Tuberculose é um problema de saúde pública
Tuberculose é um problema de saúde pública
Brasil é um dos países com maior incidência da doença no
mundo, com aproximadamente 78 mil novos casos por ano
Fernanda Ortiz
Considerada um grave problema de saúde pública, a tuberculose (TB) é uma doença infectocontagiosa e transmissível por vias aéreas, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis (conhecida como bacilo de Koch) e que afeta principalmente os pulmões. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), embora seja prevenível e curável, é a enfermidade que mais causa mortes por doença infecciosa de agente único no mundo – atrás apenas da covid-19 – com aproximadamente 4,5 mil óbitos notificados diariamente. Apontado como um dos países com maior incidência da doença, o Brasil registra atualmente 36 casos para cada 100 mil habitantes – o equivalente a 78 mil novos casos por ano. Dados do Ministério da Saúde apontam que o coeficiente de mortalidade esteve em queda nas últimas duas décadas. Mas, em 2021, houve uma mudança de cenário e o País registrou 5.072 óbitos, o maior índice desde 2002. Apesar de o tratamento ser eficiente e oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), combater o avanço da tuberculose ainda é um desafio, principalmente porque a sua relevância epidemiológica está diretamente relacionada ao perfil socioeconômico, influenciado principalmente por fatores sociais como habitações insalubres e alta densidade demográfica.
A tuberculose ativa pulmonar (forma mais comum) ou laríngea sem tratamento é transmitida pela eliminação de pequenas partículas sólidas e líquidas produzidas pela tosse, fala ou pelo espirro de um indivíduo com a doença (aerossóis). “A probabilidade de infecção depende de fatores externos, entre os quais estão a infectividade do caso-fonte, a duração do contato e o tipo de ambiente físico compartilhado. Isso significa que quanto mais aglomerado e insalubre for o ambiente, maior será a chance de contágio. Por isso, é essencial realizar uma investigação de contato para barrar a cadeia de transmissão”, destaca o médico infectologista Paulo Roberto Abrão Ferreira, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). Estima-se que uma pessoa com baciloscopia positiva e sem tratamento sustente a cadeia de transmissão da doença, podendo infectar até 17 pessoas da comunidade em que está inserida durante um ano. Bacilos que ficam em roupas, copos e outros objetos não conseguem se dispersar e, portanto, não têm papel ativo na transmissão da doença.
O risco da progressão da tuberculose após infecção depende de fatores endógenos, em especial a integridade do sistema imune. “Inicialmente, na chamada infecção primária, o indivíduo é infectado, mas, no geral, o bacilo fica latente. Isso acontece porque as bactérias da tuberculose que penetram nos pulmões são eliminadas imediatamente pelas defesas do organismo, e as que sobrevivem ficam presas nos macrófagos, podendo permanecer dormentes por até dois anos da infecção inicial ou pelo decorrer da vida, no estágio denominado infecção latente”, explica a médica infectologista Mariângela Ribeiro Resende, professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp) e coordenadora do Ambulatório de Referência em Tuberculose/Micobacterioses do Hospital das Clínicas da Instituição e da área de Ensaios Clínicos da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose (REDE-TB). Na população geral, cerca de 10% dos indivíduos infectados adoecem. Em alguns grupos com maior vulnerabilidade, entre os quais crianças pequenas, idosos e pessoas com comprometimento importante no sistema imunológico – a exemplo de diabéticos, doentes renais crônicos, transplantados e portadores de HIV – as bactérias dormentes se reativam com maior frequência e passam a se multiplicar, causando a doença ativa.
Além dos fatores biológicos, alguns grupos populacionais têm maior suscetibilidade para desenvolver a forma ativa da TB, como os residentes em locais com grande densidade populacional como, por exemplo, famílias numerosas que moram juntas em ambientes insalubres, indivíduos sem acesso a serviços de saúde e alimentação adequada, pessoas privadas de liberdade, que vivem em albergues ou em situação de rua, residentes de instituições de longa permanência e comunidades indígenas, entre outros. A médica Mariângela Ribeiro Resende ressalta que a tuberculose está intimamente ligada à vulnerabilidade social, afetando desigualmente a população brasileira e de outros países com características similares, principalmente quem vive abaixo da linha da pobreza. O grande desafio para conter o avanço da tuberculose está em ampliar os investimentos para a pesquisa e desenvolver estratégias de prevenção que possibilitem reduzir a cadeia de transmissão, o número de óbitos e os altos custos associados à doença.
