TEA pode ser desafiador para a nutrição
Comportamentos alimentares demandam intervenção
especializada para evitar deficiências nutricionais
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
O transtorno do espectro do autismo (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na linguagem, comunicação e interação social, bem como padrões de comportamento repetitivos e restritos a determinadas atividades e interesses. Estimativas clínicas e científicas apontam que cerca de 80% das crianças com TEA possuem algum grau de dificuldade alimentar, tendo como padrões mais prevalentes a seletividade e o comportamento alimentar rígido. Essa restrição está frequentemente relacionada à hipersensibilidade sensorial – aparência, textura, cheiro, cor ou sabor –, rigidez cognitiva, repertório limitado e experiências negativas com alimentos. Desafiadoras, ambas as condições exigem intervenção especializada por equipe multidisciplinar para evitar inadequações no estado nutricional e consequentes agravos à saúde.
Embora pareçam iguais e possam estar interligados, os comportamentos alimentares se apresentam de formas distintas. A seletividade é caracterizada por padrões nutricionais restritos, consumo de pequena variedade de vegetais, frutas e outros produtos in natura ou exclusão de grupos alimentares inteiros. “Esse comportamento geralmente tem início na primeira infância durante a fase de introdução alimentar (por volta dos seis meses) ou ao longo dos dois primeiros anos”, descreve a nutricionista clínica pediátrica Helena Raposo, especialista do Grupo Especializado em Transtornos Alimentares (GETA) e do Programa de Atenção aos Transtornos do Espectro do Autismo (PRATEA) do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-Unicamp). A seletividade está relacionada à sensibilidade tátil e oral, bem como ao aspecto visual, à temperatura e textura dos alimentos. Já os comportamentos alimentares rígidos são caracterizados pela insistência na ‘mesmice’, ou seja, a resistência às mudanças na rotina ou no ambiente da alimentação.
As crianças apresentam comportamentos ritualísticos como, por exemplo, separação de alimentos no prato, organização por formas ou linhas, foco em determinada temperatura, textura ou cor, assim como uso de utensílios fixos – mesmo prato, copo ou talher. Além disso, possuem hipersensibilidade sensorial, interesses limitados e previsíveis, dificuldade em permanecer à mesa durante as refeições e resistência em experimentar novos alimentos. “Contudo, é importante atentar como cada criança com TEA se relaciona, expressa e comporta com os alimentos e em diferentes contextos de ambientes de alimentação, o que demanda uma observação cuidadosa e ampla às individualidades”, esclarece a nutricionista Maria Teresa Fialho de Sousa Campos, professora associada e coordenadora do Laboratório de Educação Alimentar e Nutricional do Departamento de Nutrição e Saúde (DNS) da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
As dificuldades relacionadas ao TEA podem afetar a construção de bons hábitos alimentares e, consequentemente, o estado nutricional. Geralmente, esse público manifesta preferência por alimentos de baixo valor nutricional como bebidas açucaradas (sucos adoçados, refrescos industrializados), dentre outros produtos ultraprocessados como biscoitos recheados, salgadinhos ‘de pacote’, assim como consumo escasso de frutas e vegetais. “A preferência por certos alimentos industrializados prontos para o consumo ocorre devido à previsibilidade sensorial acerca do que irá consumir”, relata a professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos. Especialmente nos casos de rigidez cognitiva, a necessidade de uma rotina com a repetição alimentar traz conforto, previsibilidade e equilíbrio emocional. Porém, o consumo inexpressivo de alimentos saudáveis associado à condição de uma alimentação limitada e repetitiva pode causar deficiências nutricionais, repercutindo em prejuízos à saúde e em um maior risco de distúrbios gastrointestinais. Além disso, influencia as funções cerebrais prejudicando o aprendizado, a concentração e a memória.
Assistência nutricional – “Para evitar deficiências ou excessos nutricionais decorrentes do comportamento de rigidez e seletividade alimentar, a assistência nutricional é fundamental. O nutricionista, inserido dentro de uma proposta interdisciplinar com psicólogo, terapeuta ocupacional, neurologista e fonoaudiólogo, entre outros, utiliza estratégias e intervenções criativas, seguras e eficazes, personalizadas de acordo com as necessidades individuais de cada criança, tendo como foco contribuir para ampliar a aceitação de novos alimentos”, esclarece a professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos. O direito à nutrição adequada e a terapia nutricional passaram a integrar o conjunto de cuidados previstos para pessoas com TEA a partir da publicação da Lei 15.131/2025, que altera a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Lei 12.764/2012), representando um avanço importante na promoção da saúde integral e do bem-estar desses indivíduos.
Estratégias terapêuticas da equipe multidisciplinar são fundamentais
A dessensibilização alimentar requer muito empenho da equipe multidisciplinar, flexibilizando de forma respeitosa e gradual (mesmo que lenta) a sua singularidade. Assim, a construção de uma estratégia terapêutica parte do entendimento de comportamento, capacidade de verbalização, preferências alimentares e restrições – severas ou não – e do diagnóstico de alergias, disfunções ou doenças metabólicas associadas. Com o objetivo de melhorar as habilidades cognitivas, sociais e alimentares, bem como prevenir deficiências nutricionais, o acompanhamento exige planejamento, ferramentas lúdicas e educativas, paciência e, principalmente, a participação ativa da família.
