Jabuticaba é gigante em benefícios
Com sabor adocicado e rica em propriedades nutritivas, essa fruta brasileira se destaca pelo potencial terapêutico
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
Nativa da Mata Atlântica e uma das joias da flora brasileira, a jabuticaba é conhecida pelo seu sabor inconfundível e também pelos inúmeros benefícios oferecidos à saúde. Pertencente à família Myrtaceae e utilizada tradicionalmente na alimentação, a fruta é rica em compostos bioativos, antocianinas, fibras e micronutrientes – propriedades responsáveis por conferir os efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. Versátil e com polpa suculenta, a jabuticaba tem sido objeto de diversas pesquisas que apontam para seu potencial terapêutico. Achados na literatura comprovam que especialmente as substâncias presentes na casca atuam no controle da hiperglicemia, da síndrome metabólica e do bom funcionamento intestinal. Além disso, ajudam na prevenção do aumento do acúmulo de gordura no fígado e na modulação do declínio cognitivo.
Considerada uma ‘berry brasileira’, a jabuticaba contém uma variedade de nutrientes essenciais para a saúde humana. De acordo com a professora doutora Mariana Sarto Figueiredo, docente do Departamento de Nutrição Dietética e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Nutrição e Programação Metabólica e do Laboratório de Nutrição Experimental da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF), a fruta possui elevada quantidade de fibras alimentares, baixo teor de gorduras e alta concentração de carboidratos. “Entre os principais micronutrientes estão as vitaminas C, E, do complexo B (como B1, B2 e B3) e ácido fólico, que desempenham um papel importante na melhora do sistema imunológico e na proteção das células contra danos oxidativos”, descreve. A fruta também é uma excelente fonte de fibras, o que ajuda a melhorar o funcionamento do intestino e o controle de peso. Além disso, é rica em minerais como ferro, potássio, selênio, cálcio, zinco, magnésio e fósforo que, juntos, contribuem para o fortalecimento dos ossos, melhoram a circulação sanguínea e promovem o equilíbrio eletrolítico.
Por ser extremamente rica em compostos bioativos, especialmente polifenóis, antocianinas (responsáveis pela coloração roxa intensa), flavonoides, ácidos fenólicos e fibras alimentares, a jabuticaba é considerada um alimento funcional. “Essas propriedades conferem à fruta potenciais efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, hipoglicemiantes e moduladores da saúde cardiovascular”, destaca a engenheira agrônoma Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres, professora associada do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Especialmente as antocianinas e outros polifenóis bioativos têm uma poderosa ação antioxidante, capaz de neutralizar os radicais livres no organismo e, assim, proteger as células de danos oxidativos. Sendo assim, estão associados à prevenção de diversas enfermidades crônicas não transmissíveis a exemplo de câncer, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas e distúrbios metabólicos.
Segundo a professora Mariana Sarto Figueiredo, todas as estruturas da fruta possuem compostos bioativos e propriedades promotoras de saúde. A polpa contém ferro, fósforo, vitamina C e niacina, uma vitamina do complexo B. No entanto, a casca da jabuticaba – geralmente descartada por causa do sabor adstringente – é particularmente mais rica em fibras e em compostos fenólicos. “Estes compostos interferem no metabolismo da glicose e estimulam a liberação de insulina na célula pancreática”, descreve. As sementes, muitas vezes desprezadas, também apresentam propriedades interessantes. Alguns achados na literatura relatam que essa estrutura da fruta pode contribuir para o controle da obesidade, além de apresentar potencial anti-inflamatório.
Moderação
Embora o consumo in natura seja o mais comum, a jabuticaba também pode ser usada na produção de sucos, geleias, licores, vinhos e molhos para pratos doces e salgados. Ademais, pode ser utilizada na forma de farinha para deixar pães, biscoitos e vitaminas muito mais coloridos e saborosos. “Embora não exista uma recomendação oficial padronizada, é possível sugerir o consumo de uma porção de 100g a 150g de jabuticabas frescas por dia, sempre que disponível, como parte de uma alimentação equilibrada e variada”, orienta a professora Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres. Entretanto, no caso de suplementos e produtos processados (como farinha ou extrato da casca), as dosagens precisam seguir recomendações específicas baseadas nos estudos científicos e nas orientações de um nutricionista ou profissional da saúde.
Potencial da casca no tratamento de doenças
Pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Nutrição e Metabolismo (Lanum) da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp) atestam os benefícios do consumo da casca da jabuticaba no controle e tratamento de determinadas doenças. Substâncias como as antocianinas presentes especificamente nessa parte da fruta atuam, por exemplo, nos níveis de inflamação e de glicose no sangue de indivíduos com síndrome metabólica e obesidade. Além disso, ajudam na prevenção e modulação do declínio cognitivo leve – quadro que antecede o processo de demência – e na modulação da saúde intestinal. Os cientistas consideram sua ação surpreendente até mesmo para monitorar os índices glicêmicos entre indivíduos saudáveis.