Manifestações clínicas
Embora o único meio de transmissão seja por vias aéreas, a bactéria pode entrar na corrente sanguínea e infectar outros órgãos e sistemas. “A forma pulmonar é a mais prevalente, sendo responsável por 80% dos casos e, portanto, pela maior disseminação, juntamente com a tuberculose laríngea”, destaca o infectologista Paulo Roberto Abrão Ferreira. Entre os sintomas, a tosse por período prolongado (com duração de duas ou mais semanas) é o mais comum, podendo ser acompanhada em menor ou maior intensidade por dores no peito durante a respiração, expectoração com sangue, fadiga, perda de apetite e peso, febre, cansaço, produção de muco, sudorese noturna, arrepios e rouquidão. Os outros 20% correspondem à tuberculose extrapulmonar, que pode acometer sistema nervoso central, ossos, articulações, pleura, pericárdio, intestino, pele e olhos, entre outros órgãos e sistemas. Essa manifestação pode causar sintomas sistêmicos e localizados, de acordo com as estruturas afetadas.
Doença é 100% curável com tratamento disponibilizado exclusivamente pelo SUS
Com esquema padronizado pelo Ministério da Saúde, o tratamento gratuito e disponível exclusivamente no SUS é muito eficiente. A cura depende da total adesão do paciente ao protocolo terapêutico, que precisa ser continuado e sem interrupções pelo período determinado. Além disso, a abordagem humanizada e o estabelecimento de vínculo entre profissional de saúde e usuário, com orientações sobre a doença, tempo de tratamento, medicamentos, efeitos adversos e riscos de reinfecção quando há suspensão dos fármacos, assim como a escuta de dúvidas, angústias e a identificação de vulnerabilidades, auxiliam no processo de cura. A alta será determinada após avaliação médica e confirmação laboratorial.
O plano de tratamento, com duração mínima de seis meses, compreende duas fases: intensiva (de ataque) e de manutenção. “A fase intensiva atua para reduzir rapidamente a população bacilar, eliminando os bacilos com resistência natural a algum medicamento e, consequentemente, diminuindo a cadeia de transmissão para indivíduos saudáveis. Na fase de manutenção são reduzidos os bacilos latentes ou persistentes, diminuindo a possibilidade de recidiva da doença”, explica a professora Mariângela Ribeiro Resende. No Brasil, a apresentação farmacológica dos medicamentos do esquema básico (primeira linha) é de comprimidos em doses fixas combinadas com a apresentação tipo 4 em 1 (rifampicina/isoniazida/pirazinamida/etambutol – RHZE) para a fase intensiva, nos dois primeiros meses, e 2 em 1 (rifampicina/isoniazida – RH) na fase de manutenção nos quatro meses restantes, que devem ser ingeridos diariamente, em jejum e de uma única vez.
“O esquema básico é indicado para adultos e adolescentes que se apresentem como casos novos de TB ou retratamento (tanto por recidiva quanto por reingresso após perda de seguimento), exceto em situações em que haja evidência de resistência às medicações ou contraindicação por intolerância, toxicidade, hepatopatia prévia ou interações medicamentosas impeditivas”, comenta o infectologista Paulo Roberto Abrão Ferreira. O tratamento das formas pulmonar – inclusive em pacientes com coinfecção de HIV – e extrapulmonar tem duração de seis meses, com exceção das manifestações meningoencefálica e osteoarticular, que se completam em 12 meses. Quando a evolução clínica não for satisfatória em alguns casos de TB pulmonar, independentemente da presença de outras morbidades, o tratamento poderá ser prolongado de quatro para sete meses na fase de manutenção (nove meses ao total).
