LcS diminui infecções respiratórias

Estudo investigou a eficácia do probiótico da Yakult em voluntários de meia-idade que trabalham em escritório

O trato intestinal humano abriga mais de 100 trilhões de microrganismos, e a microbiota intestinal desempenha o papel de balança na manutenção da saúde do hospedeiro. Muita atenção tem sido voltada para os probióticos, que sobrevivem ao trato intestinal e recuperam ou mantêm o equilíbrio quando consumidos oralmente. Algumas espécies de lactobacilos e bifidobactérias são probió­ticos conhecidos, consumidos em produtos lácteos fermentados ou suplementos, e entre os benefícios à saúde está a prevenção ou o controle de infecções. Muitos estudos clínicos também têm avaliado várias espécies de probióticos contra resfriados comuns e gripes, com bons resultados contra infecções do trato respiratório superior (URTIs, na sigla em inglês). Os principais alvos desses estudos são crianças, estudantes e idosos. Uma vez que as defesas desta população são relativamente fracas, o uso de probióticos pode ser útil. Entretanto, poucos estudos têm como foco a eficácia dos probióticos em adultos sadios durante a vida cotidiana.

Já sabemos que, man­ten­do o sistema imune dentro da normalidade, o risco de URTIs diminui. A atividade das células NK e a imunoglobulina A (IgA) da saliva são elementos importantes na prevenção dessas doenças. Contudo, vários fatores ambientais, como ritmo de vida estressante, influenciam para o enfraquecimento do sistema imune, resultando no aumento dos riscos dessas infecções. Mas existem evidências de que algumas espécies de probióticos restabelecem a atividade das células NK e os níveis de IgA da saliva. Assim, o consumo diário de bebidas com probióticos pode equilibrar a função imune e controlar as URTIs.

O Lactobacillus casei Shirota (LcS) é um probiótico que sobrevive ao trato intestinal e promove o equilíbrio da microbiota. As propriedades imunomodulatórias desta espécie foram intensamente estudadas, tanto em modelos animais quanto em humanos. Estudos realizados em participantes sadios com baixa atividade das células NK recuperaram os níveis ideais por meio da ingestão do leite fermentado contendo L. casei Shirota (LcS-FM). Experimentos clínicos demons­traram que os LcS reduzem significativamente os riscos de recorrência dos tumores de bexiga, do cólon e reto, incluindo a recuperação da atividade das células NK, entre os mecanismos fundamentais. As muitas evidências resultam no uso deste probiótico como um alimento imunomodulatório em potencial.

Alguns estudos clínicos realizados com LcS tiveram como alvo as URTIs. Os experimentos duplo-cego, randomizados, placebo controlados em idosos sadios atendidos em unidades de repouso demonstraram que o consumo de LcS-FM diminuiu a duração de cada episódio de URTI, mas não a sua taxa de incidência. Outro estudo conduzido com atletas de maratona jovens e sadios apresentou resultados significativos na prevenção de URTI. Em estudo posterior, o consumo diário de LcS-FM diminuiu significativamente a incidência do problema e o número de episódios.

Por esses achados, achamos importante avaliar a eficácia do L. casei Shirota em adultos sadios, uma vez que o ritmo de vida pode levar ao enfraquecimento das respostas de defesa. Assim, participantes de meia-idade que trabalham em escritórios foram selecionados para este estudo, denominado ‘Consumo diário de leite fermentado contendo LcS reduz a incidência e a duração de infecções do trato respiratório superior em pessoas de meia-idade que trabalham em escritório’. Avaliamos o efeito do consumo diário do LcS-FM na incidência de URTIs como objetivo primário. Adicionalmente, analisamos a atividade das células NK e a concentração dos IgA da saliva como marcadores imunológicos, e o nível de cortisol na saliva como marcador do estado de estresse.

Materiais e métodos – Homens sadios, moradores de Tóquio e arredores, com idade entre 30 a 49 anos e que trabalhavam em escritórios foram selecionados para este estudo por meio de chamadas na internet. Os critérios de exclusão foram atuar fora do escritório duas ou mais vezes por semana; apresentar dificuldade em coletar amostras de saliva e sangue; possuir alergia ao leite, rinite crônica, polinose, asma, periodontite ou gengivite; ter histórico de doenças graves no fígado, rins, coração, pulmões ou trato digestivo; estar em tratamento com medicamentos; consumir regularmente probióticos ou leites fermentados; tomar medicamentos ou suplementos que poderiam afetar o abandono do estudo; ter sido vacinado contra a gripe em menos de seis meses; estar inelegível pelo médico a participar do estudo devido à composição química do sangue, pressão arterial, pulsação ou outras razões.

