Neofobia alimentar precisa ser tratada
Neofobia alimentar precisa ser tratada
Medo de experimentar novos alimentos pode
prejudicar o desenvolvimento físico e cognitivo
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
A alimentação desempenha papel vital no desenvolvimento do ser humano. Com a introdução alimentar, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir do sexto mês de vida, o bebê é apresentado a novos sabores, texturas e aromas que são aceitos, ou não, de acordo com as preferências individuais. Diferentemente da seletividade ou da recusa pontual por alimentos pertencentes a um mesmo grupo – condições comuns na primeira infância – um transtorno denominado neofobia alimentar se destaca pelo medo associado ao consumo de um novo ingrediente. Causado por fatores ambientais, hereditários e psicológicos, o transtorno se caracteriza pela aversão por alimentos desconhecidos e sem familiaridade no paladar que, na ausência de diagnóstico e tratamento adequados, podem afetar a saúde e prejudicar o desenvolvimento físico e cognitivo infantil.
Mais frequente entre os dois e cinco anos de idade, a neofobia alimentar pode dificultar que a criança tenha uma alimentação diversificada e balanceada, principalmente em decorrência de uma resistência em comer alimentos fora do padrão habitual de consumo. “Para atender às necessidades nutricionais de cada etapa do desenvolvimento infantil, todos os grupos de alimentos devem ser gradativamente introduzidos. Nas crianças que apresentam resistência à introdução de novos alimentos, a fase passa a ser um grande desafio. Muitas são as causas que podem levar algumas crianças a sentir medo e repulsa a novos alimentos, entre eles cheiro, cor, aparência, toque, textura ou sabor”, destaca a nutricionista Maria Fernanda Naufel, pesquisadora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-EPM).
Mesmo que, na maioria dos casos, as aversões possam diminuir a partir dos sete ou oito anos de idade, ainda assim é preciso adotar estratégias para entender as causas e evitar que o problema persista em outras fases da vida. “Muitos fatores podem desencadear a neofobia alimentar, e entre as situações mais comuns estão a falta de estímulo e diversidade no prato; a introdução alimentar incorreta, sem apresentar individualmente os alimentos com suas texturas, aromas e sabores; e a formação deficiente do paladar, pois, quando os pais não gostam de certos alimentos, não oferecem para a criança”, acentua. Além disso, o transtorno pode estar associado a uma questão psicológica devido a uma experiência ruim ou um trauma como, por exemplo, um alimento que causou um engasgo ou refluxo, que antecedeu um mal-estar, que remete a ambientes estressantes ou que foi consumido de forma forçada. A nutricionista Maria Fernanda Naufel ressalta que não é incomum que crianças com o transtorno não queiram ir a uma festa ou na casa de um amigo pelo medo de ter de comer algo que as desagrade.
Identificar o transtorno é essencial para evitar que as carências nutricionais decorrentes da recusa dos alimentos prejudiquem o desenvolvimento. “Por limitar a diversidade alimentar, principalmente em relação a frutas, vegetais e, em alguns casos, proteínas animais, que são grupos ricos em nutrientes e vitaminas essenciais, a neofobia alimentar pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, afetar o crescimento, causar desnutrição, prejudicar o sistema imunológico e a qualidade do sono, desregular o humor e contribuir para o ganho de peso e a obesidade infantil, especialmente quando as escolhas de substituição são compostas por produtos ultraprocessados e industrializados”, alerta a nutricionista Priscila Claudino de Almeida, pesquisadora do Laboratório de Técnica Dietética da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (FS-UnB).
Ferramenta ajuda a identificar o transtorno
Apesar de ser discutida em diversos grupos populacionais, as ferramentas e os critérios utilizados para classificação da neofobia alimentar não atendiam especificamente as características da população brasileira até bem pouco tempo. Considerando a ampla diversidade cultural e alimentar do Brasil, pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Nutrição Humana da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram um Instrumento Específico para Avaliação da Neofobia Alimentar em crianças brasileiras entre 4 e 11 anos, que possibilita identificar a prevalência e o grau de comprometimento. Além de contribuir para um diagnóstico mais rápido e preciso, a ferramenta possibilita a implantação de estratégias mais eficazes para prevenir as deficiências nutricionais e melhorar os hábitos alimentares deste grupo.
Diferentemente dos modelos disponíveis em outros países, o instrumento brasileiro contempla três domínios específicos: neofobia em geral, neofobia para frutas e neofobia para hortaliças. Segundo a nutricionista Priscila Claudino de Almeida, principal autora do estudo, o objetivo é avaliar o transtorno a partir da percepção dos pais e/ou cuidadores de crianças, através de um questionário. “Com 25 perguntas de múltipla escolha sobre preferências e aceitação a novos alimentos, o questionário gera pontuações que indicam o grau/perfil da neofobia, para identificar se está na faixa baixa, média ou alta”, detalha. Além do resultado mais rápido, quando comparado aos exames neuroquímicos que podem demorar a mostrar alterações significativas referentes à carência nutricional, os estudos indicaram excelente consistência quando o questionário é respondido pelo cuidador que melhor conhece os hábitos alimentares da criança.
