Rabdomiólise precisa ser mais conhecida
Lesão muscular causada pelo excesso de atividade física pode levar à morte por falência renal
Definida como uma síndrome clínica laboratorial, a rabdomiólise se caracteriza pela quebra ou ruptura do tecido muscular esquelético que resulta na liberação de diferentes substâncias intracelulares na corrente sanguínea, como mioglobina, potássio e fosfato, que são tóxicas principalmente para o rim e podem causar insuficiência renal aguda, anormalidades eletrolíticas, arritmias e, potencialmente, levar à morte. O problema normalmente ocorre em pessoas saudáveis em decorrência de esforços e exercícios físicos extenuantes, mas também pode ser consequência de traumatismos, ingestão de alimentos contaminados, consumo de álcool e de drogas. Os primeiros sinais podem ser fraqueza, dor muscular e escurecimento da urina, por isso, a síndrome também é conhecida como ‘doença da urina preta’.
Outras possíveis complicações são a síndrome compartimental, edemas, coagulação intravascular disseminada, letargia, fraqueza, náuseas, tontura e sangramento inexplicável. Embora a identificação inicial da rabdomiólise tenha ocorrido após a II Guerra Mundial, em 1941, a síndrome ainda é muito subnotificada em todo o mundo. Isso ocorre porque outras manifestações geram sinais e sintomas parecidos, como dor e fraqueza muscular, aumento de temperatura e da pressão arterial. Além disso, a síndrome pode passar despercebida se o médico achar que tem relação com o infarto, pois o coração é um músculo e também pode liberar substâncias nocivas quando sofre um ataque.
Segundo o professor doutor Gustavo Casimiro Lopes, docente associado e coordenador do Laboratório de Fisiopatologia do Exercício da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o exercício físico pode gerar uma lesão muscular microscópica que libera substâncias no sangue e, ao chegarem ao processo de filtração do rim, passam por uma modificação química e se tornam tóxicas para o órgão, gerando lesão no epitélio renal seguida da vasoconstrição. Essa isquemia diminui o pH sanguíneo, favorecendo a insuficiência renal aguda. “Se o rim começa a sofrer e há a descompensação de outros órgãos e sistemas, pode ocasionar a morte”, alerta. A severidade da rabdomiólise varia individualmente e mesmo pessoas com a capacidade física semelhante, quando submetidas ao mesmo exercício, podem apresentar resposta diferente: enquanto uma desencadeia um quadro clinicamente relevante, a outra não apresenta qualquer quadro clínico.
O diagnóstico é realizado por meio da anamnese para identificar se houve esforço excessivo nas últimas horas e, com exame de sangue, identifica-se a presença de níveis elevados da enzima creatina quinase (CK), que pode estar cinco vezes acima do recomendado. “Outras enzimas também podem estar presentes no sangue, como transaminase glutâmico pirúvica, transaminase oxalacética e lactato desidrogenase. A quantificação é muito empregada em diagnósticos clínicos, pois pode indicar a gravidade da lesão e a origem do tecido lesionado”, complementa o professor Gustavo Casimiro Lopes.
Em indivíduos com a síndrome, em geral a urina fica escura entre 24 e 48 horas após a ruptura muscular. “No entanto, nem sempre a alteração na cor da urina indica a lesão renal aguda e o contrário também é possível, ou seja, o paciente pode estar com a urina clara e ter uma lesão aguda no rim. Somente por meio de um monitoramento bioquímico é possível chegar ao diagnóstico e iniciar o tratamento”, reforça a Capitão de Corveta da Marinha do Brasil, Andréia Carneiro, pesquisadora do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN-Marinha do Brasil), que tem como propósito apoiar a elaboração, condução e divulgação da Política de Educação Física e Desportos para a Marinha do Brasil emanadas pelo Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais (CGCFN), além de apoiar o treinamento de atletas de alto rendimento, dos projetos sociais e de base do Programa Olímpico da Marinha (PROLIM), visando especialmente os Jogos Mundiais Militares e as Olimpíadas. A abordagem terapêutica envolve a prevenção para que o problema não evolua para insuficiência renal aguda. Para isso, o paciente recebe hidratação endovenosa com solução salina para cortar a ação da mioglobina. Alguns estudos experimentais mostram que o tratamento com bicarbonato de sódio aumenta o clearance de creatinina (indicador de melhora da função renal) e diminui o estresse oxidativo.
Movimentos extenuantes levam a um maior risco
A rabdomiólise tem diferentes etiologias, como traumas, fármacos, toxinas e doenças infecciosas que podem gerar lesão muscular. No entanto, é por meio da prática de atividade física de alta performance que mais é diagnosticada. Por esse motivo, especialistas pontuam a necessidade de os professores de Educação Física terem mais conhecimento e atenção especial sobre a síndrome, pois sabe-se que o exercício físico é uma forma de estresse fisiológico e precisa da relação estímulo x repouso para não haver riscos à saúde. O professor Gustavo Casimiro Lopes acentua que a síndrome não é rara, embora seja pouco frequente. No entanto, ninguém precisa deixar de fazer as atividades físicas, uma vez que a prática regular apresenta inúmeros benefícios para a saúde e é utilizada como terapia complementar em diversas doenças. “Existem situações em que forçar o limite é uma necessidade, como no caso de treinamento de atletas profissionais, e a rabdomiólise pode ocorrer em alguns desses esportistas assim como acontecem lesões em jogadores de futebol. Não é erro do exercício ou culpa da entidade, por isso, é importante o acompanhamento profissional”, pontua.
