A síndrome de Alice no País das Maravilhas

Elessandra Asevedo Especial para Super Saudável

Rápidas distorções visuais relacionadas ao corpo, ambiente e tempo caracterizam os episódios do distúrbio

A célebre obra da literatura infantil As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, escrita por Lewis Carroll e publicada em 1865, conquistou leitores de diferentes idades e gerações e tem sido retratada ao longo de séculos no cinema, teatro e nos livros. A estória da menina que entra em um reino encantado e muda de tamanho ao ingerir alguns alimentos – que a deixavam grande ou pequena o suficiente para ultrapassar barreiras – também inspirou o psiquiatra britânico John Todd, em 1955, a nomear um distúrbio caracterizado por distorções na percepção visual do corpo, do ambiente e da experiência de tempo com o título do conto. Por causa de relatos de pacientes que descreviam a sensação de ter partes do corpo crescendo ou diminuindo de forma desproporcional, o psiquiatra chamou o problema de síndrome de Alice no País das Maravilhas, também conhecida como síndrome de Todd.

Considerada rara, a síndrome não tem origem bem definida pela ciência ou estudos epidemiológicos com amostragem disponíveis na literatura. Caracterizada por causar episódios temporários de distorção e de desorientação da percepção, os pacientes relatam que, durante a manifestação, têm a sensação de que partes do corpo estão mudando de tamanho – como pescoço alongando, dedos crescendo e cabeça aumentando – ou mesmo que o ambiente está mudando de forma e os objetos estão ficando mais perto ou distantes. Também há relatos de perda da noção de tempo, que pode parecer mais rápido ou mais lento do que a realidade. Os sintomas variam em cada paciente e podem ser diferentes em cada ocorrência. 

A professora doutora da Faculdade de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), em São Paulo, Yara Dadalti Fragoso – in memoriam* – explicou que o paciente realmente acredita que aquilo está acontecendo e, como tem receio de que alguém perceba, tenta disfarçar, se cobrir ou colocar a mão no bolso, por exemplo, o que leva a um desconforto com possíveis prejuízos pessoais e profissionais. “Importante reforçar que é muito diferente da distorção que o indivíduo pode ter em relação ao peso e ao corpo, o que leva a desenvolver distúrbios alimentares, ou das sensações decorrentes de um pesadelo. Os episódios dessa síndrome acontecem em um curto período de tempo, em segundos ou minutos, e logo passa”, detalhou.  

A síndrome de Alice no País das Maravilhas também não deve ser atribuída ao paciente com quadro psicogênico, que inventa a informação e descreve algo que não existe, ou a alguém com problema oftalmológico. Embora a raridade da doença prejudique a amostragem disponível na literatura, especialistas afirmam que ocorre muito na primeira infância, pois é a fase em que o cérebro está fazendo as conexões e tem mais plasticidade, ficando mais sensível. “Mas a síndrome também aparece em outras fases da vida, porque pode ser provocada por uma atividade anormal nos lobos parietais do cérebro que são responsáveis pela consciência espacial e os sentidos como tato, visão e audição, distorcendo o senso de perspectiva e distância”, pontua a neurologista Elisa de Paula França Resende, integrante do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). 

O artigo científico italiano ‘Alice in wonderland syndrome: a clinical and pathophysiological review’ demonstrou que, entre os relatos publicados, a causa mais comum da síndrome é a enxaqueca, com 27,1% dos casos, seguida de infecção, com 22,9%, principalmente pelo vírus Epstein-Barr. Outras etiologias registradas foram lesão cerebral, uso de medicamentos e drogas, transtornos psiquiátricos, epilepsia e doença do sistema nervoso periférico. Em aproximadamente 20% dos pacientes, entretanto, nenhuma causa foi encontrada. Além de a enxaqueca ser a primeira causa da síndrome em adultos, é a segunda maior causa em crianças. O artigo destaca, ainda, que mesmo os pacientes infantis sem enxaqueca durante os episódios da síndrome tinham histórico familiar de cefaleia ou desenvolveram a enxaqueca após a síndrome, destacando a relação entre ambos os casos. O médico neurologista Marcus Vinicius M. Gonçalves, secretário do Departamento Científico de Neuropatia Periférica da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e professor doutor da Universidade de Joinville (Univille), explica que a síndrome costuma estar muito associada à aura da enxaqueca, que é um fenômeno elétrico químico que acontece no cérebro antes da crise, geralmente mais frequente em mulheres. 

“Há relatos de episódios da síndrome em crianças e adolescentes que ficam muito conectados no celular, mas ainda não se sabe se é apenas alucinação pela tela. Nos idosos, observamos mais casos relacionados ao acidente vascular cerebral (AVC)”, acrescenta. Alguns registros nos diários do escritor Lewis Carroll apontam que ele sofria de enxaquecas, relatadas como uma ‘cefaleia biliosa’ com vômitos intensos. E, em 1885, escreveu que ‘experimentava, pela segunda vez, aquela estranha afeição óptica de ver fortificações em movimento, seguidas de dor de cabeça’. O autor da estória também publicou, no diário de família, uma representação figurativa de uma pessoa com a metade direita do rosto, ombro e mão apagados, típico da aura visual da enxaqueca que poderia desencadear a síndrome, criando especulações de que as próprias experiências do autor com a enxaqueca serviram como inspiração para as aventuras de Alice.

Desconhecida e pouco notificada

A síndrome de Alice no País das Maravilhas ainda é pouco conhecida e, provavelmente, mal diagnosticada pela falta de critérios e análises claras e universalmente aceitas, levando os especialistas a acreditarem que pode ser muito mais frequente do que relatada atualmente. A falta de conhecimento sobre a existência da síndrome leva o paciente a não comentar os episódios de distorção com o médico e, quando comenta, muitas vezes fica sem respostas porque os exames raramente mostram alguma anormalidade. Os casos em crianças costumam ser subdiagnosticados, porque nem sempre os adultos levam em consideração os relatos por acharem que as histórias são frutos do imaginário infantil. 

A professora Yara Dadalti Fragoso contou que, por causa da enxaqueca, teve episódios da síndrome quando era criança e simplesmente colocava a mão no bolso para esconder porque tinha vergonha. Mas logo passava e ela não contava para ninguém. Só depois de décadas, estudando o tema na Faculdade de Medicina, é que descobriu o que realmente teve na infância. Por isso, é importante que os médicos conheçam a síndrome para fazer a anamnese e valorizar o quadro. As manifestações de distorção não oferecem risco à saúde do paciente ou a qualquer outra pessoa, mas é necessário identificar o que está causando os episódios e, posteriormente, eliminar a causa base. Quando a síndrome é provocada por enxaqueca, o paciente provavelmente teve episódios nas fases mais jovens da vida, mas, quando a manifestação acontece pela primeira vez na fase adulta, é preciso identificar a causa, pois pode ser um AVC ou um tumor cerebral.