A alimentação interfere na imunidade
Fernanda Ortiz Especial para Super Saudável
Alguns alimentos são considerados verdadeiros aliados do sistema de defesa do organismo
Muito mais do que mera fonte de energia, a alimentação é essencial para prover os nutrientes necessários para o bem-estar e o pleno funcionamento do organismo. No entanto, diversos estudos científicos também demonstram que os hábitos alimentares têm o poder de interferir, positiva ou negativamente, no sistema imunológico, uma das estruturas mais importantes no processo de preservação da vida. Para que possa exercer efetivamente a função de identificar e combater os agentes agressores capazes de comprometer a saúde, evitando que o corpo fique suscetível ao desenvolvimento de doenças, as células do sistema imunológico necessitam de nutrientes. Nesse sentido, a alimentação equilibrada e rica em vitaminas, minerais e fibras desempenha papel determinante, pois oferece os subsídios para a formação dos anticorpos que protegem o organismo.
O estado nutricional tem um importante papel na manutenção dos níveis de imunidade. “O fato é que o sistema imunológico é totalmente influenciado pela forma como o indivíduo se alimenta. Idosos e crianças, por exemplo, apresentam maior deficiência nutricional especialmente devido a hábitos alimentares inadequados, como dietas não balanceadas e carentes de nutrientes, o que certamente traz maior prejuízo na resposta imunológica”, explica a professora doutora Elisa de Almeida Jackix, docente do Departamento de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Desta forma, a nutrição se apresenta como ferramenta para o pleno funcionamento do sistema imune, não apenas em estados patológicos de imunodepressão, mas também na manutenção de estados saudáveis em pessoas sem comprometimento imunológico.
Para garantir um ciclo saudável entre nutrição, saúde, imunidade e qualidade de vida, é fundamental adotar uma alimentação que garanta os nutrientes que o corpo necessita. A professora ressalta que a falta de algumas vitaminas, minerais e fontes de antioxidantes prejudica o bom funcionamento das células, por isso, a recomendação para qualquer pessoa é aumentar o aporte – em quantidade fracionada – de todos os grupos alimentares. “Essa atitude fará com que o organismo receba todos os nutrientes com ação direta sobre a resposta imunológica, para que o sistema de defesa possa trabalhar adequadamente”, destaca. Para isso, o indivíduo deve deixar de lado dietas monótonas e repetitivas e passar a planejar as refeições, além de buscar novas combinações e maior diversidade de alimentos, especialmente frutas, verduras e legumes, para que haja uma oferta mais ampla de nutrientes.
Segundo a nutricionista Mariana Melendez, doutoranda do grupo de pesquisa em doenças crônicas de pósgraduação em Nutrição Humana da Universidade de Brasília (UnB), alguns alimentos se destacam no favorecimento das defesas naturais do organismo. “A dieta adequada deve ser balanceada com alimentos com ação antioxidante, como frutas cítricas e vermelhas; peixes como atum, salmão ou sardinha (ricos em ômega 3); alimentos ricos em fibras para auxiliar na função intestinal, como linhaça, aveia e alimentos integrais; alimentos ricos em gorduras saudáveis, como o azeite e as castanhas; e alimentos ricos em proteínas, como carnes, leite e ovos. “Em relação aos minerais, atentamos para o consumo adequado de zinco, presente nas castanhas e em alguns cereais. Cada substância irá atuar de maneira diferenciada no organismo, promovendo uma boa nutrição e, consequentemente, uma melhor imunidade”, ensina. Em contrapartida, açúcar, gorduras saturadas, alimentos ultraprocessados e bebidas alcoólicas – quando consumidos em excesso – podem reduzir a resposta imunológica e aumentar os processos inflamatórios.
Outro fator determinante para uma adequada proteção imunológica é a manutenção da microbiota intestinal. Para além das suas funções na digestão, o intestino concentra aproximadamente 90% de imunidade do organismo e, portanto, é responsável pela maior produção de anticorpos. “Para ter uma microbiota saudável, além do consumo regular de água, é recomendada a ingestão de probióticos – microrganismos vivos presentes em iogurtes, coalhadas, leites fermentados, kombuchas, kefir e alguns suplementos – que atuam diretamente na proteção da barreira intestinal”, detalha a nutricionista (leia mais na página 14).
