O poder do perdão para a saúde física e mental
Perdoar reduz o estresse crônico, a ansiedade e a pressão
arterial, melhora o sono e leva ao bem-estar integral
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
O perdão é descrito como uma atitude consciente de se libertar e um caminho para abandonar a mágoa e o ressentimento, curando as feridas abertas por ofensas, erros ou traições – tanto as cometidas por outra pessoa quanto por si mesmo. Quando praticado, esse ‘remédio para a alma’ pode trazer benefícios significativos para a saúde física e mental. Achados na literatura indicam que, além de reduzir o estresse crônico, os sintomas de ansiedade e a pressão arterial, o perdão pode melhorar a qualidade do sono e o bem-estar integral. Apesar de parecer simples, o ato de perdoar verdadeiramente nem sempre é uma tarefa fácil, especialmente diante de situações muito dolorosas. Portanto, perdoar envolve muito mais do que esquecer e se baseia na compreensão de que esse é um processo íntimo, delicado e, por vezes, moroso para que o indivíduo possa liberar o peso emocional e encontrar a paz interior.
De acordo com o médico urologista e doutor em Ciências Médicas José Genilson Alves Ribeiro, vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (FM-UFF) e professor da Disciplina Medicina e Espiritualidade na Instituição, o perdão é muito mais do que uma simples atitude. “Perdoar é um processo de equilíbrio mental e espiritual que busca cessar um ressentimento tóxico, que geralmente vem acompanhado de outras sensações negativas”, observa. Portanto, perdoar requer habilidade, reconhecimento da dor, autoperdão, decisão consciente, compaixão, generosidade, libertação e cura. Em suma, perdoar racionalmente possibilita deixar rancores no passado e aplicar a força vital em questões que, de fato, auxiliam o bem-estar e a prosperidade pessoal.
Culturalmente, a definição de perdão possui uma conotação subjetiva e moral, ou seja, um ato de transformação que resgata e, de certa forma, torna as pessoas melhores. Entretanto, psiquicamente vai além, pois o verdadeiro perdão envolve reparação. “Podemos nos sentir culpados ou vítimas de atos, palavras ou pensamentos, mas, para perdoar, é preciso reconstruir a experiência. Esse processo ocorre por meio da retomada específica e rigorosa dos afetos que estavam envolvidos, do cuidado, das intenções, dos valores, do confronto entre versões e das consequências geradas”, avalia o psicólogo e psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Contudo, o perdão não anula a responsabilidade das ações passadas, embora seja uma escolha o deixar de lado a carga emocional negativa e aprender com a experiência.
O cardiologista Álvaro Avezum Júnior, diretor científico do Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DEMCA-SBC) e do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, acentua que somente o perdão verdadeiro – que muda os sentimentos em relação ao indivíduo agressor ou traidor – possibilitará o progresso para a cura emocional. “Na espiritualidade, este é um processo de libertação que beneficia mais quem perdoa do que quem é perdoado. Além disso, pode ser um catalisador para a transformação pessoal, o amor-próprio e o autoacolhimento, essenciais para perspectivas mais positivas, para a cura emocional e a reconciliação interna”, descreve. Quando concretizado, o perdão também é determinante para a evolução espiritual.
Os especialistas lembram que perdoar é uma escolha e uma lição a ser aprendida que requer cuidado e paciência. “Ainda que pareça simples, para muitas pessoas perdoar é uma decisão difícil. Falta de reconhecimento da culpa, medo da repetição, expectativas não atendidas, traumas envolvidos ou a ausência de um pedido de desculpas também podem dificultar esse processo e até mesmo causar adoecimento”, analisa o médico José Genilson Alves Ribeiro. Neste contexto, o autoperdão torna-se ainda mais difícil, pois requer reconhecer os próprios erros ou comportamentos, liberando-se da culpa e do arrependimento.
