Cirrose pode levar à falência total do fígado

Doença se caracteriza pela substituição progressiva do tecido hepático saudável por tecido cicatricial

Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável

Silenciosa, a cirrose é uma doença crônica e progressiva que acomete o fígado, órgão vital para o funcionamento do corpo humano. A enfermidade é um grave problema de saúde pública global e a causa de milhares de mortes anuais, gerando grandes custos para o sistema de saúde em todo o mundo. No Brasil, de 2019 a 2022 foram registrados 47.444 óbitos por cirrose hepática, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponível no DATASUS. A maior prevalência de mortes ocorreu entre homens (71,01%) e em indivíduos com idades entre 55 e 74 anos. Caracterizada pela substituição progressiva do tecido hepático saudável por tecido cicatricial (fibrose) não funcional decorrente de um processo inflamatório ou dano persistente, a condição impede o fígado de funcionar adequadamente levando a uma série de complicações graves. Entre os exemplos estão acúmulo de líquido na cavidade abdominal (ascite), hemorragia no trato digestivo, hipertensão portal e câncer, que podem evoluir para a falência total do órgão.

Considerado o laboratório central do corpo humano, o fígado é um órgão vital e responsável por uma série de funções. Ao atuar em conjunto com outros órgãos para a manutenção de funções fisiológicas, auxilia na digestão das gorduras pela produção de bile, armazena vitaminas e minerais essenciais, extrai e armazena glicose gerando energia. Além disso, o fígado realiza o metabolismo de toxinas, medicamentos e substâncias absorvidas pelo intestino; regula a coagulação sanguínea e participa dos mecanismos de defesa do organismo. A gastroenterologista e hepatologista Geisa Perez Medina Gomide, coordenadora do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), explica que todas as funções do fígado são realizadas por hepatócitos, que são células organizadas em lóbulos hexagonais. Quando o órgão é danificado por qualquer motivo, alguns hepatócitos morrem. Mas, devido à sua capacidade de regeneração, aqueles que restam se multiplicam e restauram a arquitetura dos lóbulos”, detalha.

Entretanto, quando o fígado é afetado continuamente por um fator agressivo que o leva ao limite, seu poder de regeneração pode ser comprometido. Neste caso, a área danificada passa a ser preenchida por tecido cicatricial (fibroso) e pela formação de nódulos, o que desorganiza a arquitetura original do órgão. Assim, a proliferação do tecido fibroso leva à perda do tecido funcional do fígado, que não pode ser recuperada. Além de interferir na função hepática, essa fibrose pode bloquear o fluxo sanguíneo da veia porta – que transporta sangue do intestino para o fígado –, resultando em hipertensão portal nas veias do estômago, esôfago, baço ou reto. “À medida que a fibrose progride e os nódulos aumentam, o órgão se retrai e fica mais rígido, o que se traduz pelo quadro de cirrose”, descreve a médica. Portanto, por ser o estágio final de muitas condições crônicas do fígado, a cirrose é um processo lento e silencioso resultante de uma doença que se desenvolve ao longo de muitos anos.

Apesar de ser popularmente associada ao alto consumo de álcool, a doença atualmente tem como principais causas as hepatites virais e a esteatose hepática (gordura no fígado) em decorrência do crescente aumento do sobrepeso e da obesidade. O médico gastroenterologista e hepatologista Alberto Farias, professor titular do Departamento de Gastroenterologia e Hepatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) acrescenta que, nos últimos anos, tem crescido o número de pessoas acometidas por cirrose secundária à esteatose hepática, que está relacionada principalmente à obesidade. Esses quadros são impulsionados pelo estilo de vida sedentário e por padrões de alimentação inadequados constituídos pelo alto consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em gordura, açúcar e aditivos químicos”, acentua. Além disso, doenças da tireoide e síndrome metabólica podem contribuir para a esteatose hepática e, consequentemente, para o desenvolvimento da cirrose.

Sinais

Os sintomas da cirrose dependem, em grande parte, da fase em que a doença se encontra. Os estágios iniciais – fase compensada – geralmente são assintomáticos. Mas, conforme a doença progride, surgem sinais como perda de peso, fraqueza ou anorexia. Na maioria dos casos, os sintomas se manifestam tardiamente, quando a fase já está descompensada e a cirrose já está em estágio muito avançado e com quadro irreversível”, observa o médico gastroenterologista Hugo Cheinquer, do Serviço de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na fase descompensada, o paciente pode apresentar icterícia na esclera, na pele e nas mucosas; inchaço abdominal provocado pela retenção de líquidos (ascite); edemas em pernas, tornozelos e pés; prurido e eritema palmar. Também ocorrem perda de função cerebral (encefalopatia hepática), que surge quando o fígado perde a capacidade de remover as toxinas do sangue; insuficiência renal (síndrome hepatorrenal); hemorragia digestiva alta varicosa e carcinoma hepatocelular em estágios mais avançados, entre outros.

