LcS nas anomalias metabólicas
Estudo randomizado, duplo-cego, placebo controlado teve como foco investigar os efeitos do Lactobacillus casei Shirota nos controles glicêmico e lipídico de japoneses obesos e pré-diabéticos
Eiichiro Naito, Yasuto Yoshida, Satoru Kunihiro, Kumiko Makino, Kohei Kasahara, Yuu Kounoshi,
Masanori Aida, Kouji Miyazaki, Yakult Central Institute; Ryotaro Hoshi, Osamu Watanabe, Tomoki
Igarashi, Faculty of Research and Development, Yakult Honsha; Hideki Ito, Tokyo Metropolitan
Geriatric Hospital and Institute of Gerontology, Tokyo, Japan
A incidência de diabetes mellitus (DM) vem aumentando mundialmente em associação com a obesidade. Estudos epidemiológicos revelam que o número de pacientes com a doença em 2015 foi estimado em 415 milhões e espera-se que este número alcance aproximadamente 642 milhões em 2040. A obesidade associada ao diabetes tipo 2 é normalmente acompanhada por outras anomalias metabólicas, como dislipidemia e hipertensão, por causa da resistência à insulina causada pelo aumento da secreção de adipocinas pró-inflamatórias do tecido adiposo. O diabetes mellitus e o acúmulo dessas anomalias metabólicas estão ligados a uma alta prevalência de doenças cardiovasculares. A medicação e a mudança no estilo de vida são benéficas para a prevenção de DM e doenças cardiovasculares, mas podem estar associadas com efeitos colaterais e baixa aderência. Portanto, são necessários meios rápidos e seguros para a prevenção dessas doenças. Uma hiperglicemia pós-sobrecarga de glicose e/ou pós-refeição no estado pré-diabético é sinal característico do desenvolvimento de diabetes tipo 2.
Níveis elevados de glicose no plasma (PG) após uma ou duas horas de sobrecarga, que são marcadores típicos de hiperglicemia pós-sobrecarga de glicose, são os principais fatores de risco para o diabetes tipo 2. Inclusive, indivíduos pré-diabéticos com hiperglicemia pós-sobrecarga de glicose, assim como os pacientes com DM, têm alto risco de doenças cardiovasculares. O teste STOP-NIDDM demonstrou que o tratamento preventivo de pessoas pré-diabéticas utilizando agentes que direcionam a hiperglicemia pós-refeição está associada a uma redução significativa na incidência de diabetes e do risco para hipertensão e doenças cardiovasculares. Além disso, pessoas pré-diabéticas com elevado nível de PG pós-sobrecarga exibem um perfil lipídico pró-aterogênico caracterizado por hipertrigliceridemia, baixos níveis de colesterol lipoproteico de alta densidade (HDL-C) e altos níveis de colesterol não-HDL. Então, espera-se que o controle pleiotrópico dessas anomalias metabólicas forneça benefícios aos indivíduos obesos pré-diabéticos em termos de prevenção do diabetes mellitus tipo 2 e de doenças cardiovasculares.
Evidências indicam que a microbiota intestinal desempenha uma importante função no desenvolvimento de diabetes associada a desordens metabólicas. A composição da microbiota intestinal é drasticamente alterada na obesidade e no diabetes tipo 2. Essa mudança pode levar ao aumento da permeabilidade intestinal, resultando em endotoxemia que, por sua vez, desencadeia uma inflamação crônica de baixo grau e resistência à insulina. Probióticos são definidos como microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro pela modulação da microbiota intestinal e da resposta imune. Estudos prévios demonstraram que a ingestão de Lactobacillus casei Shirota (LcS), um probiótico característico, melhora as anomalias metabólicas associadas à obesidade, incluindo resistência à insulina, tolerância reduzida à glicose, diabetes tipo 2 e esteatose hepática em modelos animais. Recentemente, um estudo indicou que a suplementação com LcS inibiu a queda da sensibilidade à insulina induzida por uma alimentação rica em gorduras em adultos saudáveis.