Todos os 271 participantes receberam explicações detalhadas sobre o estudo, assinaram o termo de livre consentimento e participaram da triagem, com análises de sangue, urina e saliva, avaliação física, medidas da pressão e da pulsação. Além disso, responderam ao questionário sobre estilo de vida e perfil profissional. Do total, 171 participantes foram excluídos. Os 100 que restaram foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: LcS-FM e controle (CM). O tamanho da amostra foi calculado prevendo que a incidência de URTIs seria de 80% durante o período de execução da pesquisa e que o LcS-FM reduziria em 35% esta incidência. A um nível de significância de 0,05 com 80% de força pelo teste do Qui-Quadrado, estimou-se que seria necessário recrutar 44 indivíduos por grupo, perfazendo um total de 100 participantes neste estudo. Conduziu-se um teste randomizado, controlado, de 8 de dezembro de 2012 até 5 de março de 2013, na Clínica de Cuidados Paramédicos de Chioda (Tóquio, Japão).

As amostras de LcS-FM foram prepa­radas com leite desnatado, xarope de frutose de milho, açúcar e aromatizante, contendo mínimo de 1,0 x 1011 de células viáveis de Lactobacillus casei Shirota. O probiótico LcS (YIT 9029) foi obtido da coleção de culturas do Laboratório de Pesquisas do Instituto Central Yakult. O leite foi utilizado como amostra padrão. As amostras de LcS-FM e CM foram envasadas em frascos plásticos, distribuídas sob refrigeração aos participantes uma vez por semana, e mantidas refrigeradas  até o consumo. O estudo foi realizado de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinque e os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética da Clínica de Cuidados Paramédicos de Chioda.

Atividade das células NK foi avaliada

As células mononucleares do sangue periférico foram isoladas e a atividade das células NK foi analisada pelo teste de liberação de Crômio usando as células-alvo K562. As células mononucleares do sangue periférico e as células K562 marcadas com Cr51 foram incubadas em uma proporção de 20:1 por 3,5 horas e mediu-se a radioatividade liberada das células-alvo lisadas. A porcentagem de lise específica foi calculada como atividade de células NK usando a seguinte fórmula: Lise específica (%) = (liberação experimental – liberação espontânea)/(liberação máxima – liberação espontânea) x 100. As amostras de saliva foram coletadas entre 9h e 11h na clínica, pelo método passivo.

Os participantes foram solicitados a acumular saliva na boca durante três minutos antes de transferir para os tubos de ensaio. Repetiu-se esta coleta quatro vezes com intervalo de um minuto. A saliva acumulada foi centrifugada a 1500 x g por 15 minutos e o sobrenadante foi armazenado a -20°C até a análise. Os níveis secretados de IgA e de cortisol foram determinados por meio de kits de imuno-ensaio (Salimetrics, PA)’, de acordo com o manual de instruções do fabricante. Provas bioquímicas e hematológicas de sangue, análises qualitativas de urina e testes fisiológicos foram realizados nas semanas 0 e 12, e comparou-se os resultados antes e após o período de intervenção. Não foi anotado nenhum evento adverso nos diários dos participantes, o que foi posteriormente confirmado pelos médicos que os examinaram nas semanas 6 e 12.

Procedimentos e avaliação

Os participantes foram distribuídos por meio de randomização nos grupos LcS-FM e controle. Ambos foram orientados a consumir diariamente um frasco da amostra teste, durante 12 semanas, e evitar a ingestão de quaisquer produtos contendo probióticos. Os participantes preencheram um diário durante o período de estudos, antes de se deitarem, anotando temperatura do corpo, sintomas de doença e o impacto destes sintomas nas atividades diárias, classificando em nenhum/leve, moderado ou severo. As amostras ingeridas e, eventualmente, todos os produtos proibidos contendo probióticos e suplementos foram anotados. Os participantes também foram orientados a anotar possíveis sintomas de URTIs no questionário específico.

