LcS melhora saúde intestinal de idosos
Estudo desenvolvido no Japão envolveu 338 voluntários saudáveis com idades que variavam entre 65 e 92 anos
Yukitoshi Aoyagi e Sungjin Park, Exercise Sciences Research Group, Tokyo Metropolitan Institute of Gerontology; Ryuta Amamoto,Yusuke Honda, Kazuhito Shimamoto, Kouji Miyazaki e Satoshi Matsubara, Food Research Department, Yakult Central Institute; Akira Kushiro, Hoshitaka Matsumoto e Kensuke Shimizu, Microbiological Research Department, Yakult Central Institute; Hirokazu Tsuji, Basic Research Department, Yakult Central Institute, Tokyo, Japan; Roy J. Shephard, Faculty of Kinesiology and Physical Education, University of Toronto, Toronto, Canada
Diversos fatores afetam a saúde gastrointestinal humana, incluindo uma dieta saudável com alto teor de fibras. Certos tipos e espécies de microbiota também são importantes para a saúde gastrointestinal, e os processos envolvidos parecem ser facilitados pela ingestão regular de produtos lácteos fermentados contendo bactérias ácido láticas. Uma bactéria específica, Lactobacillus casei Shirota (LcS), tem sido utilizada na produção de leite fermentado há mais de 80 anos e os produtos contendo LcS se tornaram muito populares no Japão e no mundo – os respectivos consumos foram, em média, cerca de 8 e 37 milhões de frascos por dia em 2016 (Yakult Honsha Co. Ltd., 2017). Estudos clínicos mostraram que o Lactobacillus casei Shirota tem muitos efeitos benéficos, incluindo proteção contra infecções, melhora da imunorregulação, risco reduzido de carcinogênese e controle da pressão arterial. Além disso, a ingestão de LcS melhora a motilidade intestinal, facilitando a evacuação em jovens e pessoas de meia idade com fezes duras ou amolecidas. No entanto, o impacto da ingestão regular de LcS no risco de problemas frequentes de movimento intestinal em idosos aparentemente saudáveis, que vivem em habitações comunitárias, merece um estudo epidemiológico adicional.
Movimentos intestinais pouco frequentes reduzem a qualidade de vida e podem trazer sérios impactos médicos e sociais, e a incidência cumulativa de constipação crônica é maior em idosos do que em indivíduos mais jovens. Em 2016, 7,4% dos idosos japoneses (6,5% homens e 8,1% mulheres) queixaram-se de constipação (Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Japão, 2016a). Esses movimentos intestinais pouco frequentes sugerem uma diminuição de bactérias benéficas na microbiota, como Bifidobacterium, Lactobacillus e Roseburia, resultando em aumento da produção intestinal de compostos tóxicos e mutagênicos como fenol e p-cresol, e diminuição nas concentrações de ácido butírico, uma conhecida substância anticâncer. Essas mudanças podem aumentar potencialmente o risco de câncer colorretal, que agora se tornou a principal causa de morte entre japoneses (Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Japão, 2016b).
Atividade física
Estudos sobre prevenção e controle da constipação têm sugerido uma associação entre atividade física habitual inadequada e movimentos intestinais pouco frequentes, embora a maioria das investigações sobre este tópico tenha sido baseada em questionários sobre a frequência de exercícios semanais. Consequentemente, permanece a necessidade de definir a relação entre medidas objetivas da atividade física habitual, padrões de evacuação e microbiota intestinal, particularmente em idosos, para quem baixos níveis de atividade física e constipação são problemas frequentes. Durante um período de 18 anos, desde 2000, está sendo conduzido um estudo epidemiológico em uma comunidade da cidade de Nakanojo, província de Gunma, Japão (Estudo Nakanojo), monitorando os padrões de atividade física habitual em pessoas com 65 anos ou mais.
