Propósito de vida ajuda a ter saúde

Encontrar sentido para a própria existência desponta como um elemento central para o bem-estar influenciando escolhas e comportamentos

 

Fernanda Ortiz

 

Em meio às crescentes demandas da vida contemporânea, marcada por rotinas aceleradas, excesso de informações e pressões constantes por desempenho, encontrar sentido para a própria existência desponta como um elemento central para o bem-estar influenciando escolhas, comportamentos e a forma como os indivíduos lidam com os desafios cotidianos. Inspirado no conceito japonês de Ikigai – que significa razão de viver –, esse entendimento propõe o equilíbrio entre aquilo que se ama, o que faz bem, o que o mundo necessita e o que pode sustentar a vida. Mais do que uma filosofia abstrata ou uma missão única e grandiosa, especialistas apontam que o propósito de vida se constrói ao longo da trajetória individual, podendo favorecer maior estabilidade emocional, autocuidado, organização de rotinas equilibradas, resiliência e melhor capacidade de adaptação diante das adversidades, além de possíveis impactos positivos sobre a longevidade.

 

O conceito de propósito de vida não é único nem universal, sendo compreendido de diferentes formas pela Psicologia, Filosofia, Sociologia e Teologia. Em uma perspectiva eurocêntrica, essa ideia está fortemente associada à tradição judaico-cristã, na qual o propósito se relaciona a um percurso de vida capaz de conferir sentido à existência. Neste contexto, o comportamento do indivíduo é influenciado por valores culturais e religiosos que são inicialmente internalizados por meio das figuras parentais e dos primeiros processos de socialização. “Do ponto de vista psicológico, o propósito de vida também pode ser entendido como uma construção que se desenvolve ao longo do tempo, sendo influenciada pelas experiências individuais e pelas demandas sociais”, observa a psicóloga Ana Paula Todaro, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), campus Volta Redonda.

 

A psicóloga Ana Regina Noto, docente da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), acrescenta que não existe um modelo certo ou errado, mas diferentes formas de atribuir significado à própria existência. Para algumas pessoas, o propósito de vida está ligado a conquistas materiais ou pessoais, como riqueza, poder ou status social. Para outras, relaciona-se à superação de dificuldades, como limitações de saúde, físicas ou intelectuais. “Há ainda quem encontre propósito no ato de amar, cuidar e se dedicar às relações com outros seres vivos”, avalia. Esses sentidos são construídos ao longo do desenvolvimento humano a partir de influências ambientais como família, religião e redes sociais, e mesmo por aspectos individuais, a exemplo de traços de personalidade e experiências pessoais.

 

Quando deixa de ser uma ideia conceitual, o propósito de vida pode ser entendido como uma linha mestra que norteia a existência, ao mesmo tempo em que é influenciado por valores individuais. De acordo com a psicóloga Ana Regina Noto, ter um propósito aumenta o nível de motivação pessoal e influencia as decisões diante dos desafios da vida. “Quando uma pessoa tem clareza das metas a serem alcançadas, ainda que de forma inconsciente, tende a buscar coerência entre suas atitudes e seus valores, alinhando buscas e intenções”, observa. Neste processo, o propósito também funciona como um fator organizador do comportamento, ajudando a sustentar escolhas mais consistentes, manter o foco diante de situações de incerteza e desenvolver uma perspectiva mais orientada para o futuro.

 

Impactos na produtividade

No contexto profissional, a sociedade contemporânea é marcada por um ideal neoliberal que valoriza fortemente a individualidade em detrimento da cooperação e do bem comum. “Nesse cenário, o propósito de vida frequentemente se associa ao sucesso, ou seja, à ascensão social, ao acúmulo de bens, status e reconhecimento baseado no mérito individual, reforçando a figura do ‘vencedor’ como ideal”, esclarece a professora Ana Paula Todaro. Esse conjunto de valores influencia escolhas, expectativas e formas de inserção no trabalho, estimulando a competitividade e o desempenho. Paralelamente, a flexibilidade se torna uma exigência constante.