Silenciosa e potencialmente irreversível

O diagnóstico da cirrose é realizado através da história clínica do paciente e exames laboratoriais, a exemplo das sorologias e anticorpos de hepatites, para identificar qual doença subjacente atua como causa. Além disso, análises de sangue são utilizadas para avaliar a função do fígado dosando, por exemplo, os produtos de metabolismo da bile (bilirrubina), fatores de coagulação, plaquetas e enzimas específicas. O médico Hugo Cheinquer afirma que exames de imagem como a ecografia, tomografia computadorizada abdominal e elastografia hepática permitem avaliar o grau de fibrose. Já a biópsia possibilita identificar a extensão dos danos no órgão. Nos últimos anos, foram desenvolvidos métodos não invasivos para a avaliação da fibrose hepática, a exemplo dos biomarcadores séricos. Dentre eles estão o índice FIB-4 (Fibrosis-4), um escore feito a partir de um cálculo simples que contempla idade do paciente, valores TGO/TGP (transaminases) e plaquetas. Realizados na rotina laboratorial, esses exames facilitam a avaliação frequente do paciente e, por isso, são recomendados como avaliação de primeira linha”, informa.

Devido ao diagnóstico tardio, a grande maioria dos casos de cirrose é irreversível. Dessa forma, o tratamento consiste em evitar a progressão da doença. Entretanto, as causas iniciais que levaram à cirrose devem receber tratamento de acordo com suas especificidades, o que inclui medicamentos para hepatites virais crônicas ou doenças crônicas metabólicas, por exemplo. No entanto, as complicações mais urgentes como a encefalopatia hepática ou a hemorragia digestiva devem ser tratadas de forma prioritária”, orienta a médica Geisa Perez Medina Gomide. Pacientes com cirrose avançada geralmente são candidatos a transplante de fígado, com critérios de elegibilidade que incluem estágio da doença e causa da falência hepática. Quando não rastreada, acompanhada e tratada adequadamente, outra complicação severa da cirrose é o desenvolvimento de tumores no fígado que favorecem a manifestação do câncer hepático.

A prevenção se baseia na eliminação dos fatores causadores e um deles é a redução (ou suspensão) do consumo de bebidas alcoólicas, especialmente para quem já apresenta predisposição a doenças hepáticas. Além disso, manter o controle do peso, do diabetes e do colesterol, e adotar um estilo de vida mais saudável que inclua alimentação equilibrada e atividades físicas regulares, é fundamental. Em relação às hepatites virais, deve ser feita a testagem através de exames laboratoriais específicos – realizados nas consultas de rotina – e a imunização contra a hepatite B, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, a adoção de medidas preventivas como uso de preservativo nas relações sexuais e o não compartilhamento de seringas e objetos de uso pessoal, como alicates e lâminas de barbear, são importantes. A proteção contra as hepatites e o controle do peso são as melhores maneiras de evitar que o fígado sofra danos progressivos”, sinaliza o gastroenterologista Hugo Cheinquer.

Ancestralidade genética

Recentemente, uma pesquisa coordenada pela FMUSP constatou que a carga genética de ancestralidade indígena está associada ao maior risco de desenvolver cirrose grave e insuficiência hepática. O estudo Prevalência, Epidemiologia, Caracterização e Mecanismos da Síndrome de Falência Aguda sobre Crônica do Fígado (ACLARA)’  – promovido e patrocinado pela Fundação Europeia para Estudo do Fígado (EF-CLIF) –, reuniu pesquisadores de 44 hospitais em sete países latino-americanos. O levantamento sugere que a ancestralidade genética pode estar relacionada a uma resposta inflamatória mais intensa no fígado. Entretanto, investigações futuras são necessárias para identificar os genes envolvidos neste processo.

Ao comparar informações genéticas de pessoas com ascendência nativo-americana (DNA de origem indígena) com grupos de ascendência europeia e africana, o estudo de coorte prospectivo analisou um conjunto abrangente de dados de 1.274 pacientes com cirrose agudamente descompensada, internados de forma não eletiva. Investigamos o peso da ancestralidade e da raça nos pacientes com diagnóstico de cirrose grave, condição caracterizada por inflamação, falência de órgãos e alto risco de mortalidade em curto prazo”, descreve o professor Alberto Farias, que é coautor do estudo e coordenador da Rede Internacional de Pesquisa em Cirrose ACLARA. De acordo com os resultados, a cada 10% de ancestralidade nativo-americana aumenta em 8% o risco de forma grave de cirrose. Dessa forma, mesmo sem desconfiar, qualquer pessoa que tenha ancestralidade genética indígena se enquadraria neste perfil.

O professor comenta, ainda, que a pesquisa não se limitou a analisar as características raciais, pois um indivíduo pode ter traços físicos de uma raça e parte da carga genética de outra. Essa condição é muito comum em países com processos de formação, a exemplo dos latino-americanos, onde ocorreu a miscigenação dos povos”, relata. Além dos achados neste estudo, a possibilidade de identificar pessoas com maior risco de desenvolver formas graves de cirrose poderá ser levada em consideração para futuros programas de Medicina de Precisão, preconizando a singularidade de cada paciente. Isso possibilitará um planejamento individualizado, diagnósticos precoces, tratamentos mais eficazes e, consequentemente, desfechos mais positivos. O artigo Genetic ancestry, race, and severity of acutely decompensated cirrhosis in Latin America’ foi publicado na revista científica Gastroenterology em 2022. •