As medições precisas e objetivas da atividade física têm sido realizadas 24 horas por dia, 365 dias por ano, usando um monitor de atividade física com um acelerômetro embutido – dados que fornecem uma excelente oportunidade para explorar associações entre atividade habitual e saúde intestinal. O objetivo do estudo ‘Independent and
Interactive Effects of Habitually Ingesting Fermented Milk Products Containing Lactobacillus casei strain Shirota and of Engaging in Moderate Habitual Daily Physical Activity on the Intestinal Health of Older People’ foi, portanto, examinar associações entre a frequência de consumo de produtos lácteos fermentados contendo LcS, a quantidade e qualidade de atividade física habitual e a saúde intestinal de idosos saudáveis.
Materiais e métodos
O estudo envolveu 140 participantes do sexo masculino e 198 do sexo feminino, com idades entre 65 e 92 anos, autossuficientes e independentes, recrutados para o Estudo Nakanojo. Os voluntários assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participar do estudo aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto Metropolitano de Gerontologia de Tóquio depois de o protocolo, estresses e os possíveis riscos terem sido totalmente explicados. Os critérios de recrutamento incluíram comparecimento a um exame médico anual, independência funcional e ausência de condições crônicas ou progressivas que poderiam limitar a atividade física ou ter um efeito importante na qualidade de vida do indivíduo.
Os participantes foram questionados sobre quantos dias por semana tinham ingerido produtos lácteos fermentados e classificados como consumidores de um frasco do produto de 0 a 2 dias/semana (grupo 0–2), 3 a 5 dias/semana (grupo 3–5) ou 6 a 7 dias/semana (grupo 6–7). Os padrões de atividade física foram medidos por 24 horas/dia ao longo de um mês. O número médio de passos dados por dia e a duração acumulada diária do exercício de intensidade moderada [atividade que exige gasto energético superior a três equivalentes metabólicos (METs)] foram calculados para cada voluntário. Os indivíduos foram classificados como tendo <7000 passos/dia (grupo <7000) ou ≥7000 passos/dia (grupo ≥7000) e gastando <15 min/dia a >3 METs (grupo <15) ou ≥15 min/dia a >3 METs (grupo ≥15).
Análise da microbiota intestinal
O número de cada uma das muitas bactérias detectadas no intestino foi determinado pela técnica da reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa quantitativa (RT–qPCR), utilizando o Yakult Intestinal Flora Scan (YIF–SCAN; Yakult Honsha Co. Ltd., Minato, Tóquio, Japão). Nos estágios preliminares/preparatórios, o RNA foi isolado a partir de amostras fecais e utilizado para RT-qPCR. Um limite de detecção foi atribuído para o cálculo estatístico das contagens bacterianas fecais. Duas bactérias benéficas (Lactobacillus e Bifidobacterium), quatro bactérias patogênicas (Pseudomonas, Staphylococcus, Clostridium difficile e Clostridium perfringens), cinco anaeróbios estritos (cluster Atopobium, grupo Bacteroides fragilis, grupo Clostridium coccoides, subgrupo Clostridium leptum e Prevotella) e três anaeróbios facultativos (Enterobacteriaceae, Enterococcus e Streptococcus) foram selecionados devido à sua predominância no intestino de japoneses saudáveis. O total de Lactobacillus (L) foi calculado como a soma das contagens de seis subgrupos (L. casei, L. gasseri, L. plantarum, L. reuteri, L. ruminis e L. sakei) e duas espécies (L. fermentum e L. brevis).
A abundância relativa das famílias de bactérias fecais foi determinada por análise de amplicons visando o gene 16S do RNA ribossômico (rRNA) usando o software Quantitative Insights Into Microbial Ecology (QIIME). Em resumo, o DNA foi isolado a partir de amostras fecais, e as regiões V1-V2 do gene 16S rRNA da microbiota intestinal foram amplificadas usando o primer forward 27Fmod2–MiSeqV2 e o primer reverse 338RMiSeqV2–001 para monitorar a amplificação de DNA em PCR em tempo real (Applied Biosystems 7500; Life Technologies Japan Ltd., Minato, Tóquio, Japão). O DNA amplificado foi purificado usando um kit de purificação de PCR (Agencourt AMPure XP; Beckman Coulter KK, Koto, Tóquio, Japão), quantificado em kit de teste de DNA de fita dupla (dsDNA) (Quant–iT PicoGreen dsDNA; Life Technologies Japan Ltd., Minato, Tóquio, Japão) e sequenciado em um sistema de sequenciamento MiSeq (Illumina KK, Minato, Tóquio, Japão).
