Alívio que vem da terra

Conhecimento adquirido por meio dos antepassados, as plantas medicinais também podem colaborar com distúrbios do sistema gastrointestinal

Elessandra Asevedo

O uso de plantas medicinais é um recurso popular para alívio de sintomas, tratamento e cura de enfermidades, principalmente no caso de doenças e agravos não transmissíveis. Com registro de aplicação na China há 5 mil anos, a prática é amplamente utilizada por parte da população mundial como solução alternativa para o alívio de problemas de saúde. A dificuldade que muitas comunidades têm de adquirir medicamentos alopáticos ou atendimento médico também estimula para que os ensinamentos dos antepassados sejam seguidos até hoje, e as pesquisas científicas colaboram para a propagação dos benefícios por meio da demonstração de eficácia, segurança e mecanismo de ação de moléculas presentes nessas espécies. Utilizadas sozinhas ou em associação com medicamentos sintéticos e outras terapias, as plantas medicinais favorecem, inclusive, a retirada de algum remédio da prescrição médica, como os ansiolíticos, por atuarem sinergicamente. Além disso, podem ser utilizadas como terapia preferencial para doenças de baixa gravidade que não possuem opção sintética disponível.

Dentro do universo fitoterápico, há uma grande diversidade de plantas que são utilizadas como prevenção e combate a enfermidades do trato gastrointestinal, como úlcera e gastrite. E, em muitos casos, as plantas com propriedades curativas são as principais alternativas para o tratamento desses distúrbios em comunidades por todo o mundo, incluindo o Brasil, sobretudo na zona rural – carente de recursos médicos. Muitas dessas espécies possuem efeitos cicatrizante, anti-inflamatório, digestivo e neutralizador de acidez. O boldo, por exemplo, é conhecido milenarmente por ajudar nos problemas no fígado, na vesícula e no pâncreas. “A semente de sucupira tem atividade anti-inflamatória e potencial cicatrizante, assim como a erva de bugre. O cordão de frade também é bastante utilizado como anti-inflamatório. Para azia, no Sul do Brasil usa-se a folha de guanxuma. Sou daquela região e adquiri esse conhecimento com o meu avô”, exemplifica o bioquímico e farmacêutico Marcio Trevisan, pesquisador do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

A colite ulcerativa é foco dos pesquisadores do Laboratório de Farmacologia do Trato Gastrointestinal e Dor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estudam a Acmella oleracea, planta nativa do Brasil e conhecida como jambu, cuja flor é mascada pela população para alívio da dor de dente. Por causa dos polissacarídeos, a espécie tem um efeito gastroprotetor que levou os pesquisadores a analisar os benefícios em modelos animais com a doença. “Observamos melhora da colite, prevenindo o encurtamento do cólon e diminuindo a quantidade de sangue presente nas fezes e a diarreia. O mais interessante é que os estudos in vitro em células humanas mostraram a atividade imunomoduladora dos polissacarídeos na resposta inflamatória, melhorando a inflamação e a barreira intestinal, e evitando a entrada de bactérias patogênicas e a disbiose intestinal”, detalha a pesquisadora Maria Fernanda de Paula Werner, professora doutora do Departamento de Farmacologia, membro do Programa de Pós-graduação em Farmacologia e coordenadora do Laboratório de Farmacologia do Trato Gastrointestinal e Dor da UFPR.

A pesquisadora acrescenta que há chás capazes de proteger o estômago contra úlcera e gastrite, e alguns podem até ter efeito semelhante ao medicamento alopático Omeprazol – um dos mais utilizados –, como a espinheira santa, mas, sem os efeitos colaterais adversos do remédio. Recentemente, o grupo da UFPR realizou um estudo com uma suculenta chamada Sedum dendroideum, conhecida como bálsamo, que tem indicação para tratar problemas gastrointestinais. “A planta ornamental também é utilizada em saladas, sucos ou infusões. Optamos pelo infuso das folhas por conta do sabor e demonstramos a alta eficácia em relação à gastroproteção, sem alterar a secreção ácida gástrica”, detalha a professora Maria Fernanda de Paula Werner.

