Sepse pode ser devastadora em todas as idades
Diagnóstico precoce e tratamento adequado são determinantes
para reduzir as altas taxas de morbidade e mortalidade
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
A sepse é uma síndrome clínica complexa caracterizada por uma disfunção orgânica ameaçadora à vida, decorrente de uma resposta desregulada do corpo a uma infecção. Seja causada por bactérias, vírus ou fungos, essa condição pode levar à falência de múltiplos órgãos. Definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como prioridade e um dos maiores desafios de saúde pública global, a sepse é a principal causa de morte não cardiológica em unidades de terapia intensiva (UTI) no mundo, com cerca de 11 milhões de óbitos todos os anos. Um estudo epidemiológico de sepse pediátrica, coordenado pelo Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS) e publicado em 2021 no Lancet Child and Adolescent Health Journal (SPREAD PED), mostrou uma mortalidade de aproximadamente 20% em pacientes internados com sepse nas UTIs pediátricas estudadas. Desafiadora e grave, a identificação precoce e o tratamento otimizado na primeira hora são fatores determinantes para o sucesso em todas as etapas do cuidado ao paciente, tanto na fase aguda – para o controle da resposta inflamatória e a redução da mortalidade –, quanto no processo de reabilitação, para prevenir o risco de sequelas físicas, cognitivas e emocionais.
Caracterizada como uma repercussão ou manifestação sistêmica de uma infecção, a ocorrência de sepse está intrinsecamente relacionada à resposta do próprio hospedeiro, e não apenas ao agente infeccioso. De acordo com o médico infectologista Reinaldo Salomão, professor titular da Disciplina de Infectologia e chefe do Laboratório de Pesquisa em Sepse (LPS) do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), o reconhecimento de patógenos desencadeia a liberação massiva de citocinas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias – chamada de ‘tempestade de citocinas’ – em resposta à infecção, gerando desequilíbrio e, consequentemente, lesões em tecidos e falhas em órgãos, mesmo que distantes do foco original. “Essa inflamação sistêmica e os danos aos tecidos levam à vasodilatação, hipotensão e má distribuição do sangue (hipoperfusão tecidual), prejudicando a oxigenação celular em todo o corpo”, acentua. A forma mais grave da sepse é o choque séptico, caracterizado pela oferta insuficiente de oxigênio e disfunção circulatória severa que leva à falência de múltiplos órgãos e a um alto risco de morte.
A principal forma de aquisição (80% dos casos) é a sepse adquirida na comunidade (SAC), definida pelas infecções que se originam fora do ambiente hospitalar ou que se manifestam dentro das primeiras 48 horas após a internação. “A maioria das infecções que levam a esse quadro é bacteriana, embora fungos e vírus também possam ser agentes causadores”, afirma a médica intensivista Flavia Machado, professora e chefe do setor de Terapia Intensiva da Disciplina de Medicina Intensiva do Hospital Universitário da EPM-Unifesp e coordenadora do ILAS. Os principais focos incluem infecções respiratórias, sendo a pneumonia a mais comum; do trato urinário, como a pielonefrite; gastrointestinais, a exemplo da apendicite e diverticulite; e infecções de pele, como celulite bacteriana e feridas infeccionadas. Em contrapartida, a sepse hospitalar (ou nosocomial) é uma infecção adquirida 48 horas ou mais após a admissão hospitalar. Ao apresentar maior risco de mortalidade que a comunitária, geralmente é a via final de muitas doenças que não são inicialmente infecciosas, assim como de procedimentos invasivos como cateteres, ventilação mecânica ou cirurgias.
Sinais de alerta
Os sintomas da sepse surgem rapidamente após a infecção inicial e podem incluir disfunções orgânicas como respiração rápida e superficial, hipotensão, alterações na pele (fria, pálida ou azulada) e redução da urina. Além disso, podem surgir disfunções neurológicas como confusão mental (delírio), rebaixamento do nível de consciência, agitação ou sonolência.
O infectologista Reinaldo Salomão, que é diretor científico do ILAS, lembra que qualquer pessoa pode desenvolver a sepse. Entretanto, os grupos de maior risco são os extremos de idade, como idosos acima de 65 anos e bebês com menos de um ano e prematuros, assim como gestantes, pacientes imunossuprimidos (câncer, transplantados, HIV, doenças autoimunes ou que façam uso de corticoides), portadores de doenças crônicas (diabetes, insuficiência cardíaca, renal ou hepática) e pacientes hospitalizados e submetidos a procedimentos invasivos.
