O segredo de quem vive mais de 100 anos

Fatores genéticos, comportamentais E ambientais podem contribuir para  um envelhecimento longínquo com vitalidade, disposição e resiliência

Ter um envelhecimento saudável e chegar aos 100 anos de idade com lucidez, vitalidade, resiliência e disposição é o desejo de boa parte da humanidade. Por isso, desvendar o segredo para alcançar esse feito tem sido um grande desafio para pesquisadores em todo o mundo. Apesar de os centenários representarem uma pequena parcela da população mundial (0,01%), o crescimento significativo de longevos registrado nas últimas décadas e as crescentes projeções têm levado a avanços significativos na compreensão das particularidades que envolvem esses indivíduos. De acordo com evidências científicas, uma vida longínqua com saúde pode ser atribuída a agentes multifatoriais que envolvem hábitos de vida e causas genéticas, imunológicas e ambientais. Além disso, questões comportamentais associadas à espiritualidade, assim como ter um propósito de vida, manter boas relações sociais e continuar em constante aprendizado contribuem de forma importante para construir uma vida mais longa com bem-estar e saúde.

De acordo com a Divisão de População da Organização das Nações Unidas (ONU), nas últimas décadas o número de pessoas com 100 anos ou mais apresentou um salto importante: de 15 mil em 1950 para 587 mil em 2024. Já a projeção para 2050 é de 3,8 milhões de centenários no mundo. O Brasil, segundo dados do Censo Demográfico de 2022, acompanha esse cenário com um crescimento de 67% em uma década: o País saiu de 22,7 mil, em 2010, para 37,8 mil brasileiros acima dos 100 anos em 2022. Entretanto, esses números podem sofrer alterações (para mais ou menos) pois, na época em que esses indivíduos nasceram, o acesso à certidão de nascimento era muito limitado e quem frequentemente declara a idade desses idosos são os familiares que, nem sempre, sabem informá-la com precisão.

Uma série de condições influenciam um envelhecimento com saúde e vitalidade. Embora a genética tenha uma parcela importante, o tempo de vida é afetado principalmente por fatores ambientais e modificáveis como estilo de vida, promoção da saúde, controle do estresse, atividade física regular, qualidade do sono e hábitos comportamentais. “Ainda que vivam em localidades geograficamente dispersas e com questões culturais distintas, indivíduos centenários costumam compartilhar características e hábitos de vida em comum”, comenta o médico geriatra Luiz Roberto Ramos, docente da Escola Paulista de Medicina (EPM) e diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Apesar de a alimentação ser um dos pilares fundamentais para viver mais e melhor, indivíduos mais longevos não contam calorias, não tomam vitaminas ou suplementos, não costumam ter restrições alimentares e se relacionam com a comida de forma simples e descomplicada. “Normalmente, a dieta é balanceada e composta por grãos, frutas, verduras e vegetais frescos. Esses alimentos ricos em antioxidantes e fibras são fundamentais para a prevenção de doenças crônicas. Os ovos também costumam integrar o cardápio, pois são fontes de proteínas de alta qualidade e nutrientes essenciais. E enquanto o consumo de carnes costuma ser reduzido para evitar o risco de doenças cardiovasculares, o de peixes – especialmente os ricos em ômega-3, como salmão e sardinha – podem ser consumidos regularmente, mas com moderação”, descreve o geriatra. Além disso, indivíduos mais idosos mantêm uma rotina com horários regulares para refeições, se alimentam com tranquilidade e param de comer antes de estarem 100% saciados, o que ajuda a evitar exageros e problemas de saúde relacionados com a má digestão.