 

Ainda assim, o propósito também pode estar relacionado a maiores níveis de engajamento e comprometimento, uma vez que o trabalho passa a ser percebido não apenas como obrigação, mas como atividade dotada de significado. “Nesse sentido, favorece a motivação intrínseca, a autonomia na tomada de decisões e a disposição para enfrentar desafios e transformar dificuldades em aprendizado”, analisa a psicóloga Ana Regina Noto. Além disso, pessoas com mais senso de propósito tendem a apresentar maior criatividade na resolução de problemas e menor propensão ao esgotamento ocupacional, na medida em que conseguem estabelecer maior coerência entre atividades profissionais e valores pessoais.

 

Sentido costuma mudar com a idade

Cada fase da vida pode envolver propósitos específicos, que se transformam de acordo com as experiências, responsabilidades e prioridades. Enquanto na infância e adolescência o sentido costuma estar ligado ao aprendizado e à formação da identidade, na vida adulta frequentemente se relaciona à construção de carreira, relações afetivas e estabilidade. Já no envelhecimento pode se voltar para a manutenção do bem-estar, ao fortalecimento de vínculos e à busca por atividades que gerem satisfação e significado. Esses propósitos são dinâmicos, acompanhando as mudanças naturais do desenvolvimento humano ao longo do tempo.

 

Em todas as fases, ao atribuir sentido às próprias ações e escolhas o indivíduo tende a lidar melhor com situações de estresse, apresentando maior estabilidade psicológica e menor vulnerabilidade. Esse senso de direção também favorece a adoção de hábitos mais saudáveis e maior adesão a cuidados com a saúde, o que pode refletir em benefícios físicos ao longo do tempo. Em contrapartida, a ausência de propósito pode surgir em determinados estágios da vida, uma vez que o sentido atribuído à existência não é fixo e pode ser influenciado por diferentes transições pessoais.

 

O propósito de vida tem sido cada vez mais explorado em artigos científicos, especialmente nas áreas de Psicologia, saúde e envelhecimento, que buscam compreender sua relação com o bem-estar, a saúde mental e a qualidade de vida. Recentemente, uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Wellington Lourenço Oliveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), destacou que o envelhecimento não é determinado apenas por aspectos biológicos, mas também por elementos subjetivos.

 

A partir de análise transversal baseada nos dados do estudo ‘Fragilidade em Idosos Brasileiros (FIBRA)’, realizada entre 2016 e 2017, a investigação identificou que adultos e idosos com maior propósito de vida tendem a apresentar melhor funcionamento cognitivo, incluindo habilidades como memória, atenção e raciocínio. Os achados sugerem que um elevado propósito de vida pode atuar como uma espécie de proteção contra o declínio cognitivo, possivelmente por incentivar maior autonomia, interações sociais, aprendizagem contínua e capacidade de tomada de decisão.

 

Apesar de ser considerado um agente protetor para a cognição, o propósito de vida não atua de forma isolada. Assim, fatores como nível educacional, condições socioeconômicas, autocuidado, redes de apoio social, saúde física e emocional também desempenham papel fundamental neste processo. “Isso ocorre porque a associação entre ‘ter objetivos’ e ‘perceber sentido na vida’ está associada a menores níveis de estresse, ansiedade e depressão”, destaca o pesquisador.

 

Resumidamente, o propósito de vida não precisa estar vinculado a grandes realizações, podendo emergir de experiências cotidianas como cuidar da família, participar de uma comunidade, desenvolver hobbies ou contribuir com outras pessoas, desde que essas ações sejam percebidas como significativas. Embora o estudo não avalie diretamente a longevidade em termos de tempo de vida, seus achados apontam para um envelhecimento mais funcional e independente. O artigo ‘Higher purpose in life and education were associated with better cognition among older adults’ foi publicado em 2024 no periódico Arquivos de Neuropsiquiatria. •