Tratamento deve começar na primeira hora
O diagnóstico de sepse em adultos inclui a presença de uma infecção suspeita ou confirmada que esteja acompanhada de pelo menos uma disfunção orgânica ameaçadora à vida. Do ponto de vista epidemiológico, define-se disfunção pelo aumento de dois pontos ou mais no escore Sequential Organ Failure Assessment (SOFA), englobando os sistemas respiratório (oxigenação), cardiovascular (pressão arterial média ou uso de vasopressores), hepático (níveis de bilirrubina), hematológico (contagem de plaquetas/coagulação), renal (níveis de creatinina ou débito urinário) e neurológico (Escala de Coma de Glasgow). “Entretanto, essa pontuação não deve ser usada à beira leito para identificação de pacientes com sepse, sendo mais útil para avaliações epidemiológicas e para pesquisas clínicas”, afirma a intensivista Flavia Machado. Do ponto de vista prático, as equipes de saúde devem ser treinadas a suspeitar de sepse utilizando ferramentas para detecção de deterioração clínica como os scores National Early Warning Score (NEWS) ou Modified Early Warning Score (MEWS) ou mesmo com a presença dos critérios de Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) e/ou disfunções orgânicas.
Uma vez diagnosticada, condutas que visam a estabilização do paciente são prioritárias, a começar pela internação imediata – idealmente na UTI. A intensivista informa que o pacote de primeira hora (‘Bundle’ de uma hora) da sepse consiste na coleta de exames laboratoriais como gasometria, lactato arterial (marcador de hipoperfusão tecidual), hemograma completo, creatinina, bilirrubina e coagulograma para avaliar a gravidade da disfunção orgânica. “Além disso, é fundamental a rápida administração de antibióticos de amplo espectro e fluidos intravenosos para estabilizar a pressão arterial e melhorar a oxigenação dos tecidos. Caso os fluidos sejam insuficientes, são administrados vasopressores para contrair os vasos sanguíneos e aumentar a pressão arterial”, descreve. A depender do caso, o controle do foco pode ser necessário, com remoção de cateteres caso sejam a origem do quadro infeccioso, ou cirurgias. A especialista comenta que quando a sepse é nosocomial o tratamento é mais complexo e exige cuidados adicionais, pois o paciente que já se encontra com a saúde fragilizada tem de lidar com bactérias mais agressivas e resistentes aos antibióticos comuns.
Baseada no cuidado integral, a equipe multidisciplinar tem papel determinante em todo o processo, desde o diagnóstico e a internação até a alta hospitalar. A equipe é responsável, ainda, pelo monitoramento (lactato e suporte hemodinâmico), controle de infecção, prevenção da disfunção de múltiplos órgãos, nutrição terapêutica, reabilitação física, cognitiva e de saúde mental. Segundo a médica intensivista Flavia Machado, certos cuidados adicionais contribuem para a prevenção de sequelas. “Sempre que possível, recomenda-se reduzir o tempo de dispositivos invasivos para evitar complicações mecânicas e infecciosas, a exemplo de pneumonia associada à ventilação mecânica, infecção de corrente sanguínea via cateter venoso central e infecção do trato urinário relacionado a cateter vesical de demora”, relata. Além disso, ações como redução de sedação, controle da dor, manutenção do ciclo sono-vigília, uso de óculos ou aparelho auditivo e mobilização precoce podem ajudar significativamente o paciente durante o processo de recuperação e permanência em UTI.
Desafiadora
O reconhecimento precoce é o maior desafio clínico para o manejo da sepse, independentemente da faixa etária. A pediatra Daniela Carla Souza, presidente do ILAS e médica assistente da UTI Pediátrica do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HU-FMUSP) e do Hospital Sírio Libanês, acentua que o treinamento e a educação continuada das equipes nas unidades de saúde, especialmente emergências e UTI, são essenciais para o maior conhecimento da síndrome.
Assim, conhecer a epidemiologia, fisiopatogenia, abordagem terapêutica, as terapias de suporte e a reabilitação para a identificação da disfunção orgânica inicial vai permitir a agilidade de diagnóstico e o tratamento adequado. “Ao atualizar os profissionais da área desde a atenção básica sobre práticas e protocolos baseados em evidências e diretrizes recentes, conseguimos melhorar a segurança do paciente, reduzir o risco de agravos – especialmente o choque séptico – e, consequentemente, a alta mortalidade”, enfatiza a presidente do ILAS.