Outro fator que influencia o envelhecimento saudável é manter-se ativo. “Ainda que pessoas centenárias não corram uma maratona, a prática regular de atividade física de baixa intensidade, seja através de uma caminhada, nos cuidados com a casa ou em uma brincadeira com os familiares, trazem benefícios para o tônus muscular, a mobilidade e o bem-estar”, avalia o geriatra Luiz Roberto Ramos. Além disso, é fundamental manter a mente ativa e produtiva, o que é possível através de uma série de atividades. Dentre os exemplos estão a leitura; a exploração de novas áreas de conhecimento e aprendizado como escrever, pintar, costurar; ou pela curiosidade em conhecer novos lugares. Ademais, promover atitudes de compromisso e responsabilidade, assim como desafiar a mente na tentativa de resolver problemas, também ajudam o idoso a manter-se ativo, disposto e participativo. O lazer, a higiene e a regularidade do sono, inclusive com uma soneca durante o dia, é outro fator que ajuda para promover a saúde física e mental.

Espiritualidade

Evidências crescentes na literatura apontam que a espiritualidade também pode estar relacionada a uma vida mais longa e saudável, independentemente da fé. “Essa espiritualidade pode estar relacionada  ao culto a Deus, a uma divindade ou à natureza, mas o fato é que indivíduos que praticam alguma forma de espiritualidade ou religiosidade tendem a ter mais humildade, serenidade, compreensão, resiliência, otimismo, propósito e um melhor bem-estar emocional, o que favorece a promoção de um envelhecimento saudável e feliz”, avalia o médico geriatra Emilio Hideyuki Moriguchi, professor doutor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor-visitante da Faculdade de Medicina da Yokohama City University, da Keio University e da Chiba University, no Japão. A fé é, ainda, instrumento de promoção à saúde e de apoio para enfrentar doenças, fragilidades físicas e emocionais, mágoas, problemas acumulados ao longo da vida e, inclusive, a perda de pessoas queridas. 

Amizades podem ser fundamentais para uma vida mais longeva

Outro fator apontado como fundamental para a longevidade saudável são os relacionamentos interpessoais, as amizades e o senso de pertencimento a um grupo, uma família ou uma comunidade. O professor Emilio Hideyuki Moriguchi – que também é o coordenador geral do Projeto Veranópolis, Estudos em Envelhecimento, Longevidade e Qualidade de Vida, desenvolvido desde a década de 1990 na pequena cidade do interior gaúcho – afirma que as interações sociais são de grande valor para a longevidade, pois essas pessoas sabem que podem contar umas com as outras em qualquer situação, seja na alegria ou nas dificuldades. “Além disso, essas conexões sociais oferecem apoio emocional, melhoram o pensamento crítico e o bem-estar, aumentam a autoestima e fortalecem o sentimento de valor e de propósito”, acrescenta o geriatra Luiz Roberto Ramos. Para os especialistas, pertencer a um grupo combate o isolamento e a solidão, proporciona oportunidades para compartilhar experiências, estimular as funções cognitivas, expressar sentimentos, estabelecer novas amizades e fortalecer as já existentes, ajudando a criar uma rede de apoio social inestimável.

Propósito de vida

Com raízes profundas na cultura de Okinawa, no Japão – uma das áreas de longevidade até os dias atuais –, a expressão japonesa ‘Ikigai’ reflete a filosofia de encontrar propósitos e significados na vida. Para o geriatra Emilio Hideyuki Moriguchi, ter um propósito de vida é, sem dúvida, um combustível diário para um envelhecimento longínquo e saudável. Por isso, estabelecer objetivos, definir estratégias, investir em autocuidado ou simplesmente ter um motivo para acordar todas as manhãs são fatores que ajudam no envelhecimento com qualidade. “Seja com um novo aprendizado, um trabalho voluntário, em atividades que estimulem a saúde física e mental, na dedicação à família ou na conexão com a comunidade, é preciso fazer o que se ama, buscando excelência em propósitos que garantam pertencimento e levem a uma existência longa e feliz”, acentua. 

Os estudos realizados com as populações centenárias corroboram a afirmação da importância de associar longevidade a uma razão para viver, uma vez que várias pesquisas já demonstraram cientificamente que essa atitude diante da vida ajuda a manter esses indivíduos saudáveis por mais tempo. Entretanto, encontrar um propósito de vida nem sempre é um processo simples para todos. Enquanto muitos indivíduos sabem o que desejam da vida desde a infância, outros descobrem no decorrer dos anos e há aqueles que passam toda a vida sem um propósito definido. Entretanto, o professor da UFRGS lembra que nunca é tarde para definir um propósito de vida. “Se for preciso, resgate sonhos de criança como, por exemplo, aprender a dançar, desenhar, pintar, nadar. O fundamental é iniciar a jornada, se autoconectar e seguir com obstinação. Afinal, sentir-se bem com a vida é um aspecto fundamental para envelhecer com saúde e chegar aos 100 anos com lucidez e disposição”, argumenta.

