A era da robótica na medicina
Braços robóticos controlados por médicos auxiliam em inúmeras cirurgias gastrointestinais
Elessandra Asevedo
A tecnologia entrou definitivamente na Medicina e, com isso, os exames e diagnósticos ficaram mais precisos, os procedimentos cirúrgicos estão mais seguros e os tratamentos apresentam resultados mais satisfatórios. Tudo isso colabora para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e favorece os médicos, que podem se concentrar ainda mais no ato de cuidar. Na década de 1990, o surgimento da videolaparoscopia – técnica cirúrgica minimamente invasiva – foi uma revolução devido à diminuição da agressividade nos procedimentos e, há cerca de 15 anos, surgiu a cirurgia robótica, considerada ainda menos invasiva e com potencial para uma recuperação mais rápida. Hoje, ambas as técnicas estão presentes em todo o Brasil e cada dia ganham mais aperfeiçoamento graças ao avanço tecnológico de softwares e à internet 5G.
Na Gastroenterologia, a cirurgia robótica é aplicável para diferentes procedimentos, como esofagectomia, gastrectomia, pancreatectomia, hepatectomia e cirurgias colorretais. O equipamento robótico também trouxe a possibilidade de minimizar algumas dificuldades encontradas em determinados procedimentos, como a cirurgia bariátrica laparoscópica, por exemplo, na qual o cirurgião tinha visão limitada e falta de ergonomia em pacientes muito obesos. O estudo ‘Resultados iniciais da primeira série de casos brasileiros de cirurgia bariátrica totalmente robótica’, que tem a participação do médico cirurgião Carlos Eduardo Domene, professor doutor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica (Sobracil), mostra que o uso do robô apresenta taxas de complicações semelhantes ou menores em relação à cirurgia laparoscópica convencional, sendo raríssimo o relato de ocorrência de fístulas.
O artigo ‘Cirurgia abdominal por robótica: experiência brasileira inicial’, realizado por médicos do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, descreve as experiências com cirurgias abdominais assistidas por robô entre julho de 2008 e abril de 2010, realizadas em 44 pacientes – a maioria para correção de hérnia de hiato ou cirurgia bariátrica. Com exceção de um, os demais pacientes tiveram alta no dia seguinte ao procedimento e não houve hemorragia, necessidade de nova operação ou conversão para procedimento laparoscópico.
O pesquisador Ulysses Ribeiro Junior, médico do Departamento de Gastroenterologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, unidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICESP-HC-FMUSP) – que participou do estudo –, afirma que a única complicação foi uma fístula devido ao procedimento de clampeamento videolaparoscópico em operação bariátrica. ‘‘Isso que nos leva a concluir que a cirurgia abdominal assistida por robô é segura para os pacientes, com sangramento reduzido e tempo aceitável de operação, além de ser mais ergonômica para os cirurgiões”, acentua.
Câncer
A gastrectomia robótica também tem se mostrado um método seguro e viável no tratamento do câncer gástrico. Pesquisadores do ICESP-HC-FMUSP também desenvolveram o artigo ‘Resultados cirúrgicos de curto prazo da gastrectomia robótica em comparação com a gastrectomia aberta para pacientes com câncer gástrico: um estudo randomizado’, que comparou os resultados cirúrgicos das duas técnicas em 60 pacientes. Os pesquisadores identificaram que a gastrectomia robótica teve número médio semelhante de linfonodos colhidos, maior tempo cirúrgico e menos sangramento em comparação à cirurgia aberta.
Além disso, as complicações pós-operatórias, o tempo de internação e as reinternações em 30 dias foram equivalentes em ambas as técnicas. “No entanto, a gastrectomia robótica reduz o sangramento operatório em mais de 50%. Embora o tempo de cirurgia tenha sido maior porque estávamos iniciando esse tipo de procedimento, demonstramos que a gastrectomia robótica pode ser um método seguro e viável no tratamento do câncer gástrico”, acentua o gastroenterologista Ulysses Ribeiro Junior. O artigo foi publicado no Journal of Gastrointestinal Surgery.