Critérios específicos para a Pediatria
Apesar dos esforços para melhorar o diagnóstico e o tratamento, a mortalidade pediátrica em decorrência da sepse permanece alta. Dados da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estimam que aproximadamente 52% das mortes de crianças com menos de cinco anos no mundo são decorrentes de processos infecciosos. Os fatores de risco incluem idade precoce (menores de um ano), imunodeficiência, comorbidades crônicas (cardíacas, respiratórias), procedimentos invasivos (cateteres, ventilação), desnutrição e internação hospitalar prolongada em UTI. Embora o diagnóstico e o tratamento da sepse neste grupo sejam amplamente influenciados por estudos com adultos, existem protocolos específicos para crianças.
A sepse pediátrica é mais prevalente em lactentes, sobretudo menores de um ano (incluindo recém-nascidos) e imunossuprimidos. Segundo a pediatra intensivista Vanessa Soares Lanziotti, docente permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Materno-infantil e chefe da Unidade de Pesquisa do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em recém-nascidos as causas incluem fatores neonatais como prematuridade e baixo peso, assim como fatores maternos como ruptura prolongada de membranas, corioamnionite (infecção placentária), infecção urinária, colonização materna por Streptococcus do Grupo B (EGB) e pré-natal inadequado, além de fatores relacionados à assistência, como procedimentos invasivos. “A sepse neonatal precoce ocorre nas primeiras 72 horas de vida ou até sete dias em alguns protocolos, e é adquirida por via vertical, ou seja, materno-fetal”, destaca. Já a sepse tardia é mais prevalente em prematuros internados por mais de 72 horas e, frequentemente, é associada ao uso de cateteres, procedimentos invasivos e infecções hospitalares. A pediatra alerta que o recém-nascido pré-termo apresenta de 8 a 11 vezes maior risco de infecção do que o recém-nascido a termo.
A sepse pediátrica inclui uma variedade de sintomas frequentemente inespecíficos e similares a outras condições, o que dificulta o diagnóstico precoce. Nas fases iniciais, a criança pode apresentar febre alta ou temperatura muito baixa (hipotermia), respiração rápida e ofegante, palpitações, letargia extrema, pele pálida/manchada, mãos e pés frios, dificuldade de responsividade e diminuição de urina eliminada. “Em pacientes recém-nascidos e lactentes, os sinais e sintomas podem ser sutis, a exemplo de recusa alimentar ou sucção fraca, choro inconsolável, desconforto respiratório demonstrado por taquipneia ou gemidos, apneia e fontanela (conhecida como moleira) protuberante, em casos de meningite”, orienta a pediatra. Na presença dos sintomas, a recomendação é buscar atendimento médico imediato, pois a rápida identificação e intervenção hospitalar de primeira hora são essenciais para reduzir o risco de mortalidade.
Novas diretrizes
Em 2024, foram publicadas novas definições de sepse e choque séptico em Pediatria – denominadas Critérios de Sepse de Phoenix – em substituição aos critérios da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS). Organizado pela Society of Critical Care Medicine, o trabalho que resultou nas novas diretrizes teve o apoio de organizações e sociedades internacionais, incluindo o ILAS. A presidente do ILAS, Daniela Carla Souza, explica que o escore de Phoenix é composto por quatro disfunções orgânicas principais, com pontuações variando de acordo com os sistemas. O respiratório é baseado na necessidade de suporte (oxigênio, VNI ou ventilação mecânica); e o cardiovascular considera pressão arterial média baseada na idade, níveis de lactato (>5 mmol/L) e uso de medicamentos vasoativos. Já o neurológico avalia a Escala de Coma de Glasgow e reatividade pupilar, enquanto o de coagulação analisa a contagem de plaquetas.
Pelos critérios, a sepse é confirmada com pelo menos dois pontos. Já o choque séptico é estabelecido em crianças com sepse que apresentam, no mínimo, mais um ponto no componente cardiovascular, ou seja, hipotensão grave para a idade, lactato sanguíneo >45 mg/dl ou necessidade de medicação vasoativa. “Os novos critérios foram desenvolvidos para identificar crianças com infecção e disfunção orgânica potencialmente fatal com maior precisão. Portanto, não devem ser usados como estratégia de triagem, mas para confirmar o diagnóstico após resultados de exames laboratoriais e tratamentos em curso”, detalha a pediatra. O tratamento foca na identificação rápida e intervenção na primeira hora com antibioticoterapia de amplo espectro, além de ressuscitação volêmica agressiva e uso precoce de drogas vasoativas como adrenalina e/ou noradrenalina – no caso de choque refratário a fluidos. Os cuidados incluem, ainda, a monitorização e o suporte de acordo com as necessidades e as manifestações clínicas associadas.
