O valor vital do leite materno para os bebês
O leite humano é um complexo biológico que salva vidas, fortalece o sistema imunológico e é essencial para o desenvolvimento
Elessandra Asevedo
Especial para Super Saudável
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os bebês sejam amamentados exclusivamente nos primeiros seis meses de vida. E, se possível, a orientação é manter o aleitamento até os dois anos de idade ou mais – mesmo depois da introdução alimentar. A recomendação se justifica porque o leite materno é o melhor alimento para os bebês, oferecendo todos os nutrientes necessários para uma efetiva proteção contra doenças. O leite humano tem uma composição altamente complexa, contendo todos os nutrientes que o bebê precisa nos primeiros meses de vida. O alimento possui uma mistura única de macronutrientes como proteínas, gorduras e carboidratos; além de micronutrientes, vitaminas, minerais, enzimas, hormônios e compostos bioativos, incluindo anticorpos e fatores imunológicos. No entanto, de acordo com a OMS, apenas 43% das crianças menores de seis meses são amamentadas exclusivamente na América Latina e no Caribe. E a má nutrição durante os estágios iniciais do ciclo de vida pode levar a danos significativos e irreversíveis ao crescimento físico e ao desenvolvimento cerebral.
O leite materno também contém bactérias benéficas, incluindo espécies de Lactobacillus e Bifidobacterium, que ajudam a colonizar o intestino do bebê e formar uma microbiota saudável – fundamental para o desenvolvimento dos sistemas imunológico, digestivo e neurológico. “A transferência dessas bactérias do leite materno para o bebê contribui para a maturação do microbioma intestinal, protegendo contra infecções e doenças inflamatórias. Além disso, modula reações imunológicas sem causar inflamação excessiva”, afirma a médica pediatra Lélia Cardamone Gouvêa, secretária do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e docente da Universidade Santo Amaro (Unisa).
O conteúdo imunológico do leite materno também evolui de acordo com as fases da lactação. Na fase inicial, a concentração de imunoglobulinas secretoras, fatores anti-inflamatórios e células imunologicamente ativas é maior. Já no decurso da lactação, o leite continua a se adaptar às necessidades de proteção imunológica e nutricional do lactente. Com relação à composição do leite em macronutrientes, as proteínas variam entre as mamadas e durante o dia e os lipídios têm maior concentração noturna e também variam com a dieta materna, enquanto os carboidratos se mantêm constantes durante o dia. Os micronutrientes também são influenciados pela dieta materna, com variação circadiana na concentração de alguns minerais como o ferro, que tem o pico de concentração ao meio-dia. Em contrapartida, magnésio, zinco e potássio alcançam níveis mais elevados pela manhã.
A enfermeira Eunice Francisca Martins, professora doutora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que o leite materno é completo e fornece todos os nutrientes necessários ao bebê mesmo quando a mãe sofre com desnutrição. “Em países africanos, por exemplo, estudos comprovam que os componentes do leite de mães desnutridas são iguais aos das mulheres que não sofrem com a desnutrição, pois o organismo trabalha para proteger a vida e atender às necessidades do bebê. Por isso, precisamos acabar com o mito de que a criança chora porque o leite da mãe é fraco e não sustenta”, pontua. Na verdade, as mães devem procurar entender por que o bebê tem mamado com maior frequência: se é porque gosta de ficar no colo, se existe dificuldade com a ‘pega’ ou mesmo se ocorre a saciedade antes da retirada do leite posterior (do final da mamada e mais rico em gorduras) diante de uma mama com muito leite.
Outro ponto destacado pela enfermeira é que a alimentação da mãe não influencia na composição nutricional do leite materno, mas sim no sabor. No entanto, a orientação é que a mulher mantenha a mesma alimentação de sempre, buscando alimentos saudáveis e alta ingestão de líquidos, e evitando bebidas alcoólicas e gaseificadas. “Não há diferenças significativas entre o leite de mães de diferentes regiões ou contextos socioeconômicos, pois o organismo consegue proporcionar a quantidade de proteína, aminoácidos e vitaminas que atenda à necessidade de cada lactante”, complementa. Da mesma forma, os anticorpos que protegem o bebê estão presentes conforme o histórico da mãe, ou seja, se foi vacinada ou teve alguma infecção. Por isso, é muito importante que a mãe seja devidamente imunizada de acordo com as recomendações dos especialistas que acompanham a gravidez.
