a ajuda de um terapeuta. “Incentivar conexões abertas e positivas, respeitar os momentos de isolamento, mas, sempre que possível, trazê-lo para o convívio; incentivar os passeios, a prática de atividades físicas, um novo passatempo e participações em grupos são atitudes essenciais para ajudar os adolescentes no processo de tratamento e melhora dos quadros clínicos”, orienta o médico.

O ritmo de vida atual, com muita tecnologia, pouca atividade ao ar livre e excesso de estresse – seja no convívio familiar, na escola ou nas muitas atividades extracurriculares dessa faixa etária – contribui para que a ansiedade aumente. “O ambiente pode influenciar, mas não pode ser inteiramente responsabilizado pelos gatilhos ansiosos, pois, se dependesse exclusivamente da demanda de atividades ou da intensa exposição à tecnologia, amplo acesso à informação e aprovação nas redes sociais, toda criança e adolescente seria ansioso, o que é uma inverdade”, enfatiza a psicóloga Thaís Quaranta. No geral, os adolescentes sofrem calados, são mais introspectivos e têm dificuldades para expressar e compartilhar emoções. Por isso, é fundamental que os pais, professores e médicos que acompanhem essa população estejam atentos a mudanças de comportamentos ou à presença de situações exageradas e não compatíveis com a faixa etária, que podem ser indícios da forma patológica da ansiedade. Neste caso, é necessário ter atenção e tratamento adequados para evitar prejuízos, como a intensificação ou manifestação de outros transtornos ansiosos que costumam agravar na vida adulta.

Metanálise revela risco real para estudantes de Medicina

O medo do futuro, a pressão para manter o bom desempenho, a competitividade e a rotina exaustiva em decorrência da extensa grade curricular têm deixado muitos universitários com a saúde mental fragilizada, especialmente nos cursos de Medicina. Diversos estudos apontam que a presença de sintomas ansiosos e depressivos é cada vez mais comum neste grupo, como a metanálise publicada em julho no International Journal of Environmental Research and Public Health, que reuniu 69 estudos de diversos países e estimou a prevalência global de sintomas de ansiedade em 33,8% dos estudantes de Medicina. Pelos resultados, um a cada três alunos do curso no mundo tem ansiedade, número substancialmente maior que na população em geral.

A metanálise inclui os resultados do trabalho ‘Sintomas de depressão e ansiedade em estudantes de Medicina – Um estudo multicêntrico’ realizado pela pesquisadora Fernanda Brenneisen Mayer, doutora em Ciências na área da Educação e Saúde e docente do eixo curricular Plano de Desenvolvimento Pessoal da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), que foi apresentado em agosto no Congresso Mundial de Educação Médica (AMEE). Elaborado durante seu doutorado na Faculdade de Medicina da USP, o trabalho avaliou a presença de sintomas de depressão e ansiedade em uma amostra de 1.350 estudantes de 22 escolas médicas brasileiras.

No levantamento foi identificada uma prevalência de 81,7% de ansiedade-estado (momentânea) e 85,6% de ansiedade-traço (característica de personalidade em que o indivíduo é propenso a reagir de forma mais ansiosa às situações adversas). Além disso, foi verificada uma correlação positiva entre os níveis de ansiedade com os escores de depressão. “Procurando a sintomatologia desses dois problemas, não os transtornos em si, avaliamos a prevalência de sintomas de depressão e ansiedade nesse grupo de estudantes e sua associação com fatores pessoais como idade, sexo, condições financeiras e de moradia e situações institucionais, como número de anos do curso, natureza jurídica, localização e serviço de suporte”, descreve a pesquisadora. Os resultados mostraram que os sintomas de depressão e ansiedade foram associados positivamente, e com maior prevalência, ao sexo feminino e à localização da escola médica em capitais. Os estudantes com vulnerabilidade financeira também tiveram maiores escores de ansiedade-estado, mas não ansiedadetraço e depressão. Em relação às condições de moradia, anos do curso e natureza jurídica da escola, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes.