Bons hábitos
Além da boa alimentação, é fundamental combater hábitos que podem afetar a resposta imune. Situações como estresse, sedentarismo e privação do sono também podem reduzir a capacidade do organismo de combater doenças. “A qualidade do sono merece destaque, pois é durante este momento que o corpo produz vários hormônios importantes para o organismo, regenera as células de defesa e fortalece o sistema imunológico. Não dormir a quantidade de horas necessárias ou não ter um sono de qualidade afetam o indivíduo física e emocionalmente”, afirma a nutricionista Mariana Melendez.
Suplementação vitamínica pode ser necessária
Restrições alimentares ou dificuldades enfrentadas durante o tratamento de uma doença podem influenciar tanto na aceitação de uma dieta quanto na capacidade de absorção de determinados nutrientes. Nestes casos, a indicação de um suplemento que auxilie o sistema imune pode ser necessária. “Complementos vitamínicos e alimentares são importantes, eficazes e receitados com frequência, desde que o organismo tenha carência do nutriente, pois, assim como a deficiência de uma vitamina ou proteína pode afetar o organismo, o excesso tende a também ser prejudicial”, orienta a professora Elisa de Almeida Jackix.
O uso indiscriminado e sem prescrição médica de suplementos não é recomendável, uma vez que esses produtos devem ser usados com cautela. Por isso, a recomendação é consultar regularmente um médico ou nutricionista, especialmente em situações que inspirem maiores cuidados, o que é essencial para garantir o bem-estar e a qualidade de vida.
Alterações emocionais influenciam
Inúmeros estudos mostram que as alterações emocionais causadas por ansiedade, depressão, síndrome do pânico e estresse têm uma relação complexa com o sistema imune, fazendo com que enfraqueça em um momento de desagrado ou de forte impacto emocional. Nestas situações, o corpo libera hormônios de forma descontrolada afetando não apenas as células de defesa, mas todas as funções orgânicas, e criando um ciclo vicioso de desequilíbrio que passa a ser seu estado normal. “Quando o indivíduo se sente ameaçado, triste, angustiado, o cérebro automaticamente estimula a produção de hormônios estressores, como cortisol e adrenalina, que fazem a pressão subir, os músculos contraírem, a frequência cardíaca aumentar e a respiração acelerar, diminuindo a atividade e a eficiência do sistema imunológico”, descreve a pós-doutora em Psiquiatria e Ciências do Comportamento, Angélica Cerveira de Baumont, pesquisadora do Programa de Transtornos de Ansiedade (PROTAN) do Hospital das Clínicas de Porto Alegre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (HCPA-UFRGS). Com o estresse constante, o corpo passa a produzir hormônios em grande quantidade, fazendo com que o organismo relaxe suas defesas e comprometa as funções do sistema imune, tornando-se menos capaz de combater agentes externos que causam enfermidades.
Recentemente, um estudo publicado no periódico Journal of Psychiatric Research analisou como os transtornos de ansiedade estariam relacionados a alterações em alguns marcadores imunológicos. Desenvolvido durante o doutorado da biomédica Angélica Cerveira de Baumont, com a participação de outros pesquisadores do HCPA-UFRGS, o estudo analisou crianças e adolescentes com e sem diagnóstico de transtorno de ansiedade. “Durante as análises avaliamos a relação entre um diagnóstico prévio de ansiedade e os marcadores inflamatórios, devido às alterações na imunidade, com o estresse oxidativo. Após um período de cinco anos, identificamos que pacientes diagnosticados apresentavam níveis elevados de interleucina 6 (IL-6), uma citocina pró-inflamatória encontrada em grande variedade de estados de doença associadas à inflamação”, descreve.
Os pesquisadores também avaliaram se atividade física, marcadores metabólicos ou traumas de infância poderiam atuar como mediadores na associação entre o transtorno de ansiedade e a IL-6, e identificaram que apenas níveis elevados de HDL-colesterol parecem ter essa ação. Outro achado importante foram os níveis reduzidos de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) que, neste trabalho, parecem estar associados à presença de sintomas depressivos. “Esse fator tem sido relacionado aos processos de neuroinflamação que modulam a aprendizagem e a memória no sistema nervoso central e, por isso, pode ser considerado um biomarcador das funções do hipocampo, que parece desempenhar papel importante na regulação do medo e da ansiedade”, acrescenta, ao ressaltar que o estudo – inédito para esse grupo específico – aponta o grande potencial da IL-6 e do BDNF como biomarcadores para os transtornos de ansiedade. Para isso, outros estudos serão necessários no sentido de avaliar como tais associações podem afetar, ou não, a morbidade da ansiedade.