Terceira causa de morte materna
Apesar de evitável em 60% dos casos obstétricos, a sepse é a terceira causa de mortalidade materna no mundo e perde apenas para as doenças hipertensivas relacionadas à gestação e hemorragia puerperal. Caracterizada por uma disfunção orgânica resultante de um quadro infeccioso durante a gravidez, o parto ou até 42 dias pós-parto ou pós-aborto, a sepse pode ser uma condição devastadora para a saúde das mulheres. O diagnóstico precoce e o tratamento personalizado são fundamentais para melhorar a morbidade e a mortalidade materna e fetal. A principal forma de controle é a prevenção, que se baseia no acompanhamento pré-natal para identificar fatores de risco, assim como no controle rigoroso de infecções, higiene adequada, vacinação e uso profilático de antibióticos.
O desenvolvimento da sepse materna possui fatores de risco relacionados à paciente e à gestação, entre os quais idade superior a 35 anos, comorbidades preexistentes, doenças sexualmente transmissíveis, anemia, gemelaridade, procedimentos invasivos durante a gravidez e quadros infecciosos – a exemplo de pneumonia, pielonefrite, corioamnionite e endometrite. De acordo com o médico intensivista Rafael Barberena Moraes, do Programa Intrahospitalar de Combate à Sepse do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos fatores de risco com maior impacto é a necessidade de intervenção cirúrgica, especialmente a cesariana em caráter de urgência ou com técnicas inadequadas. “Isso ocorre porque cirurgias abdominais de grande porte, a exemplo da cesárea, rompem as barreiras naturais de proteção facilitando infecções que podem evoluir para sepse no período puerperal”, explica o médico, que é professor do Programa de Pós-graduação em Pneumologia da UFRGS. Estimativas clínicas sugerem que o parto cesáreo possui de 6% a 20% mais riscos de levar a uma sepse em comparação ao parto vaginal.
Entre os sinais de alerta para sepse materna, sobretudo no final da gestação, estão febre alta ou hipotermia, taquicardia – frequentemente acima de 100 ou 110 bpm, taquipneia e falta de ar, mudança do estado mental, alterações urinárias, corrimento vaginal com odor intenso, sangramento anormal ou dor pélvica/abdominal severa. Apesar de estarem presentes em gestações normais, algumas alterações nos exames de sangue, como aumento dos leucócitos, devem ser observadas no quadro geral da paciente. “Diante de alterações clínicas importantes é fundamental que o médico pense em sepse, especialmente quando há sinais de infecção. Além de vital para a saúde da mulher e o desenvolvimento do bebê, a detecção precoce evita a mortalidade materna e fetal”, acentua o médico. Os cuidados consistem na estabilização hemodinâmica, coleta de culturas, tratamento antimicrobiano empírico e rápido controle do quadro infeccioso. A depender do foco da infecção, a antecipação do parto deve ser considerada.
O diagnóstico e a terapêutica tardios da sepse obstétrica podem causar disfunções cognitivas, sequelas imunológicas, físicas, psicológicas e neurológicas, evoluindo rapidamente para choque séptico, falência de múltiplos órgãos e morte materna. Soma-se a isso o risco de aborto, parto prematuro ou o risco de o bebê nascer com sequela cerebral. Entretanto, a implementação de medidas preventivas rigorosas pode reduzir significativamente a incidência. “A sepse materna pode ser prevenida por meio de acompanhamento pré-natal, parto e puerpério de qualidade; assim como quadro vacinal materno atualizado, controle de comorbidades pré-existentes e higiene rigorosa. Ademais, é importante fazer rastreamento, tratamento e monitoramento de infecções urinárias, vaginose ou problemas causados por Streptococcus do grupo B no pré-natal, no parto e puerpério”, orienta.
