A Dermatite Atópica Demanda Cuidado Multidiciplinar

Multifatorial, crônica e recorrente, a doença

resulta em impactos na qualidade de vida

 

Fernanda Ortiz

Especial para Super Saudável

 

A dermatite atópica (DA) é uma doença de pele inflamatória crônica, não contagiosa e de origem multifatorial que se manifesta clinicamente a partir do aparecimento de lesões cutâneas ­(eczemas) e ressecamento da pele, acompanhados de prurido intenso – esse último descrito como o sintoma mais marcante. A condição afeta de 15% a 20% das crianças e entre 3% e 7% dos adultos. A DA é considerada uma doença de base genética, em que indivíduos com histórico familiar de doenças inflamatórias, como asma e rinite alérgica, têm maior probabilidade de desenvolvê-la. Com impacto profundo na qualidade de vida, a DA pode levar a problemas secundários como distúrbios de sono, isolamento social e abstenção escolar, demandando cuidado ­multidisciplinar.

 

As estimativas indicam que quando um dos pais tem uma condição atópica há 25% de chance de o filho desenvolver a doença. Caso sejam pai e mãe, o risco aumenta para 50%. “Frequentemente, a doença é caracterizada como a primeira manifestação da marcha atópica, uma terminologia usada para descrever uma possível progressão sequencial de doenças alérgicas ao longo da vida do indivíduo com atopia”, informa a médica pediatra Marcia Carvalho Mallozi, coordenadora do Departamento Científico de Dermatite da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), membro da equipe técnica da disciplina de Alergia e Imunologia Clínica do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e professora assistente do Departamento de Pediatria do Centro Universitário da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC).

 

Fisiopatologicamente, a DA está intimamente ligada à filagrina, uma proteína essencial para a integridade da barreira cutânea. “Mutações genéticas nesse gene levam a uma barreira de pele comprometida, causando perda de água e ressecamento. Quando associada a uma alteração na resposta do sistema imune às substâncias ambientais, como irritantes e alérgenos, ocorre o desenvolvimento da doença”, explica a pediatra Marcia Carvalho Mallozi. A resposta imunológica desempenha papel central neste processo, especialmente pela ativação acentuada dos linfócitos T auxiliares tipo 2 (Th2), predominante nas fases agudas da doença. A especialista acrescenta que essas células promovem a liberação de citocinas como interleucinas IL-4, IL-5 e IL-13, que induzem a produção de imunoglobulina E (IgE), comprometendo a integridade da barreira epidérmica e contribuindo para a manutenção do quadro ­inflamatório.

 

A DA pode estar associada, ainda, a um desequilíbrio das microbiotas da pele e do intestino, caracterizado por um ecossistema menos diverso e com predomínio da bactéria Staphylococcus aureus (leia mais na página 10). A médica dermatologista pediátrica Cristina Marta Maria ­Laczynski, professora afiliada da Disciplina de Dermatologia e responsável pelos Ambulatórios de Dermatite Atópica e Crioterapia do Centro Universitário FMABC, explica que a pele desses pacientes é frequentemente colonizada por S. aureus, com mais de 90% das lesões contendo a bactéria. “Com a barreira cutânea enfraquecida, sua presença intensifica a inflamação e a gravidade da doença, levando a infecções secundárias que podem evoluir para crises graves sem tratamento farmacológico adequado”, descreve.

 

Crianças

A prevalência da dermatite atópica varia conforme a idade, sendo mais comum no público pediátrico. De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, os grupos mais afetados são crianças de 6 a 7 anos (7,3%) e adolescentes de 13 a 14 anos (5,3%). Em cerca de 70% dos casos o início ocorre nos primeiros meses de vida, e em cerca de 7% dos pacientes a dermatite atópica tem início apenas na vida adulta. Em muitas crianças, mesmo que a pele possa permanecer sensível ou seca por mais tempo, os surtos diminuem significativamente com a idade, podendo desaparecer até a adolescência. Entretanto, uma parcela desses pacientes segue com a doença pelo resto da vida com períodos de melhora ou piora. “Nesses casos, o tratamento adequado é fundamental para ampliar o espaço entre uma crise e outra, assim como reduzir a intensidade dos sintomas”, informa o dermatologista Roberto ­Takaoka, médico assistente da Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e presidente da Associação de Apoio à Dermatite ­Atópica (AADA).

