Consumo de cítricos previne o escorbuto
Considerada rara, a enfermidade é desencadeada pela alimentação
pobre em frutas e legumes frescos e pode levar à morte
Elessandra Asevedo
Especial para Super Saudável
O escorbuto está descrito desde a Antiguidade, mas tornou-se amplamente reconhecido como uma das doenças mais temidas durante a Era das Grandes Navegações, entre os séculos XV e XVIII, quando navios cruzavam oceanos em longas jornadas sem acesso a alimentos frescos. Provocado pela deficiência de vitamina C, o mal afetava marinheiros submetidos a dietas baseadas em biscoitos secos, carne salgada e água armazenada, levando a sintomas como fraqueza extrema, sangramentos nas gengivas, perda de dentes e, frequentemente, à morte.
Durante séculos, o escorbuto representou um inimigo invisível a bordo, causando mais baixas do que as batalhas ou tempestades. Entretanto, a conexão entre o consumo de frutas cítricas e a prevenção do escorbuto foi demonstrada apenas no século XVIII pelo médico naval escocês James Lind, da Marinha Real Britânica, pioneiro da higiene naval e responsável pelo primeiro ensaio clínico controlado em 1747. “Desta maneira, a relação direta entre o consumo de frutas cítricas e a prevenção do escorbuto configurou um marco inicial da nutrição baseada em evidências”, pontua a médica nutróloga Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Atualmente, o escorbuto é considerado uma doença rara. No entanto, pode ocorrer em alguns grupos específicos como idosos, que têm problema de absorção e limitação para consumir alimentos. Indivíduos que não conseguem ter acesso a alimentos frescos ou com dietas restritivas, como em situação de rua ou em privação de liberdade, também são alvo da enfermidade, assim como aqueles que têm alto consumo de álcool e são dependentes de drogas. Pessoas que fumam também podem sofrer com o escorbuto porque o tabagismo reduz a absorção de vitamina C, assim como os pacientes oncológicos, que têm problemas no trato digestório, pessoas que tenham feito cirurgia bariátrica e celíacos. “Raramente temos esses casos no Brasil, pois existem muitas frutas por toda extensão continental que são fontes de vitamina C”, tranquiliza a nutricionista Fabiana Poltronieri, diretora da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) e docente da Unicesusc.
Os primeiros sintomas do escorbuto costumam ser inespecíficos e incluem fadiga, fraqueza, irritabilidade, dor muscular e articular. Com a progressão da deficiência podem surgir manifestações hemorrágicas, anemia, edema, dor óssea e maior suscetibilidade a infecções. Ademais, podem ser observados fragilidade capilar, petéquias, equimoses, sangramentos gengivais, edema, má cicatrização e alterações cutâneas como pele seca e hiperqueratose folicular. “As gengivas tornam-se inflamadas, dolorosas e sangrentas, podendo haver mobilidade dentária em casos mais avançados. Vasos sanguíneos fragilizados favorecem hemorragias espontâneas, especialmente em membros inferiores”, acentua a nutróloga Isolda Prado.
Essencial
A vitamina C, ou ácido ascórbico, é um nutriente essencial para o bom funcionamento do organismo, desempenhando diversas funções importantes. Por exemplo, atua como antioxidante ajudando a combater os radicais livres e protegendo as células contra danos, o que contribui para a prevenção do envelhecimento precoce e de algumas doenças. “Um dos papéis mais conhecidos está na produção de colágeno, uma proteína fundamental para a estrutura de pele, ossos, cartilagens, tendões e vasos sanguíneos”, explica a nutricionista Fabiana Poltronieri. A presença adequada dessa vitamina também é necessária para a síntese do colágeno, favorecendo a firmeza da pele, cicatrização de feridas e manutenção das articulações. Esse é o motivo de, na deficiência do ácido ascórbico, as manifestações cutâneas serem as mais percebidas. Além disso, a vitamina C fortalece o sistema imunológico, auxilia na absorção do ferro de origem vegetal e contribui para a saúde cardiovascular. Essa vitamina pode ser encontrada em alimentos como laranja, limão, acerola, kiwi, morango, goiaba, brócolis e pimentão.
Investigação no Ceará
Em fevereiro de 2020, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará foi notificado sobre a ocorrência de uma doença de causa desconhecida entre detentos do maior presídio estadual masculino do Estado. Os pacientes apresentavam manifestações clínicas como edema, dor, hematomas e equimoses em membros inferiores. Além de extravasamento sanguíneo e sangramento de gengivas, alguns apresentavam febre e muitos não conseguiam andar. Considerando que o escorbuto é uma condição rara na atualidade, as hipóteses diagnósticas iniciais foram acidente causado por animal peçonhento, trombose venosa profunda, intoxicação exógena, trauma, filariose, leptospirose, arbovirose e febre maculosa.
