Descobertas científicas sobre o eixo intestino-coração

Cientistas comprovam que o desequilíbrio da microbiota
intestinal pode interferir na progressão das doenças cardiovasculares

 

Adenilde Bringel

 

A estimativa de mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV) e seus fatores de risco em termos globais indica que, em 2050, a doença isquêmica do coração continuará sendo a principal causa de morte cardiovascular – com previsão de 20 milhões de óbitos. Essas mortes estão relacionadas principalmente à aterosclerose, uma doença inflamatória crônica causada pelo acúmulo de lipídios na parede de artérias de médio e grande calibre que tem sido associada a complicações como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Em termos gerais, essas são as duas principais causas de óbito por DCV. De acordo com estudos recentes, há evidências crescentes de que alterações no microbioma intestinal e na permeabilidade intestinal contribuem para a progressão da insuficiência cardíaca através de várias vias, incluindo inflamação sistêmica, desregulação metabólica e modulação da função cardíaca. Por isso, os cientistas têm investigado com muita atenção qual é o verdadeiro papel dos microrganismos intestinais e do produto de seus metabólitos nas doenças cardiovasculares.

 

Esses estudos descrevem, por exemplo, que a produção de metabólitos intestinais pode estar envolvida no desenvolvimento de doenças cardiovasculares por meio da absorção e metabolização dos alimentos, produção do metabólito pró-aterosclerótico N-oxido-trimetilamina (TMAO) – leia mais na retranca O papel do TMAO –, aumento da translocação de bactérias e endotoxinas, e também através dos ácidos biliares primários e secundários e aminoácidos de cadeia ramificada. De acordo com esses autores, esses metabólitos participam da ocorrência e do desenvolvimento das doenças cardiovasculares, ativando vias de sinalização de forma mais rápida quando a integridade da barreira intestinal é quebrada. Dessa forma, a microbiota intestinal tem sido considerada um potencial alvo terapêutico para a doença arterial coronariana.

 

No artigo científico ‘Circulating gut microbial metabolites and risk of coronary heart disease: A prospective multi-stage metabolomics study’, publicado em 2026, pesquisadores da Divisão de Epidemiologia do Departamento de Medicina da Vanderbilt University, nos Estados Unidos, identificaram e validaram metabólitos microbianos circulantes do intestino associados às doenças cardiovasculares incidente em populações diversas. De acordo com os autores, as descobertas oferecem evidências epidemiológicas inovadoras sobre a importância do metabolismo microbiano intestinal no desenvolvimento das cardiopatias congênitas e destacam metabólitos específicos a serem priorizados para investigação mecanicista, validação de biomarcadores e desenvolvimento terapêutico.

 

O médico cardiologista Francisco Helfenstein Fonseca, professor doutor adjunto livre-docente do ambulatório de Cardiologia e chefe da disciplina de Cardiologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), relata que um estudo de 2017, desenvolvido por pesquisadores italianos, avaliou a taxa de carboxilação da proteína Gla da matriz em pacientes com supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO, na sigla em inglês). Esta proteína atua como uma ‘guardiã’ do sistema circulatório, impedindo que o cálcio se deposite nos tecidos moles e nas artérias, e o direcionando para os ossos. “Este trabalho mostrou que a superpopulação de bactérias no intestino delgado prejudicava a absorção de algumas vitaminas lipossolúveis. Uma delas é a vitamina K2, um cofator para ativar a proteína Gla que tem papel inibitório da calcificação das coronárias”, descreve.

 

Estudo da EPM-Unifesp

Assim, o grupo da EPM-Unifesp resolveu examinar 62 pacientes que tiveram infarto agudo do miocárdio para avaliar qual era a prevalência desse supercrescimento bacteriano. Os pacientes fazem parte do protocolo BATTLE-AMI (B and T Types of Lymphocytes Evaluation in Acute Myocardial Infarction), um ensaio clínico randomizado que investiga o papel do sistema imune e a resposta inflamatória após o infarto agudo do miocárdio. No ensaio, os pacientes receberam lactulose (um açúcar) e, durante duas horas – a cada 15 minutos – os pesquisadores foram medindo o volume de hidrogênio exalado, que é proporcional ao número de bactérias presentes no intestino.

