Psicoterapia auxilia as crianças
Por meio de um trabalho lúdico é possível colaborar para a resolução do sofrimento psíquico infantojuvenil
Foca na mente e no comportamento
O psicólogo Jean Piaget, um dos mais influentes do século 20, sugeria que as crianças não são simplesmente versões menos desenvolvidas de adultos, mas seres que pensam e percebem o mundo de maneira qualitativamente diferente. Da mesma forma, a psicoterapia infantil não é a mesma aplicada para os adultos, pois foca na mente e no comportamento das crianças desde o nascimento até a adolescência. Além disso, utiliza técnicas diferenciadas para entender melhor o desenvolvimento mental, emocional e social das crianças, que ainda não se expressam verbalmente de forma tão clara. O foco do atendimento, que deve ser realizado por psicólogos ou psiquiatras especializados, é ajudar a criança e o adolescente a superar dificuldades emocionais que se contrapõem ao seu desenvolvimento natural.
Embora não exista uma regra de idade mínima para a psicoterapia, a criança a partir dos 2 anos já tem condições de se beneficiar. O protocolo de atendimento começa com uma anamnese feita na entrevista com os pais ou responsáveis com objetivo de detalhar a história de vida da família. Além disso, é importante apurar se houve planejamento da gestação, como foi o surgimento do filho no contexto familiar, as reações do pai, da mãe e da família ao saber da novidade, os impactos que a criança trouxe para aquela família e a reação que provocou nos irmãos. Depois desse detalhamento parte-se para o relacionamento que a criança tem com a família e a escola, para explorar desde quando está havendo alguma alteração de comportamento. “A partir daí, o profissional informa se é o momento de começar a intervenção com a psicoterapia ou se é necessário ter um tempo maior de observação”, ensina a psicóloga Cassandra Pereira França, professora titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Na maioria das vezes, a procura por um psicoterapeuta parte dos pais ou responsáveis. Em geral, isso ocorre quando a criança ou o adolescente apresentam dificuldades que não conseguem mais contornar sem ajuda profissional, tanto em casa quanto na escola. Professores também devem observar o relacionamento com os colegas e atitudes incomuns, como falta de adaptação, estigmatização dos amigos e isolamento social. Em casos menos comuns, o pediatra faz o encaminhamento após os pais se queixarem de alteração no desenvolvimento. Para a psicóloga Cassandra Pereira França, é um privilégio fazer psicoterapia quando criança, ainda mais levando em consideração que a primeira infância é cheia de desafios à compreensão do mundo, fazendo com que as crianças pensem demais e tenham questões metafísicas muito profundas – como ‘de onde viemos’, ‘para onde vamos’ e ‘porque os homens matam’. “Esses são questionamentos que trazem muita angústia. No entanto , por meio da assistência terapêutica é possível ajudar a criança a elaborar os fatos que observa na vida, o que vai trazer um grande alívio ao psiquismo e ajudar no processo educacional”, assegura.
Como a criança não tem discernimento para expressar o que sente, os profissionais utilizam recursos lúdicos para observar o comportamento e trabalhar dificuldades mais evidentes. As sessões envolvem jogos, brinquedos, desenhos, livros, filmes, lápis de cor e outros materiais que possibilitam variadas criações. De acordo com a psicóloga Taís Chiodelli, pesquisadora na área de Psicologia do Desenvolvimento e professora assistente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), esses recursos têm o objetivo de tornar a terapia prazerosa e criar vínculo com a criança. As ferramentas também permitem ao profissional avaliar e observar o pensamento e as dificuldades do paciente, além de controlar questões do ambiente. Essas estratégias são usadas para que o profissional possa encontrar respostas por meio do lúdico, para observar ou intervir. “Por exemplo, com uma criança pouco tolerante à frustração ao perder, trabalhamos com brincadeiras de competição para ensiná-la a lidar com essas situações, ou com jogos colaborativos para que entenda sobre a importância de construir com os pares”, pontua.