O plano de introdução/aprendizagem alimentar, focado idealmente em alimentos in natura e minimamente processados, deve seguir uma hierarquia sensorial, ou seja, tolerar, interagir, cheirar, tocar, provar e comer. De acordo com a nutricionista Helena Raposo, o primeiro passo é a tolerância/dessensibilização visual, que consiste em permitir a presença do alimento no campo visual. Na sequência (sem prazo pré-definido), ocorre a interação indireta, quando a criança toca os alimentos utilizando barreiras físicas (guardanapo ou utensilio de cozinha), evitando o contato direto com as mãos. “Conforme cada barreira é vencida, as próximas etapas incluem encostar diretamente no alimento, cheirar, explorar as texturas e brincar com a comida. Ao reduzir a aversão e ansiedade em torno do alimento, o último passo é levá-lo até a boca, tocá-lo com a língua, lamber, morder e mastigar, sem obrigatoriamente realizar a deglutição”, descreve.
A professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos acrescenta que, ao trabalhar as habilidades de tolerância, o alimento pode ser ressignificado. Nos casos em que há ritualismo, especialmente no comportamento rígido, muitas vezes o problema não está exclusivamente no alimento, mas em como é servido. Assim, é preciso observar como a criança se comporta na forma de distribuição e divisão dos alimentos no prato, na escolha por determinados utensílios de mesa, no primeiro alimento que busca nas refeições, qual alimento é deixado de lado, por qual razão e em qual proporção, além de avaliar textura, temperatura e cores de preferência relativas aos alimentos. “Feito isso, o nutricionista identifica e avalia, junto com a família, os comportamentos que poderão nortear as estratégias educativas e efetivas para introduzir novos alimentos”, esclarece. Com ou sem rituais, uma das estratégias é ampliar o repertório a partir de um alimento previamente aceito pela criança – o chamado food chaining (encadeamento alimentar) –, ou seja, se a preferência for pelo vermelho, por exemplo, alimentos de cor laranja podem ser apresentados gradativamente. O ideal é que esse processo de adequação nutricional ocorra no tempo da criança.
Ferramentas lúdicas e suporte familiar
Para auxiliar o processo de aprendizagem/introdução de novos alimentos, a equipe multidisciplinar – em parceria da família – pode adotar técnicas de comunicação para ampliar a conexão com as crianças. Para a psicopedagoga Daniela Laubenstein, consultora especialista no PRATEA do HC-Unicamp, incluir as crianças no processo de compra e preparo das refeições, por exemplo, pode aumentar a familiaridade com os alimentos e reduzir a ansiedade e hipersensibilidade sensorial. “Além de visitas estruturadas ao mercado ou à feira, preferencialmente em horários tranquilos, permitir que a criança manuseie o alimento cru ou auxilie no preparo de pratos simples é um passo importante na aceitação alimentar”, avalia. Outra estratégia para reduzir a resistência é servir os alimentos de forma lúdica com formatos divertidos ou, até mesmo, utensílios de cozinha de brinquedo. Uma rotina visual ou escrita com os horários das refeições (com desenhos característicos de cada uma delas) também ajuda a manter a previsibilidade, fator importante para os pacientes no espectro.
Entre as estratégias educativas para promover a interação com novos alimentos, o cultivo de hortas é uma excelente opção. Além de estimular a motricidade fina e a socialização, a horta pode reduzir a seletividade alimentar ao promover o contato direto com alimentos frescos, estimulando seu consumo nas refeições. Nessa mesma linha, a professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos destaca a horta sensorial, projetada para propiciar bem-estar, estimular os sentidos (visão, tato, olfato, audição e paladar) e a aproximação das crianças com os alimentos cultivados – o que pode favorecer a relação com maior diversidade de alimentos e, gradualmente, sua aceitação. “Nesses espaços planejados para desenvolver atividades de educação alimentar, a conexão com a horta e sua exploração sensorial, de acordo com o interesse da criança e principalmente com o seu envolvimento, promove um encontro com os alimentos da horta à mesa”, enfatiza. Outras sugestões são os jogos lúdicos, a exemplo de colagem e pintura com alimentos, jogo da memória de alimentos, roletas de cardápio, quebra-cabeça temático e tapete sensorial construído com alimentos diferentes, que tornam a interação e o momento de aprendizado divertido. Para os interessados, o e-book Educação Alimentar e Nutricional: Jogos Didáticos para Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), de autoria da professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos e demais colaboradores é de acesso gratuito pelo link bit.ly/4e3B7hs.
Suporte familiar – Pilar fundamental no desenvolvimento das crianças com TEA, a família é a base da segurança emocional, do afeto e da rotina necessários para o aprendizado. Assim, mais do que replicar as ferramentas terapêuticas, a família precisa ressignificar o momento da refeição para reduzir a sobrecarga sensorial. As recomendações incluem horários regulares; local e o assento fixos; evitar distrações com TV e demais eletrônicos; oferecer um ambiente tranquilo, acolhedor e sem conflitos; utilizar abordagens baseadas na aproximação sucessiva de alimentos; respeitar o tempo; celebrar pequenos avanços e não usar a comida como recompensa. Embora a seletividade seja frequentemente movida por questões sensoriais, motoras ou rituais, as crianças podem ser influenciadas pelo comportamento alimentar dos pais ou de um membro específico da família. “A modelagem de hábitos saudáveis e a exposição consistente a novos alimentos ajudam na dessensibilização e na ampliação do repertório alimentar, contribuindo para reduzir a resistência a novidades e, consequentemente, para um melhor bem-estar e estado nutricional”, conclui a nutricionista Helena Raposo. •