Genética influencia a longevidade excepcional

Ainda que o fator ambiental exerça 80% de influência no processo de envelhecimento saudável, com o passar dos anos a genética ganha papel cada vez mais relevante. Para entender se há padrões comuns nos genomas de centenários, pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-tronco (CEGH-CEL) do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) têm estudado centenários saudáveis e supercentenários (acima de 110 anos) em busca de genes que determinam a longevidade excepcional. “Nosso objetivo é identificar quais são esses genes protetores e como regulam o organismo desses idosos levando ao envelhecimento sem doenças, com vitalidade, disposição e resiliência, além de conservar, mesmo com limitações, a capacidade física e cognitiva”, explica a médica geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Laboratório de Doenças Neuromusculares e do CEGH-CEL.

Pioneira por sua diversidade, a pesquisa tem investigado o genoma de indivíduos centenários de diferentes etnias, ancestralidades genéticas e regiões brasileiras. Além de entrevistar os superidosos e suas famílias para conhecer trajetória, quadro de saúde e hábitos de vida, os cientistas recolhem amostras biológicas de sangue para realizar o sequenciamento do genoma e entender o papel que a genética pode desempenhar na longevidade. “A partir das coletas conseguimos fazer a derivação de diversos tipos de linhagens celulares, ou seja, reprogramamos as células do sangue (eritroblastos) em células-tronco embrionárias. Assim, conseguimos transformá-las em organoides celulares musculoesqueléticos, pulmonares, ósseos, cerebrais e cardíacos, entre outros, objetivando estudar suas especificidades”, descreve a geneticista. Os estudos que investigam a resiliência imunológica, física, cognitiva e os superlongevos também têm explorado a complexidade da interação de múltiplos genes, proteínas e vias metabólicas para entender como afetam o envelhecimento e de que modo esses processos podem ser manipulados para melhorar a saúde.

Durante a pandemia de Covid-19, os pesquisadores começaram a estudar pessoas com mais de 90 anos não vacinadas que apresentaram uma infecção silenciosa provocada pelo vírus SARS-CoV-2 ou se recuperaram de forma leve ou moderada. Dos centenários na amostra, três tinham idade superior a 110 anos. De acordo com o pesquisador Mateus Vidigal de Castro, pós-doutorando em Genética do CEGH-CEL, a análise da resposta imune humoral identificou níveis resistentes de imunoglobulina G (IgG) e anticorpos neutralizantes contra o vírus – apesar da idade avançada. “Além disso, foi observado enriquecimento de proteínas plasmáticas e metabólitos relacionados à resposta imune inata e defesa do hospedeiro, sugerindo que a resiliência ao vírus pode ser uma combinação da herança genética e da imunidade adaptativa”, detalha. Outro achado foi a descoberta de que a variante genética no gene MUC22, responsável pela produção de muco, era duas vezes mais frequente em superidosos resistentes ao vírus. 

A geneticista Mayana Zatz comenta que alguns estudos internacionais já identificaram outros fatores de proteção, entre eles a presença de variantes em dois genes que atuam em mecanismos de reparo de DNA – mais frequentes em pessoas acima de 105 anos. “Sabemos que, com o envelhecimento, os mecanismos de reparo tornam-se menos eficientes, o que pode levar à senescência, apoptose (morte celular) ou carcinogênese. Entretanto, nos idosos saudáveis esses mecanismos de reparo continuam em perfeito funcionamento. O nosso desafio, portanto, é descobrir de que forma atuam os genes relacionados a esse processo”, observa. Em outra linha de estudo, os pesquisadores do grupo têm investigado como as modificações epigenéticas influenciam a longevidade e como podem ser transmitidas para as próximas gerações. 