Habilidades
A psicoterapia demanda habilidades específicas, pois é preciso conhecer o universo infantil, saber falar sobre personagens, filmes e jogos com os quais estão acostumadas, assim como estar aberto para aprender sobre os assuntos que permeiam o dia a dia infantil. Caso o psicólogo identifique a necessidade, os pais ou responsáveis também poderão ser encaminhados para um trabalho de orientação ou análise. “As crianças têm uma habilidade enorme e afinidade com a análise e a psicoterapia, e conseguem expressar emoções e pensamentos com facilidade”, ressalta a psicóloga Cassandra Pereira França.
Saúde mental como foco
Preocupação com a saúde mental
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em 2022, sua maior revisão mundial sobre saúde mental desde a virada do século 20. O trabalho mostrou que, em 2019, quase 1 bilhão de pessoas – incluindo 14% dos adolescentes do mundo – viviam com um transtorno mental. Diante desses dados, a preocupação com a saúde mental na infância e adolescência vem aumentando. Para a psicóloga Deborah Patah Roz, diretora do Serviço de Psicologia do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr-HC-FMUSP), atualmente os pais mostram-se titubeantes diante do exercício responsável de educar os filhos, impor limites e ser claros com a linguagem sobre o que a criança pode fazer ou não. Junto com a indecisão, os filhos se deparam com pais sem muito tempo e disponibilidade, terceirizando um papel que faziam regularmente no passado.
“Muita criança que é apenas agitada e não tem um contorno externo para se organizar internamente está tendo diagnóstico de transtornos de forma exagerada, por exemplo, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Dessa forma, acabam sendo medicadas e camuflando o verdadeiro problema”, alerta. No entanto, o psicólogo tem instrumentos para fazer uma leitura da dinâmica familiar e do contexto no qual se formou o sintoma de agitação, intervindo por meio da psicoterapia com a criança, desenvolvendo um trabalho com os pais e, quando necessário, com a escola. A psicóloga Taís Chiodelli acrescenta que os pais vivem ‘bombardeados’ com muita informação e têm dificuldade de selecionar o que fazer. Por esse motivo, muitas vezes chegam no consultório com uma hipótese diagnóstica que nem sempre faz sentido. Portanto, é fundamental entender a família, os valores, o contexto e o repertório dessa criança ou adolescente.
De acordo com a psicóloga Taís Chiodelli, a saúde mental de crianças e adolescentes, atualmente, também tem relação com as redes sociais e o uso excessivo de telas. Assim, o estímulo que recebem no dia a dia afeta a maneira de se estruturarem psiquicamente, impedindo que se relacionem socialmente com outras pessoas. Por causa disso, acabam ficando solitários, totalmente influenciáveis, criando vícios em jogos e, muitas vezes, se tornando mais violentos. “Como resultado do uso excessivo de telas podemos ter crianças com dificuldades de socialização, de empatia com o outro, que não sabem esperar e negociar e, ainda, com problemas em lidar com a frustração”, alerta.
A pandemia da Covid-19 também mudou significativamente a saúde mental de crianças e adolescentes, forçando-os a períodos prolongados de isolamento social e longe da escola por muito tempo. O estudo ‘Examining changes in parent-reported child and adolescent mental health throughout the UK’s first Covid-19 national lockdown’, desenvolvido no Reino Unido, analisou as consequências psicológicas do isolamento para crianças e adolescentes entre 4 e 16 anos. Além disso, os pesquisadores avaliaram como os fatores de risco associados e como as trajetórias podem variar para crianças e adolescentes em diferentes circunstâncias.
O resultado mostrou que os níveis gerais de hiperatividade e os problemas de conduta aumentaram ao longo do tempo, enquanto os sintomas emocionais permaneceram relativamente estáveis. Embora as trajetórias de saúde mental variem, aqueles que apresentaram sintomas elevados tinham pai ou responsável com níveis mais altos de sofrimento psicológico, eram portadores de necessidades educacionais especiais e distúrbios do neurodesenvolvimento. O estudo foi publicado em 2021 no Journal of Child Psychology and Psychiatry. •