Outras pesquisas clínicas demonstraram que o tratamento com probióticos melhora o controle de glicemia em pacientes com diabetes tipo 2. Entretanto, nenhum estudo clínico foi realizado para investigar os efeitos do tratamento com probiótico nas anomalias metabólicas em pré-diabéticos caracterizados por hiperglicemia pós-sobrecarga, que são de alto risco para diabetes mellitus e doenças cardiovasculares. Portanto, o objetivo do estudo ‘Efeito do leite fermentado com LcS nas anomalias metabólicas em japoneses obesos pré-diabéticos: um estudo randomizado, duplo-cego, placebo controlado’ foi investigar os efeitos do LcS nos controles glicêmico e lipídico em obesos pré-diabéticos por meio da avaliação dos níveis de glicose no plasma pós-sobrecarga e outros marcadores de controle glicêmico e lipídico.
O leite fermentado com L. casei Shirota YIT9029 foi obtido a partir da Coleção de Culturas do Laboratório de Pesquisa do Instituto Central Yakult, em Tóquio, Japão. O placebo foi um leite não fermentado produzido com os mesmos ingredientes do leite fermentado com Lactobacillus casei Shirota e adição de ácido lático, e com a mesma composição nutricional (proteína 1,4g/100mL; gordura 0,1g/100mL; carboidratos 13,9g/100mL e calorias 62,0kcal/100mL), cor, aroma, sabor e pH. Os produtos foram distribuídos para cada participante semanalmente por serviço de delivery refrigerado e armazenado de 0°C a 10°C. O leite fermentado continha >1,0 x 1011 unidades formadoras de colônia por 100mL durante a intervenção.
Participantes eram homens entre 20 e 64 anos de idade
O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinki e todos os procedimentos envolvendo humanos foram aprovados pelo Institutional Review Board da instituição médica integrada do Aisekai Aisei Hospital Ueno Clinic, Tóquio, Japão. Os critérios de inclusão foram idade entre 20 e 64 anos, índice de massa corporal (IMC) ≥ 25kg/m2 e nível de PG uma hora pós-sobrecarga de 180mg/dL. Este estudo randomizado, duplo-cego e placebo controlado foi realizado de junho a dezembro de 2013 via Organização Representativa de Pesquisa Clinica (TTC Co., Ltd., Tóquio, Japão). No total, 847 homens japoneses obesos pré-diabéticos foram recrutados para este estudo baseado no Guia para Diagnóstico de Diabetes Mellitus, pela internet e telefone, e avaliados pela qualificação (elegibilidade). Os critérios de exclusão foram consumo de alimentos contendo lactobacilos (>3 vezes por semana), uso de medicamentos ou alimentos que poderiam influenciar os resultados deste estudo, histórico de doenças graves no fígado e nos rins, hipertensão ou cardiopatia isquêmica, alergia a produtos lácteos e participação em outro estudo clínico durante o período de um mês.
Foi realizada triagem com 248 pessoas com obesidade (IMC ≥ 25kg/m2) e nível de glicose no plasma pós-sobrecarga próximo à faixa pré-diabética. Os participantes obesos pré-diabéticos (n=100) que cumpriram os critérios foram admitidos e aleatoriamente distribuídos no grupo LcS (n=50) ou grupo placebo (n=50), utilizando uma sequência de numeração randômica gerada por computador. A lista de distribuição foi preparada por um pesquisador sem envolvimento clínico com o estudo, e ficou oculta tanto para a equipe clínica quanto para os participantes durante todo o estudo. Um frasco de 100mL de leite fermentado com LcS ou placebo foi consumido diariamente por oito semanas.
