Herpes zoster tem quadros de dor intensa
Envelhecimento e sistema imunológico enfraquecido são os
principais fatores de risco para a reativação do vírus varicela-zoster
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
O herpes zoster é uma doença infecciosa causada pela reativação do vírus varicela-zoster (VVZ) – o mesmo da catapora. O vírus pode permanecer em estado de latência ou inativo nos gânglios nervosos (espinhais ou cranianos) localizados na raiz dorsal posterior, ou seja, fora do sistema nervoso central, desde a primeira infecção ainda na infância. Apesar de não haver um número oficial, estimativas apontam que mais de 90% dos brasileiros acima de 20 anos de idade tenham soropositividade do vírus, e que um a cada três desenvolva a enfermidade. Entre os principais fatores de risco estão idade (indivíduos com mais de 50 anos têm mais risco) e sistema imunológico comprometido.
Com sintomas como dor intensa, formigamento, coceira e/ou queimação em um lado do corpo ou rosto, a infecção por herpes zoster evolui para erupções cutâneas com bolhas cheias de líquido, tornando a região afetada muito sensível ao toque. Pelo risco de complicações que podem comprometer seriamente a qualidade de vida, a vacinação é considerada a ferramenta mais eficaz de prevenção contra a doença.
De acordo com o virologista Rafael Brandão Varella, professor associado de Virologia do Departamento de Microbiologia e Parasitologia (MIP) do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o passar do tempo o vírus pode ser reativado. “Seja por fatores como envelhecimento, sistema imunológico enfraquecido, estresse, doenças crônicas ou condições de imunossupressão, quando reativado o vírus se multiplica e viaja ao longo de um nervo sensitivo até a pele”, descreve.
Ao causar inflamação do gânglio da raiz sensorial, os nervos mais afetados pelo vírus varicela-zoster são os sensitivos, responsáveis por transmitir informações de toque, dor e temperatura. Entre os mais comuns estão os nervos da região torácica (intercostais); nervo trigêmeo localizado na face, que pode atingir olhos ou boca; nervos cervicais, afetando a região do pescoço; nervos lombossacrais, causando sintomas na região lombar ou nas pernas; e nervo vestibulococlear, que ocasiona lesões no nervo auditivo. “Antes do surgimento das lesões visíveis, sintomas como ardor, formigamento, coceira e dor intensa na área afetada são o sinal de alerta de que o vírus está se reativando”, aponta o virologista. Outros sintomas sistêmicos podem incluir febre, mal-estar ou inchaço dos gânglios linfáticos.
A manifestação clínica tem início com o surgimento de lesões cutâneas, descritas como vesículas (bolhas) dolorosas sobre uma base avermelhada (eritematosa), levando a um quadro inflamatório que segue o trajeto do nervo (dermatomo) afetado. As erupções unilaterais surgem gradualmente – entre dois e quatro dias – como uma mancha, evoluem para a formação de vesículas e, após duas a quatro semanas, formam crostas que, então, cicatrizam. “Por ser uma doença neurológica que acomete primariamente o sistema nervoso central, o herpes zoster causa dores intensas e até mesmo lancinantes, que podem persistir mesmo após o desaparecimento das lesões”, alerta o infectologista Diego Rodrigues Falci, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e docente do Programa de Pós-graduação em Medicina: Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Antivirais eficazes
Segundo a infectologista Rosana Richtmann, médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo, e diretora do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o tratamento inclui dois aspectos principais: o uso de antivirais para combater o vírus e analgésicos para o manejo da dor. “O aciclovir por via oral, normalmente em altas doses diárias, é o antiviral mais utilizado. Os antivirais valaciclovir e fanciclovir funcionam de forma semelhante, mas com custo mais elevado”, orienta. A recomendação é começar o manejo farmacológico até 72 horas após o início dos sintomas, e manter por sete dias consecutivos. O tratamento prolongado pode ser considerado pelo médico se, após esse período, ainda houver novas lesões.
Como a doença transcorre com neuralgia prolongada, geralmente são prescritos analgésicos de acordo com a intensidade da dor. No caso de dores leves a moderadas podem ser usados paracetamol, dipirona ou anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Já em casos de dor mais intensa pode ser necessário o uso de determinados opioides. “Todo o processo deve ser acompanhado por um infectologista, dermatologista, clínico ou neurologista, que determinará os fármacos, as dosagens e o tempo de tratamento adequado de acordo com o quadro clínico de cada paciente”, orienta a infectologista. Paralelamente, a recomendação é que o paciente adote cuidados diários como, por exemplo, realizar constantemente a higiene da pele com água e sabonete e manter as lesões cobertas enquanto estiverem ativas, para evitar infecções secundárias ou o contágio de outras pessoas.
