O eixo intestino-microbiota na sepse

Estudos mostram que o microbioma interage com as vias imunológicas,
influenciando na resposta inflamatória desta grave condição

 

Adenilde Bringel

 

Os cientistas têm demonstrado que o microbioma intestinal é um influenciador-chave na sepse, uma vez que a disbiose causada pelo uso de antibióticos de amplo espectro durante o tratamento dessa condição pode resultar em desregulação imunológica. Mais recentemente, os pesquisadores passaram a investigar como o microbioma em vários locais de colonização, como pulmão, pele e intestino, poderia influenciar essa desregulação imunológica que se desenvolve durante a sepse. Alguns estudos já conseguiram demonstrar, por exemplo, que a ruptura da barreira intestinal durante a sepse permite que bactérias e toxinas migrem para a circulação – a chamada translocação bacteriana – perpetuando a inflamação e podendo levar ao choque séptico e à disfunção de órgãos, comumente associada a este quadro clínico. De acordo com alguns autores, já existem evidências convincentes de que o microbioma desempenha um papel significativo na ocorrência, no curso e no resultado da sepse por meio de seus efeitos na desregulação imunológica que leva à falência de órgãos. Assim, os cientistas acreditam que, no futuro, terapias direcionadas à microbiota podem ser usadas para impulsionar uma resposta imune favorável durante doenças críticas.

 

No artigo de revisão ‘Sepsis and the microbiome: a vicious cycle’, publicado em 2021 no The Journal of Infectious Diseases, por exemplo, pesquisadores norte-americanos afirmam que alterações resultantes da sepse e seu tratamento no microbioma intestinal têm sido implicadas na disfunção de diferentes órgãos, incluindo pulmão, rim e cérebro. Pesquisadores chineses também concluem, no artigo ‘The gut-liver axis in sepsis: interaction mechanisms and therapeutic potential’, que a lesão hepática induzida por sepse é um forte preditor de morte nas unidades de terapia intensiva, com evidências epidemiológicas que demonstram conversas cruzadas íntimas entre o intestino e o fígado. Segundo os autores, a ruptura da barreira intestinal e a disbiose da microbiota intestinal durante a sepse resultam na translocação de padrões moleculares associados a patógenos intestinais e a danos no fígado e na circulação sistêmica.

 

Uma das grandes preocupações da sepse envolve prematuros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 1 em cada 10 bebês nasce prematuro no mundo, o que equivale a aproximadamente 1,2 milhão apenas na região das Américas. A sepse neonatal pode acometer tanto recém-nascidos a termo quanto pré-termo, principalmente aqueles com peso inferior a 1.500 gramas. E uma das causas da prematuridade pode ser a ruptura prematura de membranas (PPROM, na sigla em inglês), que está associada à disbiose vaginal. “Esse desequilíbrio na microbiota vaginal da gestante ocorre em praticamente um terço dos casos de partos prematuros”, afirma o bioquímico mestre em Microbiologia e doutor em Patologia pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Luiz Gustavo dos Anjos Borges. Um dos fatores para a alteração da microbiota vaginal é a atividade sexual, mas esse microambiente também sofre influência da alimentação, de questões hormonais e do uso de antibióticos pela gestante.

 

No estudo ‘Vaginal and neonatal microbiota in pregnant women with preterm premature rupture of membranes and consecutive early onset neonatal sepsis’, desenvolvido no Helmholtz Centre for Infection Research (HZI), na Alemanha, os pesquisadores avaliaram a composição microbiana vaginal de gestantes com PPROM e seu desenvolvimento sob antibioticoterapia padrão. “Além disso, avaliamos a utilidade da microbiota vaginal para a previsão de sepse neonatal de início precoce e investigamos a microbiota neonatal no nascimento como um possível espelho da microbiota in útero”, informa o microbiologista Luiz Gustavo dos Anjos Borges, principal autor do estudo. O grupo entrevistou um grande número de mães atendidas pelas maternidades e clínicas neonatais colaboradoras do estudo. Assim, foram selecionadas 78 gestantes que chegaram com algum sintoma de ruptura de membranas e em um estágio de gravidez que sinalizava um caso de nascimento prematuro.