O estudo consistiu de períodos de pré-intervenção de 2-3 semanas, intervenção de oito semanas e pós-intervenção de quatro semanas. Cada participante compareceu à clínica Nishi-Shinjuku Kisaragi Clinic, Tóquio, Japão, durante o período de pré-intervenção, nas semanas 4 e 8 de intervenção e no final da pós-intervenção. Foi solicitado a todos registrar o consumo do produto teste e qualquer efeito adverso ao longo do estudo, além de manter suas atividades físicas e hábitos alimentares normais. O objetivo deste estudo foi investigar os efeitos do LcS no controle de glicemia e perfil lipídico em obesos pré-diabéticos. Além disso, os níveis de PG pós-sobrecarga, glicoalbumina (GA), HbA1c, índice insulinogênico, análise da resistência à insulina por modelo de homeostase (HOMA-IR), HOMA-β e índice Matsuda foram avaliados como índices de controle da glicemia. O perfil lipídico foi nível de colesterol total (TC), não-HDL-C, colesterol lipoproteico de baixa densidade (LDL-C), HDL-C e triacilglicerol (TAG).
Para elaboração do Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG), cada participante compareceu à clínica após um jejum noturno (10 horas) para coleta de amostra de sangue em jejum da veia antecubital. Também foi administrada uma solução de 75g glicose anidra em 225mL (Toleran-G75, Ajinomoto Pharma Co., Ltd., Tóquio, Japão) nos participantes. Amostras de sangue foram coletadas em 30, 60, 90 e 120 minutos após a sobrecarga de glicose para medir a PG e os níveis de insulina sérica. As áreas sob a curva para a PG durante o TOTG foram calculadas utilizando a regra trapezoidal. Os valores HOMA-IR, HOMA-β, índice insulinogênico e índice Matsuda foram calculados utilizando as seguintes fórmulas: HOMA-IR = (PG0[mg/dL]xIns0[μU/mL])405, em que PG0 e Ins0 representam a PG e o nível de insulina em jejum, respectivamente; HOMA-β = (Ins0[μU/mL]x360)/(PG0[mg/dL])-63); índice insulinogênico = (Ins30[μU/mL] Ins0[μU/mL]/(PG30[mg/dL] – PG0[mg/dL]), onde PG30 e Ins30 representam a PG e o nível de insulina sérica a 30 minutos pós-sobrecarga, respectivamente; e índice Matsuda = 10.000/√(PG0 x Ins0 x PG médio x Ins médio), em que PG médio e Ins médio representam as médias dos níveis de PG e de insulina sérica, respectivamente, durante o TOTG.
As amostras de sangue foram centrifugadas a 1.200g por 10 minutos a temperatura ambiente para separar os componentes séricos. A determinação dos parâmetros sanguíneos foi realizada pela LSI Medience Corporation (Tóquio, Japão). O nível de HbA1c no sangue total foi mensurado enzimaticamente utilizando um analisador químico (JCA-BM9130, JEOL Ltd., Tóquio, Japão). Os níveis de PG, GA, TAG, TC, LDL-C e HDL-C foram determinados enzimaticamente, e os níveis de insulina sérica por um imunoensaio quimioluminescente. Os níveis de não-HDL-C foram calculados com a seguinte equação: não-HDL-C = TC – HDL-C. Para as determinações antropométricas, a altura foi medida na linha de base. O peso corporal foi avaliado em cada visita, com os participantes vestidos com roupas leves e descalços. O IMC foi calculado usando a altura e o peso corporal e a pressão sanguínea foi avaliada em cada visita, utilizando um esfignomanômetro digital padrão (HEM705IT, Omron Healthcare Co., Ltd., Kyoto, Japão). A porcentagem de gordura corporal foi avaliada com o método de impedância bioelétrica (Karada Scan HBF-351IT, Omron Healthcare Co., Ltd.).
