A dor neuropática como foco

A dor neuropática como foco

Estudo visa entender o mecanismo do problema para desenvolver
um fármaco que melhore a qualidade de vida dos pacientes

Elessandra Asevedo

Especial para Super Saudável

A dor neuropática é crônica e decorrente de lesão no sistema nervoso que pode ser provocada por doenças, a exemplo de diabetes, assim como lesões traumáticas ou até mesmo como efeito colateral de um determinado tratamento. Considerada uma das consequências clínicas mais importantes da lesão do sistema somatossensorial porque prejudica a qualidade de vida dos acometidos, estima-se que entre 5% e 15% da população mundial sofra com o problema. No Brasil, embora não existam dados epidemiológicos, os números giram em torno de 7% da população – algo como 15 milhões de indivíduos. Levando em consideração que a população mundial está envelhecendo e a prevalência de muitas doenças está aumentando, a perspectiva é de que a taxa de pessoas acometidas por essa dor crônica cresça exponencialmente.

Como ainda não há medicamentos específicos para tratar a dor neuropática, os médicos indicam fármacos desenvolvidos para outras doenças, como depressão e epilepsia, devido ao efeito analgésico que conferem. Entretanto, mesmo esses medicamentos, descobertos empiricamente, não são totalmente eficazes para uma parcela dos pacientes que sente pouca melhora na dor e pode ter efeitos colaterais, além do fato de muitos indivíduos não responderem à ação medicamentosa. O professor doutor Thiago Mattar Cunha, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), explica que a dor tem um caráter protetor e é um mecanismo de todos os indivíduos contra ações que podem causar danos, porém, ao tornar-se crônica, perde esse papel e passa a ser prejudicial, diminuindo muito a qualidade de vida.

A dor incessante impede os pacientes, inclusive, de executarem tarefas simples, afetando a vida profissional e pessoal, induzindo a outros problemas de saúde – em especial ansiedade e depressão – e influenciando na qualidade do sono. “Para o desenvolvimento de novos medicamentos para esses indivíduos é preciso entender como a dor acontece no corpo e no sistema nervoso, tornando-se crônica. Estudamos em nosso laboratório os mecanismos ligados ao desenvolvimento desse tipo de dor para entender o que chamamos de cronificação da dor relacionada à lesão do nervo. É algo que trabalhamos há muito tempo e, nos últimos 10 anos, conseguimos evoluir nos estudos e, agora, descobrimos uma via celular metabólica que tem papel importante no processo”, explica o docente, que realiza o estudo no Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (CRID) da FMRP-USP.

A descoberta envolve a via metabólica da quinurenina, um sistema catabólico ligado a processos fisiopatológicos cuja formação depende de algumas enzimas, principalmente a IDO1. Na cronificação, os níveis da quinurenina estão aumentados e participam do processo de plasticidade e alteração do sistema nervoso. Distúrbios nessa via têm sido implicados em várias enfermidades, como depressão, esquizofrenia, mal de Alzheimer e doença de Huntington. Com a descoberta, os pesquisadores buscaram aprofundar cada vez mais para entender melhor os mecanismos que estavam por trás do processo, contando com colaborações nacionais e internacionais importantes, inclusive um dos maiores especialistas em IDO no mundo – o professor doutor Andrew Mellor, da Georgia Regents University, nos Estados Unidos, e da Newcastle University, na Inglaterra.

Para comprovar e elucidar o papel do processo nesse tipo de dor foram utilizados modelos em camundongos, e os pesquisadores descobriram que a dor neuropática é anulada quando a via metabólica da quinurenina iniciada pela enzima IDO1 é ablacionada farmacologicamente ou geneticamente. “Com os resultados obtidos, abrimos essa perspectiva de desenvolvimento de novos compostos para bloquear essa via. Acreditamos que inibidores da via possam ter um papel importante no controle desse tipo de dor”, enfatiza o professor.

Próximos passos

No momento, o grupo está desenvolvendo moléculas que vão inibir essas substâncias e criar possíveis candidatos a novos fármacos. Neste processo, todas as moléculas descobertas são testadas in vitro, assim, quando os pesquisadores evoluírem para os testes em animais será possível observar efeito e atividade. O professor explica que as moléculas candidatas a fármacos precisam passar pelo teste de toxicidade para seguir para a fase de pesquisa clínica. “A perspectiva é que isso ocorra dentro de quatro anos. Para acelerar essa fase de estudo, estamos buscando parceria com a indústria farmacêutica nacional”, detalha.