Agosto Dourado
A campanha de conscientização Agosto Dourado é dedicada à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. O mês foi escolhido por ter sido o período em que, em 1990, a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) firmaram a Declaração de Innocenti, que tem como objetivo incentivar políticas públicas e ações que garantam o direito à amamentação por todas as crianças. Já a cor dourada simboliza o padrão ouro de qualidade do leite materno, considerado o alimento mais completo para os bebês nos primeiros meses de vida. Para possibilitar o contato da mãe com o bebê imediatamente após o parto foi idealizada a ‘hora de ouro’, ou golden hour, que é a primeira hora da mãe com o filho recém-nascido. O objetivo é promover a continuação do vínculo que começou durante a gestação e ajudar o bebê na transição do útero para o ambiente externo.
Desenvolvimento cognitivo e melhora do sono
O aleitamento materno está associado a melhores resultados em testes de desenvolvimento cognitivo e habilidades sociais na infância, graças aos ácidos graxos essenciais e a outros nutrientes presentes no leite. Segundo as evidências, crianças que mamaram por mais de seis meses tiveram melhores resultados cognitivos nos primeiros anos de vida, maiores níveis de quociente de inteligência (QI) na infância, melhores notas em testes educacionais na adolescência e maior média salarial na vida adulta. Ao longo da vida, esses indivíduos também apresentaram autorregulação mais elaborada e menos problemas de conduta e psicopatologias frente às exigências sociais. “Esses resultados ligados ao aleitamento materno exclusivo são o reflexo do amplo desenvolvimento de vias cerebrais associadas, principalmente à função de linguagem, memória verbal e tomada de decisões”, ressalta a pediatra Lélia Cardamone Gouvêa.
As bases biológicas para esses efeitos estão centradas nas propriedades nutricionais do leite materno, rico em ácidos graxos poli-insaturados, glicocorticoides, vitaminas, minerais e micronutrientes, e também ao vínculo mãe-bebê que a amamentação proporciona. A cada mamada, o lactente tem um importante contato pele a pele criando um estímulo sensorial e, ao mamar, tem o contato olho no olho e a interação com a mãe. Já a melatonina, um hormônio produzido pela glândula pineal na mãe e que passa ao leite materno especialmente durante a noite, ajuda a regular o ciclo sono-vigília do bebê promovendo um sono mais tranquilo e consistente. No primeiro mês, a transferência passiva de melatonina pelo leite contribui para o desenvolvimento do ritmo circadiano do bebê, facilitando a iniciação e manutenção do sono, além de influenciar positivamente o desenvolvimento neurológico. Essa é considerada outra importante vantagem dos bebês amamentados, pois recebem a melatonina materna até que consigam produzir sua própria. A melatonina também possui propriedades antioxidantes e moduladoras do sistema imunológico, ajudando a proteger o bebê contra o estresse oxidativo e a inflamação excessiva.
Forte aliado na prevenção de várias doenças
Pesquisas recentes comprovam que bebês amamentados têm menor incidência de infecções respiratórias, diarreia e doenças alérgicas. Segundo a OMS, o aleitamento prolongado reduz em 13% o risco de sobrepeso e obesidade, ajudando a combater doenças não transmissíveis causadas pelo excesso de peso. Além disso, diminui o risco de diabetes tipo 2 em 35%. A entidade garante, ainda, que a amamentação por seis meses ou mais está associada a uma redução de 19% no risco de leucemia infantil – em comparação com um período mais curto ou com crianças não amamentadas. Bebês amamentados também têm risco 60% menor de morrer por síndrome de morte súbita infantil, cujo efeito é ainda maior para crianças com aleitamento exclusivo. Além de proporcionar benefícios nutritivos e imunológicos, o aleitamento pode ajudar no desenvolvimento da respiração, deglutição, fala e mastigação.