A preocupação com as consequências da falta de saúde mental de estudantes durante a formação médica é a principal motivação para pesquisas na área. Há, inclusive, diversas evidências de que a saúde mental, além de ser um preditor de futuro estressante em médicos já formados, pode colocar em risco a segurança do paciente e a qualidade do cuidado. A pesquisadora comenta que, embora exista uma crescente literatura sobre a prevalência desses sintomas, assim como potenciais fatores associados, havia poucos estudos, principalmente brasileiros, com grande amostra e aleatorizados em um desenho multicêntrico. Porém, algumas evidências já apontavam que, ao ingressar no curso de Medicina, o estudante tem de modificar seu estilo de vida, diminuindo as horas de sono, a atividade física e a convivência com familiares e amigos. A vivência de assédio, o desrespeito e o preconceito no ambiente de ensino também podem causar danos morais e psicológicos que repercutem em consequências graves na saúde.

Pressões acadêmicas

Os fatores estressores surgem em diversos períodos da graduação, conforme as pressões acadêmicas se acumulam. Em geral, têm início a partir do choque de informação do primeiro ciclo e se intensificam com a carga horária, o período de provas, o isolamento, as atividades do currículo paralelo para melhorar as chances para as vagas na residência, os processos do ciclo clínico – que envolvem adoecimento e morte de pacientes –, o relacionamento com as equipes de saúde e a escolha da especialidade médica, resultando em uma rotina exaustiva que pode trazer prejuízos importantes para a saúde dos estudantes, inclusive a desistência acadêmica. “Temos visto, nos últimos anos, aumentar o número de abandonos nos primeiros semestres do curso. No geral, as queixas são sobrecarga, decepção com as disciplinas do primeiro ano, ausência de sono, distância do campus e da família”, pontua a professora doutora assistente do Departamento de Saúde Mental e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG), Maria Amélia Dias Pereira. Outro fator estressor é a questão financeira, uma vez que o perfil do estudante de Medicina mudou nos últimos anos e uma parcela importante passa por dificuldades reais de alimentação, transporte, moradia e outras preocupações, mesmo com as bolsas oferecidas por algumas instituições de ensino.

Diversas pesquisas apontam que os estudantes de Medicina são relutantes em aceitar problemas relacionados à saúde mental. O comportamento de recusa em procurar ajuda começa no primeiro ano do curso e está associado à percepção de normas que sugerem que esse tipo de problema pode ser visto como fraqueza. Nesse sentido, é necessário promover intervenções no ambiente educacional para superar o estigma associado aos problemas de saúde mental. Baseado nas diretrizes internacionais para a formação médica em nível de graduação, definidas pela World Federation for Medical Education (WFME), toda escola médica deve ter um sistema de aconselhamento e suporte social aos estudantes, com garantia de confidencialidade, monitorar seu progresso e auxiliar no planejamento acadêmico e pessoal. Os serviços de suporte devem, por exemplo, ser inclusivos e extensivos a todo corpo discente, ter múltiplas possibilidades de entrada e encaminhamento para atendimento, e oferecer ações de prevenção e promoção à saúde do estudante”, enumera a professora Fernanda Brenneisen Mayer.

Com objetivo de promover a saúde e ajudar o aluno a enfrentar a graduação com um pouco mais de tranquilidade, a Universidade Federal de Goiás criou o Programa Saudavelmente que oferece, desde 2003, uma rede de assistência, prevenção e promoção da saúde a todos os universitários. Vinculado à Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), o programa mantém uma equipe multiprofissional, tendo em vista as necessidades de atenção em nível de prevenção e recuperação psíquica e emocional. “Acolhemos os alunos desde o início do curso oferecendo apoio, tratamento e buscando amenizar os fatores estressores com terapias complementares, como práticas de relaxamento e meditação. Os resultados são muito significativos e temos uma adesão importante dos graduandos de Medicina”, relata a docente da UFG.