O consumo alimentar foi avaliado com base no conteúdo da alimentação diária realizada pelo participante por três dias antes de cada visita. Nutricionistas calcularam diariamente a energia e o consumo de proteína, gordura e carboidratos, e a média foi calculada pelo período de três dias. A atividade física foi avaliada por sete dias antes de cada visita. Os participantes utilizaram um monitor de atividade (Active Style Pro HJA-350IT, Omron Healthcare Co., Ltd.) durante cada período e as médias dos valores de atividades físicas por dia foram calculadas para cada período. O tamanho da amostra necessária foi calculado baseando-se na mudança esperada do nível de PG pós-sobrecarga.
Considerando que o Lactobacillus casei Shirota poderia reduzir os níveis de PG até 20mg/dL e que o desvio padrão da mudança seria de 35mg/dL, foi calculado que 48 participantes seriam necessários em cada grupo para detectar qualquer diferença entre os grupos, com um poder de 80% e um nível de significância de 5%. Este número foi aumentado para 50 por grupo para garantir uma possível desistência. Dados contínuos são apresentados como média ± desvio padrão. Os dados foram analisados utilizando PASW Statistics 18 (SPSS Inc., Chicago, IL, EUA). O teste t de Student não pareado foi realizado para comparar as diferenças entre os grupos. O teste t de Student, pareado com ajustes de Bonferroni-Holm para os múltiplos testes, foi utilizado para comparações dentro do grupo. Foi considerado o valor bilateral de P<0,05 para indicar significância estatística.
Indicadores mostram ação de probióticos
Dos 100 participantes randomizados que iniciaram consumindo o produto teste, dois desistiram por causa da rescisão do termo de consentimento. Nenhum evento adverso foi relatado nos grupos e 98 participantes concluíram o estudo e foram incluídos nas análises. As características da linha de base não demonstraram diferença significativa em quaisquer parâmetros entre os grupos. Os níveis de HbA1c ficaram abaixo de 6,5% em todos os participantes, mostrando que o controle de glicemia estava dentro da faixa de não diabéticos. O consumo diário e os níveis de atividade física durante o estudo mostraram que não houve diferença significativa na linha de base entre quaisquer parâmetros analisados nos grupos ao longo do teste, e não foi encontrada diferença significativa entre os grupos em qualquer tempo. Em cada grupo, o peso corporal, o IMC e a porcentagem de gordura corporal aumentaram significativamente em cada visita após o início da intervenção, em relação à linha de base. A pressão diastólica variou significativamente durante o teste, incluindo o período anterior ao consumo no grupo placebo, entretanto, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos em qualquer tempo.
Os níveis de PG em jejum e pós-sobrecarga não diferiram entre os grupos em qualquer visita. Entretanto, os níveis de PG uma hora pós-sobrecarga reduziram significativamente na oitava semana, comparado com a linha de base no grupo LcS (P=0,036), mas não no grupo placebo. A redução nos níveis de PG uma hora pós-sobrecarga não foi observada após o período sem consumo. Os níveis de GA no plasma diminuíram significativamente em oito semanas comparado com a linha de base apenas no grupo LcS (P=0,002), e, consequentemente, uma redução significativamente maior nos níveis de GA foi observada quando comparada com o grupo placebo (P=0,030). A redução nos níveis de GA não foi mantida após o período pós-intervenção. Os níveis de HbA1c nas semanas 8 e 12 foram significativamente reduzidas, se comparado com a linha de base somente no grupo LcS (P=0,006 e P=0,000, respectivamente). Não houve diferença significativa entre os índices para a sensibilidade à insulina e à secreção de insulina, tanto dentro quanto entre os grupos.