No mês seguinte, após a notificação de 49 casos suspeitos, foi solicitado apoio da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, por meio de equipe do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de Saúde (EpiSUS-Avançado, ou Brazil FETP – sigla em inglês de Field Epidemiology Training Program), para a investigação epidemiológica do evento. De acordo com o então profissional de saúde do programa e principal investigador do possível surto, Leonardo José Alves de Freitas, o momento era muito delicado, pois estavam sendo notificados os primeiros casos de covid-19 no Brasil. “Precisávamos agir com rapidez, já que o ideal é conduzir a investigação de surtos em até 15 dias e ainda estávamos em um momento difícil e de alto risco que era o início da pandemia. Então, aplicamos os 10 passos clássicos de investigação de surtos do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), adaptados à realidade brasileira”, relembra o biólogo mestre em Biologia Celular e epidemiologista de campo, atualmente especialista em gestão de serviços de saúde no Canadá.
Assim, foi estruturado um estudo do tipo caso-controle, precedido de revisão de prontuários nos hospitais onde os detentos que adoeceram foram atendidos, entrevistas clínicas e reuniões técnicas com as equipes assistenciais para levantamento dos dados. Ao todo, foram identificados 62 casos. A análise epidemiológica, associada às discussões clínicas com as equipes envolvidas, direcionou a hipótese diagnóstica para deficiência vitamínica, especialmente de vitamina C. Diante da forte suspeita, foi iniciada suplementação oral de vitamina C para todos os detentos, de forma preventiva, considerando a alimentação restrita e com ausência de frutas e vegetais frescos. Com a ação, observou-se a melhora dos sintomas em torno de sete dias, além da interrupção da ocorrência de novos casos.
“Com base em resultados e conclusões do estudo, foi confirmado o surto de doença compatível com escorbuto e recomendou-se ao Ministério da Saúde o fortalecimento da garantia de alimentação adequada às pessoas privadas de liberdade. A medida, além de prevenir adoecimentos evitáveis, reduz a necessidade de atendimentos médicos e os custos associados ao sistema de saúde”, finaliza o especialista. Os achados da investigação estão descritos no artigo científico intitulado ‘Investigação de surto de doença compatível com escorbuto em uma penitenciária masculina do Ceará, 2019-2020: um estudo de caso-controle’, publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS) (v. 32, n. 2, 2023), periódico científico do Ministério da Saúde.
O segredo está no consumo regular de frutas e vegetais ricos em vitamina C
A prevenção do escorbuto baseia-se em uma alimentação adequada, com consumo regular de frutas e vegetais ricos em vitamina C. Atualmente, o diagnóstico é realizado predominantemente por meio da avaliação clínica detalhada, considerando-se principalmente a história alimentar do paciente, os hábitos nutricionais e o contexto social, econômico e clínico em que está inserido, além da presença de sinais e sintomas físicos característicos da deficiência de vitamina C. A anamnese cuidadosa e o exame físico minucioso são fundamentais para levantar a suspeita diagnóstica, especialmente em indivíduos pertencentes a grupos de risco ou com dietas restritivas e inadequadas.
“A avaliação sistemática, especialmente em populações de risco, e a suplementação adequada de micronutrientes em dietas restritivas, hospitalização prolongada ou suporte nutricional artificial são estratégias essenciais para evitar deficiências carenciais ainda relevantes na prática clínica”, afirma a médica nutróloga Isolda Prado. A dosagem plasmática de vitamina C pode ser utilizada como método complementar para confirmação da deficiência, contribuindo para maior segurança diagnóstica. Entretanto, o exame nem sempre está disponível em todos os serviços de saúde, o que reforça a importância da avaliação clínica criteriosa e da experiência médica na identificação precoce do quadro.
Outro aspecto relevante é a observação da resposta terapêutica à suplementação de vitamina C. A melhora rápida dos sintomas após o início do tratamento é considerada um critério diagnóstico adicional, auxiliando na confirmação do escorbuto. O tratamento é simples, seguro, de baixo custo e altamente eficaz, baseando-se na reposição adequada de vitamina C. Além disso, é fundamental promover a reeducação alimentar e a correção dos hábitos nutricionais, incentivando a ingestão regular de alimentos ricos em vitamina C. •