Evidências científicas sugerem, ainda, que bebês amamentados no primeiro ano de vida têm menor recorrência de cárie dentária na primeira infância – que engloba crianças de até seis anos de idade – em relação aos que consomem fórmula infantil. Ao mamar, o bebê também diminui a exposição inadequada ao flúor e evita o consumo precoce de açúcares, impactando diretamente na prevenção da cárie. De acordo com o Ministério da Saúde, enquanto o amamentar promove a sucção correta – essencial para o desenvolvimento de hábitos saudáveis e a formação de uma mordida adequada –, a ausência do aleitamento ou o desmame precoce resultam na falta de estímulos para o desenvolvimento craniofacial. Ademais, a introdução de bicos artificiais, como mamadeiras e chupetas, movimenta uma musculatura diferente da correta e pode ocasionar hipertonia muscular e alterar a estrutura bucal. Já as mulheres que amamentam no período preconizado têm menos risco de diabetes tipo 2 (32%), câncer de mama (26%) e câncer de ovário (37%) em comparação com aquelas que não amamentam ou amamentam menos.
A ginecologista Silvia Regina Piza, presidente da Comissão Nacional Especializada em Aleitamento Materno da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), acrescenta que o aleitamento materno também é importante pois, além de criar um vínculo com a criança, auxilia na formação da mama que começou na vida embrionária da mulher. “Amamentar ajuda, ainda, na recuperação do útero após o parto porque a sucção do bebê estimula a produção de oxitocina, um hormônio que ajuda o útero a contrair e voltar ao tamanho normal mais rapidamente, reduzindo o risco de hemorragia pós-parto e anemia”, ensina. Ao mesmo tempo, a amenorreia lactacional nos primeiros dias de amamentação dificulta o surgimento de uma nova gestação, pois a liberação de prolactina inibe a produção de hormônios que estimulam a ovulação e a menstruação.
Cuidados
A professora Eunice Francisca Martins assegura que são poucas as situações em que o aleitamento materno é contraindicado. Um exemplo são as mulheres HIV positivo, que não devem amamentar pelo risco (ainda que pequeno) de o vírus ser transmitido pelo leite. No caso de outras infecções que necessitam de uso de antibiótico pela mãe, a melhor opção é utilizar o medicamento compatível com a amamentação. “Algumas medicações psiquiátricas podem impedir a amamentação, mas os médicos podem avaliar ou trocar temporariamente a prescrição. Medicamentos para tratamento oncológico também podem levar à contraindicação”, orienta.
Do ponto de vista do bebê, a prematuridade pode ser um dos motivos para postergar o aleitamento materno direto da mama. No entanto, o bebê será estimulado na unidade neonatal pela fonoterapeuta até que sua maturidade permita sugar de forma efetiva e se alimentar direto na mama. Neste período, o bebê irá receber o leite materno por sonda. A pediatra Lélia Cardamone Gouvêa diz que cada gota do leite ordenhado ou do banco de leite oferecerá os benefícios capazes de promover sua recuperação, evitando a enterocolite necrotizante (ECN), que é uma das causas de mortalidade elevada nas unidades neonatais. “A introdução precoce de leite materno pode reduzir a incidência da ECN em até 50%, lembrando que a mortalidade pela doença varia entre 20% a 30% em casos graves, especialmente em prematuros de muito baixo peso. Com práticas de prevenção, como a oferta precoce de leite materno, essa mortalidade pode ser reduzida”, reforça.
Para o bebê conseguir retirar o leite da mama é necessário que consiga coordenar as etapas de sugar, respirar e deglutir. Essa ordem ajuda a garantir que consiga se alimentar de forma eficiente e segura, sem engasgar ou ficar sem respirar. “Um bebê prematuro consegue começar a sugar na mama por volta da 32ª a 34ª semanas de gestação, mas isso pode variar bastante dependendo do grau de prematuridade e do desenvolvimento individual”, acentua a professora Eunice Francisca Martins. Por isso, é importante que a equipe acompanhe de perto, pois alguns prematuros podem precisar de suporte adicional até estarem mais maduros para se alimentar por conta própria.
