Terapia no tabuleiro

Xadrez também se destaca como ferramenta terapêutica auxiliar para o desenvolvimento cognitivo

Difundido há mais de cinco séculos, o jogo de xadrez estimula memória, concentração, estratégia, planejamento, criatividade e capacidade de tomar decisões. No tabuleiro, 32 peças, de seis tipos, têm um movimento próprio e uma função estratégica, e a melhor coordenação desse conjunto leva ao xeque-mate. Mais do que esporte – o segundo mais praticado no mundo – ou atividade de lazer, o jogo de xadrez tem se destacado como ferramenta terapêutica auxiliar para o desenvolvimento cognitivo. As aplicações com crianças em idade escolar, com ou sem dificuldade de aprendizagem, têm sido utilizadas com resultados muito positivos. Relatos na literatura apontam, ainda, experiências bem-sucedidas em terapias para ajudar a tratar distúrbios psiquiátricos, como esquizofrenia; crianças com Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), idosos e dependentes químicos. Ao aprender o movimento das peças, qualquer pessoa está apta a praticar e se apropriar dos benefícios associados ao xadrez.

Apesar de pouco conhecido, o xadrez como ferramenta terapêutica tem sido adotado, nos últimos anos, por profissionais que trabalham com estimulação cognitiva. O especialista em Neuropsicologia, Reabilitação Cognitiva e Psicopedagogia Léo Pasqualini de Andrade, mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade e professor de especialização em xadrez e neuropsicopedagogia, conta que o relato de experiências é fundamental para mostrar que o xadrez pode ser adotado como uma nova abordagem terapêutica, especialmente para quem busca alternativas de apoio não convencionais paralelamente aos tratamentos já instituídos – seja para preservar habilidades cognitivas, melhorar  a interação social ou ajudar a lidar com depressão, ansiedade, estresse e cansaço do dia a dia. “Além disso, o indivíduo aprende a evoluir na capacidade de lidar com regras, planejar equilibradamente e vivenciar experiências, bem como amadurecer para lidar com realizações e frustrações traduzidas no ganhar ou perder do jogo”, enumera.

Diversos estudos correlacionam o xadrez a diferentes habilidades cognitivas, como atenção, memória de trabalho, metacognição, raciocínio lógico-matemático, flexibilidade, planejamento, concentração, capacidade de analisar e resolver problemas, autocontrole e autoavaliação. O professor lembra que o jogador está constantemente sujeito a situações em que precisa observar, avaliar e entender a realidade do tabuleiro, assim como aceitar pontos de vista distintos, contestar e perceber limites e valores. Ao desenvolver o controle impulsivo, o xadrez leva o jogador a se concentrar, atingindo um estado de alteração das estruturas cerebrais que estimula o trabalho neuronal no desenvolvimento de memória, paciência e autocontrole, entre outros componentes essenciais para a qualidade de vida.

O xadrez também pode ser utilizado pelo professor-terapeuta para conduzir um trabalho específico voltado a beneficiar disfunções de seus ‘alunos-pacientes’. “Durante o xadrez terapêutico é possível questionar jogadas impulsivas e as correlações com momentos da vida, buscando a realidade de situações presentes. Assim, o aluno poderá conciliar atitudes, movimentos e reflexões que acontecem diante do tabuleiro para resolver questões da própria existência”, detalha.

Ensino-aprendizagem

Por se tratar de uma atividade altamente complexa do ponto de vista cognitivo, a inserção e prática do xadrez no ambiente escolar é considerada um instrumento pedagógico que pode ajudar na relação ensino-aprendizagem. “Como atividade lúdica, o jogo promove a transferência de saberes, pois, ao estimular o desenvolvimento de habilidades cognitivas como, por exemplo, atenção, concentração, memória e organização, possibilita que a criança tenha uma melhor tomada de decisão em situações que exigem raciocínio rápido, o que pode ser refletido no rendimento escolar”, avalia a fonoaudióloga Rafaela Rossini Rosa, especialista em Neurociências do Desenvolvimento e da Cognição e mestranda em Distúrbios da Comunicação Humana na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. A Matemática, por exemplo, requer recursos que o xadrez também exige, como lidar com probabilidades, progressões e geometria. Em História, o aluno faz associações com lugares e movimentos políticos e culturais. Já nas aulas de Artes, é possível pesquisar o formato das peças e a sua confecção com os mais diversos materiais.

