Transtorno que atrapalha o sono

Síndrome do comer noturno é caracterizada pela alta ingestão de alimentos após o jantar e de pequenos lanches na madrugada

A síndrome do comer noturno (SCN) foi citada pela primeira vez pelo médico Albert Stunkard, em 1955. Depois de analisar um grupo de mulheres obesas que fazia a maior parte da alimentação diária no período da noite, o então residente de Psiquiatria do New York Hospital, nos Estados Unidos, percebeu que tinham hábitos semelhantes: pulavam o café da manhã, faziam um almoço frugal e, durante a madrugada, ingeriam uma grande quantidade de alimentos. Apesar de ter sido identificada e classificada em 1959, a síndrome só ganhou mais atenção na última década, o que levou a várias modificações no diagnóstico, auxiliou no melhor entendimento da etiologia e promoveu o interesse em desenvolver tratamentos eficazes.

Caracterizada pelo aumento da ingestão de alimentos após o lanche da tarde até o momento de dormir, aliado a despertares noturnos ao longo da madrugada para comer, a síndrome provoca perda de apetite pela manhã, insônia recorrente e fragmentação do sono. Incluída como ‘padrão alimentar anormal’ na 5ª edição do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5), de 2014, na seção ‘Outros transtornos da Alimentação Especificados’, a SCN já é reconhecida pela Associação Americana de Psiquiatria como um transtorno alimentar. A etiologia ainda não está totalmente definida, mas alterações fisiológicas e metabólicas, assim como questões ambientais, influenciam no desencadeamento do problema. Alguns trabalhos indicam que entre 25% e 50% da ingestão total diária de alimentos de indivíduos com síndrome do comer noturno está concentrada após o jantar, diferentemente do simples hábito de ingerir algum alimento antes de dormir.

O médico psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, coordenador do Grupo Especializado em Comer Compulsivo e Obesidade do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP), afirma que os episódios de comer noturno são breves e com pequenos lanches antes ou após iniciado o sono, e os pacientes relatam a sensação de que, sem esses lanches na madrugada, não seria possível iniciar ou reiniciar o sono. “A principal referência dos pacientes é uma sensação de urgência em comer. Acredito ser esta a palavra-chave para o diagnóstico, que é diferente da sensação de fome e de gula, pois esses indivíduos buscam qualquer alimento facilmente disponível, e em pequena quantidade, para ter a sensação de alívio e retornar ao sono”, detalha. Uma vez que os despertares são plenos, há lembrança total dos eventos noturnos na manhã seguinte.

Segundo a nutricionista e pesquisadora Ana Beatriz Cauduro Harb, doutora em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os fatores neuroendócrinos da síndrome do comer noturno se relacionam com alterações do ritmo circadiano de secreções endócrinas, como cortisol e melatonina. “Além disso, os níveis plasmáticos noturnos de leptina costumam ser mais baixos, o que pode contribuir para a menor inibição de impulsos de fome que levam à interrupção do sono. Dados de estudos comparativos mostram, ainda, que os níveis de cortisol diurno se encontram mais elevados em indivíduos com a síndrome”, esclarece.

Prejuízos associados

A junção de alimentação nos horários em que o corpo está entrando em repouso e armazenando energia com despertares noturnos para comer colaboram com o ganho de peso e maior risco de doenças associadas, como hipertensão, diabetes e dislipidemias. A presença de despertares frequentes durante a noite para comer também geram insônia e levam aos prejuízos típicos da privação crônica de sono, como fadiga, sonolência, dores de cabeça, irritabilidade, instabilidade emocional e prejuízo de atenção, concentração e rendimento profissional, entre outros. “Contudo, sem dúvida nenhuma, a maior consequência é o sofrimento psíquico que o paciente refere pelo sentimento de impotência, acompanhado de tristeza e angústia por não conseguir manter um bom padrão de sono e evitar os episódios de lanches noturnos”, enfatiza o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo.

Não existem estudos que possam avaliar a prevalência da síndrome do comer noturno no Brasil, mas os especialistas acreditam que essa condição atinja 1,5% da população, elevando-se para 8% entre indivíduos obesos. Entretanto, quando avaliada em clínicas de tratamento para perda de peso, a prevalência da síndrome entre obesos pode atingir até 25%. “Há uma discreta prevalência maior em mulheres e a idade de início dos sintomas costuma ser entre 20 e 30 anos. Porém, até que seja realizado o diagnóstico, em geral o paciente evolui com uma história de adoecimento superior a 10 anos, em média”, pontua o psiquiatra.

Em busca de consenso científico

Pesquisadores como a psicóloga Kelly Allison, do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos – que continua o legado do médico Albert Stunkard – buscam consenso sobre os principais critérios diagnósticos da SCN. Durante o 1º Simpósio Internacional de Comer Noturno, realizado em 2008 nos Estados Unidos, estudiosos do tema relacionaram alguns critérios para a identificação do problema. O primeiro é endossar a hiperfagia noturna, com duas ou mais ingestões noturnas por semana, e apresentar pelo menos três das cinco características: anorexia matinal, uma forte necessidade de comer entre o jantar e início do dormir ou durante despertares noturnos, insônia pelo menos quatro a cinco vezes por semana, crença de que comer é necessário para iniciar ou voltar a dormir, e humor deprimido que piora durante a noite, além da consciência e capacidade de recordar as ingestões noturnas.

As pesquisas sobre tratamentos eficazes específicos para síndrome do comer noturno ainda não são expressivas, mas relatos de casos e ensaios clínicos abertos sugerem uma variedade de estratégias para ajudar os pacientes, incluindo tratamento farmacológico, terapia cognitivo-comportamental e várias atividades alternativas, como relaxamento muscular progressivo e fototerapia. “O nutricionista realiza o trabalho de organização do padrão alimentar com uma abordagem que vai além da comida e inclui o modo como o indivíduo se alimenta para que tenha uma rotina com desjejum, almoço e jantar e, assim, possa quebrar a compulsão gerada pela restrição alimentar e o comer emocional”, ensina a nutricionista Carla Mourilhe, coordenadora do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (GOTA) do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).