 

Prurido e o sintoma central da enfermidade

A principal manifestação clínica da dermatite atópica é o prurido, muitas vezes surgindo antes de qualquer lesão visível na pele. De acordo com o dermatologista Roberto Takaoka, o prurido intenso causado pela liberação de inúmeros agentes inflamatórios na pele, associado a fatores psicológicos, pode levar a um ciclo vicioso de coceira, resultando no aumento de lesões na pele e problemas secundários, a exemplo de infecções bacterianas, inflamação crônica, espessamento da pele e alteração de cor. “Além do prejuízo físico, a coceira perturba o sono, afeta o desenvolvimento (especialmente das crianças até os dois anos de idade), leva à abstenção escolar ou no trabalho e, sem dúvida, impacta a qualidade de vida de forma significativa”, enfatiza.

 

Outro sintoma característico são as lesões cutâneas conhecidas como ­eczemas, que se manifestam de forma distinta de acordo com a idade, tanto em relação à localização quanto em suas características. Em bebês menores de dois anos (dermatite do lactente), as lesões são avermelhadas, úmidas, com crostas e intensa coceira, sendo mais comuns no rosto (principalmente nas bochechas), couro cabeludo, pescoço, abdômen e superfícies extensoras de braços e ­pernas. Após os dois anos de idade as lesões ficam mais secas e espessas devido ao ato de coçar, podendo apresentar descamação fina e fissuras. “Nesta fase, as lesões se concentram nas dobras, ou seja, nas pregas dos cotovelos e dos joelhos, além de punhos, tornozelos, pescoço e, em alguns casos, nas orelhas e na face”, descreve a pediatra Marcia Carvalho Mallozi. A partir da adolescência, as lesões continuam a predominar nas áreas de flexão (dobras) e, principalmente nos adultos, é comum o aparecimento da dermatite atópica nas mãos, nos pés e no pescoço.

 

Gatilhos

Segundo a dermatologista Cristina Marta Maria Laczynski, diversos gatilhos podem desencadear e intensificar os sintomas da doença, embora cada caso seja único. Dentre os fatores mais prevalentes estão alérgenos (pelos de animais, ácaros, pólen) e irritantes (maquiagens, perfumes, sabonetes abrasivos, sabão de lavar roupas, tecidos sintéticos e de lã). Além disso, condições ambientais (suor excessivo, temperaturas elevadas, frio intenso, clima seco e baixa umidade, poluição e fumaça de cigarro) e estresse emocional, que tende a aumentar a liberação de hormônios como o cortisol e a adrenalina, podem intensificar a inflamação na pele e piorar a coceira. A lavagem excessiva da pele, o uso de água quente e alergias respiratórias, como rinite e asma, também podem influenciar o quadro inflamatório. “Em relação às alergias alimentares, é preciso investigar se há de fato uma relação e, em caso positivo, substituir os alimentos desencadeantes de acordo com orientação do médico ou nutricionista”, pontua.

 

 

Tratamento depende da gravidade do quadro

O diagnóstico da dermatite atópica é clínico, baseado na anamnese e no exame físico. Durante a consulta são avaliados a intensidade da coceira, o padrão e a intensidade das lesões cutâneas (eritema, descamação, crostas) e a distribuição e extensão das lesões pelo corpo, assim como sinais clínicos associados. Além disso, é importante excluir outras condições eritematosas e eczematosas, a exemplo de eczema de contato, psoríase, dermatite seborreica, escabiose e rosácea. O diagnóstico também deve considerar o histórico familiar de alergias, como asma ou rinite. Testes adicionais, como IgE sérica e testes cutâneos de alergia não são necessários, mas podem ser utilizados para identificar alérgenos específicos.

 

O diagnóstico é baseado nos critérios clínicos de Hanifin e ­Rajka, considerados ‘padrão ouro’ devido à abrangência e facilidade de uso. ­“Trata­-se­ de uma combinação de, no mínimo, três critérios maiores que incluem prurido, distribuição de lesões, histórico familiar de atopia e quadro recorrente. Além disso, há três ou mais critérios menores, entre os quais pele seca, manchas claras na pele, queratose pilar e palidez facial”, detalha a dermatologista Cristina Marta Maria Laczynski.