Entre os efeitos adversos mais comuns estão intolerância digestiva e epigastralgia, febre, fraqueza, suor e urina de cor avermelhada, causada pela coloração do próprio fármaco; dor articular, cefaleia e insônia. “Todos esses efeitos são considerados de menor intensidade, mas, ainda assim, devem ser informados ao profissional de saúde responsável, que poderá orientar sobre mudança da dieta e do horário de administração da medicação e, se necessário, prescrever medicamentos que suavizem tais efeitos”, esclarece a infectologista Mariângela Ribeiro Resende. A maioria dos pacientes completa o tratamento sem qualquer reação adversa relevante. Entretanto, entre 3% e 8% apresentam efeitos colaterais maiores que podem resultar na suspensão de um ou mais medicamentos.
Para garantir boa adesão e sucesso terapêutico, os pacientes são acompanhados em regime de Tratamento Diretamente Observado (TDO). Indicado como principal ação de apoio e monitoramento, o TDO consiste na observação da ingestão dos medicamentos diariamente (segunda a sexta-feira) na fase de ataque e, no mínimo, três vezes por semana na fase de manutenção, seja na unidade de saúde, em equipamentos socioassistenciais, residência/domicílio ou observado por vídeo (disponível em algumas unidades básicas). Nos fins de semana e feriados, os medicamentos são autoadministrados.
Multirresistente
Um dos maiores desafios mundiais é combater a tuberculose drogarresistente (TBDR), especialmente a que envolve objeção ao antibiótico rifampicina – isolado ou combinado a outros fármacos –, medicamento mais ativo contra o bacilo de Koch. “Esquemas sem a rifampicina na sua composição, seja por resistência ou por intolerância, requerem o uso de fármacos de segunda linha que prolongam o tempo de tratamento, aumentam o potencial de toxicidade e diminuem as chances de cura”, alerta a infectologista Mariângela Ribeiro Resende. Além disso, pode ocorrer pela resistência adquirida ou secundária, quando do uso irregular dos medicamentos ou abandono do tratamento. Para um melhor manejo, a TBDR é classificada conforme a identificação laboratorial, por meio de teste de sensibilidade fenotípico ou genotípico, em cepas de M. tuberculosis.
Diagnóstico precoce para frear o avanço da transmissão
A crise agravada pela pandemia de covid-19 impactou negativamente o acesso ao diagnóstico, às notificações e ao tratamento da tuberculose. O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, publicado em março de 2023, indica que após um aumento no coeficiente de incidência entre 2015 e 2019 houve uma redução de 12,1% no primeiro ano da pandemia, em 2020, passando de aproximadamente 79 mil casos para 70 mil. Já em 2021 houve uma recuperação parcial na subdetecção, com aproximadamente 74 mil notificações. Por se tratar de uma doença altamente transmissível, o diagnóstico precoce e adequado é um dos pilares mais importantes para frear o avanço e a disseminação da enfermidade, reduzindo o número de casos. Por isso, especialistas enfatizam que todo sintomático respiratório com tosse prolongada por três semanas ou mais, assim como indivíduos assintomáticos que tiveram contato com pessoas infectadas devem procurar os serviços de saúde para verificar se há infecção e, em caso positivo, verificar quais protocolos devem ser adotados.
A partir da avaliação clínica, exames diagnósticos são solicitados para identificar a presença do bacilo de Koch. “O exame de Teste Rápido Molecular (TRM-TB) e baciloscópico do escarro é o método mais utilizado no País para diagnóstico, assim como a baciloscopia para o controle da tuberculose pulmonar que, executados corretamente em todas as suas fases, permitem detectar de 60% a 80% dos casos em adultos. Nas crianças, a sensibilidade é muito diminuída pela dificuldade de obtenção da amostra”, destaca a médica pneumologista Silvana Spíndola de Miranda, docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM-UFMG), coordenadora do Ambulatório de Tuberculose e do Laboratório de Pesquisa em Micobactérias do Hospital das Clínicas da Instituição e da área de Tecnologia e Inovação em Saúde da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose (REDE-TB). Recomenda-se a coleta de duas amostras de escarro: na primeira consulta e na manhã seguinte, ao despertar, quando geralmente possui maior quantidade de bacilos. Nas suspeitas de tuberculose extrapulmonar, a baciloscopia do material obtido também é indicada, apesar de ter menor sensibilidade.