Assim, substituir sentimentos negativos por compaixão, otimismo e empatia é um dos propósitos do perdão. “Perdoar não reflete fraqueza, mas maturidade emocional e espiritual, resiliência e disposição para evoluir”, resume o médico Álvaro Avezum Júnior. Esse aprendizado visa demonstrar que o indivíduo precisa compreender o posicionamento de quem deve desculpas e trabalhar o orgulho. Ademais, é preciso considerar as consequências, especialmente quando o perdão envolve familiares, colegas de trabalho ou pessoas que impactem as interações íntimas. O cardiologista afirma que, caso nenhuma dessas atitudes seja suficiente, um profissional de saúde mental poderá oferecer um espaço seguro para explorar sentimentos e desenvolver mecanismos saudáveis para que o indivíduo possa lidar com essas emoções.
Ressentimentos levam ao adoecimento
A dificuldade de perdoar pode levar a um processo de adoecimento, pois, quando o ressentimento se torna tóxico e persistente, provoca uma alteração no eixo hipotálamo-hipofisário – responsável pela integração dos sistemas nervoso e endócrino. “Quando alterado, esse eixo pode causar estresse crônico e afetar o sistema imunológico, sendo um fator de risco para problemas que impactam a saúde física e mental”, explica o médico José Genilson Alves Ribeiro. Esses sentimentos emocionalmente desgastantes, ‘ruminados’ muitas vezes por anos, impedem o indivíduo de seguir adiante, dar um novo passo na vida e se libertar dessas amarras que causam dor, tristeza e ansiedade.
O cardiologista Álvaro Avezum Júnior acrescenta que achados na literatura apontam que existe uma associação entre indivíduos sem disposição ao perdão e doenças cardiovasculares. Por exemplo, sempre que uma situação ainda não perdoada é recordada, no corpo físico o evento é todo revivido. Essas memórias causam uma descarga de adrenalina e do hormônio cortisol que liberam marcadores nocivos ao equilíbrio interno, levando ao aumento da frequência cardíaca, vasodilatação e hipertensão arterial. Quando associados a hábitos de vida pouco saudáveis, esses eventos podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares, especialmente em indivíduos predispostos. “Se isso ocorre ocasionalmente não há com o que se preocupar. No entanto, se o episódio é relembrado com regularidade, bombardeia o corpo com hormônios e marcadores que prejudicam o bem-estar, causam estresse crônico e aumentam o risco de um ataque cardíaco”, alerta.
Em contrapartida, o ato de perdoar tem um fator protetivo para a saúde e para uma vida mais plena. De acordo com os especialistas, a literatura e a prática clínica sugerem que quando a culpa, o ressentimento e o rancor são absolvidos através do perdão, o corpo responde positivamente. Por exemplo, a redução do estresse em decorrência dos baixos níveis de cortisol – que são mais altos quando alimentados por pensamentos negativos – previne o risco de processos metabólicos, como o diabetes, e de hipertensão arterial, protegendo a saúde cardiovascular. Além disso, ocorre uma melhora na qualidade do sono e na fadiga, assim como o fortalecimento do sistema imunológico. Juntos, esses fatores contribuem para a saúde integral e podem ter um impacto positivo, inclusive na longevidade.
Além da saúde física, o perdão traz benefícios significativos para a saúde mental e relacional, assim como à vida em família. O psicólogo e psicanalista Christian Dunker afirma que quando sintomas baseados em ressentimentos e na negação, de ódio, vitimismo ou culpa são liberados, o indivíduo se sente mais leve e emocionalmente equilibrado – tanto o que perdoa quanto o que é perdoado. “Além disso, pode apresentar melhora na autoestima, na autoconfiança, na saúde emocional e até mesmo no fortalecimento de relacionamentos, seja restaurando a confiança ou deixando partir aqueles que não agregam mais valor, abrindo espaço para novas conexões”, reforça. Todos esses aspectos contribuem para o bem-estar e a saúde mental, pois estão envolvidos na superação do sofrimento, no controle da raiva e do rancor, sintomas geralmente associados à ansiedade e à depressão. •