Exercício e dieta alteram microbiota

Estudos do grupo de pesquisa do Centro
Universitário UDF são pioneiros no Brasil

Adenilde Bringel

Estudos relacionados à obesidade e ao padrão da microbiota sugerem que a perda de peso por meio da dieta e do exercício físico pode mudar a população microbiana do intestino, com possibilidade de oferecer novas alternativas para o tratamento da obesidade. Com base nessas evidências, pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Respostas Moleculares e Fisiológicas ao Exercício do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), em colaboração com outras universidades, desenvolveram estudos pioneiros no País sobre o efeito do exercício físico aeróbio na microbiota intestinal de animais induzidos à obesidade.

O primeiro experimento foi realizado de 2012 a 2014 pelo professor-doutor Bernardo Petriz de Assis, coordenador do grupo. “Na literatura não havia quase nada sobre o tema e, assim, desenvolvemos o primeiro estudo brasileiro mostrando que o exercício modifica a microbiota de animais hipertensos, obesos e saudáveis”, explica. Para avaliar como o padrão da microbiota era influenciado pelo exercício, o professor coordenou um segundo estudo, de autoria do aluno de mestrado Felipe Moura Ribeiro, que confirmou os dados. No experimento ‘Os efeitos do exercício aeróbio sobre a microbiota intestinal em modelo animal induzido à obesidade’, o grupo trabalhou com 40 camundongos, todos da mesma linhagem. Vinte animais foram induzidos a uma dieta hiperlipídica (que continha 60% de gordura) logo após o desmame, durante 27 semanas, enquanto a outra metade consumiu dieta equilibrada. A partir da 16ª semana, dos 20 animais com dieta hiperlipídica, 10 permaneceram sedentários e 10 passaram a fazer exercícios, com protocolo de corrida de 30 minutos, cinco dias por semana, em intensidade moderada.

Ao final do experimento, os resultados indicaram que alguns gêneros bacterianos intestinais foram alterados, tanto pelo exercício quanto pela falta da atividade física, assim como a diversidade bacteriana da microbiota dos camundongos. “Aproximadamente 20 gêneros aumentaram ou diminuíram, em diversas condições. Isso é bom porque, quando pensamos em microbiota saudável, já sabemos que tem de haver grande diversidade bacteriana. Mas acreditamos que, neste estudo, a dieta teve um papel maior nessa alteração”, acentua o pesquisador. Outra constatação é que a microbiota intestinal dos animais que se exercitaram era mais semelhante com a dos camundongos que mantiveram dieta com baixo teor de gordura em relação aos animais obesos sedentários. A avaliação foi feita por meio da extração e do sequenciamento das bactérias isoladas das fezes dos animais nos períodos pré-dieta, pré e pós-treinamento.

Mudanças

O pesquisador explica que o exercício promove modificações indiretas na microbiota, que demoram mais a aparecer, por isso, é importante ter cautela ao afirmar que a atividade física sozinha modifica o ambiente intestinal. “O ideal é mapear o máximo de espécies microbianas para melhor compreender a sua interação com o sistema imunológico do hospedeiro. Esta é a próxima fase do nosso estudo, quando pretendemos ver quais genes do intestino são alterados mediante estímulos como dieta e exercício, e as consequências das interações moleculares entre essas bactérias e os genes das células do intestino”, detalha. Já é sabido que as bactérias degradam os alimentos e grande parte do que é degradado gera neurotransmissores, a exemplo dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), o que vai influenciar até no hipotálamo e na sensação de saciedade e, consequentemente, gerar alteração no comportamento na hora de comer. É toda essa cadeia que o grupo pretende interligar.

Hoje, sabe-se que o empobreci-mento da microbiota é um dos fatores chaves na patogênese da obesidade e demais disfunções metabólicas, até mesmo doenças cardiovasculares. “Se tudo o que comemos e esse processo de degradação podem influenciar no centro de regulação hipotalâmico, podemos até pensar que o obeso tem toda uma finalização e caracterização molecular diferente do indivíduo magro, e a microbiota está envolvida diretamente com isso”, sugere. Segundo o pesquisador, grande parte dessa finalização ocorre pela composição da microbiota no indivíduo obeso e, por isso, muitos nutricionistas já trabalham com uma dieta que modifica esse ecossistema intestinal, inclusive para fazer uma alimentação anti-inflamatória e que possibilite maior saciedade, de acordo com o tipo de bactéria que esse indivíduo tem no intestino.

O professor ressalta que é muito diferente avaliar a microbiota de modelos animais e do ser humano, mas os resultados desses estudos mudam conceitos sobre tudo o que se sabia até bem pouco tempo a respeito desta inter-relação. “Dizem que o obeso pensa como gordo, e é verdade, porque sabemos que a microbiota consegue modular todos os sistemas, inclusive o cerebral. Estudos começam a mostrar que talvez um dos agentes mais importantes da obesidade e do emagrecimento seja a composição da microbiota”, afirma. Os estudos do Grupo de Pesquisa em Respostas Moleculares e Fisiológicas ao Exercício têm sido desenvolvidos em cooperação com várias instituições do Brasil e do exterior, como Universidade Católica de Brasília, Universidade Dom Bosco de Mato Grosso do Sul, Universidade Federal de Mato Grosso, Universidade de Brasília e Universidade de Oxford, na Inglaterra.