O TRM – incorporado ao SUS em 2014 – é indicado para a detecção de casos novos de tuberculose pulmonar e laríngea em adultos e adolescentes, assim como de tuberculose extrapulmonar em materiais biológicos já validados (líquor, gânglios linfáticos e macerado de tecidos). “O TRM-TB é um teste de amplificação de ácidos nucleicos utilizado para detecção de DNA dos bacilos do complexo M. tuberculosis e para a triagem de cepas resistentes à rifampicina – principal fármaco utilizado no tratamento da doença – via técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real. O teste apresenta o resultado em aproximadamente duas horas em ambiente laboratorial e é necessária somente uma amostra de escarro, podendo ser espontâneo, induzido, lavado broncoalveolar (LBA) e lavado gástrico”, descreve a pneumologista Silvana Spíndola de Miranda. Outro teste disponível é a cultura para micobactérias, que utiliza a semeadura da amostra em meios de cultura sólidos ou líquidos. Com elevada sensibilidade nos casos pulmonares com baciloscopia negativa, a cultura do escarro pode aumentar em até 30% o diagnóstico bacteriológico da doença.
Dentre os métodos de imagem, a radiografia do tórax é importante para a avaliação inicial e durante acompanhamento da tuberculose pulmonar. “Apesar de baixa especificidade diagnóstica, através dela podem ser observados vários padrões radiológicos sugestivos de atividade de doença, como a forma de apresentação, sua extensão e evolução no decorrer do tratamento”, avalia a professora da UFMG. Mais específica e detalhada, a tomografia computadorizada (TC) – indicada para pacientes sintomáticos respiratórios com alterações suspeitas no quadro clínico-epidemiológico – é outro método eficiente, pois pode indicar alterações iniciais ainda imperceptíveis pelo método radiográfico, a exemplo de nódulos, cavidades e alterações brônquicas. No caso de tuberculose extrapulmonar, exames como a avaliação histológica de fragmento de tecido obtido por biópsia podem ser solicitados, a depender da origem da infecção.
Coinfecção TB-HIV
Por ser um importante fator de risco, especialmente pelo comprometimento do sistema imune, todo paciente com diagnóstico de tuberculose precisa fazer a testagem de HIV – uma vez que a detecção precoce do vírus impacta o curso clínico das duas doenças. “O Teste Rápido (TR) de HIV deve ser feito quando a tuberculose é identificada ou o quanto antes, com laudo emitido por um profissional de saúde habilitado”, descreve a pneumologista Silvana Spíndola de Miranda. Caso seja positivo, o paciente deve ser encaminhado para o Serviço de Atenção Especializada (SAE) ou para Unidades Dispensadoras de Medicamentos para Pessoas que Vivem com HIV (PVHIV) mais próximos da residência, para dar continuidade ao tratamento da TB e iniciar a terapêutica para HIV.
Novo aplicativo pode melhorar adesão ao tratamento
Como o período de tratamento da tuberculose é longo e muitas vezes interrompido, principalmente quando a doença entra na forma latente, fazer com que a adesão seja cumprida é um grande desafio para a saúde pública. Para mudar esse cenário, pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), sob a orientação da professora doutora Ethel Maciel, desenvolveram um aplicativo de celular que tem por objetivo monitorar e auxiliar o usuário durante todo o processo terapêutico. A ferramenta intitulada ‘Meu Tratamento Tuberculose Latente’ (TraTBlatente), que contou com a parceria de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, foi descrita em um artigo publicado em 2022 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
As pesquisas que resultaram no aplicativo passaram por um estudo descritivo e metodológico que foi validado a partir de um protótipo e testado primeiro por profissionais da saúde e, na sequência, por pacientes com infecção latente por tuberculose. “Na primeira etapa, os profissionais da saúde avaliaram o protótipo e solicitaram modificações ao conteúdo relacionadas a utilidade, consistência, clareza, objetividade, vocabulário e precisão. Após as modificações, um grupo de pacientes pôde avaliar a nova versão e demandou melhoria no domínio clareza. Com base nas considerações, foi realizada a implementação do protótipo para teste piloto de usabilidade”, detalha a farmacêutica Marcelle Temporim Novaes, pesquisadora do Laboratório de Epidemiologia da UFES e principal autora do projeto. Segundo os resultados, o aplicativo se mostrou eficiente, com fácil compreensão e usabilidade podendo, portanto, ser uma ferramenta aliada ao tratamento da doença.