 

A partir do diagnóstico, a ­gravidade da dermatite atópica é avaliada por meio de duas ferramentas clínicas: o SCORing Atopic Dermatitis (SCORAD), que considera a extensão e intensidade das lesões, e a avaliação subjetiva de sintomas como prurido e qualidade do sono; e o ­Eczema Area and Severity ­Index (EASI), que analisa a intensidade dos sinais clínicos e da área corporal afetada. Ademais, ferramentas de autoavaliação como o ­Patient-Oriented Eczema ­Measure (POEM) pode ser uma opção mais rápida para uso diário, entretanto, menos precisa.

 

O dermatologista Roberto Takaoka ressalta que a dermatite atópica é classificada como leve, moderada ou grave dependendo da intensidade da inflamação, extensão das lesões, intensidade do prurido e impacto na qualidade de vida. “A avaliação da gravidade é fundamental para a escolha do tratamento e para um monitoramento mais eficaz”, enfatiza. Além do atendimento com dermatologista, o tratamento multidisciplinar com pediatra, nutricionista, alergologista, imunologista, psicólogo e, em alguns casos, oftalmologista, pneumologista e otorrinolaringologista – a depender da manifestação –, garante a integralidade do cuidado do paciente e da família.

 

Abordagens

O tratamento segue uma abordagem variada e gradual, adaptada para cada paciente de acordo com quadro clínico e gravidade da doença. Realizado exclusivamente com orientação médica, tem por objetivo reduzir sintomas, prevenir exacerbações, tratar infecções (quando presentes) e restaurar a integridade da pele. A pediatra Vania Oliveira de Carvalho, coordenadora do curso de especialização em Dermatologia Pediátrica da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e secretária do Departamento Científico de Dermatologia da ­Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), comenta que, na maioria dos pacientes com quadro leve, as metas são alcançadas apenas com terapias tópicas, hidratação da pele e gerenciamento de gatilhos. Nas crises, é necessário o uso de inibidores de calcineurina tópicos e corticoides. Para casos moderados ou graves, entretanto, o cuidado é desafiador e envolve medicamentos de uso sistêmico.

 

Manejo dos medicamentos

O manejo terapêutico abrange desde cuidados básicos com a pele com uso de hidratantes até terapias avançadas. O dermatologista Roberto Takaoka esclarece que medicamentos tópicos, como corticosteroides e inibidores de calcineurina, são frequentemente usados para controlar a inflamação nos casos leves a moderados. O uso de anti-histamínicos por via oral pode ser indicado no período noturno, contribuindo para um sono mais tranquilo. “Em casos moderados, graves e refratários, além de medicamento tópico está indicado o tratamento sistêmico que pode incluir imunossupressores orais, agentes imunobiológicos e inibidores da JAK”, cita.

 

Na ocorrência de complicações, como infecções secundárias, pode ser necessário o uso de antibióticos ou antivirais. Para casos moderados ou graves que não respondem adequadamente a tratamentos tópicos, a fototerapia é considerada uma opção eficaz e segura. Por utilizar luz ultravioleta (UV), a fototerapia pode ajudar a reduzir a inflamação, melhorando as lesões cutâneas e aliviando o prurido.

Independentemente da gravidade, a hidratação da pele é a base do tratamento para melhorar a barreira cutânea natural. “Emolientes sem substâncias sensibilizantes devem ser utilizados pelo menos duas vezes ao dia, e imediatamente após o banho ou a lavagem das mãos. A quantidade aplicada segue a faixa etária e superfície corporal, mas deve ser generosa”, destaca a pediatra Vania Oliveira de Carvalho.

 

Paralelamente, as medidas ambientais dentro de casa são excepcionalmente importantes para o gerenciamento dos gatilhos. Entre as orientações estão banhos rápidos com água morna, sabonete hidratante indicado por dermatologista, secagem adequada da pele, manutenção de unhas curtas para evitar lesões ao coçar, banho após atividades físicas para remover o suor, evitar mudanças bruscas de temperatura e roupas apertadas, especialmente com tecidos sintéticos, e manter o ambiente bem ventilado e a casa limpa, livre de ácaros e poeira.

 

Nutrição adequada pode melhorar a qualidade de vida dos pacientes

 

Parte integrante dos cuidados terapêuticos, uma nutrição adequada pode melhorar muito a qualidade de vida dos pacientes com diagnóstico de dermatite atópica, especialmente as crianças. Além de favorecer a hidratação, o consumo de determinados alimentos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias – a exemplo de frutas, legumes, verduras e grãos – auxilia na redução da inflamação, na reparação da barreira cutânea e no fortalecimento do sistema imunológico, atuando na recuperação da pele. Em contrapartida, os alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares refinados, gorduras e sal devem ser evitados. Como cada caso é único, o acompanhamento nutricional é fundamental para a elaboração de uma dieta personalizada que auxilie no controle sintomatológico da doença.

