O poder farejador dos cães
O olfato apurado pode ser utilizado para detectar precocemente problemas de saúde como diabetes, câncer de mama, covid e convulsões da epilepsia
Fernanda Ortiz
Especial para Super Saudável
Mais do que melhores amigos do homem, os cães são famosos por terem um olfato extraordinário graças à sua genética e fisiologia. A literatura indica que os cachorros possuem uma capacidade olfativa que excede em até 40 vezes a observada nos humanos. Isso porque possuem 300 milhões de receptores olfativos – que se diferem conforme a raça – contra 5 milhões do ser humano, o que os torna capazes de sentir odores imperceptíveis para as pessoas. Devido a essa habilidade, cães treinados podem ser usados para trabalhos de resgate, identificação de drogas e artefatos explosivos ou para localizar pessoas e identificar doenças.
Estudos têm mostrado que os cães possuem a capacidade de alertar quando vai ocorrer, por exemplo, uma crise de hipoglicemia ou convulsão, e podem identificar diabetes, câncer de mama e o vírus da Covid-19 por meio de substâncias produzidas pelo sistema imunológico. Isso ocorre devido ao recesso olfativo, uma estrutura anatômica localizada atrás dos olhos que ocupa metade da parte interna do focinho. Essa espécie de labirinto de vias aéreas ajuda a transportar rapidamente as moléculas de odor por uma única via, possibilitando que os cães captem odores específicos.
O Projeto KDog Brasil tem treinado cães para detectar precocemente câncer de mama através desses odores específicos emitidos pelo corpo humano. Fruto da parceria com o Instituto Curie, um Centro de Pesquisa e Tratamento de Câncer localizado na França, a pesquisa é liderada pela Sociedade Franco Brasileira de Oncologia (SFBO) e pelo cinotécnico Leandro Lopes, coordenador técnico do KDog Brasil. Os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de um método de triagem simples, confiável, respeitoso com os animais, não invasivo e acessível para as mulheres que se enquadram no rastreamento da neoplasia. Mais do que acelerar o diagnóstico, o objetivo desta plataforma científica é ampliar o alcance ao cuidado, especialmente para comunidades localizadas em regiões afastadas e que não têm acesso a métodos de rastreio diagnóstico.
O adestramento dos cães incluiu, no primeiro momento, lições de obediência como aprender a procurar algo e sinalizar ao encontrar. Na fase seguinte, foi realizado o pareamento olfativo para diferenciar o odor produzido pelas células de câncer das amostras controle – através de recompensas positivas. O projeto treinou seis cães cujas raças têm como característica o focinho comprido e o número de receptores olfativos em torno de 250 milhões, que ampliam a capacidade de detecção dos odores próprios da doença, imperceptíveis para o olfato humano. “Destes, um pastor alemão e um braco alemão estão inseridos na plataforma científica”, explica o coordenador da KDog. Para o treinamento de pareamento dos odores foram utilizadas amostras com seleção de materiais com e sem a presença de câncer, preparadas por um patologista. Os cães obtiveram quase 100% de acerto nos resultados preliminares, indicando o potencial da metodologia.
Finalizado esse processo, a próxima etapa é o protocolo efetivo com pacientes atendidas na SFBO e com voluntárias saudáveis. Nesta fase, as participantes receberão um kit com gazes esterilizadas com algodão específico, um saco hermético e uma folha com as instruções de manejo. “Basicamente, as mulheres serão orientadas a lavar as mãos com sabonete neutro antes de dormir, colocar as compressas sobre as duas mamas e retirar ao acordar. Pela manhã, as compressas deverão ser inseridas no saco hermético e enviadas para o projeto, onde serão submetidas ao olfato dos animais”, descreve o cinotécnico Leandro Lopes. A expectativa dos pesquisadores é que os resultados obtidos nesta etapa corroborem os dados iniciais do estudo, assim como os achados das pesquisas realizadas pelo Instituto Curie (onde o Projeto KDog começou), que constataram 91% de efetividade na detecção do câncer de mama.
