Do quintal para o prato
Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) são sementes, frutas, folhas e hortaliças que fazem parte da biodiversidade e têm valor nutricional importante. No entanto, muitas vezes são chamadas de ‘mato’, geralmente não estão disponibilizadas no comércio tradicional e, com isso, não podem ser utilizadas como alimento pela maioria da população por falta de conhecimento. Entre essas plantas está a ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata Mill.), também chamada de pereskia e lobrobó, uma hortaliça da família Cactaceae nativa da América Tropical que tem alto teor de ferro, além de conter fibras e compostos bioativos. As folhas, que podem atingir até 12 centímetros de comprimento, possuem cerca de 25% de proteínas, das quais 85% são de forma digestível e facilmente aproveitadas pelo organismo, sendo muito indicadas em dietas vegetarianas e veganas.
O nome em latim significa ‘rogai por nós’ e há uma lenda de que, no Brasil Colônia, como a planta era usada para cercar as igrejas, era utilizada como alimento pelos fiéis que passavam longas horas na missa enquanto o padre rezava a Ave Maria (Sancta Maria, ora-pro-nobis pecatoribus…), além de servir de alimento pelos escravos que aproveitavam a missa para comer sem ser perturbados. Por causa dos ramos longos que podem chegar a 10 metros de altura, além dos espinhos presentes no caule, a planta ainda é usada como cerca-viva em quintais e hortas, além de ser consumida como alimento. Diversos estudos científicos confirmam o alto valor nutricional da planta e a possibilidade de ser utilizada de diferentes formas na alimentação.
Encontrada da Bahia até o Rio Grande do Sul, a ora-pro-nóbis é bem conhecida e tem o uso difundido em Minas Gerais, sendo tema de festival anual na cidade de Sabará. Segundo a doutora em fitotecnia Maria Regina de Miranda Souza, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo mineiro, a ora-pro-nóbis também se destaca por ser boa fonte de cálcio, cobre, zinco, magnésio e vitaminas A, B1, B2, B3 e C, assim como compostos bioativos. “Existem pesquisas que mostram que a planta tem ação antioxidante, antimicrobiana e anti-inflamatória. São muitas as substâncias disponíveis na ora-pro-nóbis consideradas raras nas plantas e, muitas vezes, esses componentes tornam-se medicinais. Na sabedoria popular as folhas são usadas para a cicatrização de feridas”, pontua.
A folha possui aminoácidos não essenciais e essenciais em teores elevados, com destaque para a lisina, que é muito importante para o organismo pela ação no combate a infecções causadas por vírus e na absorção do cálcio. O teor de ferro é muito maior que o da beterraba, o que confirma a sabedoria popular de inserir a planta na refeição para o combate à anemia. As folhas da ora-pro-nóbis apresentam, ainda, alto conteúdo de fibras e o consumo de apenas 100 gramas pode fornecer em torno de 50% do total de fibras recomendado por dia. “Trata-se de uma alta qualidade nutricional com aminoácidos essenciais que precisam ser obtidos por meio da alimentação. Das 2 mil calorias diárias indicadas na dieta de um homem adulto, 15% da energia deve vir de uma proteína de alta qualidade, como a encontrada na ora-pro-nóbis. Na realidade, a planta é uma alternativa barata para consumir proteína, pois a maior parte dos alimentos de origem animal é cara e de difícil acesso”, acentua a nutricionista Fabiane Fabris, professora mestre e coordenadora do curso de Nutrição da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e membro do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de Criciúma, em Santa Catarina.
PANCs
As plantas alimentícias não convencionais possuem propriedades medicinais e compostos bioativos que contribuem com a saúde e a alimentação balanceada. No entanto, não fazem parte da cadeia produtiva em grande escala e é difícil encontrar em grandes redes de supermercados, porque o comércio de plantas é dominado por poucas espécies que nem sempre possuem os nutrientes necessários para o organismo. Embora ainda desconhecidas, estão surgindo cada vez mais estudos que confirmam os benefícios de intensificar o consumo dessas plantas, proporcionando uma dieta completa e com grande parte dos componentes que o corpo precisa sem a necessidade de fazer uma complementação alimentar. As especialistas afirmam que, não fosse pela falta de conhecimento, as PANCs seriam uma forma eficiente de diversificar a dieta, ofertar maior quantidade de alimento para a população em geral e contribuir com a saúde.
Versatilidade na cozinha
A folha da ora-pro-nóbis pode ser usada na alimentação como fonte de proteína e é uma alternativa à agricultura familiar para populações rurais e para as pessoas que moram nas áreas urbanas de baixa renda. Encontrada em muitos quintais brasileiros, a planta pode ser utilizada na forma crua como salada ou em diferentes preparações, ganhando destaque principalmente refogada e servida como acompanhamento de carne, frango e costelinha suína, ou como recheio de pães e tortas. A vida útil das folhas de ora-pro-nóbis é relativamente longa em comparação com outras folhosas. Se colocadas em embalagens plásticas e armazenadas em refrigeração a 5°C, permanecem em boas condições por até 15 dias. Já a farinha feita com a planta pode ser utilizada para enriquecer pães, bolos e massas, tornando as receitas fontes não apenas de carboidrato, mas também de proteína.
“Como as folhas contêm bastante fibra, a farinha é comumente utilizada na indústria alimentícia para dar textura aos alimentos processados. Já se sabe também que o extrato seco aumenta a vida do alimento de forma natural, reforçando a versatilidade da ora-pro-nóbis”, acentua a nutricionista Fabiane Fabris, ao ressaltar que é importante aprender a comer elementos da biodiversidade brasileira porque isso aumenta a oferta de alimentos e contribui com a sustentabilidade, diminuindo a distância entre a planta e o consumidor, e reduzindo o uso de transporte, consumo de combustível e as grandes perdas que ocorrem ao longo dessa logística.
Como as demais PANCs, a ora-pro-nóbis tem cultivo simples, alta produtividade e fácil propagação, se adapta em diferentes solos e climas, dificilmente tem pragas e doenças, e precisa de pouca água e fertilização, sendo indicada até em hortas caseiras e vasos com manejo e poda adequados. Assim, é considerada um alimento importante para a segurança alimentar por todas as qualidades físicas e nutricionais associadas com a alta produtividade. “Na produção em grande área com o uso da tecnologia apropriada pode-se obter até oito colheitas anuais, com cerca de 150 toneladas de folhas por ano. Mas é importante verificar a procedência para saber se as folhas estão aptas para o consumo e se não tiveram contato com poluição ou fertilizantes. Embora o consumo possa ser diário, precisa ser adicionado aos poucos na alimentação para ver como o organismo reage. Como todos os alimentos, esse também precisa ser consumido com moderação”, orienta a pesquisadora Maria Regina de Miranda Souza. A indústria de fármacos e cosméticos também começou a usar essa PANC por apresentar ação cicatrizante, anti-inflamatória e antioxidante, com estudos voltados para a formulação de cremes, géis e sabonetes com foco em acne, oleosidade facial, inflamações cutâneas e antienvelhecimento.