Bons amigos que ajudam a melhorar a saúde
Convivência entre idosos e pets contribui para um envelhecimento mais saudável
Com a projeção de 2 bilhões de habitantes com mais de 60 anos no mundo nas próximas três décadas, inúmeros trabalhos científicos têm estudado os fatores que contribuem para que o processo de envelhecimento seja o mais saudável possível. Entre as linhas de pesquisa, a interação com animais domésticos tem demonstrado efeitos positivos sobre diversos aspectos, como melhor convívio social, autoestima, incentivo à atividade física, benefícios cardiovasculares, disposição, prevenção de doenças, redução de estresse e ansiedade, e alívio da solidão. Considerados excelentes companhias, os pets – com particular atenção aos cães – estabelecem um vínculo de cuidado e afeto com seus tutores e, mais do que companheiros leais e amorosos, favorecem a socialização e podem influenciar para maior expectativa de vida dos idosos.
Recentemente, o estudo ‘Evidence that dog ownership protects against the onset of disability in an older community-dwelling Japanese population’, publicado na revista científica PLoS ONE, identificou que idosos tutores de cachorros apresentam menor risco de desenvolver deficiências cognitivas e físicas na velhice. Segundo os resultados, isso acontece porque os animais demandam cuidados diários e passeios regulares, criando no idoso o hábito da atividade física e mais interação social. Quando não caminham ou praticam exercícios pelo menos uma vez por semana, não há benefícios associados. A pesquisa coletou dados sobre a relação com os animais de estimação – cães e gatos – de 11.233 pessoas de comunidades japonesas, com idades entre 65 e 84 anos, e acompanhou o desenvolvimento de deficiências cognitivas e físicas por um período de 3,5 anos.
Na amostra, 13,8% eram tutores de cachorros ou gatos; 29,5% relataram já terem convivido com um desses animais em algum momento da vida; e 56,8% nunca foram tutores. Para o estudo, foram considerados fatores como idade, sexo, estado civil, escolaridade, renda, ser ou não tutor, histórico de doenças crônicas, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividades físicas e interação com os vizinhos. Na comparação com o grupo de idosos que nunca teve um cachorro como animal de estimação, os pesquisadores observaram que os idosos tutores tinham riscos significativamente menores de apresentar algum declínio físico ou funcional e, portanto, maior possibilidade de terem um envelhecimento saudável. Os gatos, de acordo com a pesquisa, não promoveram a mesma proteção – muito provavelmente por serem animais mais independentes.
A médica geriatra Lara Miguel Quirino Araújo, professora doutora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), afirma que a pesquisa vai ao encontro da proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de incentivar o estudo de diretrizes do envelhecimento saudável, que envolvem aspectos da vida diária favoráveis à longevidade. “Ao observar o aumento das capacidades física e mental dos participantes do estudo japonês, mesmo que a amostragem seja de uma comunidade culturalmente diferente, fica evidente que os resultados são favoráveis, pois estimulam pilares de bem-estar determinantes para a qualidade de vida”, avalia. A médica ressalta que isso não significa que o idoso tutor estará protegido de todo e qualquer declínio, uma vez que o processo de envelhecimento cognitivo é natural e pequenas mudanças acontecem ao longo da vida, mesmo antes da idade mais madura.
No entanto, fica evidente na prática clínica cotidiana que o tutor de um pet tem maior bem-estar psicológico. “Essa relação o mantém mais ativo mentalmente, pois testa suas limitações e estimula o senso de utilidade, responsabilidade e a interação social. Além disso, a rotina de cuidados diários, como colocar água, alimentar, levar para passear, dar banho, vacinas e medicações, ajuda o idoso a exercitar a memória, auxiliando na prevenção de disfunções cognitivas”, avalia a geriatra. Do ponto de vista físico, fazer caminhadas ou brincar com o pet regularmente faz com que o idoso se movimente mais e percorra distâncias maiores, o que favorece a coordenação motora, melhora a disposição, auxilia na redução dos níveis de colesterol, triglicérides e pressão – fatores preventivos de doenças cardiovasculares –, além de ajudar a combater o sedentarismo, condição que afeta boa parte dessa população.
Ter um animal de estimação nessa fase da vida também atenua a solidão, carência e ansiedade e, consequentemente, ajuda a prevenir a depressão. “Os idosos, principalmente depois de aposentados, tendem a ficar a maior parte do tempo reclusos em casa e, muitas vezes, sozinhos em decorrência da ausência dos filhos ou das perdas naturais da vida. Quando assumem o papel de tutores de pet, ressignificam sua existência e passam a se dedicar aos cuidados que estimulam, principalmente, a interação e o convívio social”, destaca o professor doutor André Fattori, médico geriatra e docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). No passeio diário, no parque com espaços reservados para cães, na ida ao veterinário ou pet shop, os idosos se comunicam com outras pessoas e passam a integrar ciclos de interesses comuns, o que é benéfico para a saúde emocional e cognitiva.
O médico reforça que, de forma geral, os pets desempenham papéis sociais importantes como acompanhantes, protetores e promotores de hábitos relacionados à boa saúde mental, pois despertam – em qualquer faixa etária – sentimentos como afeto, cuidado, empatia, amor ao próximo, compaixão e solidariedade. “Essa relação desencadeia nos tutores e nos animais eventos fisiológicos positivos, como a secreção de ocitocina, um hormônio associado aos sentimentos de bem-estar, amor, carinho e união social, colaborando para a redução da ansiedade e promovendo a sensação de conforto que são tão necessárias para a percepção de melhor qualidade de vida”, destaca.
Interação é positiva, mas necessita cuidados
Indivíduos que se dispõem a ser tutores de pets, em geral, já estão em melhores condições físicas e cognitivas e, portanto, capazes de cuidar e serem beneficiados nessa relação. Entretanto, na medida em que se envelhece, a disposição e a mobilidade podem ser mais complicadas e, assim, o risco de problemas de saúde fica maior. Para o geriatra André Fattori, mesmo que os pets tenham uma capacidade natural de renovar e melhorar a vida de seus tutores, é preciso avaliar se o idoso tem condições de assumir sozinho essa responsabilidade. “Se o indivíduo é funcional e consegue cuidar de si mesmo, perfeito. Ainda assim, ter uma rede de apoio familiar é fundamental, pois, no caso de doença, queda ou incapacidade física ou cognitiva que impeça o tutor de realizar suas tarefas, outra pessoa poderá assumir a atribuição de cuidado e atenção com o animal de estimação”, orienta.
Não há dúvida de que os pets oferecem propósito e identidade aos idosos, porém, conhecer as próprias limitações e os níveis de energia é fundamental para a escolha do cão mais adequado a cada estilo de vida, uma vez que o comportamento do animal interfere no estabelecimento dessa relação. Para os especialistas, cães de grande porte, por exemplo, são ótimas companhias, mas podem ser perigosos para os idosos, pois pulam, gostam de brincar, correr e têm muita força – podendo causar quedas e outros incidentes. Por isso, antes de adotar ou comprar um pet recomenda-se que o tutor procure um médico veterinário ou um especialista em comportamento animal que possa indicar uma raça que atenda às suas necessidades individuais. Além disso, é determinante que o idoso tenha consciência dos custos de manutenção e das tarefas envolvidas no cuidado do animal, para que a guarda seja uma fonte de prazer e de benefícios mútuos.