Os muitos benefícios das frutas brasileiras

Nutrientes e compostos bioativos colaboram com a saúde

e ajudam a prevenir doenças crônicas não transmissíveis

 

Elessandra Asevedo

Especial para Super Saudável

 

Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) geram consequências para a saúde em longo prazo e, frequentemente, exigem tratamento e cuidados prolongados. Entre elas estão câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e pulmonares crônicas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), comportamentos modificáveis como o uso de tabaco, a inatividade física, dieta pouco saudável e consumo excessivo de álcool aumentam o risco. Neste contexto, pesquisadores passaram a estudar o papel das frutas brasileiras na prevenção dessas enfermidades, por serem ricas em nutrientes e compostos bioativos com atividades antioxidante e anti-inflamatória.

 

As frutas nativas brasileiras se diferem das demais principalmente pela origem, adaptação ecológica e composição nutricional. Essas espécies que se desenvolveram naturalmente nos diferentes biomas do Brasil, como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal, se adaptaram às condições de solo, clima e biodiversidade. “Essa adaptação confere a essas frutas alta diversidade genética e perfil único de nutrientes e compostos bioativos, muitas vezes superiores aos de frutas exóticas introduzidas no País”, explica a nutricionista Maiara da Costa Lima, professora doutora e pesquisadora do Departamento de Nutrição do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

 

Os compostos bioativos são substân­cias naturais presentes em alimentos, especialmente hortaliças, frutas e grãos. Embora não sejam nutrientes essenciais, esses compostos exercem efeitos benéficos na saúde, atuando na prevenção e modulação de doenças crônicas e na manutenção do equilíbrio celular, e com efeitos positivos no sistema imunológico. De acordo com o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e membro da The Obesity Society ­(TOS-USA), os compostos bioativos das frutas atuam como protetores celulares naturais, auxiliando o organismo a combater o estresse oxidativo e as inflamações – que são processos ligados à origem das doenças crônicas não transmissíveis. “O mecanismo de ação dos compostos bioativos no organismo é diferenciado e envolve ação antioxidante ao neutralizar os radicais livres”, enfatiza. Quando estão em excesso no organismo, radicais livres podem levar a um estresse oxidativo e danificar as células, favorecendo o envelhecimento precoce e certas doenças, inclusive as crônicas.

 

A concentração desses compostos bioativos pode variar de acordo com a parte da fruta. Geralmente, as cascas e sementes têm maior concentração, por isso, é recomendado o aproveitamento integral. Essas frutas também são ricas em carboidratos, minerais e vitaminas, sendo consideradas de baixa densidade calórica. Além disso, auxiliam na redução do colesterol e na melhora da sensibilidade à insulina ao diminuir a absorção de gorduras, regular a glicose, reduzir inflamações e favorecer o equilíbrio da microbiota intestinal. Ademais, ajudam na sensação de saciedade, pois contêm alta proporção de água, fibras e nutrientes. “Todos esses mecanismos, juntos, protegem contra doenças cardiovasculares e cardiometabólicas”, ensina o médico.

 

Microbiota intestinal e as doenças crônicas

 

 

A relação entre a microbiota intestinal e as DCNT ainda não é totalmente esclarecida. Entretanto, estudos indicam que o ambiente intestinal, quando alterado, pode produzir substâncias que favorecem a inflamação sistêmica de baixo grau. E este seria um dos mecanismos fisiológicos para o desenvolvimento das DCNT. Além disso, a microbiota atua na regulação do sistema endócrino, favorecendo o desenvolvimento ou a perpetuação dessas doenças. Para avaliar os benefícios de frutas brasileiras para a microbiota, pesquisadores do Departamento de Nutrição do Centro de Ciências da Saúde da UFPB desenvolveram a revisão científica ‘Evidence for the beneficial effects of Brazilian native fruits and their by-products on human intestinal microbiota and repercussions on non-communicable chronic diseases – A Review’.

 

O estudo comprovou que polpa, casca e semente de frutas nati­vas brasileiras, como açaí, baru, buriti, jabuticaba, acerola, goiaba, juçara e maracujá, poderiam ajudar para uma microbiota saudável. “Essas frutas são riquíssimas em compostos bioativos que podem modular de maneira positiva a microbiota intestinal, além de mostrarem efeito anti-inflamatório e antioxidante quando presentes na alimentação balanceada”, acentua a pesquisadora Maiara da Costa Lima, principal autora do estudo. Os compostos bioativos não digeridos ou absorvidos durante a passagem pelo trato gastrointestinal chegam ao cólon e ficam disponíveis para serem metabolizados pela microbiota intestinal.