 

De acordo com a nutricionista Natalia Coelho, especialista ambulatorial no Instituto da Criança e do Adolescente (ICr) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), apesar de não existir uma dieta exclusiva para a dermatite atópica a recomendação é adotar escolhas que priorizem uma alimentação mais natural e equilibrada. Alimentos com potencial anti-inflamatório como, por exemplo, frutas, verduras e legumes, preferencialmente orgânicos; cereais integrais; oleaginosas como castanhas e nozes; sementes como chia e linhaça; azeite de oliva extravirgem e alimentos ricos em ômega-3 (salmão e sardinha) devem compor a dieta desses pacientes, pois ajudam a reduzir a inflamação e fortalecer a barreira cutânea. “Isso vale também para os minerais essenciais, a exemplo do zinco. Encontrado em carnes, peixes, ovos, laticínios, grãos integrais e feijões, o zinco contém propriedades cicatrizantes, antibacterianas e anti-inflamatórias e auxilia na recuperação da pele, fatores importantes para o controle da doença”, observa.

 

Além disso, os alimentos ricos em antioxidantes são especialmente importantes, pois ajudam a recuperar a barreira cutânea e melhorar a hidratação da pele. Entre as opções estão as fontes de vitaminas que estimulam a produção de colágeno (como a vitamina C) e que atuam contra danos dos radicais livres (como a vitamina E). De acordo com a nutricionista, é importante o consumo regular de alimentos fontes de vitamina C como kiwi, acerola, laranja, morango, brócolis, couve, espinafre e tomate. Já as fontes de vitamina E incluem as oleaginosas como castanhas e amendoim, sementes, ovos e vegetais de folhas verdes.

 

“Associada à renovação celular, a vitamina A é encontrada em alimentos como batata-doce, cenoura e folhas verde-­escuras. Já a B6 contribui para a resposta imunológica e está presente em farelo de trigo, fígado e frutas como banana e abacate”, complementa. A recomendação é que quanto mais colorida, variada e equilibrada for a alimentação, maiores serão os benefícios para a saúde e a qualidade de vida dos pacientes. A especialista acrescenta que a ingestão regular de água (seja pura ou saborizada com frutas), em quantidade suficiente de acordo com o peso da pessoa, também ajuda a hidratar a pele por dentro.

 

Cuidados

Ainda que em um percentual de casos exista uma associação entre a dermatite atópica e a alergia alimentar, nenhum alimento deve ser retirado da dieta sem diagnóstico realizado por um médico ou especialista em Nutrição. “A dieta de restrição sem necessidade e sem a orientação adequada pode levar a deficiências nutricionais importantes que impactam a resposta imunológica, o crescimento e o desenvolvimento das crianças”, alerta a nutricionista Natalia Coelho.

 

Além disso, pelo fato de a doença estar associada a desequilíbrios na microbiota intestinal e cutânea (eixo intestino-pele), determinados probióticos podem ser incluídos na alimentação para restaurar o equilíbrio desse ecossistema, fortalecer o sistema imunológico e reduzir a inflamação – tanto na prevenção quanto no tratamento da doença (leia mais na página 10). Neste sentido, o acompanhamento nutricional integrado ao tratamento clínico é fundamental para a criação de um plano alimentar individualizado que garanta a ingestão de nutrientes essenciais – naturais ou suplementares –, mesmo em casos de restrições.

 

Atualização do PCDT para tratamento pelo SUS

 

De acordo com os especialistas, a proposta de atualização dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde para o tratamento de dermatite atópica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) reforça o papel da atenção primária à saúde na identificação precoce e no encaminhamento adequado dos casos. Dessa forma, contribuirá para melhores resultados clínicos e redução da carga socioeconômica associada à doença. Após um longo período sem revisões, a atualização atende à Portaria SECTICS/MS nº 48/2024, que incorporou o uso dos medicamentos imunobiológicos dupilumabe para crianças e upadacitinibe para adolescentes com a forma grave da doença. Além disso, o novo protocolo inclui a incorporação de medicamentos tópicos como o tacrolimo e o furoato de mometasona, além do metotrexato para uso sistêmico.

