Gratidão faz bem para a saúde
O sentimento está relacionado ao bem-estar emocional,
funcionamento cognitivo e boas relações sociais
Elessandra Asevedo
Especial para Super Saudável
Gratidão
Bem-estar
Saúde
Sentimento de gratidão
A gratidão é a capacidade de reconhecer, valorizar e agradecer por experiências e condições vividas. Assim, agradecer não é apenas ter a capacidade de dizer obrigado, mas cultivar uma atitude interna de apreciação pela vida, pelas pessoas e pelas experiências que contribuem para o viver e crescer. Desta forma, esse sentimento permite olhar para além das dificuldades e perceber que, mesmo em situações desafiadoras, existem aprendizados, oportunidades e aspectos positivos que podem fortalecer cada ser humano. Sustentada em três pilares – genético, epigenético e ambiental – há pessoas que já nascem com o sentimento de gratidão mais aflorado na própria constituição biológica e outras que desenvolvem essa capacidade após um grande baque, como a perda de alguém querido.
De acordo com o médico neurologista Marco Orsini, membro titular do Departamento de Doenças do Neurônio Motor da Academia Brasileira de Neurologia e presidente da Associação Regional de Esclerose Lateral Amiotrófica do Rio de Janeiro, também é possível aprender a ser grato ao conviver com pessoas que cultivam essa virtude e acabam moldando a própria forma de sentir e enxergar a vida. “Por meio da gratidão é possível mudar o foco daquilo que falta para aquilo que se tem, promovendo uma sensação de satisfação e equilíbrio emocional”, pontua. Além disso, a prática diária da gratidão ajuda a melhorar relacionamentos, fortalecer vínculos e criar um ambiente mais positivo. No geral, indivíduos que cultivam a gratidão tendem a apresentar mais bem-estar, menos estresse e uma visão mais otimista da vida.
Outro ponto importante é que a gratidão está na qualidade das relações sociais. Pessoas que expressam reconhecimento e apreço tendem a fortalecer vínculos, melhorar a comunicação e criar ambientes emocionalmente mais seguros. “Esse aspecto é fundamental para a saúde mental, uma vez que o senso de pertencimento e a conexão social funcionam como fatores protetivos contra depressão, solidão e o sofrimento psíquico”, pontua a neuropsicóloga Leninha Wagner, doutora e perita judicial em Psicologia.
A gratidão também está associada a melhorias no sono, pois, ao reduzir pensamentos ruminantes e a autocobrança excessiva no fim do dia, o cérebro encontra mais facilidade para desacelerar, favorecendo o relaxamento necessário para um descanso de qualidade. Entretanto, a gratidão não deve ser confundida com negação de emoções difíceis. “A prática saudável não invalida sentimentos como tristeza, raiva ou frustração, mas amplia o repertório emocional, permitindo que o indivíduo reconheça tanto os desafios quanto os aspectos positivos da própria trajetória”, alerta a neuropsicóloga, que também é mestre em Psicanálise.
Por ser mais do que um sentimento abstrato, a gratidão envolve a ativação de áreas específicas do cérebro associadas a emoções, recompensa e regulação do comportamento. A neurociência mostra que, ao expressar a gratidão, há maior atividade no córtex pré-frontal medial, região ligada a tomada de decisões, empatia e julgamento moral. O mesmo ocorre no córtex cingulado anterior, relacionado à regulação emocional e ao processamento de vínculos sociais. Além disso, estruturas como a amígdala, envolvida no processamento das emoções, e o hipocampo, associado à memória e ao aprendizado emocional, participam desse processo fortalecendo memórias positivas e modulando respostas ao estresse.
Essa ativação integrada favorece a liberação de neurotransmissores como dopamina e serotonina, associadas à sensação de bem-estar, satisfação e equilíbrio emocional. “Como consequência, a prática da gratidão está relacionada à redução dos níveis de cortisol – conhecido como hormônio do estresse, melhora da qualidade do sono, ao fortalecimento do sistema imunológico e à diminuição de sintomas de ansiedade e depressão”, afirma a médica neurologista Nancy Huang, da Comissão de Estilo de Vida da Academia Brasileira de Neurologia.
Comprovações
A meta-análise brasileira ‘The effects of gratitude interventions: a systematic review and meta-analysis’ incluiu diversos ensaios clínicos randomizados e demonstrou que os pacientes submetidos a intervenções de gratidão apresentaram maiores sentimentos, melhor saúde mental e menos sintomas de ansiedade e depressão. Além disso, experimentaram outros benefícios como humor e emoções mais positivos. A neurologista Nancy Huang afirma que os estudos mostram que indivíduos com senso de gratidão adquirido têm 30% menos sintomas depressivos, 20% a 25% menos sintomas ansiosos e 20% menos sintomas físicos como dor, palpitações, cefaleia, tensões e problemas gastrointestinais. “Em contrapartida, pessoas com o sentimento pleno de gratidão têm 35% a mais de satisfação com a vida e 25% a mais de emoções positivas, dando uma sensibilidade maior para o lado positivo. Portanto, o estado de gratidão traz mais felicidade”, complementa.