Todos os indivíduos compareceram à clínica nas semanas 0, 6 e 12 do período de intervenção, quando as amostras de saliva e sangue foram coletadas. Os participantes eram livres para consultar os seus médicos de confiança quando apresentavam os sintomas da doença, mas eram orientados a anotar todos os detalhes de quaisquer procedimentos clínicos, internação em hospitais, medicamentos prescritos e não prescritos que ingeriam, bem como os resultados dos testes para o vírus Influenza diagnosticados por meio dos kits, caso fossem realizados. Os episódios de URTIs foram avaliados por médicos da clínica, baseados nas anotações dos participantes, no questionário de sintomas de URTI e nas entrevistas na 6ª e 12ª semanas após o período de intervenção.

O questionário consistiu de avaliações de 16 sintomas: febre, calafrio, dor de cabeça, nariz escorrendo, nariz obstruído, espirros, tosse, dor de garganta, escarro, mal-estar, dor muscular, dores nas articulações, náusea, diarreia, dor de estômago e coceira nos olhos. As avaliações não numéricas de nada/leve, moderado e severo foram pontuadas de 1, 2 e 3, respectivamente. A gravidade dos sintomas de URTIs nos sintomas diários foi calculada pela soma de todas as pontuações para cada item, com exceção dos referentes à ocorrência de náusea, diarreia, dor de estômago e coceira nos olhos. A pontuação máxima para a gravidade dos sintomas foi 36. A gripe foi diagnosticada de acordo com os resultados dos kits de testes para o vírus, realizados em todos os hospitais, e foi considerado como episódio de URTI. As URTIs causadas por outros agentes sem ser o vírus foram consideradas como resfriados comuns. Analisamos a diferença na incidência de URTIs entre os grupos por meio do teste Qui-Quadrado. As curvas de tempo em relação ao episódio para o primeiro URTI entre os grupos foram baseadas no método de Kaplan-Meier, e a diferença foi analisada pelo teste de log-rank. A relação de perigo foi estimada pelo modelo de Cox não ajustado. Todas as análises foram realizadas usando o programa SPSS versão 20.0 (IBM Japan, Tóquio, Japão) e o SAS versão 8.2 (SAS Institute Japan, Tóquio, Japão).

Resultados indicam redução de riscos

Este estudo controlado randomizado demonstrou claramente que a ingestão diária de leite fermentado com probióticos LcS-FM reduziu o risco de incidência de URTIs. A análise do tempo para o primeiro episódio de URTI dentro do grupo LcS-FM apresentou eficácia de redução do risco de 68% (95% CI 35-84%) comparado com o grupo controle. A análise da incidência de URTI para os três períodos demonstrou que efeitos positivos sobre a saúde pelo LcS-FM foram mais evidentes em períodos iniciais. A incidência de resfriados comuns no grupo LcS-FM (18,4%) durante o período de intervenção de 12 semanas diminuiu para mais da metade comparando com o grupo controle (44,7%). A redução na incidência de gripes não alcançou significância estatística, que pode ser devido às baixas taxas de ocorrência em ambos os grupos (10,6% para o grupo controle e 4,1% para o grupo LcS-FM). Além de diminuir os riscos para URTIs, o LcS-FM baixou o número de dias com sintomas e diminuiu a duração de cada episódio.

Estudos intervencionais realizados com produtos similares ao LcS-FM sobre URTIs foram realizados anteriormente. Os resultados obtidos de duas experiências realizadas com idosos com idades acima de 80 anos não apresentaram redução significativa nas taxas de incidência de URTIs. Em contraste, o presente estudo demonstrou claramente que o  LcS-FM reduziu efetivamente os riscos de URTIs. Tais resultados são coerentes com os resultados da pesquisa conduzida com atletas entre 18 e 55 anos. As idades dos participantes desta pesquisa são parecidas com as da pesquisa que realizamos anteriormente, explicando os resultados conflitantes obtidos com os idosos. Outra diferença entre este e os estudos anteriores deverá ser observada.  A quantidade de células viáveis de LcS consumida diariamente foi de, no mínimo, 1,0 x 1011 células neste estudo, enquanto que no estudo realizado com participantes idosos foi de 1,3 x 1010 ou 4,0 x 1010. Em geral, quanto maior o número de células viáveis, maior a tendência a obter resultados benéficos. Foi relatado um fato relacionando dose-resposta associada à melhora da eficiência contra URTIs. A relação entre a quantidade de células viáveis de LcS e eficácia deverá ser melhor examinada em estudos futuros.