Desenvolvido utilizando o sistema operacional Android, o aplicativo amplia o canal de comunicação com o paciente para garantir que o tratamento seja realizado em conformidade com as indicações médicas. “Além de oferecer informações gerais sobre a forma latente da doença, a ferramenta possui um sistema programado de alarmes para o horário das medicações, monitorando a administração dos fármacos; tempo de duração do tratamento (com calendário com as datas de início e término); e o ícone ‘como estou me sentindo’, por meio do qual o paciente pode marcar as figuras que representam se está bem ou com sintomas adversos associados”, descreve a pesquisadora. O conteúdo do aplicativo segue o Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose e o Protocolo de Vigilância da Infecção Latente pelo Mycobacterium tuberculosis, ambos do Ministério da Saúde.
A expectativa é que a ferramenta possa, em pouco tempo, ser disponibilizada no SUS, ajudando a reduzir as taxas de abandono ao tratamento. “Estamos confiantes de que o aplicativo será um importante aliado no processo de acompanhamento e assistência para a pessoa com infecção por TB, visando diminuir as chances de progressão da doença. Além disso, por sua implantação ser de baixo custo, possibilitará outros benefícios como, por exemplo, a diminuição de despesas com deslocamento dos agentes comunitários de saúde que são, até então, os responsáveis pelas visitas presenciais de acompanhamento, e a possibilidade de poder monitorar um maior número de usuários”, analisa a pesquisadora. Na próxima etapa, a pesquisa usará o aplicativo na prática clínica, com acompanhamento de 184 pacientes do início ao fim do tratamento para validar, definitivamente, seu uso e sua eficácia.
Crianças estão entre os mais vulneráveis
Mais suscetíveis ao adoecimento e ao desenvolvimento de formas graves da doença, as crianças integram um dos grupos de maior vulnerabilidade à tuberculose. Estimativas da OMS apontam que a população pediátrica corresponde de 10% a 11% dos casos totais de TB no mundo, o equivalente a cerca de 1 milhão de jovens acometidos pela doença. No Brasil, dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde indicam que, em 2022, 3,5% dos casos notificados ocorreram em menores de 15 anos de idade – a maior proporção registrada na série histórica de 2012 a 2022. Acredita-se, inclusive, que esse número possa ser subestimado, principalmente pela dificuldade de diagnóstico – seja pela forma como a tuberculose se manifesta em crianças, podendo ser confundida com outras enfermidades, ou por falhas na investigação dos contatos de pacientes adultos com tuberculose pulmonar ou faríngea. Portanto, é consenso entre especialistas que estar atento aos fatores de risco para o desenvolvimento da tuberculose entre crianças é determinante para evitar a doença ativa e os riscos associados.
A apresentação clínica da TB pulmonar na criança é paucibacilar (com poucos bacilos), o que dificulta a detecção já que o exame do escarro (quando se consegue obter) resulta mais frequentemente em baciloscopia negativa. “Nesses casos, o diagnóstico é baseado no sistema de escore que, a partir de manifestações clínicas, de características epidemiológicas e de resultados de exames radiográficos e testes imunológicos, calcula uma pontuação que estima a probabilidade de aquela criança ter ou não TB pulmonar. Além do exame do escarro, outros exames de triagem são solicitados, entre eles o teste cutâneo com o PPD (prova tuberculínica) ou o teste sanguíneo de liberação de interferon-gama (IGRA), que são capazes de avaliar se houve contato prévio (infecção) com o bacilo da TB”, detalha a professora doutora Anna Cristina C. Carvalho, pesquisadora e docente do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz) e integrante da Coordenação da Área de Tuberculose Pediátrica da REDE-TB. Menos frequente (cerca de 20% dos casos), a tuberculose extrapulmonar pode afetar praticamente todos os órgãos e sistemas do corpo – assim como acontece com os adultos –, sendo mais comum a forma ganglionar e mais grave a meníngea, com sintomas que variam de acordo com cada forma clínica.