Os níveis de TC, LDL-C, HDL-C e não-HDL-C aumentaram significativamente se comparado à linha de base na semana 8 (TC, P=0,001; LDL-C, P=0,000; HDL-C, P=0,042; não-HDL-C, P=0,004) no grupo placebo, mas não no grupo LcS. Os níveis de TC, LDL-C e não-HDL-C foram significativamente menores no grupo LcS do que no grupo placebo na semana 8 (TC, P=0,023; LDL-C, P=0,022; não-HDL-C, P=0,008). Na semana 12 essas diferenças não foram observadas. Quando as mudanças foram comparadas com esses parâmetros a partir da linha de base, o grupo LcS mostrou melhorias nos níveis de nãoHDL-C (P=0,0496), TC (P=0,079) e LDL-C (P=0,084). Não houve mudanças nos níveis de TAG durante o teste em todos os grupos.
ESTRATIFICAÇÃO
A análise estratificada baseada no valor intermediário de PG duas horas pós-sobrecarga (164mg/dL) na linha de base foi realizada para esclarecer que os participantes mostraram boa resposta ao probiótico. Entre as pessoas com níveis de PG duas horas pós-sobrecarga acima da média da linha de base (n=50), a redução nos níveis de GA e PG uma hora pós-sobrecarga na semana 8 foi significativamente maior no grupo L. casei Shirota do que no grupo placebo (P=0,036 e P=0,034, respectivamente). Curiosamente, no subgrupo com maior nível de PG duas horas pós-sobrecarga na linha de base o aumento no índice insulinogênico foi significativamente maior no grupo LcS em relação ao placebo (P=0,038), mas mudanças similares não foram observadas no índice Matsuda. No subgrupo com menor nível de PG duas horas pós-sobrecarga na linha de base não houve diferença significativa entre os valores dos grupos.
Resultados indicam melhora de controle glicêmico
O estado pré-diabético com elevados níveis de PG pós-sobrecarga aumenta o risco de DM tipo 2 e doenças cardiovasculares. Para a prevenção dessas doenças, é necessário o controle pleiotrópico das anomalias metabólicas, como falha no controle glicêmico e dislipidemia. Embora algumas pesquisas clínicas tenham sugerido que a suplementação com probiótico melhora o controle da glicemia nos pacientes com DM tipo 2, não houve pesquisa realizada com pré-diabéticos. Além disso, este estudo investigou os efeitos do LcS nos parâmetros glicêmicos e controle lipídico em obesos pré-diabéticos caracterizados por hiperglicemia pós-sobrecarga. Não houve diferenças significativas nos níveis de PG pós-sobrecarga entre os grupos. No entanto, a redução no nível de GA, que é um dos marcadores típicos de controle glicêmico, foi estatisticamente e significativamente maior no grupo LcS em relação ao placebo após oito semanas. Os níveis de GA indicam nível de glicose sanguíneo normal para as semanas 2 a 4 precedentes e refletem uma flutuação da glicose e um curso de glicose pós-prandial.
Assim, a GA é considerada um marcador apropriado em termos de monitoramento do controle glicêmico. No grupo LcS, mas não no grupo placebo, os níveis de PG uma hora pós-sobrecarga, GA e HbA1c foram reduzidos na semana 8 se comparado com a linha de base. Além disso, a redução nos níveis de GA e de PG uma hora pós-sobrecarga desapareceu depois do período sem consumo. Esses resultados sugerem que o controle glicêmico no grupo LcS mudou para melhor. Por outro lado, a redução nos níveis de HbA1c foi mantido no grupo LcS após o período sem consumo. O HbA1c é o marcador mais comum para o diagnóstico de diabetes, e isso reflete a média dos níveis de glicose durante um período relativamente maior (de 1 a 2 meses anteriores) do que a GA. Dessa forma, a redução dos níveis de HbA1c nas 12 semanas também poderia ser atribuído ao consumo de LcS.