 

O resultado mostrou que mais de 40% dos pacientes, um mês depois do infarto, apresentavam concentrações em partes por milhão compatíveis com supercrescimento bacteriano. O professor Francisco Helfenstein Fonseca explica que formas inativas não fosforiladas e não carboxiladas da proteína Gla perdem seu papel inibitório na calcificação dos vasos. No entanto, exercem efeito estimulante da calcificação vascular quando estão elevadas em concentrações plasmáticas. Assim, os pesquisadores fizeram uma correlação entre o hidrogênio exalado e a concentração de forma inativa da proteína Gla para avaliar quanto dessa proteína estava de forma inativa por carência de ativação da vitamina K2.

 

“Vimos uma correlação bastante razoável, de 0.68, que é de moderada a importante para essa associação. Além disso, resolvemos verificar se havia outros fatores além do supercrescimento bacteriano que se associassem com maior quantidade dessa proteína inibitória da calcificação na forma inativa”, acentua. O resultado mostrou que pressão arterial, obesidade, glicemia e pressão sistólica e diastólica não se associavam a essa concentração. Entretanto, todas as variáveis lipídicas examinadas se associaram significantemente com a forma inativa da proteína Gla.

 

O professor ressalta que, além de ser altamente prevalente nos pacientes infartados, um perfil lipídico inadequado pode contribuir para maior quantidade dessa forma inativa e menor proteção contra a calcificação, estabelecendo um elo entre a microbiota com a aterosclerose coronária. “Ainda não podemos afirmar que a microbiota é responsável pela doença aterosclerótica. Porém, mais de 40% de pacientes com infarto agudo do miocárdio mostram sinais de supercrescimento bacteriano, que pode contribuir para uma menor defesa contra a aterosclerose e a calcificação vascular”, acentua.

 

O papel do TMAO

 

No artigo ‘Microbiota intestinal como novo alvo terapêutico na Cardiologia’, publicado em 2025, os autores lembram que altos níveis circulantes de TMAO têm sido associados a um maior risco cardiovascular, promovendo inflamação vascular,  disfunção  endotelial,  estresse  oxidativo  e  aumento  da  agregação plaquetária. Resultante  do  metabolismo  hepático  da trimetilamina (TMA) – sintetizada pelas bactérias a partir de colina, L-carnitina e fosfatidilcolina – o TMAO é uma molécula produzida quando bactérias intestinais digerem nutrientes, como colina e carnitina, presentes em alimentos de origem animal. O excesso desse metabólito na corrente sanguínea tem sido fortemente associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, inflamações e problemas renais.

 

“Evidências recentes mostram que alterações na composição e na diversidade da microbiota intestinal (disbiose) estão associadas ao desenvolvimento de hipertensão arterial, aterosclerose, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana. E um dos  principais  mecanismos  implicados  é  a  produção  de  metabólitos bacterianos,  como  o TMAO”, acentuam os autores. Além disso, o microbioma influencia a pressão arterial por meio da produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) como butirato, propionato e acetato, que atuam em receptores específicos modulando o tônus vascular e a resposta imune. Os autores do artigo informam, ainda, que intervenções  terapêuticas visando  a  modulação  do  microbioma  intestinal – dieta,  uso de prebióticos,  probióticos  e  até mesmo transplante  de  microbiota  fecal (quando indicado) – têm  sido investigadas  como  estratégias coadjuvantes na prevenção e no manejo das DCV.

 

Dessa  forma,  o  eixo  intestino-coração  passa a representar  uma  fronteira  promissora na Cardiologia preventiva e personalizada. A médica patologista Thamiris Nadaf Fernandes, que atua na área de Cardiologia e é professora do Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – uma das autoras do artigo –,  afirma que a disbiose também pode comprometer a barreira intestinal,  favorecendo  a  translocação  bacteriana  e  o  aumento  da inflamação  sistêmica,  outro fator  de  risco  importante  para  DCV. “Não tem como falar de coração sem abordar a dieta do paciente. Hoje em dia, sabemos que todas as doenças cardiovasculares são relacionadas àquilo que as pessoas comem, como vivem e quais atividades praticam. Portanto, colocar a microbiota intestinal neste contexto e explicar para os pacientes é muito importante”, resume.

 

Estudo avalia probióticos no controle da hipertensão arterial

 

No Brasil, de 30% a 45% da população tem hipertensão arterial, representando uma das taxas mais altas do mundo. Na última década, estudos têm demonstrado que a disbiose intestinal pode exercer um papel fundamental no desenvolvimento da hipertensão arterial, porque a composição da microbiota afeta o sistema cardiovascular, imunológico, neural e metabólico. Uma das principais causas de doença cardiovascular, a hipertensão arterial é o foco dos estudos do grupo do nutricionista José Luiz de Brito Alves, professor doutor adjunto do Departamento de Nutrição do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFB). E, mais recentemente, a microbiota intestinal também passou a ser investigada pelo grupo com objetivo de buscar estratégias voltadas para a melhora da hipertensão.

