TM diminui sequelas após AVC grave
Trombectomia mecânica foi incorporada ao rol de procedimentos do Sistema Único de Saúde
O acidente vascular cerebral (AVC) é a maior causa de danos neurológicos e incapacidade no mundo, sendo responsável por aproximadamente 11% dos óbitos no planeta segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que, após a pandemia da Covid-19, o problema voltou a ser a primeira causa de morte no País tendo registrado, somente nos seis primeiros meses de 2022, mais de 56,3 mil vítimas fatais. Durante um AVC, cerca de dois milhões de neurônios morrem por minuto, por isso, o reconhecimento dos sintomas, a rapidez no atendimento e o tratamento adequado garantem que essa perda seja mitigada. Para reduzir os prejuízos funcionais associados aos casos mais graves, a trombectomia mecânica (TM) foi recentemente incorporada ao rol de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), um procedimento inovador até então disponibilizado em poucos hospitais da rede privada.
Considerada minimamente invasiva, a trombectomia mecânica tem por objetivo desobstruir e restaurar o fluxo sanguíneo arterial cerebral. No procedimento, são utilizados cateteres para conduzir um dispositivo até o vaso sanguíneo que apresenta a obstrução causada pelo coágulo, através de um stent auto-expansível removível que se integra ao coágulo e o extrai, ou por um sistema que aspira o coágulo e desobstrui a artéria. “A inclusão da TM no SUS representa uma conquista para a saúde pública por ampliar a assistência com um tratamento eficaz que poderá impedir a evolução do AVC”, descreve a médica neurologista Sheila Cristina Ouriques Martins, docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital Moinhos de Vento e presidente da Rede Brasil AVC e da World Stroke.
O procedimento é indicado para pacientes que apresentam AVC isquêmico (AVCi) agudo, por oclusão de um grande vaso (artérias grandes do cérebro), e que atendam a critérios específicos relacionados nos exames de imagem e na escala de déficit neurológico causado pelo AVC. A TM complementa a trombólise endovenosa (tratamento medicamentoso), que nem sempre é eficiente para os casos mais graves do AVCi. Segura e eficaz, uma das grandes vantagens da TM é que pode ser utilizada com sucesso em até 24 horas após os primeiros sintomas do AVC, enquanto outras formas de tratamento têm uma janela restrita de indicação de até quatro horas e meia após as manifestações iniciais.
“Além disso, a agilidade do procedimento e da recuperação impacta diretamente no melhor resultado para a saúde do paciente, em comparação àqueles que somente realizaram o tratamento clínico”, avalia a neurologista. Como toda intervenção cirúrgica, a TM pode apresentar riscos, mas os benefícios da técnica são comprovados por dados na literatura que apontam melhora da capacidade funcional (cognitiva e motora) e redução nas taxas de mortalidade, do tempo de internação, de risco de complicações e de sequelas, aumentando as chances de recuperação. Outros estudos demonstram, ainda, que a taxa de recanalização (desentupimento do vaso), quando realizada via TM, chega a 82% – enquanto pela via trombólise endovenosa é de apenas 11% nos casos mais graves.
Para ampliar o acesso a esse tratamento inovador para além da rede privada, em dezembro de 2021 a trombectomia mecânica foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Novas Tecnologias (Conitec) no Sistema Único de Saúde, mas ainda não foi implementada na rede pública. Segundo a professora Sheila Cristina Ouriques Martins, o Brasil possui 88 centros especializados no tratamento do AVC habilitados pelo Ministério da Saúde, mas nem todos têm estrutura e equipe necessárias para a realização do procedimento. “Estima-se que a técnica seja implantada aos poucos nos hospitais públicos já estruturados – 20 no total –, a depender do treinamento de profissionais habilitados, entre eles enfermeiros, neurorradiologistas intervencionistas e anestesistas, com escala médica de retaguarda e, evidentemente, disponibilidade de sala hemodinâmica, mesma estrutura utilizada para cateterismo cardíaco”, destaca. Os critérios para implantação da tecnologia serão analisados por meio de indicadores individuais dos hospitais, como dados de mortalidade por AVC, tempo de internação hospitalar, reinternações, pacientes tratados com trombolíticos e, principalmente, a experiência da equipe médica.
Incapacitante
O AVC pode ser hemorrágico, quando há rompimento de um vaso cerebral, ou isquêmico, quando há entupimento da artéria que provoca a falta de circulação na região – tipo mais comum e responsável por até 85% dos casos. Os sintomas são sempre de início súbito e podem incluir sensação de formigamento e fraqueza em um dos lados do corpo, incluindo a face; tonturas, fortes dores de cabeça, alteração ou perda da visão, dificuldades de comunicação oral (fala arrastada) e de compreensão. “Algumas vezes, esses sintomas podem ser transitórios, mas nem por isso deixam de exigir cuidados médicos imediatos, já que a demora no atendimento pode causar danos irreparáveis e, em casos mais graves, levar ao óbito”, comenta a médica. Atualmente, os pacientes com AVC só têm a trombólise endovenosa disponível na rede pública, o que é incipiente para dar cobertura para toda a população brasileira.