Enquanto o consumo e os níveis de atividades físicas permaneceram constantes ao longo do estudo, em ambos os grupos, foi observado aumento no peso corporal, de IMC e porcentagem de gordura corporal nos dois grupos, quando comparado com a linha de base. Esse aumento também foi observado em ambos os grupos após o período pós-intervenção, indicando que esse aumento não foi atribuído ao possível aumento de consumo calórico dos produtos-teste (62 kcal/dia cada), mas sim a outros fatores, como variação sazonal. Não houve diferença significativa nos parâmetros entre os grupos. Os marcadores de controle glicêmico permaneceram constantes ao longo do estudo no grupo placebo, sugerindo que as mudanças nos marcadores de controle glicêmico observados no grupo LcS foram associados com o consumo de LcS. Análises estratificadas de acordo com a média da linha de base dos níveis de PG duas horas pós-sobrecarga revelaram que o consumo de LcS resultou em melhoria significativa nos níveis de PG uma hora pós-sobrecarga, e de GA no subgrupo da linha de base com maiores níveis de PG duas horas pós-sobrecarga (indicando intolerância à glicose relativamente severa), mas não no subgrupo com linha de base com níveis menores de PG duas horas pós-sobrecarga. Esses resultados sugerem que o consumo de LcS tem o potencial de melhorar o controle glicêmico, especialmente nas pessoas com intolerância à glicose relativamente avançada, que são de alto risco para DM e para doenças cardiovasculares.
Estudos prévios demonstraram que o LcS melhorou a hiperglicemia pós-sobrecarga e a resistência à insulina em modelo animal obeso induzido por alimentação gordurosa, preveniu a exacerbação do controle glicêmico e reduziu a ação da insulina por uma superalimentação gordurosa em pesquisa clínica envolvendo caucasianos. Em contrapartida, o consumo de LcS não afetou os marcadores de resistência à insulina, como HOMA-IR e índice Matsuda, no estudo atual. Há algumas diferenças na configuração entre esses estudos. O grau de resistência à insulina na população leste asiática, incluindo japoneses, é consideravelmente menor do que em caucasianos. De fato, a resistência à insulina observada nos participantes deste estudo não foi severa como observada nos caucasianos pré-diabéticos. Estudos prévios foram realizados na presença de resistência à insulina exacerbadamente aguda induzida por dieta altamente gordurosa. Entretanto, neste estudo não foi avaliado adequadamente o efeito do LcS na resistência à insulina.Análises estratificadas de acordo com os valores médios de PG duas horas pós-sobrecarga também encontraram que o consumo de LcS pode aumentar o índice insulinogênico – marcador de fase primária da capacidade de secreção de insulina – em pessoas com linha de base maior para os níveis de PG duas horas pós-sobrecarga. A falha na secreção de insulina primária estimulada pela glicose e a resistência à insulina são as principais causas de deficiência na tolerância à glicose. Além disso, a capacidade de secreção da insulina é desfavorecida na população leste asiática e a redução no índice insulinogênico é o principal fator envolvido no elevado valor de PG uma hora pós-sobrecarga em japoneses. Portanto, o LcS pode afetar o controle glicêmico via melhoria na função da célula pancreática em pessoas com intolerância à glicose relativamente avançada.
Lactobacillus casei Shirotatem potencial hipocolesterolêmico
Estudos recentes com animais sugerem que processos inflamatórios estão envolvidos com a disfunção de células pancreáticas β, assim como resistência à insulina. A inflamação relacionada com a obesidade é considerada um gatilho, pelo menos parcialmente, pelas mudanças na composição da microbiota que leva ao aumento da permeabilidade intestinal e consequente endotoxemia. Além disso, há relatos de que a disbiose intestinal e altas taxas de bactérias intestinais vivas no sangue são observadas em japoneses com DM tipo 2, indicando a existência de translocação de bactérias do intestino para a corrente sanguínea. Recentemente, um estudo demonstrou que o LcS reduziu níveis plasmáticos de lipopolissacarídeos bacterianos e mudou a composição da microbiota intestinal em modelos animais com esteatose hepática. Por outro lado, o LcS tem sido relatado por exibir efeitos benéficos via ações anti-inflamatórias contra doenças inflamatórias intestinais, artrite e diabetes tipo 1 em modelos animais e pacientes com cirrose alcoólica hepática. Assim, a redução da permeabilidade intestinal e a atividade anti-inflamatória podem influenciar a função da célula pancreática β.