Síndrome pós-sepse envolve várias manifestações
Com a melhora da qualidade assistencial e o sucesso dos tratamentos empregados na fase aguda, muitos pacientes recebem alta hospitalar após um episódio de sepse. Entretanto, para uma parcela importante dos sobreviventes essa é apenas a primeira etapa de um longo período de reabilitação. Os especialistas afirmam que na síndrome pós-sepse – ou síndrome pós-cuidados intensivos –, o comprometimento físico, cognitivo e de saúde mental é muito prevalente, ocasionando impactos significativos na rotina, saúde e qualidade de vida. De acordo com estimativas, o risco de reinternação é elevado, com cerca de 70% dos pacientes demandando cuidados hospitalares nos primeiros 3 a 6 meses pós-alta. Complexa, a reabilitação voltada ao tratamento das sequelas transforma a vida do paciente e o cotidiano familiar ao demandar gastos e cuidados intensos.
De acordo com o médico intensivista Regis Goulart Rosa, vice-presidente do ILAS e professor do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital das Clínicas de Porto Alegre e da Faculdade de Medicina da UFRGS, fatores como comorbidades, gravidade da infecção, linha terapêutica utilizada, tempo de internação em UTI e atraso no plano de reabilitação podem influenciar o prognóstico em longo prazo. “Quanto maior a gravidade da sepse e da disfunção dos órgãos acometidos na fase aguda, maior é o risco de o paciente apresentar sequelas. Ainda que sejam fundamentais para salvar vidas, o uso de ventilação mecânica prolongada, hemodiálise e medicamentos como sedativos, antibióticos, bloqueadores neuromusculares e corticosteroides também podem contribuir para complicações futuras”, comenta. Além disso, somam-se aos riscos o fator idade (idosos são mais suscetíveis), as comorbidades e a complexidade das doenças de base.
A síndrome pós-sepse engloba um conjunto de manifestações clínicas divididas em domínios físico, cognitivo e de saúde mental, que persistem ou surgem após a alta hospitalar. “No domínio de saúde física, os pacientes podem apresentar sintomas muitas vezes incapacitantes como fraqueza muscular, astenia, fadiga, dispneia, redução da capacidade física, mobilidade ou perda de independência. Também podem ocorrer dores crônicas articulares ou musculares, infecções recorrentes e alterações sensoriais como fotofobia e disgeusia”, enumera o médico. Além disso, frequentemente surgem distúrbios de deglutição como a disfagia, que contribui para quadros de desnutrição, e pneumonia aspirativa. No domínio cognitivo podem ocorrer problemas de memória, dificuldade de atenção e raciocínio lento, incapacidade de realizar tarefas complexas e, em casos graves, quadros de demência em idosos. Em relação à saúde mental, há ocorrência elevada de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e alterações de humor, tanto em pacientes quanto em familiares.
Ainda antes da alta, o plano de reabilitação pós-sepse foca na recuperação funcional, física e cognitiva com início imediato, se estendendo por meses ou anos caso seja necessário. “Quanto mais rápido o paciente tiver acesso a uma estratégia de reabilitação de acordo com suas necessidades, maior será a chance de recuperação e prevenção de complicações e sequelas. Caso contrário, o prognóstico pode impactar negativamente o quadro geral de saúde”, observa o vice-presidente do ILAS. Idealmente, o plano de reabilitação pós-sepse envolve equipe multidisciplinar formada por fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, fonoaudiólogos e psicólogos, que atuam para tratar isolada ou conjuntamente sintomas físicos, distúrbios cognitivos e do sono, saúde mental e suporte familiar essencial.
Apesar dos esforços, cerca de 70% dos sobreviventes são hospitalizados novamente em poucos meses, com 1/3 indo a óbito no primeiro ano pós-alta, principalmente em decorrência de novos quadros de sepse. “Não sabemos o motivo ao certo, mas esses pacientes adquirem uma imunossupressão e, consequentemente, ficam mais suscetíveis a novas infecções. A gravidade da sepse na reinfecção, a idade avançada, as comorbidades e a fragilidade do paciente são fatores determinantes para desfechos negativos”, comenta o médico. Entretanto, com tratamento intensivo boa parte das sequelas pós-sepse são reversíveis. As medidas para prevenir sequelas prolongadas e o risco de reinternação incluem mobilização precoce; redução de sedação, ventilação e de medicamentos que podem causar disfunção cerebral; manutenção do quadro vacinal atualizado (pneumococo, influenza, dengue, covid) e adoção de alimentação saudável. Além disso, é importante evitar ambientes aglomerados com pouca ventilação, especialmente nos primeiros meses pós-sepse, e estar atento a sinais de alerta característicos de infecções.
