O poder da imposição de mãos
Ao equilibrar a energia vital, a prática
restaura o bem-estar físico, mental e emocional
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
Direcionada para as tradições do cuidado, a prática de imposição de mãos é uma das expressões mais ancestrais da humanidade, com registros que remontam ao Antigo Egito. Através do simples ato de colocar as mãos sobre a pessoa – com ou sem toque físico –, é possível equilibrar a energia vital e restaurar o bem-estar físico, emocional e mental. Presente em diversas culturas e tradições religiosas ao redor do mundo, essa técnica tem nomes e objetivos variados, mas sempre carregando o propósito de transmissão, consagração, bênção, acolhimento, promoção ou restabelecimento do bem-estar. No cuidado voltado à saúde os benefícios são numerosos, incluindo redução do estresse e da ansiedade, equilíbrio emocional, melhora na qualidade do sono, relaxamento, melhor funcionamento do sistema imunológico, alívio da dor e de quadros inflamatórios, aumento da sensação de bem-estar e melhor circulação sanguínea.
As terapias de imposição de mãos não envolvem a aplicação de força e, quando o toque acontece, é muito suave, quase imperceptível. De acordo com o professor e Ph.D. em Saúde Coletiva Ricardo Monezi, coordenador dos Cuidados Integrativos em Oncologia do A.C. Camargo Cancer Center e docente da Pós-graduação em Saúde Integrativa da Faculdade de Educação em Ciências da Saúde (FECS) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, as mãos sobre o corpo se movem como um canal visível para uma ação invisível. “Independentemente da vertente filosófica, o praticante atua como um intermediário meditativo para a energia vital. Ao direcionar as mãos para pontos específicos, ajuda a identificar e corrigir desequilíbrios no campo energético do paciente. Como resultado, promove a restauração do fluxo natural e, consequentemente, a harmonia do corpo e da mente”, explica. Apesar de o toque não ser invasivo, o paciente pode sentir uma sensação de calor ou um leve formigamento.
Praticada há séculos em diferentes culturas, as manifestações possuem abordagens específicas. Na prática religiosa, o passe espiritual é uma das principais técnicas de imposição de mãos. “Nele, os médiuns passistas canalizam energia, seja do próprio praticante, de bons espíritos ou de ambas as fontes. O objetivo é auxiliar no tratamento de condições espirituais, físicas ou emocionais, proporcionando alívio, relaxamento e estímulos para processos de cura”, descreve o professor. O Okiyome é uma técnica japonesa utilizada na prática do Seicho-No-Ie que trabalha pela restauração do equilíbrio energético, estimulando o processo de autocura e a conexão com a fonte espiritual. Já o Johrei, praticado na religião messiânica japonesa, busca a cura física e emocional, a purificação e a elevação da consciência através da canalização de uma energia espiritual luminosa. Em diferentes credos e filosofias, até mesmo o simples ato de estender as mãos pode ser o primeiro passo para o recebimento de uma bênção ou energia para o bem-estar.
Integralidade
Uma das principais características dessas práticas é a multidimensionalidade, ou seja, o cuidado voltado para o ser humano na sua integralidade e não com foco direcionado, por exemplo, ao tratamento de doença. O pesquisador observa que, mais do que canalizar e transmitir energia vital para o cuidado biológico de órgãos e sistemas, a imposição de mãos promove o cuidar psicológico composto de respeito, emoções, sentimentos e comportamentos. “Essa conexão entre indivíduo físico/emocional e ambiente se baseia na crença de que tudo está interligado e que, portanto, zelar por esse ecossistema deve ser visto como uma prioridade de cuidado global”, destaca. Além da intenção de cuidar, as terapias estabelecem efeitos positivos no próprio terapeuta, por exemplo, relaxamento, redução do estresse e equilíbrio energético.
Para o pesquisador, que há mais de duas décadas estuda a efetividade dessas práticas, a terapia da imposição de mãos é promotora de qualidade de vida, pois oferece uma série de benefícios para a saúde física, mental e emocional. “Além disso, quando aplicada com regularidade auxilia no tratamento de condições crônicas, cardíacas e metabólicas, reduz efeitos colaterais da quimioterapia e da radioterapia, e tem sido uma importante aliada nos cuidados paliativos para pacientes, hospitalizados ou não, em estado terminal”, aponta.
Prática integrativa e complementar em saúde
Diante do reconhecimento dos benefícios terapêuticos associados à qualidade de vida, saúde e bem-estar, a prática da imposição de mãos foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em março de 2018, através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). Entre as terapias disponíveis estão o Toque Terapêutico, que se concentra no campo energético do corpo promovendo fluxo de energia vital e estímulo à restauração do equilíbrio físico, emocional e espiritual. A terapia de Barra de Access envolve toques suaves em pontos específicos na cabeça, proporcionando relaxamento profundo, clareza mental, harmonia e uma maior expansão de consciência e transformação pessoal; enquanto o Reiki é mais disseminado e uma das principais vertentes da prática de imposição de mãos.