Proteção da mulher contra o câncer de mama
Os principais fatores de risco para câncer de mama são a idade e o histórico familiar, especificamente se a mulher tem um parente de primeiro grau com a doença. Mulheres com histórico de amamentação, no entanto, demonstraram apresentar taxas reduzidas da neoplasia. Embora a causa específica não tenha sido esclarecida, estudos sugerem que a amamentação reduz o risco de desenvolver a enfermidade principalmente por meio de dois mecanismos: a diferenciação do tecido mamário e a redução do número de ciclos ovulatórios ao longo da vida. De acordo com a professora doutora Adenilda Cristina Honório França, orientadora do Programa de Pós-graduação em Ciências de Materiais e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Imunologia e Parasitologia Básicas e Aplicadas do Campus Universitário do Araguaia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), estudos epidemiológicos comprovam que as mães que amamentam têm um menor índice de câncer de mama e que o leite materno possui ação antitumoral.
“Um trabalho realizado com mães que estavam com câncer de mama e mulheres sem a doença mostrou que as diagnosticadas não amamentaram ou fizeram por um tempo menor”, resume. Essa ação benéfica do leite materno observada em diferentes trabalhos levou o grupo da UFMT a investigar os componentes presentes no alimento com potencial terapêutico na prevenção da enfermidade. O estudo com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) faz parte do projeto intitulado ‘Imunobiológicos derivados do leite humano: um produto natural, ecológico e tecnologicamente melhorado para prevenção e tratamento do câncer de mama’. Por exemplo, a imunoglobulina A (IgA), considerada a primeira linha de defesa contra agentes infecciosos que entram no organismo, é encontrada no sangue e na saliva, em altas concentrações no leite materno e também está presente nos sistemas geniturinário, digestivo e respiratório, protegendo-os contra infecções.
Outro componente estudado pelo grupo é a melatonina presente no leite materno, que tem um importante papel na modulação do sistema imunológico do bebê e atua como um potente antioxidante e anti-inflamatório, além de contribuir para a proteção e o fortalecimento do sistema imunológico. Após vários estudos, os resultados mostraram que esses elementos apresentaram atividade antitumoral in vitro contra células de câncer de mama. Os pesquisadores acreditam que, em médio prazo, estes componentes possam ter potencial na utilização em tratamentos e terapias para este tipo de câncer e para outras doenças. A proposta é buscar alternativas de inovação tecnológica por meio de bioprocessamento e extração de forma sustentável de componentes imunobiológicos do leite humano. “Também queremos fazer o processo sem a utilização de animais ou com uso restrito, utilizando células e/ou tecidos obtidos por bioimpressão, que poderão ser empregados no desenvolvimento do trabalho”, destaca a pesquisadora Adenilda Cristina Honório França.
Além disso, os componentes imunobiológicos para tratamento e prevenção de câncer de mama são extraídos a partir de leite humano proveniente do descarte em bancos de leite. Segundo a pesquisadora, cerca de 30% dos mais de 160 mil litros de leite humano coletados anualmente pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano são perdidos, principalmente pela forma como é feito o armazenamento e a coleta, e pelo rigoroso controle de qualidade necessário para que o leite seja ofertado aos lactentes.“Portanto, seria uma utilização sustentável e uma importante alternativa para o reaproveitamento do conteúdo de leite descartado, servindo como modelo para procedimentos que podem ser implantados em toda a rede e, eventualmente, até em bancos internacionais”, argumenta. O Brasil possui a maior e mais complexa rede de bancos de leite humano do mundo, com aproximadamente 237 unidades em todas as regiões do País. O leite doado atende recém-nascidos internados em unidades neonatais.
Componente protege os bebês de infecções
O grupo de Pesquisa Analítica Aplicada a Lipídios, Esteróis e Antioxidantes (APLE-A) da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, estuda o leite materno há cerca de 15 anos, analisando quais componentes estão em maior concentração e geram mais benefícios. Ao analisar os carboidratos, o grupo observou que o 2-fucosilactose (2’-FL) estava presente em grande concentração. Este componente não tem como função somente ser fonte de energia, pois protege contra infecções. “O 2’-FL age como alimento para vírus e bactérias e se torna atrativo para esses microrganismos, impedindo que se fixem no organismo do bebê. Este carboidrato também alimenta as boas bactérias, tornando a microbiota mais saudável. Além disso, ajuda a amadurecer as células intestinais e modula a resposta imunológica da criança”, afirma o professor doutor Oscar de Oliveira Santos Júnior, pesquisador do Departamento de Química da UEM e responsável pelo grupo.