 

Risco

O estudo envolveu apenas casos em que o risco era maior, ou seja, gestação com 22 a 34 semanas. O microbiologista explica que não é exatamente o parto prematuro que vai dar mais risco para o bebê em termos de sepse, mas o tempo em que ficou exposto a microrganismos durante a gestação. Por esse motivo, o primeiro ponto a observar é o motivo pelo qual houve a ruptura de membranas. “Se a ruptura ocorreu por uma inflamação bacteriana na membrana placentária, isso indica um risco de infecção do feto. Então, o feto pode ser invadido por alguma bactéria ou entrar em contato com uma bactéria e isso pode se prolongar por semanas até que haja total rompimento da placenta para que ocorra o nascimento”, detalha. Por causa disso, este seria o principal ponto de relação entre a ruptura prematura da membranas com a sepse neonatal.

 

Embora normalmente a membrana placentária proteja totalmente o bebê e o líquido amniótico de qualquer possibilidade de presença bacteriana ou microrganismo, existem alguns casos em que a membrana não está totalmente íntegra e um deles é a condição da mãe durante a gravidez. O pesquisador explica que existem vários fatores que podem levar à ruptura de membranas, e um dos mais importantes é uma infecção bacteriana causada por um microrganismo invasor que ascende do canal vaginal para o útero e acaba causando esse rompimento ou essa infecção. “Isso pode ocorrer por qualquer questão de saúde ou comportamento, por exemplo, durante uma atividade, por choque ou trauma. E, infelizmente, não existe uma forma única para evitar”, acentua. Ademais, fumo e álcool também são fatores relacionados. Portanto, é uma questão de cuidado no comportamento, na alimentação e na saúde geral para que a gestante tenha tecidos íntegros e bem formados que evitem a prematuridade e o consequente risco para o feto.

 

Pesquisa investiga o perfil patogênico implicado na sepse neonatal

 

A sepse é classificada como precoce quando surge nas primeiras 48 horas de vida, e tardia quando começa após este período. De acordo com a literatura, por ser uma condição de difícil diagnóstico devido à baixa acurácia dos exames complementares e a sinais clínicos inespecíficos, a escolha da antibioticoterapia empírica tem sido utilizada para a redução da morbimortalidade. Alguns estudos sugerem que o principal fator de risco para a sepse neonatal precoce é a colonização materna por Streptococcus beta hemolítico do grupo B (GBS), bem como pela bactéria Escherichia coli, que seriam responsáveis por aproximadamente dois terços das infecções de início precoce. Outro agente bacteriano associado é o Staphylococcus aureus – incluindo os resistentes à meticilina – que é um patógeno potencial na sepse neonatal e pode ser adquirido na comunidade.

 

“Outras bactérias Gram-negativas como a Klebsiella, ­Enterobacter e Citrobacter spp estão associadas às infecções de início tardio, sobretudo em bebês internados nas unidades de terapia intensiva neonatal”, afirmam os autores do estudo ‘Perfil da microbiota associada à sepse neonatal em uma maternidade de referência do Estado do Pará’, com orientação da professora doutora Salma Brito Saraty, professora adjunto da Universidade Estadual do Pará e membro/líder do Grupo de Pesquisa do Hospital Santa Casa de Misericórdia do Pará. Para determinar o perfil patogênico implicado na sepse neonatal e a resistência aos antimicrobianos, os pesquisadores Bianca Evelyn Piedade Sena e Erick Sena Santos analisaram 803 prontuários de neonatos nascidos entre 2020 e 2022 na maternidade de referência daquele Estado, que tiveram o diagnóstico clínico de sepse com hemoculturas positivas.