Procedimentos estão mais precisos
O processo da cirurgia robótica é mais preciso em relação à videolaparoscopia, pois a visão 3D das áreas a serem operadas garante maior profundidade, definição e avaliação da vascularização dos órgãos. Com quatro braços com pinças que são inseridas no paciente por pequenas incisões, o robô cirúrgico também tem um console com visor no qual o cirurgião apoia a cabeça para ter a visão 3D durante a cirurgia – o que permite ao médico fazer movimentos precisos e com mais estabilidade, diminuindo o risco de intercorrências. Por meio de dois joysticks (mãos direita e esquerda) e de pedais, o cirurgião manipula os braços do robô. O último componente do equipamento é o carrinho de vídeo com uma tela na qual a equipe médica, composta por auxiliares e instrumentadores, acompanha o procedimento.
Como tudo que é novo na Medicina, a cirurgia robótica também trouxe alguns desafios para cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, técnicos e até mesmo engenheiros – que são os profissionais responsáveis pelo funcionamento do equipamento. Segundo o médico cirurgião Carlos Eduardo Domene, os softwares disponíveis atualmente criam múltiplas possibilidades que seriam impossíveis em uma cirurgia aberta ou mesmo por laparoscopia. “Os softwares com filtro de tremor, por exemplo, não deixam a mão robótica tremer e ajudam o médico a realizar os movimentos com maior exatidão, enquanto os softwares para imagem tridimensional em tempo real fornecem ao cirurgião uma maior perspectiva do que está sendo operado”, acentua.
Outra vantagem é que o processo ficou mais ergonômico, uma vez que o cirurgião trabalha sentado e com apoio nos braços, podendo suportar cirurgias mais longas. Para o paciente, o procedimento diminui possíveis intercorrências durante e após o processo cirúrgico, como perda sanguínea e dor, além de minimizar o risco de infecção, permitir uma internação mais curta e possibilitar o retorno às atividades normais em menor tempo.
Custo-efetividade
Para o médico cirurgião Elinton Chaim, professor doutor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), a cirurgia robótica tem conseguido comprovar o custo-efetividade com a diminuição significativa do valor dos equipamentos e instrumentos. No Brasil, devido ao custo e à manutenção, os robôs chegaram primeiro nos grandes hospitais das capitais, mas, atualmente, diversos hospitais espalhados pelo País estão adquirindo equipamentos e oferecendo um acesso mais amplo, tanto aos pacientes da rede de saúde privada quanto para aqueles que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). “Com maior utilização e mais empresas fabricando o equipamento robótico, é uma questão de tempo para que esteja incorporado na maioria dos hospitais de médio e grande portes do SUS. A cirurgia robótica não tem contraindicação, mas o alto custo ainda é uma barreira a ser superada para que atenda cada vez mais pacientes”, pontua o cirurgião.
Telecirurgia como opção para locais remotos
Apesar dos desafios em relação a custo e acesso, a cirurgia robótica pode levar o que há de mais tecnológico na Medicina para locais remotos. Com a chegada da internet 5G, já estão sendo testadas as telecirurgias com robôs, nas quais o cirurgião controla os joysticks de outro local ou até de outro país, e os braços do robô realizam o procedimento no paciente que está a quilômetros de distância. Os testes já estão sendo desenvolvidos em animais e humanos em países asiáticos, europeus e nos Estados Unidos, pois é fundamental ter total segurança na transmissão dos dados sem atraso, para evitar intercorrências e riscos à integridade dos pacientes. No entanto, os professores acreditam que dificilmente o cirurgião especializado será completamente descartado durante um procedimento, pois o corpo humano tem alterações e anomalias que diferem em cada paciente e somente a experiência profissional pode realizar o procedimento correto.
Recentemente, o Smart Tissue Autonomous Robot (STAR), projetado por uma equipe de pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, realizou uma anastomose intestinal em um porco de forma autônoma, sem o controle de um médico. Publicada na Science Robotics em 2022, sob o título ‘Autonomous robotic laparoscopic surgery for intestinal anastomosis’, a experiência deu um passo significativo em direção à cirurgia robótica totalmente automatizada em humanos. “A anastomose intestinal é um procedimento que requer um alto nível de movimento repetitivo e precisão, e conectar as duas extremidades de um intestino é uma etapa desafiadora da cirurgia gastrointestinal, exigindo que o cirurgião suture com alta precisão e consistência. Mesmo o menor tremor na mão ou um ponto mal colocado pode resultar em um vazamento intestinal que pode ter complicações catastróficas para o paciente”, afirmam os autores.