Exercício contínuo amplia a percepção diante da vida
Para o médico Marco Orsini, a gratidão está em extinção, mas é possível praticá-la. “Um dos caminhos para ser grato é tentar entender que todo processo biológico e espiritual acontece por um determinado motivo. E que estamos no processo de nascimento, amadurecimento e finitude com um propósito”, resume. Uma forma prática de treinar a gratidão é anotar, diariamente, pelo menos três coisas positivas que aconteceram nas últimas horas e refletir com atenção. Esse exercício simples ajuda a direcionar o foco para experiências construtivas, fortalecendo a percepção do que há de bom na rotina.
Outra prática importante é enviar mensagens de agradecimento às pessoas, mesmo quando tenham sido rudes ou difíceis. Ao responder sempre em uma vibração diferente é possível quebrar os ciclos negativos e agir a partir de um lugar mais elevado emocionalmente. Também é fundamental reconhecer situações positivas mesmo em meio a acontecimentos desagradáveis, como uma forma de combater o viés negativo natural do cérebro. “Por exemplo, ao machucar o pé é possível reconhecer que poderia ter sido algo mais grave. Esse tipo de reflexão ajuda a reduzir a tendência automática de focar apenas no aspecto negativo”, reforça o médico.
Além disso, é importante praticar a presença. Muitas vezes, as pessoas deixam de sentir gratidão porque estão presas ao passado ou ansiosas pelo futuro. Ao prestar atenção ao momento presente, entretanto, cria-se um espaço para perceber o que já está disponível agora. “É possível cultivar a gratidão diariamente colocando a atenção naquilo que está fazendo, ampliando a experiência sensorial de estar aqui e agora vivendo o momento. Essa atitude favorece a percepção das coisas boas da vida”, ensina a neuropsicóloga Leninha Wagner.
Ademais, a gratidão não deve ser vivida como uma obrigação moral ou uma cobrança interna para estar bem o tempo todo, mas como um exercício contínuo de ampliar a percepção e desenvolver sensibilidade diante da vida. De acordo com os especialistas, é um treino diário do olhar, uma escolha consciente de reconhecer o que há de valioso, mesmo em meio aos desafios e imperfeições do caminho. Assim, com o tempo, a gratidão deixa de ser apenas uma técnica ou um hábito pontual e se transforma em uma postura interior, uma maneira mais leve, equilibrada e consciente de interpretar experiências, valorizar relações e viver com maior profundidade e significado.
Benefícios comprovados cientificamente
Uma boa saúde mental inclui a presença de fatores psicológicos positivos como felicidade, otimismo, vitalidade emocional, senso de propósito, satisfação com a vida e atenção plena, que estão associados à diminuição do risco e melhores desfechos de doenças. Dentro deste contexto, estudos demonstram que a gratidão não apenas promove a saúde mental e a adesão a comportamentos saudáveis, mas também melhora os aspectos de algumas enfermidades. Por exemplo, melhora a qualidade de vida de pacientes com doenças crônicas como insuficiência cardíaca, artrite, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes e câncer de mama.
A revisão científica ‘The impact of gratitude interventions on patients with cardiovascular disease: a systematic review’, desenvolvida na China, mostrou que a gratidão pode ter um impacto positivo em biomarcadores de risco de doenças cardiovasculares, especialmente insuficiência cardíaca assintomática, função cardiovascular e atividade do sistema nervoso autônomo. Isso porque a terapia da gratidão promove alterações na inflamação e nas funções do sistema nervoso autônomo, do sistema de ativação de metionina e adrenalina, do sistema renina-angiotensina-aldosterona e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Paralelamente, a revisão científica ‘Can gratitude ease the burden of fibromyalgia? A systematic review’, realizada em Portugal, investigou o impacto da gratidão na fibromialgia. O estudo mostra que níveis mais elevados de gratidão estão associados à redução da gravidade dos sintomas, melhora da qualidade de vida, bem-estar e melhora dos desfechos relacionados à dor em pacientes com a doença. Isso porque o sentimento está relacionado à redução do estresse, ansiedade e depressão, melhores padrões de sono e menor comprometimento funcional nos pacientes. Consequentemente, melhora qualidade de vida e bem-estar geral e propicia maior capacidade funcional.
Já o trabalho ‘Neural correlates of gratitude’, realizado no Departamento de Psicologia do Brain and Creativity Institute da University of Southern California, nos Estados Unidos, elucidou os correlatos neurobiológicos da gratidão realizando um experimento no qual induziu o sentimento em participantes enquanto eram submetidos a exames de ressonância magnética funcional. Os resultados revelaram que as avaliações de gratidão se correlacionaram com a atividade cerebral no córtex cingulado anterior e no córtex pré-frontal medial. Os estímulos utilizados para suscitar a gratidão foram extraídos de histórias de sobreviventes do Holocausto. Muitos desses sobreviventes relatam ter sido acolhidos por estranhos ou recebido alimentos e roupas que salvaram suas vidas, por isso, nutrem fortes sentimentos de gratidão por tais doações. •