Efeitos positivos do cubo mágico à saúde
Laura Bergamo Especial para Super Saudável
O quebra-cabeça tridimensional mais vendido do mundo também tem
a capacidade de distrair pacientes e ajudá-los a sentir menos dor
Criado em 1974 pelo húngaro Ernó Rubik, o cubo de Rubik – também conhecido como cubo mágico – é considerado um dos brinquedos mais populares do mundo, com mais de 350 milhões de unidades vendidas. Além de entreter inúmeras pessoas ao redor do planeta, o quebra-cabeça tridimensional vem sendo associado a efeitos positivos em pacientes sujeitos a inúmeras situações, como aqueles que estão passando pelo tratamento do câncer, esperando por uma consulta e até mesmo como alternativa ao alívio da dor. Ao tentar solucionar o cubo mágico, o paciente estimula a região do córtex pré-frontal, responsável por funções como atenção, resolução de problemas, pensamento crítico e antecipação.
Segundo o estudo ‘Placebos and distraction: new study shows how to boost the power of pain relief, without drugs’, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Columbia e da Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos, pacientes que foram submetidos ao cubo mágico, por meio de um teste de memória, tiveram seus níveis de dor reduzidos sem a necessidade de medicamentos porque mantiveram seus cérebros ocupados. Para o PhD em Psicologia e coordenador do estudo, professor doutor Jason T. Buhle, tanto a dor crônica quanto a dor aguda afetam significativamente o bem-estar do paciente, sendo que a dor crônica, em particular, pode alterar negativamente a função diária, a saúde mental e a capacidade cognitiva. “Infelizmente, em muitos casos, não há solução para a dor, por isso, clínicos e pacientes precisam de uma variedade de ferramentas para controlá-la. Pesquisas mostram que a distração pode ser uma ferramenta de controle da dor altamente eficaz e fácil de implementar. Para os pacientes que consideram o cubo de Rubik envolvente e desafiador, o brinquedo provavelmente fornecerá uma excelente opção de alívio da dor”, afirma.
O professor salienta que outras pesquisas mostram que qualquer atividade que envolva suficientemente a memória de trabalho e a atenção executiva é capaz de reduzir a dor. No entanto, se oferecer pouco desafio – o que pode ocorrer com um jogador competitivo que consegue resolver um cubo em segundos, por exemplo – a atividade provavelmente será de pouca ajuda na redução do desconforto. Além disso, o jogador deve estar motivado. “Se o indivíduo não gostar do jogo ou estiver cansado demais no final de um longo dia para fazer o esforço necessário, provavelmente não conseguirá se concentrar o suficiente para que o cubo forneça uma distração eficaz. Entretanto, para muitos indivíduos, penso que o cubo ocuparia adequadamente essas funções cognitivas e resultaria em alívio da dor. O essencial é que o jogo forneça um nível adequado de desafio para o paciente. Se o jogo estiver muito além das habilidades cognitivas, provavelmente não será eficaz”, acrescenta.
A organização não governamental Mais Vida Centro de Apoio ao Portador de Câncer – com quatro unidades em cidades do interior de São Paulo – trabalha no acolhimento de pacientes em tratamento do câncer e propõe atividades como a do cubo mágico para a interação dos assistidos. A psico-oncologista responsável pela oficina, Márcia Magnusson, conta que decidiu incluir o cubo nas atividades após perceber, por meio de observação clínica, que muitos pacientes começavam a apresentar declínio cognitivo, principalmente aqueles que enfrentavam tratamentos do câncer de mama e de pulmão. Isso fazia com que a memória operacional e de trabalho, assim como a tomada de decisão, atenção e concentração, ficassem prejudicadas. Os pacientes, na verdade, estavam passando por um efeito colateral da quimioterapia intitulado chemo brain (quimioneblina), caracterizado justamente pelo fato de a quimioterapia afetar o conjunto de habilidades cognitivas.
Os pacientes que praticavam com o cubo mágico eram entrevistados individualmente uma vez por mês, ou a cada dois meses, para que a psico-oncologista pudesse analisar as melhorias na rotina. “Muitos relatavam melhora para cozinhar, menos esquecimento e possibilidade de irem ao mercado sozinhos, entre outros benefícios. Em Neuropsicologia, sabemos que o cérebro é capaz de fazer novas conexões sinápticas e tem essa capacidade plástica de ser modulado e de aprender. Basta estimular”, reforça a psico-oncologista Márcia Magnusson. O cubo também ajudou pacientes que passaram por cirurgia, principalmente para retirada de tumores de mama, a recuperarem a mobilidade das mãos ao trabalhar a coordenação motora fina.
Menos angústia no combate ao câncer
No Hospital de Amor, em Barretos (também no interior de São Paulo), pacientes do ambulatório e da internação são incentivados a participar de atividades que promovam a distração com elementos como tintas para pintura, palavras-cruzadas e cubo mágico. Além de a terapia ocupacional ter como objetivo fazer com que os pacientes tenham a rotina diária mais ativa possível em campos que envolvem questões cognitivas, emocionais e físicas, as atividades diminuem o tempo ocioso de quem aguarda por consulta, tornando a espera menos angustiante. A terapeuta ocupacional Geici Menezes, especialista em cuidados paliativos, acentua que a distração e a atenção em uma atividade realizada dentro de um ambiente clínico são importantes para a melhora dos tratamentos.
“Como recurso terapêutico, o cubo mágico auxilia no raciocínio, relaxa e ajuda o paciente a planejar como finalizar uma atividade. O que a terapia ocupacional tenta é oferecer atividades de acordo com o que os pacientes gostam, porque isso vai fazer com que a dor melhore”, ressalta. Além de ajudar no processo terapêutico, durante a decifração do cubo mágico os profissionais de terapia ocupacional avaliam questões motoras, cognitivas e emocionais que são trazidas pelos pacientes, como ansiedade, tristeza, medo e até a própria história de vida. As atividades são capazes de fazer com que a análise do paciente não precise ser feita apenas por meio de perguntas, mas com ações mais lúdicas, durante as quais pode ser, inclusive, avaliado sobre a dificuldade que tem em realizar aquela prática.