 

Os pesquisadores coletaram informações sobre tipo de sepse (tardia ou precoce), sexo da criança, espécie infecciosa, resistência/sensibilidade aos antimicrobianos e desfecho clínico dos casos – sobrevivência ou óbito. “O Staphylococcus epidermidis foi o microrganismo mais frequente nos bebês com sepse (56,29%) e foi resistente para os antibióticos oxacilina e clindamicina, frequentemente usados para esta cepa”, descreve a médica Bianca Evelyn Piedade Sena. A Klebsiella pneumoniae foi observada em 36,57% dos casos e associada ao óbito dos bebês, pois demonstrou multirresistência para os antibióticos ampicilina, cefepima, ceftazidima, cefuroxima e ceftriaxona. A sensibilidade foi observada apenas para meropenem, amicacina e imipenem, que são antibióticos potentes de amplo espectro utilizados no tratamento de infecções hospitalares graves, especialmente aquelas causadas por bactérias Gram-negativas multirresistentes.

 

A médica Bianca Evelyn Piedade Sena afirma que a adoção de uma terapia apropriada e imediata no início dos sinais e sintomas da sepse neonatal evitaria as infecções persistentes e resistentes. “Porém, o tempo prolongado dos resultados dos métodos diagnósticos tradicionais pressionam para a adoção de terapias empíricas que elevam o risco de multirresistência e, consequentemente, de óbito”, lamenta. Uma alternativa para agilizar a detecção microbiana seria a adoção de ferramentas da biologia molecular nas unidades de referência neonatal, tal como o PCR em tempo real multiplex que, ao mesmo tempo, detecta o agente infeccioso e é capaz de verificar a presença de genes de resistência/sensibilidade da cepa infectante. Uma vantagem desse método é a alta sensibilidade e especificidade, além de o tempo para liberação do resultado ser bem menor do que os métodos atualmente usados.

 

A microbiota do mecônio como um preditor de sepse precoce

 

O mecônio é a primeira evacuação do recém-nascido, caracterizada por ser uma substância espessa, pegajosa e de cor verde-escura ou preta. Formado no final do período – quando o bebê ingere líquido amniótico, células da pele, muco e bile acumulada no intestino durante a gestação –, geralmente é expelido nas primeiras 24 a 72 horas de vida. Estudos mostram que o mecônio é menos diversificado em recém-nascidos que desenvolverão infecção. Portanto, as evidências sugerem que a falta de colonização por bactérias não patogênicas facilita a colonização por microrganismos patogênicos e, consequentemente, aumenta o risco de doenças infecciosas. Além disso, o uso prolongado de antibióticos pela mãe e pelo recém-nascido, a demora em iniciar a dieta enteral e a instabilidade hemodinâmica dos prematuros tende a provocar uma redução da diversidade microbiana, prejudicando a integridade da barreira mucosa intestinal e aumentando o risco de infecções.

 

Um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) determinou a microbiota intestinal do primeiro mecônio de recém-nascidos prematuros com idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas para verificar sua associação com sepse neonatal precoce clínica. Como o mecônio não é estéril, o foco da pesquisa era buscar uma melhor compreensão do padrão inicial de colonização da microbiota intestinal em recém-nascidos prematuros para avaliar se poderia ser uma ferramenta útil para melhorar o diagnóstico e o tratamento da sepse neonatal precoce. Conduzido pela médica neonatologista Laura Vargas Dornelles sob orientação dos professores Rita de Cássia dos Santos Silveira e Renato Solbelmann Procianoy, o estudo ‘A microbiota do mecônio como um preditor de sepse neonatal precoce clínica em recém-nascidos prematuros’ foi o tema de sua dissertação de mestrado na Unidade de Neonatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da UFRGS.

 

A médica explica que a sepse precoce ocorre nas primeiras 72 horas de vida do bebê e que o diagnóstico padrão-ouro da infecção é a hemocultura. Porém, a taxa de positividade da hemocultura é muito baixa na sepse precoce, uma vez que a infecção confirmada pelo método ocorre em menos de 1% de todas as admissões neonatais. Dentre os casos confirmados, a literatura mostra que há cerca de 10% de mortalidade. “O diagnóstico precoce é um grande desafio, principalmente no prematuro, devido à potencial gravidade da sepse associada à apresentação clínica inespecífica”, resume. Dentre os fatores de risco estão bolsa rota por mais de 18h, trabalho de parto prematuro sem outra causa, febre materna ou diagnóstico confirmado de corioamnionite. Devido a essa dificuldade de fazer diagnóstico é que surgiu o interesse em analisar o mecônio de prematuros com idade gestacional ≤32 semanas.