Muitos estudos realizados com probióticos em bebês, crianças, estudantes e idosos demonstraram a eficácia contra URTIs. Indivíduos fisicamente ativos, incluindo jogadores de rúgbi e atletas de corrida de maratonas, poderiam ser alvo de estudos com probióticos. As atividades de defesa são relativamente fracas nestes indivíduos e, por isso, experimentam mais episódios de infecções. O presente estudo demonstrou que trabalhadores de escritórios de meia-idade também podem ser alvos promissores para estudos com probióticos. Em geral, estes trabalhadores atuam sob pressão e estresse todos os dias, o que pode diminuir a capacidade imunológica. O consumo diário de certos probióticos em altas concentrações tende a contribuir para a prevenção do desequilíbrio do sistema imune.

Neste estudo, o consumo de LcS-FM resultou no melhoramento dos parâmetros imunológicos e marcadores de estresse. Na semana seis do período de intervenção, a atividade das células NK diminuiu e os níveis de cortisol na saliva aumentaram no grupo controle, mas mantiveram-se estáveis na linha de base no grupo LcS-FM. As células NK desempenham um papel muito importante no combate a infecções virais, incluindo as URTIs, e o controle na diminuição da atividade das células NK aumenta a resistência contra URTIs. Ainda não estão claras as causas de alterações nos parâmetros imunológicos e marcadores de estresse no grupo controle, entretanto, os participantes concordaram em executar tarefas diferentes daquelas que estavam acostumados, incluindo o preenchimento de diários e relatórios sobre as condições de saúde, que poderiam ter afetado o sistema imune e endócrino, especialmente na primeira metade do período de intervenção. Na etapa final, os participantes poderiam não sentir mais tal estresse pelo fato de terem se habituado às atividades diárias, como também pelo fato de os parâmetros terem voltado aos níveis basais.

Se a situação for verdadeira, o consumo de LcS-FM poderá prevenir a queda nas atividades de defesa causada por certos eventos, ao invés de aumentar os seus níveis basais. Esta pode ser a razão pela qual as melhoras nos parâmetros por meio do consumo de LcS-FM foram detectadas somente na sexta semana. De fato, um estudo anteriormente realizado em adultos saudáveis com níveis normais de atividades das células NK concluiu que o consumo de LcS não teve efeito significativo. Estudos anteriores revelaram que o consumo diário de LcS­FM­ ajuda a recuperar a atividade das células NK. Estudos in vitro de células mononucleares do sangue periférico sugerem que o LcS estimula os macrófagos/monócitos a produzirem IL-12 e aumenta a atividade das células NK. A regulação direta da função imunológica por meio do LcS pode ter ocorrido no presente estudo clínico que, por sua vez, pode ter reduzido a incidência de URTIs. O LcS-FM pode mediar outro mecanismo de proteção, uma vez que a ingestão de bebidas probióticas reduz o estresse relacionado à resposta do hospedeiro.

No presente estudo, o LcS-FM inibiu aumentos nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, que possui a capacidade de diminuir a atividade das células NK. Alguns estudos clínicos com probióticos e prebióticos têm focado no estresse fisiológico relacionado à diminuição do mecanismo de defesa do hospedeiro, entre os quais a prevenção de URTIs pela suplementação de probióticos e prebióticos em estudantes universitários sob estresse devido aos exames acadêmicos finais. Entretanto, ao contrário deste presente estudo, os níveis de cortisol não foram avaliados naqueles estudos. Aumentam as evidências sugerindo que os probióticos e a microbiota intestinal afetam o sistema nervoso e as funções do cérebro. O sistema nervoso está intimamente relacionado ao sistema imunológico. Finalmente, as descobertas obtidas neste estudo sugerem que o consumo diário do leite fermentado com Lactobacillus casei Shirota pode diminuir os risco de URTIs em trabalhadores de escritórios de meia-idade, provavelmente por meio da modulação do sistema imune. O estudo foi publicado no European Journal of Nutrition (2015). doi:10.1007/s00394-015-1056-1.