A atividade antiulcerogênica de diferentes espécies despertou interesse em trabalhos desenvolvidos nos últimos anos. “Com o estudo ‘Atividade gastroprotetora e efeito sobre a função motora gástrica de ratas das folhas de Arctium lappa L.’, demonstramos o potencial terapêutico da planta, popularmente conhecida como bardana, na prevenção e cicatrização de úlceras gástricas em condições normais e aumentadas de glicemia, além de favorecer as alterações da motilidade gástrica em ratas diabéticas”, pontua a farmacêutica Luísa Mota da Silva, professora doutora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), bolsista de Produtividade em Pesquisa e líder do Grupo de Pesquisa no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de Avaliação Biológica de Produtos Naturais e Sintéticos.

No experimento ‘Ação de extratos de plantas medicinais sobre a motilidade do trato gastrointestinal’, realizado na UFPR, os pesquisadores observaram os benefícios de três plantas para melhorar o trânsito intestinal: extrato de Persea major Kopp, cujo nome popular é pau de Andrade ou abacateiro do mato; Piper mollicomum Kunth, conhecida como jaborandi; e Serjania erecta Radlk, chamada de cinco-folhas. O resultado mostrou que os extratos do abacateiro do mato e do jaborandi aumentaram o trânsito intestinal, sendo que o primeiro também aumentou o esvaziamento gástrico, e o cinco-folhas não alterou a motilidade gastrointestinal.

Cuidados na utilização

As receitas milenares podem envolver folhas, flores, frutos, sementes, partes que crescem embaixo da terra e cascas, mas, de acordo com a análise brasileira ‘Plantas medicinais e o cenário da atenção farmacêutica no tratamento de distúrbios gastrointestinais’, realizada em parceria com a UFT e publicada no Brazilian Journal of Development, a folha é a parte mais aplicada nas receitas (totalizando 55%), seguida da casca com 16%, raiz, rizoma e sementes com 13% cada, e polpa com 3%. A aplicabilidade de plantas no tratamento de determinadas enfermidades é uma alternativa acessível e satisfatória, porém, sua utilização na terapêutica deve ser limitada. “O conhecimento sobre a forma correta de preparação é essencial, levando em consideração que diferentes partes de uma mesma planta podem ter substâncias distintas e apresentar outros efeitos terapêuticos, e até mesmo tóxicos”, avisa o pesquisador Marcio Trevisan.

A cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforça que, como qualquer medicamento, a utilização incorreta desses compostos pode ocasionar problemas nos sistemas nervoso, renal e hepático, além de alterações na pressão arterial que podem levar a internações hospitalares e, em casos mais graves, à morte. A procedência também é fundamental para garantir a segurança em relação ao plantio, uso de agrotóxicos e armazenamento. “Outro ponto importante é que, muitas vezes, o uso das plantas pode mascarar o sintoma de alguma doença mais séria. A diarreia, por exemplo, pode ser sinal de algo mais grave. É preciso entender que, se não desaparecer o sintoma, o paciente tem de procurar ajuda médica para descobrir a causa do problema”, enfatiza a pesquisadora Maria Fernanda de Paula Werner, da UFPR.

Reconhecimento mundial

O uso de plantas medicinais no cuidado e na promoção da saúde tem reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1978, quando a entidade expressou, na Declaração de Alma-Ata, a posição a respeito da necessidade de valorizar a utilização desses recursos naturais e eficazes no âmbito sanitário – uma vez que 80% da população mundial já utilizava plantas medicinais ou preparações na atenção primária à saúde. Em 2006, foi criada no Brasil a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que visa, entre outros, garantir à população o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Em 2010 institucionalizou-se o Programa Farmácia Viva, que abrange o cultivo e o beneficiamento de plantas medicinais, além da dispensação de fitoterápicos na forma de preparações magistrais e oficinais.