 

O docente explica que o controle da pressão arterial é extremamente complexo e vai envolver respiração, hormônios, fator genético e a própria função renal e vascular. Em geral, os pacientes hipertensos usam pelo menos três classes de anti-hipertensivo: um diurético, um betabloqueador e um inibidor de enzima conversora de angiotensina. “Ainda assim, quando vamos aferir a pressão arterial deles está 14 por 10 ou 14 por 9, ou seja, alta. Isso mostra que, se pensarmos no tratamento da hipertensão só baseado na farmacoterapia clássica, não vamos conseguir controlar essa condição”, acrescenta. Como o uso de probióticos tem emergido como uma estratégia terapêutica com potencial para o tratamento da hipertensão, o grupo da UFPB desenvolveu um estudo para avaliar os efeitos da suplementação de uma mistura probiótica sobre os parâmetros cardiovasculares, variáveis antropométricas e bioquímicas, consumo alimentar e a composição da microbiota fecal em mulheres hipertensas e com sobrepeso ou obesidade.

 

O ensaio clínico randomizado, triplo-cego controlado por placebo foi conduzido com 40 mulheres entre 20 e 50 anos. As pacientes foram randomizadas em dois grupos. No grupo probiótico, foram tratadas com 1g/dia de uma mistura contendo Lactobacillus paracasei Lpc-37 R SD 5275 R, Lactobacillus rhamnosus HN001 R SD 5675 R, Lactobacillus acidophilus NCFM R SD 5221 R e Bifidobacterium lactis HN019 R SD 5674 (cepas comerciais). O grupo placebo recebeu 1g/dia de polidextrose. As intervenções foram realizadas por oito semanas, além de exames bioquímicos, avaliação da pressão arterial, variabilidade da frequência cardíaca, avaliação antropométrica, consumo alimentar e contagem de microbiota fecal antes e após a intervenção.

 

Os resultados mostraram que a suplementação com probióticos reduziu significativamente a glicemia de jejum e aumentou o HDL-colesterol em comparação com a condição da linha de base. A suplementação resultou, ainda, em maiores contagens fecais de Lactobacillus e reduziu em 67% o número de pacientes com supercrescimento bacteriano do intestino delgado. Além disso, reduziu a pressão arterial sistólica em 5 mmHg e a diastólica em 2 mmHg, assim como a oscilação de baixa frequência (LF), a relação LF/alta frequência (HF) e a relação LF/HF na variabilidade da frequência cardíaca. Ademais, teve efeitos benéficos nos níveis de glicemia de jejum, perfil lipídico e modulação autonômica nas mulheres hipertensas.

 

Embora a pressão arterial não tenha sido significativamente reduzida, as mulheres que receberam o probiótico diminuíram a glicemia e o colesterol total e aumentaram o HDL-colesterol. “Portanto, metabolicamente houve uma melhora de alguns fatores que podem contribuir ou reduzir o desenvolvimento de doença cardiovascular. Isso foi um ponto positivo neste ensaio”, reforça o professor José Luiz de Brito Alves. O artigo ‘Effects of probiotic therapy on cardio-metabolic parameters and autonomic modulation in hypertensive women: a randomized, triple-blind, placebo-controlled trial’ foi publicado em 2022 no periódico Food Functions.

 

Outros estudos em andamento

O grupo da UFPB está finalizando outros dois ensaios clínicos placebo controlado sobre hipertensão e microbiota. Em um deles, os pesquisadores vão utilizar probiótico manipulado e um mix de fibras prebióticas que já são bem estabelecidos na literatura com efeito benéfico. “No segundo, será usado um composto vegetal que é pouco utilizado, mas é riquíssimo em fibra e tem um perfil de aminoácido interessante – que são os cogumelos. Estamos trabalhando a intervenção com cogumelos na forma de cápsula”, relata o professor. A expectativa é confirmar se haverá melhora metabólica nos pacientes pensando em uma estratégia simbiótica e prebiótica. Em ambos os estudos, os pesquisadores também pretendem avaliar a microbiota intestinal dos participantes.