 

“Queríamos entender se existe diferença entre o mecônio do bebê que teve sepse precoce e daquele que não teve”, acentua a médica Laura Vargas Dornelles. Assim, foi desenvolvido um estudo de coorte prospectivo controlado por meio da análise da primeira evacuação de 84 prematuros nascidos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre – 40 com sepse e 44 sem o problema (grupo controle). O resultado mostrou que o filo mais abundante encontrado no mecônio nos dois grupos foi Proteobacteria, que era mais prevalente no grupo sepse. Outros gêneros bacterianos mais associados ao grupo sepse foram Paenibacillus, Caulobacter, Dialister, Akkermansia, Phenylobacterium, Propionibacterium, Ruminococcus, Bradyrhizobium e Alloprevotella, enquanto no grupo controle era o Flavobacterium.

 

“Os achados indicam que a microbiota do primeiro mecônio de recém-nascidos prematuros realmente é dif­erente quando há o diagnóstico de sepse neonatal precoce clínica”, afirma. Segundo a médica, a identificação de comunidades bacterianas específicas de risco poderia levar ao desenvolvimento de biomarcadores alternativos para o diagnóstico precoce do problema. Entretanto, a aplicabilidade clínica da avaliação da microbiota ainda é bastante complicada e desafiadora, porque o bebê prematuro pode levar mais de 72 horas para eliminar o primeiro mecônio, o que inviabiliza seu uso para o diagnóstico de sepse precoce. Esta condição está muito relacionada ao ambiente intraútero, ao momento do nascimento, ao tempo de ruptura da bolsa e a outros fatores, como mãe internada em ambiente hospitalar.

 

Microbiota materna

A neonatologista lembra que é sempre importante orientar as gestantes a adquirirem hábitos saudáveis, incluindo uma alimentação balanceada, diversificada e com alimentos provenientes da natureza. “Sabemos que existe um equilíbrio entre os microrganismos presentes na microbiota intestinal, enquanto seu ­desequilíbrio está associado a um possível aumento das bactérias patogênicas presentes neste ambiente. E isso pode levar à  infecção local ou à distância”, sinaliza. O artigo foi parte de um amplo estudo de análise de microbiota desenvolvido na UFRGS e no HCPA, composto de vários braços e que inclui, por exemplo, análise de fezes dos recém-nascidos e alimentação com leite materno e uso de fórmula.

 

Diferentes microbiotas foram analisadas no estudo da Alemanha

 

Como parte do estudo prospectivo de coorte multicêntrico desenvolvido no Helmholtz Centre for Infection Research pelo pesquisador Luiz Gustavo dos Anjos Borges foram recrutadas 78 mulheres com ruptura prematura de membranas e seus 89 recém-nascidos. A microbiota vaginal materna e a microbiota retal, do sangue do cordão umbilical, da faringe e do mecônio foram analisadas por sequenciamento do gene 16S rRNA. Inicialmente, os pesquisadores demonstraram alguns pontos já conhecidos, por exemplo, que a microbiota vaginal tem uma condição bem estabelecida dominada por Lactobacillus spp. “Mesmo em todas as mães que apresentavam ruptura de membranas, um grande número (cerca de 65%) tinha dominância de lactobacilos, o que é considerado como microbiota vaginal saudável. Mas também existem condições ou períodos em que a microbiota vaginal não é dominada por lactobacilos e isso, aparentemente, não interfere na questão de haver rompimento de membranas”, afirma o cientista.

