O vírus que parou o planeta

Pandemia de SARS-CoV-2 transformou 2020 em um ano repleto de medos, dúvidas e expectativas

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Covid-19 atingiu mais de 64 milhões de indivíduos no mundo em 2020, levando ao óbito aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. O Brasil contabilizou mais de 6 milhões de casos positivos, com número superior a 176 mil mortes (dados de dezembro/2020). A pandemia provocou cientistas e institutos de pesquisas a estudar a gênese do SARS-CoV-2 para entender como esse microrganismo provoca reações tão diferenciadas em cada indivíduo. Evidências apontam que idosos e pessoas com hipertensão, cardiopatias, diabetes e obesidade, entre outras doenças crônicas ou imunossupressoras, são mais vulneráveis, embora indivíduos de todas as idades possam ser acometidos pela doença. O desafio agora é manter os casos sob controle e encontrar a vacina ideal que possa proteger boa parte da população mundial. 

O epidemiologista Paulo Andrade Lotufo, professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), afirma que a pandemia foi o maior desafio da Ciência nos últimos anos, porque o SARS-CoV-2 é diferente de outros vírus recentes – como o que provoca a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) ou mesmo a gripe comum (Influenza). “Além da pneumonia, o vírus causa muitos problemas cardíacos, trombose e tem uma ação mais devastadora do que imaginávamos inicialmente, o que levou ao alto número de mortes”, acentua. 

O SARS-CoV-2 pode exercer ação direta nos receptores ligados ao controle do sistema circulatório e desencadear reações inflamatórias vasculares, comprometendo o endotélio (camada de célula que reveste os vasos sanguíneos). Dados clínicos da literatura médica internacional sugerem, ainda, que uma ‘tempestade de citocina’ – proteína que regula a inflamação e imunidade para combater as infecções – esteja associada aos casos graves. A pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Pretti Dalcolmo, explica que ocorre uma reação hiperinflamatória do sistema imunológico que pode atingir vários órgãos, principalmente em pacientes de risco que desenvolveram complicações. “O coronavírus é um microrganismo de origem animal, muito frequente no meio ambiente. No entanto, sofreu mutação que atravessou a barreira humana e tem grande capacidade de transmissão quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala”, ressalta.

A Covid-19 não tem padrão de acometimento à saúde e é considerada uma doença sistêmica, com alto grau trombogênico, que imprime danos importantes para a microcirculação cardíaca, renal e pulmonar. “Muitos pacientes foram a óbito não por pneumonia, mas por obstrução vascular. Isso mostrou que a doença exige uso de medicações anti-inflamatórias, como corticosteroides, e de anticoagulação precoce”, orienta a pneumologista Margareth Pretti Dalcolmo. Os médicos da linha de frente contra a doença também começaram a empregar a heparinização de anticoagulação nos tratamentos de pacientes internados. Os primeiros resultados de um projeto de pesquisa conduzido pelo Instituto de Farmacologia e Biologia Molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) sinalizaram que, em testes de laboratório, a heparina reduziu em 70% a infecção de células pelo novo coronavírus. 

“Além da heparinização, em alguns casos usamos a técnica de pronação precoce do paciente para melhorar o fluxo de oxigenação e tentar evitar a intubação. Com tudo isso, as chances de sobrevida de um paciente grave são maiores do que no início da pandemia”, assegura o médico infectologista e chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Jaques Sztajnbok. Os primeiros pacientes atendidos no hospital apresentaram embolia pulmonar e trombose de vasos intravasculares, com comprometimento neurológico, cardíaco e de insuficiência renal em quase 40% dos casos. Para o médico, apesar das dificuldades em reconhecer os riscos, trabalhos científicos colaboraram com o desafio de prevenir complicações da doença. 

Em setembro de 2020, por exemplo, dois estudos de metanálise foram publicados  no  Journal of the American Medical Association (JAMA) confirmando a ação positiva dos corticosteroides, em especial a dexametasona, na terapia de complicações da Covid-19. Os fármacos demonstraram redução de aproximadamente 1/3 da mortalidade de pacientes internados com a doença, bem como reduziram o tempo em que os doentes permaneceram intubados recebendo ventilação mecânica. A evidência reafirmou os resultados do ensaio clínico ‘Randomized Evaluation of Covid-19 Therapy (Recovery)’, realizado em junho de 2020 pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, que selecionou aleatoriamente 2,1 mil indivíduos internados com a doença para receber o corticoide dexametasona (além do tratamento convencional), e outros 4,3 mil que receberam a terapia padrão. O estudo constatou que o uso do corticoide, na dose de 6mg por 10 dias, reduziu a mortalidade de pacientes dependentes de oxigênio sob ventilação mecânica em 30%, e aproximadamente 20% na taxa de óbito daqueles que recebiam oxigênio por cateter ou máscara. “Foi a primeira intervenção terapêutica farmacológica que impactou no desfecho da mortalidade da doença”, sinaliza o médico Jaques Sztajnbok.

Comunidade científica em busca da vacina ideal

Desde o início da pandemia, a comunidade científica internacional trabalha para encontrar uma vacina que tenha capacidade de imunizar a população. O desafio é validar, junto às autoridades sanitárias, um imunizante capaz de garantir eficácia contra a doença provocada pelo SARS-CoV-2, identificar os grupos populacionais nos quais pode ser administrado, o número de doses necessárias e o intervalo entre elas. Atualmente, cerca de 200 vacinas estão em desenvolvimento no mundo, algumas em estágios bem avançados. Dessas, 10 candidatas já passaram pelos testes pré-clínicos (in vitro e/ou in vivo) e entraram na terceira etapa, que envolve o estudo em seres humanos, o estabelecimento da imunogenicidade do imunizante e a avaliação da capacidade de estimular o sistema imunológico e produzir anticorpos. 

No Brasil, uma das vacinas na fase III de testes foi desenvolvida na Universidade de Oxford e será disponibilizada por meio de parceria entre o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e a farmacêutica britânica AstraZeneca. A vacina usa a tecnologia de vetor viral não replicante de adenovírus de chimpanzé – que não replica no homem, mas desencadeia a geração de anticorpos que vão proteger o organismo do SARS-CoV-2. “Ainda não existe um marcador imunológico definido para a vacina contra a Covid-19, por isso há tantas e tão diferentes sendo pesquisadas. Mas considero isso muito salutar para a classe científica, porque cria grande expectativa. Acredito que até abril de 2021 estaremos produzindo o ingrediente farmacêutico ativo (IFA) completamente nacionalizado”, avalia a pesquisadora Margareth Pretti Dalcolmo. 

Outro imunizante é a Coronavac, resultado da parceria entre o Instituto Butantan, de São Paulo, com a farmacêutica chinesa Sinovac BioNTech – prevista para começar a ser aplicada em janeiro, em São Paulo, caso seja aprovada pela ANVISA. No rol de vacinas constam, ainda, a BNT162b2, da Pfizer e BioNTech (já aprovada em alguns países); a Ad26COVS2.S, da Janssen-Cilag; e a Sputinik V, do Instituto de Pesquisa Gamaleya, da Rússia – já utilizada naquele país (com informações disponíveis até o fechamento desta edição). “Esse processo está andando muito rápido, se considerarmos o tempo de identificação do vírus. Isso é inédito para a Ciência”, destaca o epidemiologista Paulo Andrade Lotufo. Mesmo que as vacinas gerem boas expectativas, os pesquisadores mantêm o propósito de analisar como o vírus se comporta de forma nociva no organismo para entender como mitigar essa ação.