 

Biomassa de banana verde e microbiota no controle do diabetes

 

O aumento da prevalência da obesidade, o envelhecimento da população, o sedentarismo e a dieta pouco saudável são considerados fatores relacionados à maior incidência e prevalência de diabetes mellitus tipo 2 no mundo. As projeções sugerem que, até 2030, 643 milhões de pessoas terão a doença, com número chegando a 783 milhões em 2045 em termos globais. O diabetes é um fator de risco importante para a doença cardiovascular porque a glicose elevada lesiona os vasos sanguíneos e acelera a aterosclerose.

 

Além disso, o excesso de peso leva à disfunção endotelial devido à formação de produtos metabólicos derivados de lipídios, hormônios e citocinas pró-inflamatórias. As alterações na microbiota intestinal desempenham um papel de destaque na fisiopatologia da obesidade e de doenças metabólicas, mas os mecanismos envolvidos ainda não foram totalmente descritos. Desta forma, a manipulação da microbiota se tornou uma possibilidade para intervenções, com potencial papel adjuvante no tratamento do diabetes e da obesidade.

 

Para investigar a hipótese, uma pesquisa desenvolvida no ambulatório de Cardiologia da EPM-Unifesp avaliou os efeitos do consumo da biomassa de banana verde em parâmetros do metabolismo glicêmico e nas mudanças na composição da microbiota intestinal em pacientes pré-diabéticos ou diabéticos. A biomassa de banana verde é rica em amido resistente e fibras e, por isso, é considerada efetiva na diminuição dos fatores de risco associados ao diabetes mellitus – como parâmetros antropométricos e controle glicêmico. A intervenção envolveu pacientes que não tomavam medicamento antiglicemiante ou tinham uma dose estável de medicamentos para tratamento da condição. Para o experimento, os pacientes consumiram 45 gramas de biomassa da banana verde por seis meses, com objetivo de aumentar a quantidade de prebióticos na dieta e, consequentemente, melhorar o perfil da microbiota.

 

Neste experimento, participaram 173 pacientes do protocolo BATTLE-AMI, randomizados em grupo intervenção – que recebeu orientação nutricional e 40g/dia (4,5g de amido resistente) de biomassa de banana verde – ou grupo controle, que recebeu apenas orientação nutricional. Os pesquisadores sequenciaram 355 amostras de fezes por análise metagenômica. Passados seis meses do estudo, tanto o grupo de pacientes pré-diabéticos como o grupo de indivíduos diabéticos que consumiu a biomassa de banana verde teve diminuição significativa dos níveis de hemoglobina glicada.

 

Para os pesquisadores, isso mostra que uma intervenção na dieta alterando positivamente a microbiota intestinal pode melhorar o controle glicêmico e metabólico e, dessa forma, oferecer um benefício para o melhor controle da glicemia. “Na verdade, com o uso dos prebióticos acabamos favorecendo que algumas bactérias intestinais produzam substâncias que são absorvidas e têm um papel na melhor sensibilidade à insulina, principalmente os metabólitos dos ácidos graxos de cadeia curta, que também têm um efeito anti-inflamatório. Então, uma dieta saudável acaba contribuindo para a proteção cardiovascular”, resume o professor Francisco Helfenstein Fonseca, orientador do estudo.

 

Nova fronteira

O consumo de biomassa de banana verde também mostrou modificações expressivas e favoráveis na relação dos filos Firmicutes/Bacteroidetes, especialmente entre pacientes com pré-diabetes. A mudança foi sentida particularmente pelo maior aumento do filo Bacteroidetes, ao lado de modificações na composição de gênero e espécies de várias bactérias. O grupo da Cardiologia da EPM-Unifesp tem estudado amplamente a microbiota, inclusive em cooperação com o professor doutor Mário Saad, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O objetivo é avaliar a composição da microbiota intestinal nos pacientes infartados e a evolução em longo prazo. “Temos dados que ainda estão em análise, mas sugerem que em pacientes com pré-diabetes ou diabetes existam diferenças na composição da microbiota intestinal. Então, é uma nova fronteira que está se descortinando na compreensão de como as bactérias, que são nossos hóspedes, acabam influenciando a saúde cardiovascular”, ressalta o professor Francisco Helfenstein Fonseca.