Os sintomas da tuberculose nas crianças geralmente são inespecíficos e se confundem com infecções próprias da infância, o que dificulta o diagnóstico. “Na suspeita de tuberculose deve-se observar se a criança para de brincar, apresenta apatia, falta de apetite, perda de peso, febre persistente e tosse por mais de duas semanas, no caso da forma pulmonar. Um quadro de pneumonia que não melhora com o tratamento antimicrobiano habitual deve levantar a suspeita de TB pulmonar”, comenta a professora Anna Cristina C. Carvalho. Nas crianças maiores de 10 anos e entre adolescentes, o quadro clínico da TB pulmonar é semelhante ao observado em adultos sendo, portanto, mais frequentemente positivo à baciloscopia do escarro. Independentemente da idade, a especialista destaca a importância do diagnóstico e tratamento da infecção latente, forma em que a criança possui a infecção pelo bacilo da TB, mas não apresenta sintomas ou alterações radiológicas da doença ativa. O tratamento da tuberculose na forma latente (tratamento preventivo) evita a doença ativa e todos os riscos associados. A investigação dos contatos de pacientes com tuberculose pulmonar é fundamental para a identificação e o tratamento de crianças e adolescentes com a doença, seja na forma latente ou ativa. A vacinação com o BCG, o mais precocemente possível, é outra importante medida para a prevenção das formas graves da TB (meningite e TB disseminada) em crianças.
O tratamento da tuberculose pediátrica pulmonar e extrapulmonar (exceto as formas meningoencefálica e osteoarticular) é realizado por seis meses. A disponibilidade dos fármacos em doses fixas combinadas (DFC), sob a forma de comprimidos dispersíveis que se dissolvem na água, foi incorporado ao SUS em setembro de 2019 para crianças menores de 10 anos. “Na fase intensiva, com duração de dois meses, são utilizados rifampicina/isoniazida/pirazinamida e, na etapa de manutenção, por quatro meses, rifampicina e isoniazida com doses que variam de acordo com o peso da criança”, detalha a professora. Para bebês com menos de 4kg recomenda-se utilizar os medicamentos individualizados em solução oral e/ou comprimidos dispersíveis. Na manifestação extrapulmonar, a associação de medicamentos, como corticosteroides, pode ser indicada.
Prevenção é a melhor aliada no combate à doença
Há mais de 100 anos, a vacina BCG está disponível para a prevenção primária da tuberculose, prioritariamente para crianças de 0 a 4 anos, 11 meses e 29 dias de idade. Nos últimos anos, o Brasil tem apresentado resultados acima da meta de cobertura vacinal, ultrapassando 90% de adesão – número preconizado pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. “Embora previna entre 60% e 90% dos casos de formas graves de tuberculose ativa em crianças (como TB miliar e meníngea), a vacina não é eficaz na prevenção da doença em adultos”, comenta a professora Silvana Spíndola de Miranda. A partir dos cinco anos de idade, nenhuma pessoa deve ser vacinada com BCG (mesmo profissionais de saúde e/ou grupos com maior vulnerabilidade), exceto contatos de hanseníase. A especialista acrescenta que desenvolver uma vacina contra tuberculose com ação prolongada para a fase adulta é o grande desafio da ciência no combate à doença.
A medida mais eficaz para a prevenção da tuberculose, tanto no adulto quanto na criança, é a busca sistemática de casos, uma ação capaz de realizar um diagnóstico oportuno e reduzir a disseminação de bacilos. “No caso de um indivíduo com TB pulmonar com baciloscopia positiva, toda a comunidade domiciliar precisa ser testada. Entretanto, caso estejam inseridos em local sem acesso aos exames disponíveis para diagnóstico, principalmente as crianças menores de cinco anos, os profissionais de saúde têm autonomia para indicar e dar início ao protocolo terapêutico de TB latente”, orienta a professora Anna Cristina C. Carvalho. Estima-se que a eficácia do tratamento de infectados latentes por TB (ILTB) com isoniazida, entre 6 e 12 meses, seja de 60% a 90% no nível de proteção. Para isso, é preciso conter as barreiras relacionadas ao tratamento preventivo, tais como a incapacidade de excluir a TB ativa, o medo de criar resistência aos fármacos antituberculose, a baixa adesão aos esquemas terapêuticos de longa duração e o baixo nível socioeconômico, que dificulta o acesso aos serviços de saúde.