“Ao identificar quais são as variantes genéticas que influenciam o envelhecimento saudável e os mecanismos de proteção que produzem será possível revelar e compartilhar os segredos da longevidade para todos aqueles que não tiveram a sorte de nascer com os genes premiados”, destaca o pesquisador Mateus Vidigal de Castro. Atualmente, o estudo tem a participação de aproximadamente 85  centenários saudáveis e lúcidos que compartilham dados ricos e amostras de DNA, mas também histórias de vida, resiliência, superação e vitalidade. 

Seguimento

O pesquisador comenta que ainda há muito a ser descoberto. Por isso, a busca por centenários saudáveis continua aberta, pois, quanto maior e mais diversa for a amostra, mais robustos serão os resultados. De acordo com a professora Mayana Zatz, os centenários que foram identificados até o momento estão espalhados pelo Brasil. Além disso, o grupo está priorizando centenários que não tiveram acesso à medicina moderna, porque neles a longevidade realmente depende de variantes genéticas de resiliência. As pessoas interessadas em participar da pesquisa (idosos com 100 anos ou mais) podem enviar um relato para o e-mail dnalongevo@usp.br. 

Fatores imunológicos e diversidade da microbiota intestinal

A imunossenescência é um processo de deterioração gradual do sistema imunológico que acompanha o envelhecimento natural do organismo, marcado por mudanças significativas no sistema imune que resultam na perda da capacidade do corpo em responder a infecções, assim como à deterioração da memória imunológica. Esse processo também é marcado por um estado de inflamação crônica de baixa intensidade – chamado de inflammaging – que está associado à maior fragilidade e ao risco de morbidade. Entretanto, idosos saudáveis e centenários parecem estar protegidos desses processos. 

Para entender quais fatores imunológicos estão envolvidos nessa compensação que possibilita a longevidade saudável, o Grupo de Estudos de Imunobiologia do Envelhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem investigado idosos acima de 80 anos, centenários e supercentenários residentes na região metropolitana de Belo Horizonte. O grupo é coordenado pela médica e pesquisadora em Imunobiologia Ana Maria Caetano Faria, docente do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Instituição. 

De acordo com o doutorando Lucas Haniel de Araújo Ventura, um dos pontos mais importantes envolvidos no envelhecimento é o inflammaging. “Descrito como um estado sistêmico que sinaliza uma inflamação subclínica crônica caracterizada por níveis aumentados de citocinas pró-inflamatórias, quando o inflammaging não está controlado pode levar a um maior risco de fragilidade, doenças e morbidade nos idosos, prejudicando a autonomia e a qualidade de vida”, descreve. Mesmo com a presença crônica de mediadores inflamatórios, alguns indivíduos – especialmente centenários e supercentenários – parecem apresentar uma característica de anti-inflammaging, sugerindo que várias funções imunológicas podem ser remodeladas e compensadas na mesma intensidade por outros fatores reguladores. 

Nesse sentido, é fundamental investigar como funciona a combinação e o equilíbrio de biomarcadores clínicos e imunológicos (como citocinas e quimiocinas no plasma). A meta é estabelecer medidas preventivas que reduzam a fragilidade nas suas fases iniciais, preservando as funções físicas e cognitivas e promovendo, consequentemente, um envelhecimento mais ativo e autônomo. Para isso, a pesquisa tem atuado na busca ativa dos centenários e na coleta de dados e de amostras biológicas. Atualmente, o grupo conta com a participação de 11 centenários – três homens e oito mulheres, todos residentes na região metropolitana de Belo Horizonte. “Além disso, vamos explorar os idosos longevos de outras localidades do Estado de Minas Gerais que, pela sua localização geográfica, é abundante em diversidade, ancestralidade e etnias, o que torna a pesquisa ainda mais rica e interessante”, comenta o pesquisador Lucas Haniel de Araújo Ventura.  

