Histórias que colaboram para melhorar a saúde

Laura Bergamo Especial para Super Saudável

A ação de voluntários contribui para que os tratamentos sejam menos desgastantes para os pacientes e ajuda a atenuar o desconforto do ambiente hospitalar

O ambiente hospitalar pode ser estressante e desgastante para quem está passando por uma internação, seja de poucos dias ou por um longo período. Porém, esses momentos podem ser amenizados graças à ação dos contadores de histórias, voluntários que atuam em hospitais públicos e privados em várias partes do Brasil. Mais do que distrair, a contação de histórias ajuda a diminuir as emoções negativas, atenuando o desconforto do período dentro do hospital. Além disso, é capaz de provocar mudanças na atitude de crianças e adolescentes que estejam sob cuidados médicos, levando-os a aceitar com mais facilidade um procedimento doloroso, compreender o processo do eixo saúde-doença, confiar nos profissionais que estão atuando no caso e aderir aos tratamentos.

A leitura como parte do processo vivenciado dentro de um hospital, seja para o tratamento em caso de intervenções ou para a convivência de doenças crônicas, mostrou-se uma ferramenta de grande poder, sendo capaz de ajudar os pacientes a reduzirem os níveis de tensão e ansiedade ao partilhar as narrativas. O estudo brasileiro O uso de histórias infantis no cuidado de enfermagem à criança: revisão integrativa, conduzido pela doutora em Enfermagem Jeanine Porto Brondani, mostra que a contação de histórias pode ser utilizada em inúmeros momentos de um processo terapêutico, que incluem a abordagem para um procedimento de enfermagem, o preparo para cirurgia, a redução da ansiedade na hospitalização e a venopunção, entre outros.

A Associação Viva e Deixe Viver, que foi criada em 1997 e atualmente tem mais de 1 mil voluntários, atua em hospitais de São Paulo e de outros estados do País, entre os quais o Hospital da Criança da Rede DOr, que atende exclusivamente o público infantil. Segundo a coordenadora da equipe de Psicologia do hospital, Silvia Maria de Moraes Gonçalves, a internação é um evento traumático que irá causar condições como desconforto e dor, assim como reações ansiosas e depressivas. Nos casos em que o paciente está em um tratamento longo, como em um quadro oncológico, o processo é capaz de gerar apatia e mudar o humor. Em algumas situações, o tratamento pode provocar até mesmo uma regressão de um desenvolvimento já adquirido como, por exemplo, levar a criança a voltar a usar fraldas mesmo depois de já ter passado pelo processo de desfralde.

No entanto, o contato com os contadores e a possibilidade de participar da história estimula a autonomia e independência dos pequenos pacientes, o que pode ajudar a combater esse estado de humor. A psicóloga acrescenta que o contador de histórias ajuda a alimentar a fantasia da criança, aliviando o impacto da situação traumática de dor e de situações invasivas e levando-a a sentimentos de prazer, porque a fantasia não deixa de ser um escape e um alimento para a saúde mental. A criança que pode fantasiar, imaginar e criar também está combatendo o adoecimento. Enquanto vão contando as histórias, percebemos que, nas repetições, o paciente vai se envolvendo e se empolga. Isso gera um estado de humor mais ativo, em que pode participar contra aquela situação traumática”, relata.

A diretora executiva do Viva e Deixe Viver, Luciana Bernardo, que atua no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (ITACI), afirma que com as histórias é possível acalmar os pacientes e, às vezes, até fazer com que aceitem os procedimentos médicos aos quais são submetidos. “É possível perceber que a maioria desses pacientes passa a estabelecer uma interação melhor com as pessoas e quer começar a se movimentar. Muitas vezes, se recusam a sair do quarto e, depois da contação, pedem para ir até a brinquedoteca”, acentua a voluntária, que representou a associação como contadora de histórias na área de Primary Care do UVA Childrens Hospital, na Virgínia, Estados Unidos. As crianças que passam pela experiência também demonstram mais iniciativa e independência, começam a manter contato visual, mostram mais atenção, expressam sentimentos, demonstram alegria e até respondem a estímulos e solicitações de enfermeiros e médicos.

Outra iniciativa dos contadores de histórias é a Associação Griots, que desenvolve o trabalho em hospitais e lares de idosos na região metropolitana de Campinas (interior de São Paulo) desde 2003, com um grupo de aproximadamente 180 voluntários. Suely Lopes, coordenadora da Griots no Hospital da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e voluntária desde a fundação, lembra que para desempenhar a atividade é fundamental respeitar os pacientes e seus acompanhantes. Sempre pedimos licença para entrar no quarto, nos apresentamos e procuramos contar histórias educativas. Às vezes, a criança e o adulto não querem ouvir aquele tipo de história ou preferem ouvir outra história, por isso, temos de ir preparados, pois procuramos sempre agradar e alegrar os pacientes”, relata.

Iniciativa melhora aceitação dos procedimentos médicos

O ato de contar histórias não impacta apenas o paciente, mas também os acompanhantes e a equipe multidisciplinar. A psicóloga hospitalar do Centro Infantil Boldrini (um dos locais de atuação da Griots), Sarah da Silva, enfatiza que uma criança inserida no contexto hospitalar que recebe a contação de histórias pode apresentar melhora em sua capacidade de enfrentamento do tratamento, refletindo na maior aceitação dos procedimentos médicos e no melhor relacionamento na tríade paciente-família-equipe. A promoção da saúde envolve um cuidado integral ao paciente, considerando para este contexto fatores de bem-estar físico, mental, social e espiritual. Neste âmbito, o uso das histórias em diferentes contextos é capaz de contribuir. Todavia, não pode ser um fator isolado e sim integrado às ações da equipe”, ressalta.

A psicóloga Silvia Maria de Moraes Gonçalves acentua que a presença dos contadores estimula os profissionais da equipe multidisciplinar a também fazerem um pouco esse papel, buscando alguma forma de intervenção lúdica durante o atendimento, o que é muito significativo para a criança. Os interessados em fazer parte das associações devem entrar em contato para saber quando serão formadas novas turmas. A atividade é voluntária, mas exige treinamento que envolve várias etapas, que vão de palestras com especialistas até estágio supervisionado dentro de hospitais.