Cães também podem ser terapeutas
Elessandra Asevedo Especial para Super Saudável
Terapia assistida por animais tira o foco do problema, gera relaxamento e proporciona maior adesão ao tratamento
Conhecido como melhor amigo do homem, o cachorro divide sua história com a humanidade há mais de 18 mil anos, primeiramente em busca de comida; depois, tornando-se companheiro fiel durante a caça e, agora, por estar presente em milhões de lares e ser companheiro de crianças, adultos e idosos em todo o planeta. Há aproximadamente 15 anos, quando os cães começaram a ter um papel importante no tratamento de doentes, essa relação ultrapassou a amizade e tornou-se profissional. A Terapia Assistida por Animais, que utiliza cães como recurso terapêutico dentro de hospitais e centros médicos, é difundida em diversos países e, no Brasil, tem sido usada com grande sucesso por gerar benefícios físico, psicológico e social de todos os que têm contato com os animais.
Diferentes estudos mostram que, além dos medicamentos, pessoas doentes também precisam de intervenções não farmacológicas, como a musicoterapia, o treinamento de relaxamento e, mais recentemente, a terapia com animais. O artigo ‘Benefits of animal-assisted therapy in hospital ICUs’, publicado em 2018 por pesquisadores da John Hopkins University, nos Estados Unidos, relata que os pacientes que participaram da terapia animal foram capazes de atingir objetivos mais rapidamente, por exemplo, permanecendo em pé por mais tempo enquanto afagavam um cão e mais motivados durante as passagens dos animais pelas unidades de terapia intensiva. O simples ato de acariciar os cães estimula uma resposta automática de relaxamento, porque promove a liberação de serotonina, prolactina e ocitocina, hormônios que contribuem para elevar o humor, reduzir a sensação de solidão e aumentar a estimulação mental.
Segundo o oncologista pediátrico Marcelo Milone, integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) e médico do Grupo de Assistência à Criança com Câncer (GACC), em São José dos Campos, interior de São Paulo, tanto crianças como adultos relatam melhora da dor após o contato com os animais. “No dia da visita dos cães terapeutas, percebemos que as crianças ficam mais tranquilas e aceitam de forma mais receptiva os procedimentos médicos. Tanto que há pais que pedem para que o filho retorne ao hospital para tratamento exatamente no dia em que os animais fazem a visita. Por isso, posso afirmar que os benefícios se estendem aos pais e funcionários. Não temos estatísticas, mas o conhecimento empírico mostra que estamos no caminho correto”, explica o médico, que trabalha com ações assistidas por cães há cinco anos.
A convivência de cachorros e crianças com transtorno do espectro autista (TEA) também tem se mostrado positiva, porque muitos desses pacientes passam a sentir um vínculo profundo com os cães e melhoram a interação social. O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP) iniciou o trabalho com cães há mais de 10 anos, dentro do Programa Especializado em Transtorno do Espectro Autista (PROTEA). Inicialmente, o cachorro era de um profissional que trabalhava na instituição e o levava para ficar perto da farmácia. Na época, o médico psiquiatra da infância e adolescência Estevão Vadasz, responsável pelo serviço, permitiu que o animal entrasse no ambulatório uma vez por semana para ficar ainda mais próximo dos pequenos. “Como constataram que os cães geravam mais conforto e desenvolvimento nas crianças, em 2009 o PROTEA firmou uma parceria com a organização não governamental Terapia Assistida por Cães (TAC), que passou a fazer um trabalho mais sistemático com esses pacientes”, relata a médica pediatra Marisol Sendin, coordenadora da Brinquedoteca Terapêutica do IPq-HC‑FMUSP, espaço lúdico da área infantil onde as atividades com os cães são desenvolvidas.
Desde então, os cães deixaram de ter apenas uma interação lúdica com as crianças e passaram a fazer parte da terapia e das atividades. Entre os resultados, os profissionais perceberam que os participantes ficavam mais motivados, gostavam mais das sessões de terapia e sentiam que a atmosfera da sessão era menos estressante. De acordo com o fisioterapeuta Vinicius Fava Ribeiro, especializado em psicossomática psicanalítica e diretor da TAC, diferentes atividades podem envolver o cão, permitindo que o paciente receba a terapia de forma mais positiva. “Só o fato de o cão entregar o cartão com a atividade do dia já diminui a resistência do paciente ao que será realizado. Na psicanálise, podemos trabalhar de forma projetiva, por exemplo, com o paciente escrevendo uma carta para o cachorro dizendo como se sente e fazendo com que interaja de forma diferente e melhor. Já na fisioterapia, o cão pode acompanhar o paciente durante um determinado percurso, ajudando-o a fazer o treino e trabalhando o equilíbrio”, exemplifica.
Ajuda nos estudos
Os cães também colaboram para que crianças internadas por longo período tenham disposição para estudar durante a permanência no hospital. Uma pesquisa desenvolvida pelo IPq-HC-FMUSP avaliou a reação dos pacientes em duas situações: em uma sala, os pacientes leram para o professor; em outra, leram para o cachorro. “Como o animal não critica, não julga, aceita os erros e dá atenção, isso gera uma sensação agradável aos alunos fazendo com que a evolução seja mais rápida e melhor, com a mesma pedagogia”, explica a pediatra Marisol Sendin. Hoje, diferentes departamentos da FMUSP recebem a visita dos animais, como o Programa Terapêutico do Hospital Dia Infantojuvenil, a enfermaria de Geriatria de pacientes com perda cognitiva, a enfermaria de adultos e os departamentos de Ortopedia e de Oncologia Infantil. Os cães também realizam um trabalho com os cuidadores de pacientes em cuidados paliativos. Além do trabalho na Faculdade de Medicina da USP, diferentes projetos envolvendo os animais surgem pelo Brasil, beneficiando inúmeros pacientes.
Embora os benefícios já sejam conhecidos, algumas pessoas ainda têm receio ao ver um cachorro dentro do hospital, por isso, todos os projetos estão devidamente enquadrados nas mais rígidas normas hospitalares. Os animais recebem acompanhamento veterinário, são treinados para fazer suas necessidades no local correto e têm o temperamento calmo. Para se sentirem seguros, os cães estão sempre acompanhados pelo tutor ou treinador, que também tem o papel de identificar se o animal está bem. O cachorro terapeuta fica em área de visita delimitada e pode ser veículo de contaminação cruzada, por isso, preconiza-se a higienização dos pacientes antes e depois da interação. “O risco de contaminação gerado pelo animal é parecido com o de um profissional da saúde. Além disso, tomamos os devidos cuidados para que o cão esteja seguro durante a visita, porque ele também pode se contaminar”, pontua Vinicius Fava Ribeiro, ao lembrar que a TAC, em seus 11 anos de existência, já atendeu aproximadamente 3,5 mil pessoas.