Exercícios recuperam o olfato
Treinamento é indicado para casos de perda total ou parcial da capacidade de percepção dos odores
Sintoma mais comum durante períodos de infecções respiratórias, a perda de olfato, total ou parcial, abrange também outros tipos de enfermidades, como doenças neurodegenerativas, traumas ou tumores que atingem o trato respiratório superior. Embora a perda do olfato tenha ganhado mais notoriedade devido à pandemia do SARS‑CoV-2, pois é um dos sintomas que acometem parte dos infectados, o problema atinge uma parcela significativa da população. Pesquisa da Universidade East Anglia, na Inglaterra, aponta que 5% de indivíduos no planeta são acometidos pela forma mais aguda do problema, a anosmia, com perda total da capacidade de sentir odores. Mesmo que o problema seja por um período prolongado, a recuperação da sensibilidade aos cheiros é possível por meio de exercícios diários simples, com a utilização de aromas específicos que estimulam o sistema olfatório – denominado treinamento olfatório ou fisioterapia olfatória.
Apesar de o olfato não ser um sentido que determine a sobrevivência humana, como ocorre com outros seres vivos, certamente impacta significativamente na qualidade de vida por estar atrelado ao paladar. E é justamente por estarem intimamente conectados que a anosmia, muitas vezes, é confundida com a ageusia, embora perda de olfato e de paladar sejam sensações distintas. “Alguns pacientes com anosmia emagrecem de 10kg a 15kg porque não conseguem se alimentar. Quando não se sente odores, também corre-se o risco de ingerir alimentos estragados, o que pode levar até a infecções intestinais”, orienta o professor doutor em Otorrinolaringologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Gilberto Ulson Pizarro, diretor técnico do Hospital Paulista de Otorrinolaringologia e responsável pelo Ambulatório de Paladar e Olfato da Instituição.
Nas células da língua são detectados seis tipos de sabor: azedo, amargo, doce, salgado, ácido e umami – palavra japonesa cujo significado é ‘gosto delicioso’, mas usada para descrever a sensação proporcionada pelo aminoácido glutamato. O treinamento olfatório tem como base a memória olfativa, com resgate de sensações e conexão com o sistema límbico. O exercício consiste em o paciente visualizar e sentir determinados odores por 10 segundos, com intervalos de 15 segundos entre cada um, pela manhã e à noite. Entre as fragrâncias sugeridas estão óleos essenciais de rosa, eucalipto, limão e cravo. O médico Gilberto Ulson Pizarro alerta que, embora o paciente possa fazer o treinamento sozinho, é fundamental que, no início, tenha acompanhamento especializado pois, se o indivíduo treinar com essências de modo errado, pode lesionar o nariz e passará a sentir somente alguns cheiros. “Mesmo que inicialmente o paciente não sinta os aromas, deve continuar a fazer os exercícios para estimular o nervo olfatório”, ensina. Como o organismo humano atenua a sensação do aroma depois de certo período de exposição, o treinamento também tem de ser feito por curto tempo para não haver interferência nas demais sensações olfativas relacionadas, como o paladar ao longo do dia ou aromas nauseantes, evitando que o indivíduo fique por um tempo prolongado com essa percepção.
Com o avanço da idade, alguns indivíduos também apresentam redução significativa da sensibilidade para sentir odores. Pesquisas mostram, inclusive, que a perda olfatória pode ser sintoma de doenças neurodegenerativas, pois muitos pacientes que desenvolveram esclerose múltipla, doença de Parkinson e mal de Alzheimer demonstraram sinais de perda olfatória alguns anos antes de os primeiros sintomas das enfermidades surgirem. “Em alguns desses casos, estudos indicam que é possível a recuperação total ou parcial da capacidade de sentir odores por meio dos exercícios olfatórios. A perda do olfato já foi muito negligenciada, mas é muito importante para a qualidade de vida das pessoas”, avalia a professora doutora do Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP), Bettina Malnic, pósdoutora na Harvard Medical School com supervisão de Linda Buck, prêmio Nobel de Medicina em 2004 na área de Olfato.
Neurônios nasais se regeneram
A cavidade nasal possui, ao redor dos neurônios olfatórios, células-tronco olfatórias responsáveis pela sua reposição. Como a vida útil média dos neurônios olfatórios é de aproximadamente 60 dias, essas células-tronco olfatórias atuam para a sua regeneração. Em seu trabalho acadêmico, a professora Bettina Malnic se dedicou à identificação do chamado ‘código de cheiros’, que sinaliza como as moléculas de odor disparam as informações interpretadas pelo cérebro por meio da ativação dos receptores olfatórios. Ao todo são 400 receptores localizados nos cílios dos neurônios, que ficam em contato com o epitélio – a maior família de proteínas do organismo humano.
Na base anterior do cérebro ocorre o primeiro ponto de recepção da informação enviada pelos neurônios olfatórios do nariz. Os odorantes vão ativar apenas os receptores compatíveis e há uma correlação entre variações nos tipos de receptores e a capacidade de identificar cheiros. “Em termos clínicos há poucos estudos sobre o sistema olfatório, por isso, foi um passo importante desvendar o mecanismo de funcionamento do olfato, assim como a descoberta dos receptores e de como essas informações são levadas ao cérebro para despertar percepções e emoções. Em termos de recuperação, o treinamento olfatório ainda é o que tem colhido melhores resultados”, avalia.
Testes disponíveis
Para avaliar o nível de perda olfatória são feitos testes que direcionam o treinamento para cada indivíduo. O mais específico é o Smelling Test, com 40 cheiros, aplicado por meio de uma régua com aromas. Mas, em dezembro de 2020, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP) validou para o português o ‘teste de Connecticut’, para avaliar a percepção dos aromas em termos quantitativos e qualitativos. A avaliação consiste na inalação, em cada um dos lados do trato olfatório por vez, de concentrações crescentes de álcool butílico. Na sequência, o paciente aspira sete aromas diferentes para detectar sua percepção sobre os cheiros. “Fazemos uma pontuação para determinar se a percepção do olfato está normal, reduzida ou ausente. E, caso esteja reduzida, se o acometimento é leve, médio ou severo”, detalha a professora doutora em Ciências da Saúde Maura Neves, médica assistente do Hospital Universitário da FMRP-USP.
A avaliação especializada é importante, pois os problemas relacionados ao olfato não se restringem à anosmia e incluem hiposmia, com redução parcial da sensibilidade aos aromas; fantosmia, com percepção de cheiros sem que haja o estímulo correspondente; e parosmia, quando ocorre uma distorção e o indivíduo percebe um cheiro diferente do estímulo. “Dependendo da causa, é possível tratar e reverter a perda de olfato. E existem exames, como a nasofibrolaringoscopia, que ajudam a detectar se há alguma obstrução mecânica. A partir daí, pode-se partir para uma tomografia ou ressonância para detectar a causa”, informa a professora. O ‘teste de Connecticut’ já está adaptado para o Brasil, de modo que todo o espectro olfatório seja identificável por qualquer indivíduo.