A partir do uso do instrumento e sob a orientação da professora doutora Raquel Braz Assunção Botelho, docente do Departamento de Nutrição Humana da Instituição, os pesquisadores da UnB traçaram panoramas com cortes específicos sobre a prevalência da neofobia alimentar. “Com dados coletados entre 2020 e 2021, realizamos um estudo transversal de base populacional que analisou a prevalência do transtorno no contexto brasileiro. Com aproximadamente mil participantes das cinco regiões do País (que responderam remotamente o questionário), identificamos que a prevalência de alta neofobia alimentar foi observada em 33,4% das crianças brasileiras”, informa a nutricionista Priscila Claudino de Almeida. O escore geral de neofobia e os domínios não diferiram significativamente entre as regiões brasileiras e as faixas etárias, mas foram maiores entre os meninos. A pesquisadora destaca que a pandemia de covid-19 – que coincidiu com o período de coleta de dados – pode ter influenciado a alta prevalência, uma vez que o isolamento interferiu no estilo de vida da população em geral.
Publicado no final de 2022, outro estudo transversal de base populacional investigou e classificou a prevalência da neofobia em crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). De acordo com a nutricionista Priscila Claudino de Almeida, cerca de 76% da amostra – que incluiu 593 crianças, com 80,1% de meninos – apresentou escore de alta neofobia alimentar total. Já os domínios hortaliças e frutas apresentaram prevalência de 73,9% e 63,7%, respectivamente. “Tais resultados corroboram relatos da literatura que demonstram que crianças desse grupo são neofóbicos em vários contextos e tendem a ter uma dieta muito restritiva, com ingestão inadequada de micronutrientes o que, evidentemente, demanda especial atenção”, orienta. Atualmente, os estudos do grupo da UnB estão voltados para a associação da neofobia em crianças com síndrome de Down.
Tratamento deve ser multidisciplinar
Mais do que as observações referentes exclusivamente aos alimentos de recusa, é preciso enxergar a criança no contexto biopsicossocial e avaliá-la de forma integrada. A professora doutora Deborah Salle Levy, docente do curso de Fonoaudiologia do Departamento de Saúde e Comunicação Humana do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que é fundamental entender como funciona a relação familiar da criança com neofobia alimentar, quais são as suas atividades diárias, como se comporta à mesa, como reage às apresentações dos alimentos, se a recusa por novos ingredientes é seletiva ou por medo, se sua mastigação é correta e se há distrações durante as refeições, entre outros. “Só a partir deste entendimento será possível dar início ao processo terapêutico mais adequado”, avalia.
A exemplo de outros transtornos alimentares na infância que apresentam causas multifatoriais, o tratamento da neofobia alimentar pode, em muitos casos, ser compartilhado com mais de um especialista. “O psicólogo pode atuar com traumas associados ao medo; o nutricionista nas estratégias de oferta e apresentação dos alimentos; o pediatra no acompanhamento do desenvolvimento; e o terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo trabalham nos aspectos sensoriais, motores, orais e de percepção da criança através da alimentação. Enfim, todos contribuindo mutuamente para a melhor resposta da criança”, destaca a docente da UFRGS. A Fonoaudiologia tem papel determinante nesse processo, pois trabalha nas funções que estão relacionadas com a alimentação – o que envolve respiração, sucção, mastigação e deglutição. A professora Deborah Salle Levy explica que os treinos motores são trabalhados com a inserção de novos alimentos e texturas, estimulando os sentidos táteis, a visão, a audição, o olfato e o paladar.
A participação efetiva dos pais e cuidadores é determinante para melhor resposta das crianças ao tratamento. “Os exercícios e estímulos realizados nas terapias precisam ser replicados em casa na rotina das crianças, para que de fato ocorra a aceitação por novos alimentos e a mudança nos hábitos nutricionais. Além disso, é preciso ter resiliência e continuar oferecendo os alimentos, variando preparos, texturas e, inclusive, a temperatura das receitas”, sugere a nutricionista Maria Fernanda Naufel. Outras estratégias incluem envolver a criança no preparo das refeições; levá-la às compras para que participe do processo de escolha do cardápio; montar pratos divertidos que explorem a imaginação; incentivar o cultivo de uma horta em casa; nunca enganar a criança mascarando os ingredientes e ser um exemplo, pois a criança tende a replicar o comportamento dos pais, inclusive em relação aos hábitos nutricionais.