Avaliação da evacuação
Os participantes responderam quantos dias tinham evacuado em uma semana antes da amostragem fecal. Movimentos intestinais pouco frequentes foram definidos como evacuação de três dias ou menos/semana. A consistência das fezes foi estimada usando a Escala de Bristol de Consistência das Fezes (BSFS; Heaton et al., 1992), ferramenta de diagnóstico projetada para classificar a forma e o tipo de fezes em sete categorias distintas: pequenas bolinhas duras, separadas como coquinhos (=1); formato de linguiça encaroçada, com bolinhas grudadas (=2); formato de salsicha, com rachaduras na superfície (=3); alongada com formato de salsicha ou cobra, lisa e macia (=4); pedaços macios e separados, com bordas bem definidas (=5); massa pastosa e fofa, com bordas irregulares (=6); totalmente líquido, sem pedaços sólidos (=7).
Discussão indica melhora na população microbiana
As investigações clínicas feitas até o momento demonstram que a ingestão diária de produtos lácteos fermentados contendo LcS ou o envolvimento regular em atividade física ou exercício aumentam a motilidade intestinal e/ou induzem a mudanças favoráveis no ambiente da microbiota local, o que está associado a um risco reduzido de movimentos intestinais pouco frequentes em jovens e pessoas de meia idade. No entanto, como a extensão da atividade física habitual nos participantes foi estimada por questionários relativamente imprecisos, o impacto da ingestão de LcS e da atividade física mensurada em tais parâmetros ainda deve ser claramente definido em indivíduos saudáveis. O presente estudo epidemiológico transversal reforça outras observações clínicas ao mostrar uma associação entre a ingestão frequente de L. casei Shirota ou o desempenho regular de atividade física e um risco reduzido de evacuações pouco frequentes. Os novos dados confirmam que, em idosos sem problemas graves de saúde, a probabilidade de relatar movimentos intestinais pouco frequentes é menor naqueles com maior consumo habitual de produtos lácteos fermentados contendo LcS e/ou maior quantidade/qualidade de atividade física habitual.
Parece haver uma tendência para encontrar maiores quantidades de algumas espécies de microrganismos na microbiota intestinal, especialmente Lactobacillus totais e o subgrupo Lactobacillus casei, na medida em que a frequência de ingestão de produtos lácteos fermentados contendo LcS é aumentada. Muitos estudos clínicos mostram que uma grande fração da população de LcS ingerida sobrevive no trato gastrointestinal humano, e isso pode ser atribuído a uma alta tolerância da cepa aos ácidos gástricos e biliares. Nos participantes desse estudo, a maioria dos que tinham evacuações regulares e normais – em média de seis dias/semana, e pontuação média de 4 na Escala de Bristol – não foi observado aumento na frequência de evacuação ou melhora na consistência das fezes naqueles que ingeriram suplementos contendo LcS com mais frequência.
No entanto, a probabilidade de movimentos intestinais pouco frequentes foi menor em idosos que consumiram produtos lácteos fermentados contendo LcS de 6 a 7 dias/semana. Essas descobertas corroboram a sugestão (avaliada por um esquema de cruzamento randomizado, duplo-cego, controlado por placebo) de que o consumo quase diário de produtos lácteos fermentados contendo LcS poderia beneficiar pessoas mais velhas que tendem a estar constipadas, aumentando a população intestinal de microrganismos benéficos (espécies de Lactobacillus) e elevando o nível intestinal de metabólitos da fermentação microbiana (ácidos láticos), estimulando, assim, o peristaltismo/motilidade intestinal.
Por outro lado, a atividade física habitual (expressa como contagem diária de passos ou duração diária em intensidade >3 METs) não foi associada ao número de bactérias fecais analisadas no presente estudo. No entanto, houve uma pequena, mas estatisticamente significativa diferença na frequência média de evacuação (<1 dia/semana) entre participantes fisicamente mais e menos ativos, independentemente de a atividade física ser expressa como contagem diária de passos ou duração da atividade >3 METs. A prevalência de movimentos intestinais pouco frequentes foi algo ≥10% menor em idosos que fizeram ≥7000 passos/dia ou ≥15 min/dia de atividade física >3 METs em relação àqueles com <7000 passos/dia ou <15 min/dia de atividade >3 METs.