De acordo com a autora, a metabolização desses compostos pode­ria estimular o crescimento de populações microbianas específicas que promovem benefícios à saúde. “Os compostos podem modular a microbiota e levar a efeito ­anti-­inflamatório e antioxidante, quando presentes na dieta balanceada”, acentua. O estímulo à micro­biota pode proporcionar diversos benefícios fisiológicos, como melhora da saúde intestinal, aumento da diversidade e abundância microbiana, além de colaborar para a produção de substâncias capazes de inibir o crescimento de microrganismos patogênicos, regular o apetite e reduzir processos inflamatórios.

 

Pequenos frutos

 

As frutas vermelhas são consideradas boa fonte de nutrientes e compostos bioativos, sendo frequentemente associadas a propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, anticancerígenas, antimicrobianas, antiproliferativas e antineurodegenerativas. Os estudos mostram, ainda, que auxiliam no controle glicêmico e de peso, e têm função cardioprotetora e neuroprotetora. O Brasil possui uma grande diversidade de espécies de pequenos frutos vermelhos distribuídos pelos seis biomas e que ainda são subexplorados, diferentemente das chamadas berries que são reconhecidas e utilizadas em muitas culturas, a exemplo de morango, framboesa, amora, mirtilo e cranberry.

 

Para descrever os aspectos físico-químicos, nutricionais e biológicos de seis pequenos frutos nativos brasileiros, pes­qui­sadores do Departamento de Ciência de Alimentos da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp) realizaram a revisão ‘Small Brazilian wild fruits: Nutrients, bioactive compounds, health-promotion properties and commercial interest’ e analisaram açaí, buriti e pupunha, da família Arecaceae; camu-camu e jabuticaba, da família Mirtaceae; e murici, pertencente à família Malpighiaceae. A revisão destacou o potencial antioxidante, antilipidêmico, anti-inflamatório, antiproliferativo e antigenotóxico dessas frutas, demonstrando que podem apresentar potencial bioativo tão importante quanto as berries convencionais.

 

“Considerando que a indústria alimentícia busca novos produtos, as frutas nativas brasileiras representam uma fonte promissora de ingredientes para o desenvolvimento de bebidas e alimentos com apelo funcional, bem como para suplementos e nutracêuticos”, pontua a nutricionista Ana Paula Pereira, professora doutora do Departamento de Ciência dos Alimentos da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFB) e uma das autoras do estudo. O desenvolvimento de novos produtos e ingredientes à base de frutos nativos tem sido o objeto de estudo da nutricionista, como o bolo produzido com farinha de polpa de baru, que é considerada um subproduto do processamento da castanha de baru. No projeto, foi feita a substituição parcial de farinha de trigo por farinha de polpa de baru. Além de aumentar o aporte de nutrientes, a mudança contribuiu para deixar os bolos com cor e sabor de chocolate, favorecendo a aceitação sensorial do produto.

 

Nativas e naturalizadas

Diversas frutas se destacam pela presen­ça de importantes compostos bioativos. Dentre as nativas brasileiras estão açaí, baru, buriti, jabuticaba, juçara e maracujá, enquanto as naturalizadas incluem goiaba e acerola. Até as menos conhecidas como araçá-boi, cambuití-cipó, murici vermelho, murici guassú, morango silvestre, cambuci, jaracatiá-mamão, juquirioba, fruta-do-sabiá e cajá são importantes fontes de nutrientes. Açaí, jabuticaba e juçara são consideradas ótimas fontes de antocianinas e carotenoides, que contribuem para neutralizar radicais livres e reduzir o estresse oxidativo. Esses compostos são essenciais para evitar o envelhecimento celular e algumas doenças crônicas, como diabetes tipo 2, aterosclerose e alguns tipos de câncer, além de auxiliarem na modulação de respostas inflamatórias. Goiaba, maracujá e acerola são excelentes fontes de vitamina C. Estas substâncias são benéficas por ajudar a retardar a absorção de açúcares, proporcionando um maior controle glicêmico, assim como auxiliar no equilíbrio da microbiota intestinal e da imunidade. O médico nutrólogo Durval Ribas Filho afirma que, embora sejam pouco menos conhecidos em algumas regiões, o baru e o buriti têm como diferenciais os ácidos graxos e poli-insaturados. “Podemos comparar essas frutas às castanhas e aos azeites, por exemplo, o que as torna ricas em gorduras boas que favorecem um efeito cardioprotetor”, pontua.•