 

“Embora relevantes para a evolução do cuidado, os PCDT não contemplam os casos graves da doença de forma plena, especialmente entre a população adulta. Além disso, não disponibilizam hidratantes para uso diário”, lamenta a pediatra Vania Oliveira de Carvalho. Atualmente, a rede pública de saúde já oferece duas pomadas para aplicação direta na pele – dexametasona creme (1 mg/g) e acetato de hidrocortisona creme (10 mg/g – 1%). Ambas são classificadas como de potência leve. Para casos mais graves, está disponível a ciclosporina em solução oral. Coordenada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC), a consulta pública referente a essa atualização foi encerrada em julho de 2025 e o documento final, ainda sem data definida, será publicado após a análise das contribuições recomendadas por diversas entidades médicas e associações de pacientes.

 

Impactos sociais, emocionais e psicológicos

 

Devido ao caráter crônico e aos sinais visíveis na pele, a dermatite atópica pode levar à estigmatização, baixa autoestima, isolamento social e bullying, causando impactos emocionais, sociais e psicológicos especialmente nas crianças maiores e nos adolescentes. Estudos na literatura indicam que a dermatite atópica está associada à depressão, ansiedade e aos transtornos comportamentais, que podem agravar os sintomas da doença. Esses quadros demandam atendimento interdisciplinar – ­incluindo atendimento psicológico – para cuidados mais efetivos. Confirmando os dados científicos, um estudo conduzido na Universidade Federal do Paraná (UFPR) identificou que o risco para transtornos mentais (TM) em pacientes com dermatite atópica, nesta faixa etária, é maior quando comparado a seus irmãos ­saudáveis.

 

O estudo transversal, realizado no Ambulatório de Dermatologia Pediátrica do Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, entre julho de 2016 a junho de 2018, envolveu a participação de 100 crianças e adolescentes com diagnóstico de dermatite atópica atendidos na Instituição, e 50 irmãos saudáveis – todos com idade entre 1,5 e 14 anos. Segundo a neuropsicóloga e pesquisadora Mariana Muzzolon, as avaliações do grupo DA foram realizadas nos dias de consulta ambulatorial. O grupo sem diagnóstico foi avaliado simultaneamente ou recrutado para avaliação em data posterior. Na presença de mais de um irmão saudável, ambos foram considerados para o estudo.

 

As variáveis da pesquisa incluíram a avaliação da gravidade da doença – de acordo com os escores SCORAD e EASI – e o risco para transtornos mentais (de ambos os grupos) a partir da análise do questionário Child Behavior Checklist (Lista de Verificação de Comportamento Infantil) preenchido pelos pais ou responsáveis. O questionário abrange aspectos como ansiedade, depressão, isolamento, queixas somáticas, problemas de agressividade, problemas de atenção e dificuldades sociais. “A avaliação dos questionários confirma o que é observado na prática clínica e em estudos anteriores. Enquanto na idade pré-escolar a grande dificuldade está relacionada aos sintomas físicos, nos pré-adolescentes e adolescentes a aparência passa a ser fator determinante para intensificar comportamentos depressivos, de isolamento ou de baixa autoestima”, observa a pesquisadora Mariana Muzzolon, principal autora do estudo.

 

Risco elevado

Os achados indicaram que crianças e adolescentes com DA apresentam elevada frequência de risco para transtornos mentais (63%), maior do que o esperado para a população pediátrica geral (24,6%). Além disso, a frequência de risco para TM nos irmãos saudáveis (36%) foi menor em comparação aos participantes com DA. Em ambos os grupos houve maior frequência de risco para TM em escolares em comparação aos pré-escolares. “Em relação à gravidade da doença, foi observado maior risco nos pacientes com DA moderada/grave, principalmente para problemas de sono e reatividade emocional”, acentua a pesquisadora. Apesar das limitações, incluindo a falta de avaliação da causalidade das associações, os achados oferecem insights para novas investigações no campo da saúde mental infantil, particularmente na área de Dermatologia Pediátrica. O artigo ‘Risco para transtornos mentais em crianças e adolescentes com dermatite atópica e seus irmãos saudáveis’ está disponível no Acervo Digital da UFPR.