O 2-fucosilactose é encontrado naturalmente apenas no leite humano em grandes quantidades. Outros mamíferos, como vacas ou cabras, produzem tipos diferentes de açúcares no leite e, geralmente, em quantidades muito menores. No entanto, nem todo leite humano possui este componente. “A presença desse oligossacarídeo depende de um fator genético da mãe e da presença do gene FUT2, chamado de gene secretor. Aproximadamente 70% das mulheres no mundo possuem esse gene ativo e, por isso, produzem naturalmente 2’-FL no leite”, revela o professor. As 30% restantes não produzem o composto, mas, ainda assim, o leite dessas mulheres é rico em outros oligossacarídeos com funções semelhantes.
Atualmente, graças à biotecnologia, o 2’-FL pode ser produzido em laboratório por fermentação com bactérias geneticamente modificadas, como E. coli especiais. Dessa maneira, passou a ser adicionado a algumas fórmulas infantis para tentar imitar os benefícios do leite materno, principalmente para proteger contra infecções e fortalecer o intestino do bebê. Essas fórmulas com 2’-FL já são aprovadas por órgãos reguladores no Brasil (Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa), na Europa (European Food Safety Authority – EFSA) e pela Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos. No entanto, o custo das fórmulas infantis com esse oligossacarídeo costuma ser mais alto do que as fórmulas tradicionais sem esse composto, principalmente porque o 2’-FL é produzido por biotecnologia – o que eleva o valor final.
Insubstituível
O pesquisador relata que estudos mostram que o 2’-FL sintético tem efeitos comparáveis ao natural em vários aspectos, mas ainda não iguais ao conjunto completo do leite humano. Pesquisas clínicas com bebês alimentados com essas fórmulas mostram menor incidência de infecções respiratórias e gastrointestinais, respostas imunes mais próximas às de bebês amamentados e microbiota intestinal mais semelhante à dos lactentes que recebem leite materno. Em vários estudos de coorte e ensaios clínicos controlados, os efeitos do 2’-FL sintético também foram estatisticamente significativos. No entanto, o leite materno contém mais de 150 tipos de oligossacarídeos, enquanto a fórmula (mesmo com 2’-FL) possui apenas um ou dois. “Sendo assim, o 2’-FL sintético se mostra seguro, eficaz e ajuda a reduzir algumas diferenças entre fórmula e leite humano, mas o aleitamento materno ainda é insubstituível”, assegura.
Pesquisa mostra necessidade de ampliar amamentação no Brasil
O Ministério da Saúde, em parceria com instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizou o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) para obter um retrato atualizado da nutrição infantil no Brasil. O foco foi avaliar a prevalência dos indicadores de aleitamento materno, as práticas relacionadas e o uso de mamadeiras, chuquinhas e chupetas entre crianças menores de dois anos de idade. A primeira edição foi realizada em 2019 com 14.558 crianças menores de dois anos e mostrou que 96,2% foram amamentadas em algum momento, enquanto 62,4% foram amamentadas na primeira hora de vida. A prevalência do aleitamento materno exclusivo em menores de seis meses foi de 45,8%, com maior prevalência na região Sul. Já o aleitamento continuado no primeiro ano de vida entre crianças de 12 a 23 meses foi de 43,6%, sendo mais prevalente na região Nordeste. A duração mediana do aleitamento materno exclusivo foi de três meses.
A enfermeira Eunice Francisca Martins afirma que, embora sejam números expressivos, ainda estão aquém do preconizado pela OMS. Além disso, a prática do aleitamento materno cruzado, apesar de ser contraindicada pelo Ministério da Saúde, apresentou frequência relativamente elevada (21,1%), sendo maior na região Norte. Das mães com bebês de menos de dois anos ouvidas, 4,8% doaram leite materno para os bancos de leite humano – número muito abaixo do esperado –, enquanto 3,6% das crianças nessa faixa etária receberam leite humano ordenhado pasteurizado desses bancos. O uso de mamadeiras ou chuquinhas entre as crianças com menos de dois anos de vida foi de 52,1%, sendo maior nas regiões Nordeste e Sul, enquanto a prevalência do uso de chupeta foi de 43,9%, com prevalência nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. “O uso desses artifícios para alimentar ou acalmar a criança pode prejudicar a continuidade do aleitamento materno. Os números evidenciam a necessidade do fortalecimento de ações, políticas e programas de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno”, enfatiza.