Outro grupo suscetível é formado por militares, pois desenvolvem atividades físicas regulares para aprimorar competências físicas essenciais para tarefas de combate, e treinamentos que envolvem longas caminhadas em condições climáticas adversas. O artigo ‘Rabdomiólise em militares: uma missão de reconhecimento para prevenção’, escrito pela comandante Andréia Carneiro e por pesquisadores de renomadas instituições brasileiras, mostra que o treinamento físico regular, quando executado sem intervalos de recuperação adequados ou em condições climáticas adversas pode ocasionar rabdomiólise por esforço. “O tratamento precoce pode salvaguardar vidas, sendo este o maior patrimônio para as Forças Armadas”, pontua a pesquisadora.
O professor doutor Giuseppe Palmisano, do Laboratório de Glicoproteômica do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), ressalta que os casos de rabdomiólise em militares são muito mais frequentes quando comparados com a população civil, por isso, é necessária a adoção de estratégias de monitoramento antes e após o treinamento físico para evitar as complicações decorrentes da síndrome. “É um cuidado que transcende a saúde, pois, para muitos, ser militar é um sonho de vida. Ser acometido por algo grave pode fazer o indivíduo ser dependente de cuidados médicos e encerrar a carreira”, enfatiza. O conhecimento e a educação sobre a rabdomiólise são fundamentais para que haja planejamento e supervisão profissional do treinamento físico desses indivíduos, assim como a hidratação correta (leia mais na página 14).
Teste diagnóstico para militares
Com base nas condições de treinamento dos militares e nos casos de rabdomiólise neste grupo, pesquisadores do Laboratório de Glicoproteômica do ICB-USP, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do CEFAN-Marinha do Brasil estão trabalhando para desenvolver um teste diagnóstico para a detecção rápida da rabdomiólise e, assim, prevenir o agravamento da crise. Militares em campo não têm como colher sangue rotineiramente e o projeto visa criar um dispositivo que identifique de forma precoce, por meio da urina, se há risco. Se positivo, imediatamente deve ser feita a hidratação venosa do indivíduo para sanar o problema no local. “Atualmente, quando ocorre uma alteração clínica com o militar é preciso evacuá-lo para um hospital para fazer exames de sangue e, se constatada a rabdomiólise, internar. É um processo que ocasiona custo de transporte e hospitalar, principalmente se o indivíduo tiver de ficar internado em um centro de terapia intensiva”, enfatiza a pesquisadora Andréia Carneiro.
O grupo já havia descoberto biomarcadores da rabdomiólise na urina por meio de proteínas específicas que foram identificadas em laboratório com a espectrometria de massas, com amostras coletadas antes e após o exercício de militares da Marinha do Brasil durante três anos. Esses biomarcadores possuem uma patente registrada junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) e o artigo foi publicado na revista científica Journal of Proteomics. Com base nessa descoberta, o projeto de pesquisa foi aprovado na 20ª Reunião de Projetos de Interesse para a Defesa Nacional (20ª REPID), tornando-se estratégico no âmbito do Ministério da Defesa, que está validando os biomarcadores em um público mais amplo de militares da Marinha do Brasil para o desenvolvimento do teste rápido que seja capaz de detectar a rabdomiólise na urina mesmo em condições adversas como, por exemplo, a Selva Amazônica. “Também queremos avaliar se as proteínas identificadas podem ser eficazes para diagnosticar outras formas de rabdomiólise, como a causada pela intoxicação alimentar”, pontua o professor Giuseppe Palmisano. A pesquisadora Andréia Carneiro enfatiza que o principal objetivo do projeto é salvaguardar vidas humanas e atender às necessidades da sociedade civil e dos militares demonstrando, assim, o caráter dual do projeto.
A DOENÇA DE HAFF
A rabdomiólise ficou em evidência após ser diagnosticada em indivíduos que comeram peixes e crustáceos cozidos. Neste caso, trata-se da doença de Haff, uma causa rara da síndrome que tem rápido início após o consumo de certos alimentos e que foi tema do artigo ‘Haff disease in Salvador, Brazil, 2016-2021: attack rate and detection of toxin in fish samples collected during outbreaks and disease surveillance’, publicado no periódico Lancet Regional Health Americas. Os pesquisadores relatam que a teoria mais aceita é que os peixes e crustáceos não produzem as toxinas, mas acumulam no corpo os compostos produzidos por outros organismos, como microalgas, por meio da cadeia alimentar. Ao ingerir os peixes e crustáceos cozidos, as toxinas presentes podem provocar lesões nos músculos dos seres humanos, desencadeando a rabdomiólise.