 

Grupos de apoio auxiliam na compreensão da doença

 

Por ser uma condição crônica que requer manejo contínuo, a adesão ao tratamento é um dos grandes desafios no enfrentamento da dermatite atópica. Os sintomas intensos e visíveis, que podem ser persistentes por longos períodos, geram frustração em pacientes, pais e cuidadores que, muitas vezes, têm dificuldade em entender e lidar com a doença. Recomendado pelas principais diretrizes nacionais e internacionais como parte integrante e fundamental do tratamento, a participação em grupos de apoio proporciona um espaço de acolhimento, autoconhecimento, educação e saúde. Os grupos de apoio para dermatite atópica são frequentemente oferecidos em atendimentos especializados em hospitais ou clínicas e por meio de associações. Por ser considerado parte fundamental de um tratamento multidisciplinar, geralmente são apresentados e indicados aos pacientes nas consultas de rotina. Ao aproximar pacientes e familiares com demandas, dúvidas e angústias similares, os grupos de apoio também criam um ambiente de compreensão mútua, facilitador da troca de experiências e que pode ser transformador.

 

De acordo com o dermatologista Roberto Takaoka, os grupos de apoio são importantes complementos ao tratamento da dermatite atópica ao promover a saúde do paciente. “Mediados por profissionais da saúde, os encontros na AADA têm por objetivo aumentar o conhecimento sobre os aspectos físicos, psicológicos e sociais da DA, alinhar expectativas com relação ao tratamento e reforçar a adesão às terapias. Juntas, essas ações atuam para melhorar a evolução e a qualidade de vida dos pacientes através da arte, ciência e educação”, acentua. Formada por pacientes e seus familiares, médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, voluntários e outros profissionais da saúde, a AADA é reconhecida internacionalmente por seus projetos criativos e inovadores. As atividades incluem a criação e distribuição de material educativo sobre a DA, organização de grupos de apoio e pesquisas na área da dermatite atópica. A entidade também desenvolveu um aplicativo digital para monitorização da doença.

 

No Clube da Dermatite, projeto de extensão realizado mensalmente pelo Departamento de Dermatologia da Sociedade Paranaense de Pediatria (SPP) em parceria com a UFPR, as crianças conversam sobre a doença de maneira leve. “Por meio de brincadeiras, teatro de fantoches e jogos educativos direcionados por equipe multidisciplinar, as crianças conseguem se divertir e criar laços enquanto aprendem sobre a doença, o uso correto da hidratação e demais cuidados. Ao encontrarem com outros pacientes que convivem com os mesmos sintomas, necessidades e desafios, descobrem que não estão sozinhos e que com saúde, cuidado e afeto podem enfrentar a doença com mais leveza”, destaca a pediatra Vania Oliveira de Carvalho, idealizadora e presidente do Clube.

 

Algumas reuniões são voltadas exclusivamente para o público adolescente que, geralmente, é o que mais sofre com as questões emocionais e comportamentais. “Para essa faixa etária, realizamos interações sociais agradáveis seja por meio de rodas de conversa, jogos ou orientações de cuidados com a pele e nutrição, entre outras. Mais do que um espaço de aprendizagem, autoconhecimento e convivência, incentivamos o acompanhamento psicológico individual e a prática de atividades físicas e extracurriculares, com foco no bem-estar, na integração social e na qualidade de vida”, destaca a médica.

 

Ferramentas educativas

Um estudo de desenvolvimento e vali­dação de instrumentos psicoeducativos sobre a dermatite atópica, desenvolvido pela neuropsicóloga Mariana Muzzolon durante o doutorado na UFPR, já vem sendo aplicado na prática clínica. O ‘Projeto Lupa: aprendendo de perto a Dermatite Atópica’ contempla o desenvolvimento do livro ilustrado Oli e o Grande Desafio da Coceira, que ajuda as crianças a entenderem a doença e lidar com o prurido de forma didática e lúdica. “Já os jogos ‘Dermatrilha’ (tabuleiro) e ‘Caixinha Surpresa da Dermatite’ promovem a interação entre crianças, adolescentes e os profissionais da saúde, proporcionando a troca de experiências, sentimentos e conhecimentos sobre a doença”, descreve a neuropsicóloga, que é professora do curso de Pós-graduação TEA, TDAH e Inclusão: Saúde, Família e Sociedade da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). A validação do conteúdo, em 2022, teve a participação de um comitê de especialistas composto por pediatras, psicólogos, ilustradores e pedagogos, e um pré-teste com crianças com dermatite atópica. •