Os estudos são liderados pelo professor doutor Mário Roberto Maróstica Junior, docente do Departamento de Ciência dos Alimentos e Nutrição da Unicamp. O experimento revelou que o consumo diário de pelo menos 15 gramas da casca da fruta pela manhã, ao longo de cinco semanas, melhorou os níveis de inflamação e de glicose no sangue de indivíduos com síndrome metabólica e obesidade. Dos 49 participantes, uma parte recebeu um suplemento diário de casca de jabuticaba, enquanto os demais ingeriram placebo. Além de exames de sangue para monitorar a glicemia, todos passaram por avaliação das medidas antropométricas, pressão arterial e parâmetros inflamatórios – como a interleucina-6 (IL-6), considerada um marcador de inflamação relacionada à obesidade.
O estudo apresentou resultados positivos em relação à diminuição da glicemia pós-prandial (monitorada ao longo de duas horas após a ingestão) e aos níveis de inflamação no grupo que recebeu o suplemento. “Isso ocorre porque os compostos fenólicos e as fibras presentes na casca da jabuticaba têm o poder de modular a atividade antioxidante e anti-inflamatória, e podem estar relacionadas com a ação e liberação de insulina. Portanto, exercendo efeito no perfil glicêmico”, explica o professor. Os achados apontam, ainda, que mesmo em indivíduos saudáveis a glicemia costuma aumentar após as refeições, voltando depois aos níveis normais. Desta forma, ao abaixar a glicemia após uma refeição o suplemento possibilita que o indivíduo mantenha os níveis controlados ao longo do tempo, contribuindo para uma vida mais saudável. O artigo ‘Jaboticaba peel improves postprandial glucose and inflammation: A randomized controlled trial in adults with metabolic syndrome’ foi publicado no periódico Nutrition Research em 2024.
Anterior
Em um estudo anterior, os pesquisadores observaram in vivo que o extrato da casca da jabuticaba foi capaz de prevenir o pré-diabetes e a esteatose hepática. “A ingestão do extrato por camundongos envelhecidos submetidos a dieta com alto teor de gordura (cinco vezes mais lipídios do que uma dieta normal) levou à diminuição no ganho de peso, na dislipidemia e hiperglicemia”, descreve o professor. Além disso, aumentaram os níveis de HDL-colesterol e a atividade de receptores relacionados à insulina, promovendo uma melhora na morfologia do fígado. O experimento foi realizado com amostras em processo de envelhecimento (diretamente associado à redução da capacidade metabólica e a alterações do metabolismo hepático, glicídico e lipídico) para avaliar o limite da dose de extrato da casca de jabuticaba que pode ser consumida para promover os efeitos benéficos. O artigo ‘Jaboticaba extract prevents prediabetes and liver steatosis in high-fat fed aging mice’ foi publicado em 2018 no Journal of Functional Foods.
Novas frentes investigam declínio cognitivo e saúde intestinal
Trabalhos mais recentes têm investigado os efeitos do consumo da casca de jabuticaba com relação à obesidade e ao declínio cognitivo leve, especialmente pela resistência à insulina central, que leva à diminuição da atividade e da modulação de algumas enzimas relacionadas à ação cognitiva. Entre elas, as proteínas Beta amiloide e TAU fosforilada são marcadores relacionados à doença de Alzheimer. O professor Mário Roberto Maróstica Junior explica que o objetivo do experimento foi avaliar a memória e os marcadores centrais relacionados à memória. Para isso, foram realizados testes in vivo com animais com obesidade induzida divididos em quatro grupos: magro, grupo com jabuticaba, grupo obeso e obeso com jabuticaba. Todos os marcadores relacionados à glicose, insulina e inflamação se repetiram, como em estudos anteriores.
“Observamos que os animais obesos tinham uma clara melhora nos marcadores bioquímicos relacionados à memória, quando comparados aos magros. Entretanto, os animais obesos que receberam o extrato da jabuticaba apresentaram uma reversão da perda de memória e dos marcadores relacionados à cognição. Com isso, passaram a experienciar o comportamento observado no padrão saudável (no caso, mais magro), evidenciando o potencial terapêutico da fruta para a modulação do declínio cognitivo”, detalha. Atualmente, o grupo tem estudado tais efeitos em humanos com grandes possibilidades de sucesso.
Além disso, evidências apontam que o efeito das substâncias da casca da jabuticaba também ajuda na modulação da microbiota intestinal. “Em um primeiro momento, realizamos um estudo in vivo com animais obesos e verificamos a modulação positiva principalmente da Akkermansia muciniphila, uma bactéria benéfica relacionada ao metabolismo da glicose”, comenta o professor. A partir desses resultados, o próximo passo foi testar a relação do extrato com a modulação da doença inflamatória intestinal.
Por meio de estudo in vivo com indução de colite, os achados evidenciaram uma melhora nos marcadores inflamatórios relacionados à doença. Na sequência, um novo estudo in vivo com indução química de câncer colorretal registrou uma diminuição do número de tumores e modulação de biomarcadores associados. De acordo com o professor, todos os achados evidenciam que o uso do extrato da casca da jabuticaba, independentemente do mecanismo, é um aliado importante para a melhora da saúde intestinal. •