Além disso, a estimativa ajustada multivariada do risco de problemas intestinais foi >50% menor para os participantes do estudo com um estilo de vida fisicamente mais ativo, em comparação aos que eram menos ativos. Portanto, parece que, ao contrário do LcS, a atividade física diária moderada reduz o risco de movimentos intestinais pouco frequentes, principalmente por um estímulo mecânico, sem alterar a contagem bacteriana intestinal. No entanto, outros fatores também podem estar envolvidos, incluindo alterações transitórias no fluxo sanguíneo para o trato gastrointestinal, níveis alterados de hormônios circulantes e alterações no equilíbrio entre a inervação simpática e parassimpática.
A presente investigação confirmou interações estatisticamente significativas entre os movimentos intestinais pouco frequentes, a ingestão de produtos lácteos fermentados (LcS ou suplementos gerais) e os padrões de atividade física habitual (contagem de passos ou duração em >3 METs). Considerando os consumidores menos frequentes e fisicamente menos ativos desses produtos (0–2 dias/semana × <7000 passos/dia ou <15 min/dia em >3 METs) como grupo de referência, a probabilidade de tais problemas intestinais era de apenas um décimo em indivíduos que ingeriram LcS ou produtos lácteos fermentados em geral de 6 a 7 dias/semana, com ≥7000 passos/dia ou que passaram ≥15 min/dia em atividade >3 METs. Esses resultados sugerem que, para melhorar a saúde intestinal e minimizar o risco de movimentos intestinais pouco frequentes, os idosos podem ser incentivados a ingerir um suplemento de leite fermentado, como o L. casei Shirota, com a maior regularidade possível (pelo menos seis dias por semana) e se envolver em hábitos moderados de atividade física (pelo menos 7000 passos/dia e/ou pelo menos 15 min/dia em >3 METs).
Número de bactérias era maior nos consumidores mais frequentes de LcS
As associações com nutrição e saúde intestinal, particularmente a frequência de evacuação, foram semelhantes para os vários métodos de classificação das amostras, limitando a discussão dos resultados, principalmente em relação à ingestão de produtos lácteos fermentados contendo LcS e à duração da atividade física >3METs. Inicialmente, não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de consumo de 0–2, 3–5 e 6–7 no consumo de LcS em relação a qualquer uma das variáveis examinadas, exceto a idade e a ingestão de alguns nutrientes (potássio, cálcio e ferro). Os usuários mais frequentes de LcS eram mais velhos e tendiam a ser melhor nutridos do que seus pares. No entanto, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre <15 e ≥15 nos grupos de atividade física em termos de idade, massa corporal, circunferência abdominal, percentual de gordura corporal, massa gorda, velocidade de caminhada preferida e máxima. Os participantes fisicamente mais ativos eram mais jovens, menos gordos e mais rápidos.
O número de cada uma das muitas bactérias detectadas no intestino tendeu a ser maior nos consumidores mais frequentes de produtos contendo LcS, sendo esta tendência estatisticamente significativa para o total de Lactobacillus (grupos 0–2 versus 3–5 e 6–7), subgrupo Lactobacillus casei (grupos 0–2 versus 3–5 e 6–7; grupos 3–5 versus 6–7) e o cluster Atopobium (grupos 0–2 versus 6–7). Por outro lado, não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de atividade física <15 e ≥15 em relação às contagens para qualquer bactéria fecal selecionada. Além disso, não houve diferenças significativas intergrupos na abundância relativa de qualquer família de bactérias fecais (limitada a uma parcela ≥0,1%), exceto Bacillaceae (grupos LcS 0–2 versus 3–5; grupos de atividades <15 versus ≥15) e Fusobacteriaceae (grupos de atividade <15 versus ≥15). O estudo na íntegra pode ser acessado no https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6684969/.