 

Entretanto, após a ruptura de membranas ocorrem várias situações. Por exemplo, se um rompimento parcial ocorre com menos de 30 a 33 semanas, a recomendação é tentar manter o bebê por mais algumas semanas no útero para chegar mais próximo do tempo ideal. “Neste momento, se faz alguma intervenção com antibióticos para evitar que qualquer bactéria agressiva infecte o bebê antes do nascimento, evitando a sepse neonatal”, explica. Das participantes do estudo, todas receberam antibioticoterapia, mas muitas não tiveram o sucesso esperado e houve 18 casos de sepse neonatal. Um segundo ponto relevante foi tentar determinar quais bactérias poderiam predizer que esses bebês poderiam desenvolver uma sepse neonatal.

 

“Fizemos algumas análises estatísticas de regressão e conseguimos observar que, em pelo menos 80% dos casos, poderíamos ter previsto se tivéssemos analisado a composição bacteriana da vagina da mãe”, relata o pesquisador. As análises demonstraram que o tratamento antibiótico padrão desencadeia mudanças significativas na comunidade microbiana materna, com depleção relativa de Lactobacillus spp. e enriquecimento relativo de bactérias patogênicas como Ureaplasma parvum, acompanhado por um aumento na diversidade bacteriana. Já a microbiota neonatal mostrou uma composição microbiana heterogênea, com amostras de mecônio caracterizadas por táxons específicos enriquecidos neste nicho. De acordo com os resultados, a microbiota vaginal ao nascimento demonstrou ter potencial de prever sepse neonatal de início precoce com Escherichia/Shigella e Facklamia como táxons de risco e Anaerococcus obesiensis e Campylobacter ureolyticus como táxons de proteção.

 

Os casos de sepse neonatal de início precoce também podem ser previstos a uma taxa razoável de predição em comunidades de mecônio neonatal com os táxons protetores Bifidobacterium longum, Agathobacter rectale e Staphylococcus epidermidis. “No estudo, avaliamos diversas amostras dos bebês após o nascimento e, primeiramente, o mecônio. Diferentemente de outras amostras analisadas dos bebês, não vimos semelhança da microbiota da mãe em relação à microbiota do mecônio, indicando que a microbiota da mãe não passa para o mecônio”, relata o cientista. Todas as outras microbiotas avaliadas se pareciam muito mais com a microbiota vaginal, indicando que a microbiota da faringe, do swab retal e do sangue umbilical dos bebês está muito mais associada com o trabalho de parto. Portanto, se o mecônio indica que não é afetado pelo trabalho de parto, a comunidade bacteriana encontrada no mecônio é completamente selada de qualquer interferência, podendo ser utilizada como preditor de contaminação do líquido amniótico durante a gestação.

 

As microbiotas vaginal e intestinal são ecossistemas microbianos distintos, mas conectados pelo eixo intestino-vagina. Enquanto a microbiota vaginal cria um pH ácido, o ambiente intestinal é menos ácido e permite que certas bactérias nocivas ao ambiente vaginal estejam ativas. Assim, muitas das bactérias que causam um problema, ou estão relacionadas ao maior risco, são comuns no intestino – como a Escherichia coli. Portanto, haveria uma contaminação cruzada. “Isso foi um dos problemas que identificamos. Quando o antibiótico é administrado para a gestante manter o feto seguro por mais tempo, a microbiota vaginal acaba entrando em disbiose, rompendo a comunidade bacteriana vaginal saudável e dando suporte para que aquela bactéria intestinal que estava controlada fique fora de controle”, enfatiza. E, muitas vezes, essa é a bactéria que consegue evitar o ataque do antibiótico, porque tem resistência ou porque o medicamento utilizado não era adequado para aquele microrganismo.

 

Participação da microbiota na sepse abdominal

 

Um grupo de pesquisa do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu um estudo para avaliar a sepse abdominal, especialmente relacionada à peritonite – uma das principais causas de sepse grave e que ainda apresenta altas taxas de mortalidade no mundo. Experimentalmente, a peritonite é um modelo muito relevante para investigar a interação entre infecção, resposta inflamatória sistêmica e alterações ­metabólicas.