Apesar de ser uma iniciativa conhecida da saúde pública desde a década de 1990, o Reiki foi oficialmente implantado como Prática Integrativa e Complementar em Saúde (PICS) em 2017. Secular, altamente eficaz, acessível e sustentável, é um recurso terapêutico reconhecido como aliado aos métodos convencionais da Medicina. “O Reiki é uma terapia energética, sem vínculo religioso, que tem como principal objetivo estimular mecanismos naturais do corpo, seja em busca de recuperação de saúde no processo do adoecimento ou para a manutenção da homeostase e do equilíbrio físico, emocional, mental e espiritual”, descreve a enfermeira, professora doutora e pesquisadora Mariana Lopes Borges, pós-doutoranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP), vice-coordenadora do projeto extensionista Reikilibra USP da EERP-USP e preceptora da Liga Acadêmica Interprofissional de Espiritualidade em Saúde e Cuidados Paliativos da USP-Ribeirão Preto (LESCP-USP).
Desenvolvido pelo monge budista Mikao Usui a partir de conhecimentos milenares da Medicina Oriental, o Reiki é um termo japonês que significa ‘energia vital universal’, combinando as palavras Rei (universo, espírito, alma) e Ki (energia vital). Através da canalização da energia Reiki direcionada a pontos específicos, a técnica ativa os corpos físico, mental, emocional e espiritual. “Trata-se também de um convite à felicidade por meio da prática dos cinco princípios da terapia: ‘eu sou grato’, ‘eu sou calmo’, ‘eu confio’, ‘eu trabalho honestamente’ e ‘eu sou bondoso’. Através deles, o terapeuta ou praticante de Reiki busca atingir níveis energéticos mais sutis, melhorando o padrão vibratório energético e, com isso, pode obter uma maior percepção e consciência global, inclusive de saúde”, enfatiza a pesquisadora.
Entre os benefícios reconhecidos cientificamente do Reiki estão a melhora dos parâmetros vitais – frequência cardíaca, respiratória e estabilização de pressão arterial; qualidade laboral, resolução de conflitos, motivação e produtividade das equipes de saúde; redução do estresse e ansiedade. Ademais, promove melhor resposta de sintomas relacionados às doenças crônicas e tratamentos de saúde; controle do estresse no pré e pós-cirúrgico; redução e controle da dor oncológica. “Além disso, através da canalização de energia Reiki, a terapia contribui para a mudança de padrões de pensamentos, humor, atitudes e sentimentos podendo, por exemplo, ser um instrumento protetivo contra sintomas depressivos”, destaca a enfermeira. Durante o doutorado na EERP-USP, a professora Mariana Borges avaliou os níveis de estresse, ansiedade e taxa gestacional de mulheres inférteis em tratamento na reprodução assistida (RA) utilizando o Reiki como intervenção clínica complementar.
O ensaio clínico controlado, aleatorizado e simples mascarado contou com 40 mulheres distribuídas em três grupos: mulheres que receberam o Reiki, as que receberam placebo e o grupo controle. A técnica foi aplicada em três momentos considerados de grande tensão para as mulheres no processo de RA. O primeiro no ciclo basal, que corresponde à estimulação ovariana; o segundo no dia da transferência de embriões e o terceiro na fase lútea média, uma semana após a inseminação. Os resultados mostraram que as mulheres do grupo Reiki tiveram maior redução dos níveis de ansiedade (com valor estatístico significante) e maior sucesso na taxa gestacional. “Ao equilibrar corpo e mente, a terapia auxiliou a liberação de bloqueios emocionais que podem interferir no tratamento assistido. Como resposta, as mulheres que receberam Reiki reduziram os níveis de ansiedade em comparação aos outros grupos”, destaca.
Apesar de não haver diferença estatística para gestação, as taxas gestacionais foram maiores quantitativamente em mulheres que receberam o Reiki (42,9%) em relação ao placebo (38,5%) e ao grupo controle (15,4%). Por outro lado, não houve diferença estatística significante da variável estresse nos três grupos. Contudo, alguns domínios do instrumento de avaliação do estresse apresentaram redução, o que aponta relevância clínica com a utilização do Reiki. O artigo da pesquisa foi aceito pela revista científica Acta Paulista de Enfermagem e será publicado em breve. A tese de doutorado ‘Efeito do Reiki na redução da ansiedade, sucesso gestacional e estresse em mulheres inférteis na reprodução assistida: ensaio clínico controlado, aleatorizado e mascarado’ está disponível e pode ser lida na Biblioteca Digital da USP: doi.org/10.11606/T.22.2024.tde-25062024-104425.
Para o pesquisador Ricardo Monezi, mesmo que não tenha poder de cura, o Reiki e outras técnicas de imposição de mãos atuam como uma força que nutre energeticamente cada célula e órgão do corpo. Com isso, proporcionam um estado de bem-estar quase imediato. “Com caráter complementar, as técnicas não substituem nenhum tratamento médico convencional. Entretanto, como ferramenta terapêutica ajudam a aumentar imunidade, relaxamento, equilíbrio da mente e sensação de paz”, garante. Esses fatores, quando interligados, contribuem para a recuperação da saúde e a promoção da qualidade de vida. •