 

Efeitos moduladores de prebióticos na obesidade

 

Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, avaliou os efeitos moduladores da administração da bactéria probiótica Lactococcus lactis (LMG 27352) nas variáveis de risco cardiometabólico em indivíduos com obesidade. Os pesquisadores selecionaram 52 adultos obesos, frequentadores do Centro de Especialidades Médicas (CEM) do município de Três Corações. Em comum, os pacientes apresentavam circunferência da cintura elevada e algum fator de risco cardiometabólico associado à obesidade, como pressão arterial, triglicerídeos e glicemia elevados. O ensaio clínico randomizado, prospectivo, triplo-cego e controlado por placebo teve uma intervenção de 90 dias. Embora os resultados não tenham mostrado efeitos significativos da suplementação sobre variáveis antropométricas e de composição corporal, a variável triglicérides apresentou alteração após a suplementação com o probiótico.

 

De acordo com a nutricionista e doutora em Imunologia Andrezza Fernanda Santiago, docente do Departamento de Nutrição da UFLA e coordenadora da pesquisa, um dos vieses do estudo foi ter sido iniciado um pouco antes da pandemia de covid-19, quando as pessoas ficaram muito trancadas em casa e mudaram o padrão de alimentação. Além disso, é preciso considerar que o benefício do probiótico é cepa-específico, o que significa que nem todos os probióticos vão ter o mesmo efeito. “Utilizamos uma cepa muito usada para fazer fermentados, iogurte e queijos, mas não achamos o resultado esperado, embora algumas cepas tenham realmente se mostrado muito promissoras para reduzir a pressão arterial e melhorar o perfil clínico, principalmente em relação a triglicerídeos. Vimos uma tendência a essa diminuição, mas não uma diminuição direta”, ressalta.

 

O próximo estudo do grupo, já em andamento, vai envolver prebióticos. Segundo a docente, essa classe é muito importante quando se trata do eixo intestino-coração. “Os prebióticos são fermentados pelos microrganismos na microbiota intestinal e ajudam a definir essa população, ou seja, quem vai crescer mais e quem vai crescer menos. Quando ingerimos prebióticos, conseguimos modular melhor o perfil da microbiota, favorecendo o crescimento daquelas bactérias comensais ou que produzem metabólitos anti-inflamatórios e melhoram a saúde cardiovascular”, define. O estudo, com 42 pacientes, visa comprovar que uma das grandes causas de risco cardiovascular é a permeabilidade intestinal. E os pesquisadores também pretendem identificar alguns marcadores que poderão ser úteis para mostrar que existe uma permeabilidade intestinal aumentada nesses pacientes.

 

“Essa permeabilidade aumentada favorece o trânsito de compostos da dieta, como ácidos graxos saturados, ou mesmo da própria microbiota, que vão sinalizar uma inflamação que acaba sendo deletéria, porque é crônica e contínua. E, por ser baixa, não é uma inflamação detectável facilmente”, acrescenta. Essa inflamação de baixo grau associada pode induzir a disfunção endotelial, aumentando a permeabilidade da barreira íntima vascular. Esse processo facilita a entrada, retenção e subsequente oxidação do LDL-colesterol no espaço subendotelial, iniciando a formação da placa aterosclerótica. A professora Andrezza Fernanda Santiago afirma, ainda, que quando uma pessoa tem resistência insulínica – que pode começar com a inflamação gerada pela perda de integridade da barreira intestinal –, a insulina em excesso estimula o fígado e o tecido de gordura a produzirem mais angiotensinogênio, uma proteína que dá origem à Angiotensina II. Esse hormônio ativo sinaliza para os rins reabsorverem mais água e sódio, elevando a pressão sanguínea. “Com o tempo, esse processo também estimula a formação de fibrose no tecido cardíaco, tornando o coração mais rígido e hipertrofiado. Trata-se de uma complexa rede de eventos cardiovasculares que pode ter sua origem na saúde do intestino”, argumenta.

 

Alimentação saudável 

Segundo a professora, qualquer suplementação com probióticos ou prebióticos vai depender da dieta alimentar de cada indivíduo para obter o efeito benéfico. “Mostramos nesse artigo que, sem uma dieta adequada, só o probiótico não é suficiente. A dieta saudável é a base e o probiótico seria ‘a cereja do bolo’. Portanto, sem uma dieta que sustente essa microbiota, o probiótico não conseguirá colonizar de forma eficaz nem se manter no ambiente intestinal”, acentua. Além disso, é fundamental inserir na dieta alimentos ricos em fibras e polifenóis, como os presentes no azeite, bem como antioxidantes de frutas e verduras. Esses compostos atuam como prebióticos, alimentando seletivamente cepas benéficas e modulando a composição microbiana intestinal através da produção de ácidos graxos de cadeia curta. •