 

A revisão científica foi coordenada pela imunologista Ana Carolina Oliveira, professora associada do Laboratório de Imunologia Molecular e Celular (LIMC) e coordenadora de Pós-graduação em Ciências Biológicas – Biofísica da Instituição, cujo foco de pesquisa é investigar o papel da fibra da dieta e de seus metabólitos em doenças infecciosas. “O estudo com a sepse abdominal ofereceu um cenário particularmente interessante, uma vez que envolve diretamente o intestino, a microbiota e a integridade da barreira intestinal. Esses fatores influenciam fortemente a progressão da inflamação sistêmica”, resume. Portanto, estudar esse contexto permitiu entender melhor como metabólitos derivados da dieta podem modular a resposta imune e, possivelmente, contribuir para novas estratégias terapêuticas adjuvantes aos antibióticos. Na revisão, os pesquisadores buscaram discutir como o uso de antibióticos e a disbiose da microbiota intestinal podem afetar o curso da sepse, assim como promover o potencial terapêutico adjuvante desse eixo em pacientes em estado crítico. De acordo com a pesquisadora, essa regulação ocorre, principalmente, por meio de metabólitos e da modulação local e sistêmica da função de células imunes.

 

“Compostos como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que são justamente o alvo da minha pesquisa, conseguem alcançar a corrente sanguínea e atuar em órgãos distantes como pulmão, fígado e medula óssea. Esses sinais modulam a diferenciação e a função de células imunes, como macrófagos, neutrófilos e linfócitos T, influenciando tanto a intensidade quanto o perfil da resposta inflamatória”, afirma. Além disso, a microbiota interfere na hematopoiese e no ‘treinamento’ da imunidade inata, alterando a forma como o organismo responde a infecções sistêmicas. Segundo a cientista, não apenas os AGCC, mas também derivados do triptofano e componentes bacterianos circulantes podem fazer esse papel. Portanto, mesmo sendo localizada no intestino, a microbiota exerce um papel sistêmico importante na regulação da imunidade e na progressão de doenças inflamatórias e infecciosas, como a sepse.

 

Bactérias mais envolvidas

 

As bactérias envolvidas nos quadros de sepse variam de acordo com o foco da infecção e o ambiente – comunitário ou hospitalar – e, de forma geral, incluem tanto Gram-negativas quanto Gram-positivas. A pesquisadora Ana Carolina Oliveira explica que, entre as Gram-negativas, destacam-se a Escherichia coli, especialmente em sepse abdominal e urinária, a Klebsiella pneumoniae e a Pseudomonas aeruginosa, que são frequentes em ambiente hospitalar. Entre as Gram-positivas, são comuns Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae, especialmente em sepse de origem respiratória ou associada a dispositivos invasivos como cateteres, drenos e tubos ventilatórios. “Não podemos deixar de mencionar o potencial de vírus e fungos também causarem sepse, sendo este último mais comum em pacientes críticos ou imunossuprimidos”, adverte.

 

Uma bactéria envolvida com a sepse abdominal é o Bacteroides fragilis. No entanto, a cientista assegura que, na maior parte do tempo, essa bactéria tem efeitos benéficos para o corpo humano. “O B. fragilis é uma bactéria simbionte que contribui para a homeostase intestinal e para o fenômeno que conhecemos como tolerância oral, ou seja, a capacidade de o organismo tolerar tudo o que comemos e que chega ao trato gastrointestinal, inclusive as bactérias da microbiota”, enfatiza. No entanto, em algumas situações em que a barreira intestinal é rompida, o B. fragilis pode alcançar sítios antes estéreis do corpo, como a cavidade peritoneal, e causar doenças como a peritonite. De maneira geral, o Bacteroides fragilis é uma espécie comumente associada à sepse abdominal.