A Instituição também criou o projeto Mentoring, disciplina eletiva de núcleo livre para estudantes de Medicina que, uma vez por mês, se encontram em um pequeno grupo com professor/mentor para conversar, contar sobre as dificuldades, frustrações e a relação com a universidade. Com quatro encontros semestrais e quatro oficinas de apoio à saúde mental, escolhidas de acordo com preferências individuais, o retorno tem sido muito positivo, tanto para professores quanto para estudantes, que têm conseguido ficar menos estressados e com maior controle da própria saúde mental. Na PUC-PR, estudantes de Medicina trabalham no desenvolvimento de habilidades socioemocionais com facilitação docente para prevenção de problemas de saúde mental.

Causa de afastamento laboral

Dentre os transtornos mentais e comportamentais, os de ansiedade estão entre as principais causas de afastamento de trabalhadores de suas atividades laborativas em todo o mundo. Estimativas da OMS para 2020 indicam que esse quadro deve se agravar, principalmente no Brasil, e a ansiedade passará a ser a segunda maior causa de incapacidade para o trabalho, perdendo apenas para a depressão. Isso ocorre porque a ansiedade em estágio avançado traz limitações físicas em virtude das reações fisiológicas, como palpitação, falta de ar, sensação de dor e opressão no peito, além de comprometer a saúde psicológica, que se agrava em ambientes estressores. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) publicou, recentemente, um estudo sobre a prevalência dos diversos transtornos de ansiedade – entre os quais distúrbios mentais e comportamentais – como causa do afastamento do trabalho no Estado. Por meio do levantamento de diagnóstico médico, de caráter documental, a equipe avaliou todos os trabalhadores contratados em regime de Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT) de diversos setores da cadeia produtiva, com idade igual ou superior a 18 anos.

Embora o estudo não tenha apurado os gatilhos que levaram aos transtornos, pelos diagnósticos foi possível observar que os casos mais prevalentes eram o transtorno misto ansioso e depressivo, seguido do transtorno de ansiedade generalizada. Ao analisar os afastamentos, no recorte geográfico do Piauí em um período de 12 meses, constatou‑se que a faixa etária entre 22 e 45 anos teve a maior prevalência de diagnósticos e afastamentos relacionados aos transtornos de ansiedade, atingindo principalmente as mulheres. “A maior prevalência nas mulheres é ratificada com dados da literatura científica, que apontam que o sexo feminino apresenta maior propensão para o desenvolvimento dos transtornos de ansiedade, seja por questões biológicas, culturais, de estilo de vida, sobrecarga de funções ou, até mesmo, a junção de todas”, afirma a professora associada do Departamento de Enfermagem da UFPI, Márcia Astrês Fernandes, autora do estudo. A pesquisadora aponta, ainda, que os transtornos de ansiedade interferem significativamente na vida do trabalhador e daqueles com quem ele convive, comprometendo suas atividades, seus relacionamentos sociais e outras esferas da vida.

“No geral, esses indivíduos apresentam baixos índices de remissão espontânea e tendem a se cronificar quando não tratados. Por serem transtornos incapacitantes, têm sido verificadas maiores taxas de afastamento entre aqueles que padecem de tais morbidades, em alguns casos com mais de um transtorno”, analisa. Se a ocorrência for precoce, menores serão as chances de iniciarem, prosseguirem ou continuarem ativos em uma profissão, o que pode significar um prognóstico de desemprego nos anos seguintes. Determinada a relação entre as condições de trabalho e a ocorrência dos transtornos – que podem ser impulsionados por jornadas exaustivas, pressões pelo cumprimento de metas, competitividade e um ambiente laboral com condições inadequadas –, a orientação é realizar as intervenções o mais rápido possível, seja para prevenir ou reduzir danos ao trabalhador e diminuir o número dos afastamentos ou para evitar prejuízos para empresas e serviços de saúde, devido aos altos custos com auxílio-doença e gastos com tratamentos. A professora acentua que, para mudar esse quadro, é preciso uma atenção dos empregadores em não negligenciar a saúde do trabalhador, proporcionando meios que contribuam para a promoção da saúde e a prevenção do adoecimento, como acompanhamento psicológico, espaços terapêuticos, ginástica laboral e respeito ao limite físico e mental de cada um, com carga horária compatível e relações socioprofissionais saudáveis.