Acolhimento familiar
Peça-chave no processo de reabilitação, a família atua como agente modificador, suporte emocional e auxiliar na recuperação integral do paciente. Entretanto, essa função pode ser exaustiva, já que frequentemente os cuidadores negligenciam as próprias necessidades. As principais queixas incluem quadros de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, distúrbios do sono e luto patológico (decorrente do sofrimento presenciado durante a hospitalização), além de uma sobrecarga física, pois pacientes com incapacidades graves demandam auxílio para locomoção, higiene e disfunção cognitiva. “O cuidado com quem cuida também deve integrar o processo de reabilitação. Portanto, é fundamental dividir tarefas, ter momentos de descanso, dormir bem e buscar apoio familiar ou especializado para evitar o esgotamento físico e emocional”, orienta o médico Regis Goulart Rosa.
Nervo simpático atua na resposta imunológica da sepse
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou que o nervo simpático, particularmente uma ramificação conhecida como nervo esplâncnico maior, desempenha papel fundamental na resposta imunológica. A partir de experimentos com modelos animais com peritonite, observou-se que essa ramificação regula de forma seletiva subgrupos de neutrófilos, células responsáveis por atacar e destruir patógenos durante infecções graves. Essa descoberta promissora pode transformar o tratamento da sepse ao abrir caminho para terapias personalizadas que possam potencializar a ação da resposta imune e reduzir danos colaterais.
Os nervos esplâncnicos são pares de nervos autonômicos que conectam o sistema nervoso central às vísceras torácicas e abdominopélvicas, desempenhando papel crucial na inervação simpática. Além de controlarem funções involuntárias como digestão, fluxo sanguíneo visceral e resposta à dor, são essenciais para modular a resposta imune. Para investigar se e como os efeitos da ablação bilateral do nervo esplâncnico maior (formado por ramos dos gânglios torácicos, geralmente T5 a T9) impactam a carga bacteriana e a função imunológica em infecções, pesquisadores liderados pelo professor Alexandre Steiner, coordenador do Laboratório de Neuroimunologia da Sepse do Departamento de Imunologia do ICB-USP, utilizaram um modelo de peritonite séptica em ratos induzida pela bactéria Escherichia coli.
Os testes mostraram que a interrupção na comunicação do nervo esplâncnico maior aumentou significativamente a eficácia de um subgrupo de neutrófilos ativados, reduzindo a carga bacteriana em 96% no peritônio e 92% no baço. Utilizando tecnologias avançadas como o sequenciamento de RNA de célula única, os pesquisadores identificaram as mudanças específicas nas subpopulações de neutrófilos associadas à modulação pelo nervo esplâncnico. “Diferentemente do conceito tradicional, notamos que os neutrófilos são ativados de formas heterogêneas. Além de identificar uma população microbicida que causa dano colateral, encontramos uma subpopulação de neutrófilos reguladora que é ativada para inibir a resposta imune, fazendo com que essas células fiquem menos agressivas”, descreve o professor.
Como resultado, o nervo esplâncnico maior alterou o equilíbrio entre esses subconjuntos de neutrófilos de forma consistente com a supressão da imunidade. Os demais agrupamentos observados foram os macrófagos e eritrócitos, cujas alterações não explicam os efeitos observados na eliminação bacteriana. “Em conjunto, os dados mostram que o nervo esplâncnico exerce um efeito importante na eliminação bacteriana na fase aguda da infecção, possivelmente devido a alterações seletivas no equilíbrio entre subconjuntos de neutrófilos microbicidas e reguladores”, avalia. A descoberta desafia o conceito tradicional de regulação generalizada do sistema nervoso, pois o nervo esplâncnico maior atua como um equalizador que ajusta seletivamente somente alguns aspectos da resposta imune.
Os achados demonstram o mecanismo do sistema nervoso simpático de forma pioneira no modelo de infecção, ressaltando seu potencial como alvo para futuras terapias personalizadas no tratamento da sepse. “Uma das implicações mais promissoras é o uso da bioeletrônica para modular de forma localizada o nervo simpático e influenciar a resposta inflamatória. Entretanto, o grande desafio está em desenvolver ferramentas rápidas para identificar os fenótipos específicos de cada paciente, para sabermos em quais deles a terapia poderia ser eficaz”, informa o professor. Os pesquisadores também querem entender quais são as subpopulações de neutrófilos, se funcionam em outros modelos de infecção e se há correlatos clínicos em pacientes sépticos. O artigo ‘The greater splanchnic nerve preferentially regulates neutrophils over macrophages in a rat model of septic peritonitis’ foi publicado em 2025 na conceituada revista Brain Behavior and Immunity. •