 

Uso de antibióticos leva à disbiose intestinal e favorece gravidade

 

Embora sejam fundamentais no tratamento da sepse por controlar a carga bacteriana e reduzir a progressão da resposta inflamatória sistêmica – inclusive, a administração precoce está diretamente associada à redução de mortalidade –, os antibióticos também podem interferir no desfecho da sepse de forma indireta ao causar disbiose intestinal. “A alteração da microbiota compromete a produção de metabólitos imunomoduladores, reduz a diversidade bacteriana e pode favorecer a quebra da barreira intestinal e a translocação de patógenos oportunistas ou infecções secundárias”, acrescenta a cientista Ana Carolina Oliveira. Além disso, a disbiose pode impactar na resolução da inflamação, influenciando na incidência de complicações tardias que acometem cerca de 80% dos pacientes que sobrevivem à sepse grave.

 

Antibióticos de amplo espectro também reduzem drasticamente a diversidade microbiana intestinal, favorecendo o crescimento de patógenos oportunistas, aumentando a permeabilidade intestinal e permitindo a translocação bacteriana para a corrente sanguínea. Esse processo pode desencadear bacteremia e evoluir para sepse, sobretudo em pacientes críticos. Por isso, embora sejam essenciais, os antibióticos também demandam estratégias que preservem ou restaurem a microbiota durante e após o tratamento da sepse. “Atualmente, nossa pesquisa foca justamente nisso. Apostamos que, ao ingerir mais fibras, as bactérias intestinais produzam maior quantidade de ácidos graxos de cadeia curta e isso pode atenuar a disbiose e seus efeitos deletérios, locais e sistêmicos”, sinaliza a pesquisadora.

 

Uma aposta do grupo de pesquisa é conciliar o uso de antibióticos com prebióticos, como as fibras solúveis – em combinação ou não com probióticos – para mitigar a disbiose e, assim, buscar um melhor prognóstico. Além disso, o uso de probióticos poderia contribuir para a redução do risco de sepse ao atuar principalmente na modulação da microbiota intestinal e da resposta imune, especialmente em pacientes que desenvolvem disbiose associada ao uso de antibióticos. De acordo com a cientista, o probiótico pode ajudar na recolonização do intestino com microrganismos benéficos, preservando a barreira intestinal através da maior produção de muco, por exemplo, modulando a resposta imunológica e, consequentemente, reduzindo a inflamação exacerbada. “Apesar de promissor, a evidência clínica dos benefícios dos probióticos durante um quadro de sepse ainda é heterogênea e deve ser vista com cautela”, argumenta. Já em pacientes críticos ou imunossuprimidos, o uso deve ser cauteloso devido ao risco raro, porém descrito, de bacteremia ou fungemia associada ao uso de probiótico.

 

Independentemente disso, a cientista lembra que a microbiota em disbiose é um fator de risco a mais para a sepse, não apenas para as manifestações mais agudas da doença, como o acometimento de rins e pulmões, mas também para os comprometimentos tardios como imunossupressão e prejuízos neurocomportamentais. “Sabe-se que cerca de 80% dos pacientes que sobrevivem à sepse grave apresentarão algum comprometimento tardio até cinco anos após a alta hospitalar”, enfatiza. Infecções oportunistas e tumores devido à imunossupressão, assim como danos neurológicos, estão entre as manifestações mais comuns.

 

Ao mesmo tempo, os produtos microbianos, especialmente as moléculas derivadas de bactérias da microbiota intestinal, podem exercer papel protetor contra a sepse ao modular a resposta imune do hospedeiro. Um dos exemplos mais estudados é o polissacarídeo A (PSA), componente da cápsula polissacarídica do Bacteroides fragilis. “Diferentemente de componentes bacterianos pró-inflamatórios clássicos, como o lipopolissacarídeo (LPS), o PSA é uma molécula imunomodulatória que promove o equilíbrio entre resposta inflamatória e tolerância imunológica não apenas no intestino, onde essa bactéria habita, mas também sistemicamente”, ensina. Segundo a pesquisadora, a coleção de produtos derivados do metabolismo do microbioma intestinal, conhecido como metaboloma, é um campo riquíssimo ainda a ser explorado no cenário da sepse. •