Para a médica oncologista Carla Ismael, presidente da SFBO e responsável pela implantação do projeto no Brasil, a ideia é que o farejamento canino sirva como triagem para a mamografia digital – sem substituir o exame. “Nosso anseio é que as pessoas com indicação para fazer o exame de imagem passem por essa pré-análise feita pelos cães. Caso os animais indiquem a possível presença da neoplasia, essa paciente teria prioridade na fila e, portanto, acesso antecipado aos serviços de saúde específicos”, detalha. Pela efetividade do trabalho com os cães e pelo baixo custo, a médica acredita que o projeto possua um grande potencial para, futuramente, ser implantado no Sistema Único de Saúde (SUS) por ser menos oneroso do que mandar kits de detecção para regiões remotas como, por exemplo, comunidades ribeirinhas ou quilombolas, ou mesmo deslocar um mamógrafo até esses locais.
Ensinados para identificação de SARS-Cov-2
Durante a pandemia da Covid-19, equipes de pesquisa trabalharam para determinar se os cães poderiam ser treinados para identificar pessoas recém-infectadas pelo vírus. Com trabalhos em países como Alemanha, Estados Unidos e Finlândia indicando a vocação dos cães para essa finalidade, pesquisadores da Escola Nacional Veterinária de Alfort, na França, e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) comprovaram que os cães são capazes de distinguir o odor de um indivíduo infectado. Esse odor é constituído por compostos voláteis que evaporam com o suor, diferentemente do exalado por uma pessoa saudável. “Os cães foram inicialmente treinados com a utilização de polímeros especiais embebidos por catabólitos de pessoas infectadas, além de amostras com teste negativo para Covid-19. Na prática, os animais foram ensinados a reconhecer, através do cheiro do suor, a presença do vírus”, explica o professor doutor Anísio Francisco Soares, coordenador do Laboratório de Fisiologia e Cirurgia Experimental e do Biotério de Criação e Experimentação do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal (DMFA) da UFRPE, que liderou os trabalhos no Brasil.
A pesquisa envolveu treinamento dos cães, coleta de materiais e identificação das amostras. Os cães foram adestrados pelo cinotécnico Jorge Pereira, da Unidade K9 Internacional, em Campo Limpo Paulista, São Paulo. Enquanto isso, as amostras foram coletadas com ajuda de agentes de saúde em Paudalho, Pernambuco. Os voluntários com sintomas de síndrome respiratória foram orientados a não estar em tratamento, não tomar banho ou usar perfume 48 horas antes da coleta, a fim de evitar interferências no odor. As amostras – cerca de 100 – foram coletadas por meio de bolinhas de algodão esfregadas nas axilas por cerca de 20 minutos. Com duas amostras por paciente, uma era conduzida para a UFRPE para o teste RT-PCR (padrão-ouro para detecção do RNA do vírus) e a outra diretamente enviada ao canil.
No processo de identificação, os cães passavam na frente de dispositivos compostos de pequenos orifícios com as amostras. Ao detectar o odor característico da doença, se sentavam ou latiam e aguardavam a ‘recompensa’. Os primeiros resultados mostraram acertos entre 95% e 97,5%, e se repetiram na fase seguinte, quando os cães foram levados ao ambiente hospitalar. “Durante o processo, um fato chamou atenção: um paciente estava negativo no RT-PCR, mas o faro habilidoso do cão sentiu que existiam vestígios do vírus. Ou seja, mesmo que o paciente já tivesse desenvolvido anticorpos, ainda assim o cachorro foi capaz de identificar os compostos orgânicos pelo suor”, relata o professor Anísio Francisco Soares. O fato corrobora a capacidade dos cães farejadores neste processo.
OUTRAS COMPROVAÇÕES
No estudo ‘Exhaled breath isoprene rises during hypoglycemia in type 1 diabetes’, cientistas do Reino Unido demonstraram que os cães conseguem identificar níveis baixos de glicose em indivíduos diabéticos. Segundo os autores, isso é possível porque farejam isopreno, um subproduto da produção de colesterol que cresce consideravelmente durante a hipoglicemia. Ao sentir o odor, o cão treinado pode avisar o paciente e ajudar na prevenção de tontura, desmaios e até coma. Um trabalho desenvolvido na França investigou se existe ‘odor de convulsão’ na epilepsia e se os cães poderiam identificá-lo. Além de provar que realmente ocorrem odores específicos antes das convulsões, todos os cães usados no experimento discriminaram esse odor. O artigo ‘Dogs demonstrate the existence of an epileptic seizure odour in humans’ foi publicado na revista Scientific Reports em 2019. •