Saliva de carrapato contra distúrbios da coagulação

Problemas são comuns em indivíduos com doenças cardiovasculares e câncer

O Laboratório de Desenvolvimento e Inovação do Instituto Butantan, em São Paulo, realiza estudos com componentes das glândulas salivares de animais hematófagos há décadas, principalmente das espécies brasileiras, inicialmente com sanguessugas e, posteriormente, com carrapatos. Em 2017, o grupo do Instituto Pasteur da Tunísia procurou a instituição de pesquisa brasileira com a intenção de estudar mais de perto as glândulas salivares do carrapato, que é um parasita dos camelos do deserto do Saara chamado Hyalomma dromedarii. Com a parceria, os pesquisadores conseguiram constatar que uma molécula encontrada na saliva desse carrapato tem potencial para ajudar a tratar distúrbios da coagulação, comuns em indivíduos com doenças cardiovasculares e câncer.

O estudo, que foi publicado na revista científica Toxins em dezembro de 2021, identificou que a molécula dromaserpina era capaz de inibir o principal fator da coagulação, a trombina, proteína essencial para a formação dos coágulos sanguíneos, além de interferir na agregação das plaquetas – células da corrente sanguínea responsáveis pela coagulação. Segundo a pesquisadora científica Fernanda Faria, diretora técnica de serviço do Laboratório de Desenvolvimento e Inovação do Instituto Butantan, para combater as reações do hospedeiro, de maneira geral, os carrapatos secretam saliva no local da picada, um coquetel de moléculas biologicamente ativas exibindo atividades anticoagulantes, antiplaquetárias, vasodilatadoras, anti-inflamatórias, imunomoduladoras e inibidoras da resposta à dor e coceira. 

“Sendo assim, é esperado que na saliva de diferentes carrapatos existam esses tipos de moléculas. No entanto, elas podem ser estruturalmente diferentes em espécies distintas e, apesar de trazerem respostas semelhantes para o parasita, podem ter diferentes estratégias de ação”, enfatiza. A dromaserpina foi caracterizada quanto à sua estrutura e principal função biológica, e a atividade inibitória sobre a trombina foi confirmada das mais variadas formas, como ensaios de coagulação globais, interação molécula-molécula e avaliação da ação na função direta que a trombina tem sobre as plaquetas. Os cientistas também comprovaram que existe a formação de um complexo entre o inibidor e a trombina, e que essa ação foi potencializada na presença de heparina – um anticoagulante comumente utilizado na clínica médica. A ação da molécula também foi estudada em outras proteínas envolvidas na coagulação, porém, ocorreu de maneira menos intensa.

A busca por novas moléculas vem sendo explorada para focar em novos interesses farmacêuticos que podem servir como drogas potenciais contra uma variedade de doenças. “Tendo em vista que a trombina, alvo de ação da nossa molécula, está intimamente envolvida em outros processos celulares, ainda temos um vasto campo de investigações com a dromaserpina. Um exemplo é avaliar sua ação em modelos celulares de inflamação e câncer, entre outros”, pontua a pesquisadora Fernanda Faria, ao ressaltar que o resultado apresentado é apenas o primeiro passo para a busca de um novo fármaco, pois ainda há um longo caminho a ser percorrido antes mesmo de iniciarem os estudos in vivo.