Para a fonoaudióloga, que é uma das autoras do estudo ‘Efeitos do xadrez nas funções cognitivas e na aprendizagem de escolares: uma revisão sistemática’, o jogo também pode estar inserido nos processos terapêuticos de crianças com dificuldade de aprendizagem. “Apesar de faltarem estudos mais robustos envolvendo a relação do xadrez especificamente com a linguagem, sua inclusão nos processos terapêuticos é totalmente viável, inclusive com crianças com diagnóstico de TDAH, desde que gostem e estejam motivadas a jogar, pois o xadrez promove uma mudança comportamental significativa”, argumenta. Além de trabalhar os fatores cognitivo, social e emocional, o jogo potencializa diversas aprendizagens, pois proporciona bem-estar e prazer, controla a impulsividade, treina a paciência e a concentração, provoca a imaginação, desenvolve a memória e ensina a criança a ter tolerância diante da frustração e a reconhecer esforços individuais.

Projeto usa o jogo como apoio no tratamento de dependentes químicos

Utilizados como ferramenta de apoio para reabilitação neuropsicológica de pacientes com transtornos em que há comprometimento das funções cognitivas, os jogos de tabuleiro possibilitam elaborar estratégias que estimulam a autorregulação cognitiva e afetiva. Para auxiliar o tratamento de médio e longo prazos, pesquisa realizada no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq­HC-FMUSP) desenvolveu uma nova abordagem de estimulação das funções executivas em dependentes de cocaína e crack com a inclusão do jogo. O projeto xadrez motivacional alia o jogo às técnicas de entrevista motivacional para identificar e relacionar situações que ocorrem no tabuleiro com a vida real.

Segundo a psicóloga doutora Priscila Dib Gonçalves, aluna de pós­doutorado do Departamento de Epidemiologia da Mailman School of Public Health, Columbia University – que desenvolveu a pesquisa durante doutorado no IPq-HC-FMUSP –, indivíduos com transtorno por uso de cocaína e crack têm dificuldade de atenção, memória e organização, o que pode ter impacto negativo no tratamento. “O xadrez foi associado à entrevista motivacional, que inclui psicoeducação, aumento da confiança interna e desenvolvimento de discrepâncias entre o comportamento normal e o desejado, visando recuperar a capacidade de automonitoramento e organização desses indivíduos, além de controlar impulsos e estimular a memória de trabalho”, explica. Os grupos foram formados por pacientes da Enfermaria do Comportamento Impulsivo do IPq­HC-FMUSP, em tratamento para manutenção da abstinência.

Enquanto no grupo controle eram realizadas atividades recreativas de estímulo básico de atenção, coordenação motora e função visual, no grupo intervenção os trabalhos incluíam o xadrez motivacional. “Nos 10 encontros, os pacientes do grupo intervenção praticavam xadrez por cerca de uma hora e, na sequência, participavam de conversa mediada pelos pesquisadores para estimular a tomada de decisões saudáveis com foco no futuro e nos comportamentos imediatistas e de alto risco. Os indivíduos eram encorajados a observar situações do jogo e relacioná-las às da vida diária como, por exemplo, jogadas que representavam prazer imediato com atividades de longo planejamento, importância de traçar estratégias para a manutenção da abstinência e influência das emoções no desempenho do jogo e da vida”, detalha. O estudo confirmou a viabilidade e o efeito positivo do xadrez motivacional como abordagem terapêutica complementar e, após a conclusão da pesquisa, a terapia foi absorvida pela Enfermaria do IPq-HC-FMUSP e passou a ser utilizada com outros pacientes.