Aleitamento envolve questões sociais, culturais e econômicas
Amamentar é um ato natural, mas nem sempre é fácil, pois exige apoio, informação e empatia para que muitas mães possam superar os desafios físicos, emocionais e sociais. Para a ginecologista Silvia Regina Piza, o preparo para a amamentação deve começar assim que a mulher pensa em gestar. Assim, as informações, pretensões e restrições podem ser discutidas durante todo o período gestacional com o profissional que acompanha a gravidez, e também após o parto. Além disso, o estímulo ao aleitamento envolve questões sociais, culturais e econômicas que, muitas vezes, levam a mulher a desistir de amamentar.
A introdução de frutas e sucos precocemente, muitas vezes apoiada pelos profissionais da saúde, também faz com que ocorram menos mamadas e, consequentemente, menos produção de leite materno e de tempo de aleitamento. “Existe uma pressão social e familiar para introduzir outros alimentos antes dos seis meses de vida da criança. Essa prática considerada precoce é bem comum, uma vez que muitas mulheres precisam voltar a trabalhar quatro meses após o parto”, lamenta a ginecologista. Outra dúvida comum é o tempo da mamada. Entretanto, o indicado é que o bebê esgote totalmente uma mama e solte o bico sozinho. Só então a mãe deverá oferecer a outra mama e, se a criança recusar, é sinal de que está saciada. Em alguns casos, a falta de orientação adequada pode levar a intercorrências como ingurgitamento, fissuras e mastites, que prejudicam o aleitamento e provocam dor e desconforto nas mães lactantes.
A doutora Danielle Aparecida da Silva, coordenadora do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz), lembra que toda mulher com dúvidas ou sofrendo com o aleitamento pode buscar orientações junto às equipes dos bancos de leite humano. Estas unidades funcionam como casa de apoio à amamentação, com equipe de assistência desde a gestação e sempre que a mulher que amamenta necessitar. “Qualquer mulher que estiver em fase de lactação e quiser ser doadora também pode entrar em contato com o banco de leite mais próximo”, orienta.
Outro tópico cercado de dúvidas e, muitas vezes, de culpa, é o desmame, embora seja um processo que deve ser conduzido de forma respeitosa e partir da mãe ou do bebê. A orientação é alternar a amamentação com o alimento que vem sendo introduzido, aumentar o intervalo das mamadas e, aos poucos, fazer a transição de modo que não prejudique a criança. “Para a mãe, a introdução de outro alimento pode ser vista como um alívio, pois a amamentação demanda cerca de quatro horas por dia e não pode ser feita por outra pessoa. Por isso, sem apoio realmente fica muito difícil”, complementa a professora Eunice Francisca Martins.
O Brasil também mantém políticas públicas que protegem e promovem o aleitamento materno, como a licença-maternidade de 120 dias e licença-paternidade de sete dias. Além disso, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) valoriza o aleitamento materno desde a primeira hora de vida. Já a Sala de Apoio à Mulher Trabalhadora que Amamenta estimula a criação de espaços nas empresas públicas ou privadas nos quais as lactantes podem amamentar ou coletar o leite com conforto, privacidade e segurança. “É fundamental que a sociedade compreenda a importância da amamentação para todos os envolvidos para que possamos ter uma população mais saudável no futuro”, acentua a doutora Danielle Aparecida da Silva. Para manter o controle da propaganda e venda de fórmulas e sucedâneos do leite humano foi criada, em 2006, a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, Bicos, Mamadeiras e Chupetas (NBCAL), que estabelece regras para a promoção comercial, rotulagem e divulgação de alimentos e produtos de puericultura destinados a recém-nascidos e crianças de até três anos de idade. •