A hipercolesterolemia é outro fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Além do mais, pré-diabéticos com elevados níveis de PG pós-sobrecarga exibem um perfil lipídico pró-aterogênico incluindo altos níveis de não-HDL-C e baixos níveis de HDL-C. Assim, o controle dos níveis de colesterol sanguíneo em obesos pré-diabéticos contribuiria para a redução do risco de doenças cardiovasculares. O potencial hipocolesterolêmico dos probióticos tem sido verificado em pacientes hipercolesterolêmicos e com diabetes tipo 2, mas não em pessoas prédiabéticas. Neste estudo, um aumento significativo foi observado nos níveis séricos de TC, LDL-C e não-HDL-C no grupo placebo, enquanto o grupo LcS manteve os níveis constantes. O aumento nos níveis de TC, LDL-C e não-HDL-C foram inibidos no grupo LcS quando comparado com o placebo nas oito semanas. Como os níveis séricos de colesterol, como TC, LDL-C e HDL-C foram altos e não retornaram à linha de base no grupo placebo após o período pós-intervenção, o aumento nos níveis de colesterol sérico foi considerado devido a variações sazonais, que são maiores no inverno na população japonesa. Esses resultados sugerem que o consumo de LcS inibe o aumento dos níveis de colesterol sanguíneo. Estudos epidemiológicos demonstraram que a hiperglicemia pós-sobrecarga de glicose e a DM tipo 2 estão fortemente associadas com alto nível de não-HDL-C e baixo HDL-C séricos, mas são fracamente ou não associados com os níveis séricos de TC e LDL-C. Além disso, mecanismos estruturais do efeito redutor de colesterol do L. casei Shirota podem ser independentes da melhoria do controle de glicemia.
Apesar de os efeitos hipocolesterolêmicos e mecanismos de ação dos probióticos diferirem entre as variedades e espécies, os seguintes mecanismos são propostos: assimilação de colesterol; ligação/incorporação do colesterol aos componentes celulares, como superfície ou membrana celular; desconjugação enzimática de sais biliares pela hidrolase dos sais biliares e inibição da síntese de novo do colesterol para ácidos graxos de cadeia curta produzidos por probióticos. O L. casei Shirota é capaz de assimilar o colesterol in vitro e foi observado que a administração oral de componentes da sua parede celular aumenta a secreção de esterol fecal e inibe o aumento do nível sérico de TC em ratos alimentados com colesterol. Assim, o LcS tem potencial de prevenir a hipercolesterolemia pela redução da absorção de colesterol através da ligação e/ou assimilação dos esteróis em obesos pré-diabéticos.
Houve algumas limitações neste estudo. Não foi observada diferença significativa nos níveis de PG pós-sobrecarga entre os grupos e o efeito benéfico do LcS na hiperglicemia pós-sobrecarga não foi claramente demonstrado. Entretanto, a redução estatisticamente significativa nos níveis de GA no grupo LcS, comparado com o placebo e os encontrados nas análises estratificadas, sugere que o LcS tem potencial de exercer efeitos favoráveis no controle da glicemia. Também não foram investigadas a influência do LcS nos marcadores de inflamação, função na barreira intestinal e na composição da microbiota. Assim, o exato mecanismo de ação do LcS permanece desconhecido e são necessários estudos adicionais para esclarecer seus efeitos benéficos no controle da glicemia em um número maior de participantes com intolerância à glicose avançada e/ou resistência à insulina, e os mecanismos de ação utilizando modelos animais e/ou pesquisas clínicas. Os resultados deste estudo sugerem que o LcS pode afetar favoravelmente as anomalias metabólicas em obesos pré-diabéticos, embora os efeitos no controle da glicemia sejam limitados.