Complicações incluem a neuralgia pós-herpética mesmo após cicatrização das lesões da pele
Mesmo com o tratamento, o herpes zoster pode evoluir e causar complicações importantes. A mais comum é a neuralgia pós-herpética, que ocorre quando a dor provocada pela reativação do vírus nos nervos se prolonga para além do tempo habitual, ou seja, mesmo depois que as lesões da pele cicatrizaram. “Trata-se de uma dor crônica intensa e pulsante, acompanhada de hiperestesia (aumento da sensibilidade a estímulos) e desconforto, que impacta muito a qualidade de vida. Para alguns pacientes, essa sequela de difícil controle pode persistir por meses ou anos”, comenta o infectologista Diego Rodrigues Falci. Os cuidados terapêuticos incluem analgésicos potentes, a exemplo dos neuromoduladores pregabalina e carbamazepina, que inibem a liberação de neurotransmissores envolvidos na transmissão da dor – como o glutamato.
Quando o vírus acomete o nervo oftálmico – um dos ramos do nervo trigêmeo – pode atingir os olhos e causar problemas recorrentes, crônicos e, em alguns casos, irreversíveis. “Todas as estruturas do olho podem ser afetadas, com o surgimento de um quadro leve de conjuntivite até outros mais severos, como ceratite, glaucoma e hipertensão ocular”, descreve o infectologista. Em geral, sintomas como vermelhidão, maior sensibilidade à luz e baixa visão aparecem em até três meses após a infecção inicial. Apesar de menos incidente, outra manifestação é a síndrome de Ramsay Hunt, que afeta o nervo facial perto da orelha. Seus principais sintomas incluem paralisia facial, dor local e erupção cutânea com bolhas no ouvido ou na boca. O tratamento precoce com antivirais e corticosteroides é crucial para melhorar o prognóstico e reduzir o risco de complicações, como perda auditiva e paralisia facial permanente no lado afetado.
De acordo com o infectologista Diego Rodrigues Falci, estudos recentes identificaram que o herpes zoster pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC) e, consequentemente, os casos de internação hospitalar. Isso ocorre devido à inflamação causada pela doença no corpo, inclusive nos vasos sanguíneos. “O risco de um evento cardiovascular grave é cerca de 30% maior após a infecção por herpes zoster, e essa é uma relação que pode ser mantida por anos”, alerta. Além disso, o vírus pode causar neuroinflamação ou dano neural direto no cérebro, elevando o risco de quadros de demência. Entretanto, estudos observacionais têm demonstrado uma associação entre a vacinação contra o VVZ e um risco significativamente menor de desenvolver demência, com algumas estimativas apontando para uma redução de até 30%.
Vacina é eficaz na prevenção
Disponível no Brasil desde junho de 2022, o imunizante Shingrix é uma vacina de vírus inativado constituída da glicoproteína E recombinante. O antígeno é importante do vírus varicela-zoster, em combinação com o adjuvante AS01 – sistema que ativa células imunes específicas para produzir substâncias que reforçam a resposta do organismo. Com eficácia superior a 90%, é indicada para pessoas imunocomprometidas a partir de 18 anos de idade; adultos com 50 anos ou mais e para pessoas que já tiveram a doença, pois em 15% a 20% dos casos o vírus pode ter uma segunda reativação. O esquema vacinal é realizado em duas doses com intervalo de dois meses, e pode ser usado independentemente do histórico de varicela ou vacinação anterior contra a doença.
“A disponibilidade de uma vacina inativada, diferentemente do imunizante anterior com vírus vivos atenuados, que foi descontinuado no Brasil em 2023, representa um novo e excepcional instrumento de prevenção contra a doença, principalmente para pessoas com imunocomprometimento”, ressalta a infectologista Rosana Richtmann. A vacina não costuma originar eventos adversos importantes e os mais comuns incluem dor, edema e vermelhidão local – geralmente transitórios e com intensidade leve a moderada. Episódios sistêmicos, a exemplo de cansaço, calafrios, febre e mialgia, são facilmente resolvidos com analgésicos comuns. Em casos raros podem ocorrer reações de hipersensibilidade como inchaço ou vermelhidão mais intensos, indicando um possível fator alérgico.
Atualmente, o imunizante está disponível apenas na rede privada, com valores significativos. Entretanto, em setembro de 2025 o Ministério da Saúde abriu uma consulta pública organizada pela Coordenação de Incorporação de Tecnologias em Saúde (Conitec) para avaliar a proposta de integração da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS). A medida é direcionada, inicialmente, a idosos com 80 anos ou mais e a indivíduos imunocomprometidos a partir dos 18 anos. “Com o objetivo de ouvir a sociedade, especialistas e instituições de saúde, a consulta pública foi um passo importante para a incorporação da vacina. No entanto, a decisão final sobre a inclusão no calendário do SUS ainda depende de análises comerciais e pareceres técnicos”, acentua a infectologista Rosana Richtmann. •