Benefícios para atletas de fim de semana

Pesquisa mostra que mesmo a prática de atividade física concentrada em poucos dias pode colaborar com a saúde

 

 Até cinco milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas se a população em todo o mundo fosse mais ativa, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso porque a atividade física regular é fundamental para prevenir e controlar doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer, bem como para reduzir sintomas de depressão e ansiedade, diminuir o declínio cognitivo, melhorar a memória e exercitar até mesmo o cérebro. Mesmo com tantos benefícios, o ato de exercitar-se perde a luta contra o sedentarismo, porque milhares de indivíduos alegam falta de tempo dentro da rotina do dia a dia para a prática de uma atividade física. No entanto, estudo recente comprova que os 150 minutos de qualquer atividade física semanal, preconizados para melhorar a saúde e o bem-estar, também podem beneficiar os ‘atletas de fim de semana’.

O artigo ‘Association of the ‘weekend warrior’ and other leisure-time physical activity patterns with all-cause and cause-specific mortality – A Nationwide Cohort Study’ revelou que os ‘guerreiros de fim de semana’ têm proteção contra mortalidade por todas as causas após analisar informações de 350 mil pessoas nos Estados Unidos por meio do banco de dados epidemiológico US National Health Interview Survey. Os indivíduos ativos que relataram fazer 150 minutos semanais de atividade física moderada a vigorosa, tanto concentrados em um ou dois dias como distribuídos pela semana, apresentaram taxas de mortalidade mais baixas do que os inativos. “Não foram observadas diferenças significativas entre os atletas de fim de semana e aqueles que gastam esses minutos ao longo da semana, tanto para mortalidade por todas as causas quanto somente por câncer ou doenças cardiovasculares”, afirma o doutorando em Epidemiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mauricio dos Santos, um dos autores do artigo em colaboração com o professor doutor Leandro Rezende, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Instituição (EPM-Unifesp).

A publicação reforça que não se pode culpar a falta de tempo pela ausência de atividade física, comprovando que é muito melhor fazer alguma atividade do que ser sedentário. Estudos mostram que fazer 150 minutos de atividade moderada a vigorosa ou 75 minutos vigorosos por semana diminui o risco de doenças crônicas ou metabólicas. Quando o indivíduo possui alguma enfermidade, os exercícios auxiliam no tratamento, melhoram a qualidade de vida e o estado psicológico. “Pacientes oncológicos que são ativos antes do diagnóstico têm mais chances de sobrevida. Pessoas com hipertensão que realizam 150 minutos de atividade física semanal diminuem o tratamento medicamentoso, porque os exercícios reduzem a pressão arterial por 24 horas, chegando a até 48 horas após a atividade. Trata-se de um instrumento rico e menosprezado, e é preciso quebrar o tabu e mudar o comportamento das pessoas que ainda acreditam que os benefícios só existem para quem consegue ser ativo diariamente”, enfatiza o pesquisador Mauricio dos Santos.

A população começou a ficar mais sedentária no século passado e as primeiras recomendações de exercícios físicos foram baseadas em atletas que tinham quantidade e qualidade intensa de treinos. O médico ortopedista Victor Keihan Rodrigues Matsudo, diretor científico do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), coordenador geral do Programa Agita São Paulo, consultor da OMS para atividade física e vice-presidente do International Council of Sport Science and Physical Education (ICSSPE), lembra que o primeiro Guia de Avaliação e Prescrição de Exercícios do American College of Sports Medicine (ACSM), em 1975, preconizava a alta intensidade para a melhora da aptidão física e do desempenho.

Entretanto, novos estudos foram surgindo com evidência de que, para a saúde, não era preciso a performance de atleta, e uma recomendação sobre atividade física publicada em 1995 pelo pesquisador Russell Pate, da University of South Carolina – em nome do ACSM e do Center for Diseases Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos – orientava que todas as pessoas, a partir de 18 anos, deveriam realizar pelo menos 30 minutos de atividade física por dia, de intensidade moderada, de forma contínua ou acumulada. “Não se tratava apenas do tempo, mas, principalmente, de dois conceitos que ajudaram muito a aumentar o número de adeptos. Primeiro, sobre a intensidade moderada e, segundo, sobre a forma acumulada, eliminando a desculpa daqueles que se diziam sedentários por falta de tempo”, pontua o médico Victor Keihan Rodrigues Matsudo.

 

Fracionada

Em 2007, a recomendação foi revisada e, sob o ponto de vista epidemiológico, indicou que os benefícios da atividade física para a saúde poderiam ser alcançados quando a pessoa realizasse 150 minutos de atividade moderadamente vigorosa por semana, fracionando o tempo da maneira que fosse melhor. Assim, até mesmo aqueles que só conseguem praticar atividades nos dias de descanso, mas que cumprem os 150 minutos semanais recomendados, são beneficiados e têm ganhos na saúde.

 

O importante é movimentar o corpo

Por muitos anos e até recentemente, os efeitos que a atividade física leve ou minimamente intensa teria sobre a saúde não eram estudados e esse tipo de ação era muito desmerecida. No entanto, na última década diversos artigos passaram a identificar um potencial benefício dessa prática para a saúde, principalmente quando estatísticas mostraram que um em cada quatro adultos e quatro em cada cinco adolescentes não praticam atividade física suficiente no mundo. Dados da OMS estimam que, globalmente, esse cenário custe US$ 54 bilhões em assistência médica direta e outros US$ 14 bilhões em perda de produtividade. O estudo ‘Sitting time and mortality from all causes, cardiovascular disease and cancer’, do pesquisador Peter Katzmarzyk do Pennington Biomedical Research Center, nos Estados Unidos, publicado em 2009 e baseado em uma amostra de 7.278 homens e 9.735 mulheres acompanhados por 14 anos, indica que a sobrevida de pessoas que passavam a maior parte do tempo sentadas era significativamente menor do que aquelas que passavam pouco tempo sentadas, reforçando que atividade física e sedentarismo são fenômenos interdependentes no impacto da morbimortalidade.

Idosos, gestantes e pessoas com deficiência também precisam praticar 150 minutos semanais de atividade física e quanto mais exercício, melhor. O médico Victor Keihan Rodrigues Matsudo enfatiza que não é necessário investir em equipamentos caros e em grandes academias, ou ter habilidades especiais, pois o mexer-se envolve esportes ou atividades de lazer ou locomoção, como caminhada e bicicleta. Por meio da dança, de brincadeiras e tarefas domésticas cotidianas, como jardinagem e limpeza, também já existe o movimento corporal que é importante para a saúde. “O sedentarismo é o segundo maior fator de morte no mundo, perdendo apenas para a hipertensão. Mata mais que obesidade, diabetes e tabagismo. Foi considerado fator de risco pela OMS apenas em 1992 e, infelizmente, parte dos livros de clínica médica das faculdades não está atualizada. Talvez por isso a atividade física não tenha o devido valor entre alguns profissionais”, lamenta.