Segundo o doutor em Ciência, Rafael Poloni, coordenador geral de Assistência Farmacêutica Básica do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde do Ministério da Saúde, uma planta é considerada medicinal quando possui substâncias que, ao serem administradas no ser humano, podem prevenir, curar ou tratar doenças. E, ao obter um medicamento a partir de uma planta medicinal, este é chamado de fitoterápico. “O uso de plantas medicinais e fitoterápicos faz parte dos cuidados em saúde no Brasil, que detém muitos conhecimentos tradicionais acerca de espécies relevantes do ponto de vista terapêutico. De forma geral, o consumo desses produtos ocorre em grande parte da população, que confia nesse tipo de terapêutica porque observa sua efetividade”, pontua.

Esse conhecimento popular sobre as plantas medicinais, denominado etnobotânico, foi adquirido da vivência em conjunto com a natureza e as práticas locais, e é passado entre as gerações dentro da família ou nas comunidades, como quilombolas e indígenas. “Pela experimentação, por meio dos erros e acertos, esse conjunto de plantas traz um respaldo cultural e conhecimento empírico que possibilita usá-lo para fins medicinais. Em um segundo momento, a ciência faz o resgate do conhecimento etnobotânico e realiza testes farmacológicos em laboratório para verificar os efeitos, por meio da experimentação em animais e células, gerando dados científicos que confirmam a eficácia e segurança”, afirma a farmacêutica Luísa Mota da Silva, da UFSC.

Disponibilidade no SUS

No Brasil, há 12 fitoterápicos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) que podem ser adquiridos com recursos federal, estadual e municipal, permitindo uma movimentação crescente entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Parte das plantas medicinais reconhecidas pelo governo pode ser utilizada para diferentes afecções comuns do sistema gastrointestinal, como alcachofra para tratamento dos sintomas de dispepsia funcional, cáscara-sagrada para obstipação intestinal, espinheira-santa no tratamento de gastrite e úlcera gastroduodenal, hortelã para síndrome do cólon irritável e flatulência, e plantago nos casos de obstipação e síndrome do cólon irritável. “A dispensação de plantas medicinais e fitoterápicos no SUS acontece como qualquer outro medicamento”, afirma Rafael Poloni.

Protocolos com os fitoterápicos disponíveis em cada localidade são elaborados e validados por profissionais da saúde e, após os treinamentos, os prescritores habilitados elaboram receituários com informações que orientam o uso racional, seguro e eficaz de plantas medicinais e fitoterápicos em diversas formas, podendo ser in natura, coletados nas unidades de saúde, secos, manipulados ou preparados em Farmácias Vivas e, ainda, fitoterápicos industrializados.

O bioquímico e farmacêutico Marcio Trevisan destaca a importância de o Brasil valorizar as plantas medicinais, pois trata-se de um país que abriga a maior parte da Amazônia – composta por 22% das plantas de interesse medicinal e com mais de 7 mil táxons (tipos de plantas nativas que envolvem gêneros e famílias) que têm características de serem terapêuticos, embora ainda não tenham sido testados. “Ainda temos muito o que pesquisar, e todos os medicamentos alopáticos que existem hoje são frutos dos estudos com uma planta para chegar à matéria-prima necessária para o desenvolvimento do remédio”, ressalta o pesquisador da UFT.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2019, 8,8% dos entrevistados relatou afastamento do trabalho por ocorrência de distúrbios do sistema gastrointestinal, índice que ultrapassou a ausência por problemas cardiovasculares (7,1%) e saúde mental (6,2%). Os problemas gástricos, como dispepsia e refluxo gastroesofágico, podem ter uma longa duração e levar ao absenteísmo, mas os transtornos intestinais, como dor abdominal, constipação e diarreia, são os mais socialmente debilitantes, impactando negativamente na qualidade de vida.