Microbiota diversificada

A ciência já sabe que a diversidade de espécies do microbioma intestinal diminui com o passar do tempo, atingindo seu nível mais baixo entre os 65 e 85 anos de idade. No entanto, estudos recentes realizados em populações longevas com características mais homogêneas (como hábitos alimentares e de vida similares), apontam que esse microscópico ecossistema volta a aumentar nos nonagenários e centenários, apresentando um perfil específico. “Ao que tudo indica, apesar de menos diversificada em termos de espécies bacterianas associadas a atividades benéficas e anti-inflamatórias, a microbiota dos centenários apresenta um aumento na abundância de outras bactérias, que são benéficas e servem de proteção contra as alterações microbianas”, observa a professora Ana Maria Caetano Faria. Assim, entender a notável capacidade desses indivíduos de resistir, se adaptar e enfrentar os desafios biológicos e não biológicos que surgem com a idade é considerado fundamental. 

Um achado interessante é que, mesmo que a composição da microbiota dos idosos e centenários saudáveis se modifique, a atividade metabólica das bactérias intestinais se mantém preservada. Atualmente, inúmeros estudos já revelaram que as bactérias que danificam fibras alimentares e produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) têm a função de estimular a produção de metabólitos anti-inflamatórios na mucosa intestinal, modulando vias importantes relacionadas ao equilíbrio do organismo. “O interessante é que, apesar de as bactérias presentes na microbiota dos centenários serem diferentes das encontradas em indivíduos menos idosos, ambas realizam as mesmas funções”, acentua a professora. Para entender as características específicas do microbioma dos centenários mineiros, os pesquisadores da UFMG estão em processo inicial de coleta de amostras para análises futuras. 

Estudo mapeia centenários de Santa Catarina

Com o objetivo de mapear o segmento populacional e entender o estilo de vida da população mais longeva de Santa Catarina, desde 2010 o Laboratório de Gerontologia (LAGER) do Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) desenvolve o Projeto SC100 – Estudo Multidimensional dos Centenários de Santa Catarina. A pesquisa pioneira e de cunho epidemiológico tem uma metodologia para entrevistas e avaliação física in loco para obter o máximo de informações que expliquem quais fatores levam algumas pessoas a terem uma maior expectativa de vida.

A educadora física Giovana Zarpellon Mazo, professora titular do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano do CEFID/UDESC e coordenadora do Projeto SC100, afirma que as pesquisas com idosos longevos são desafiadoras pois, devido às limitações cognitivas, funcionais e físicas, pode ser difícil envolvê-los no processo de coleta de dados. “Assim, para mapear com mais riqueza de detalhes desenvolvemos instrumentos específicos para facilitar esse processo, como os Protocolos de Avaliação Multidimensional do Idoso Centenário (PAMIC) e de Avaliação Multidimensional do Cuidador do Idoso Centenário (AMCIC)”, relata. Além disso, o grupo desenvolveu os manuais do entrevistador e do cuidador para orientar os pesquisadores na coleta, aplicação e análise dos dados.

Dos 123 centenários catarinenses pesquisados, 74% são do sexo feminino e 86,2% são viúvos. Dependentes de cuidadores, 84,6% deles residem com a família, enquanto 15,4% vivem em Instituições de Longa Permanência (ILPI) há 7,6 anos, em média. “Cerca de 70% dos centenários dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para cuidados devido à multimorbidade e ao uso contínuo de medicamentos”, observa a pesquisadora. Entre as condições clínicas relatadas estão comprometimento cognitivo, dificuldades auditivas, doenças circulatórias, oftalmológicas e do sistema urinário. Apesar de a saúde ser frágil em decorrência da baixa atividade física e da redução da velocidade de marcha, a maioria dos centenários relata ter uma qualidade de vida positiva, especialmente no ambiente em que vivem. 

Em um estudo qualitativo sobre o lazer nas diferentes fases da vida, os pesquisadores identificaram uma variedade de atividades. Na infância, as categorias observadas incluíram escolarização, brincadeiras, viagens, atividades culturais e manuais. Na adolescência, as principais atividades foram trabalho, bailes, namoro, laçar gado e atividades culturais. Na fase adulta, destacaram-se trabalho, viagens, passeios e atividades manuais. Durante a velhice, as atividades principais passaram a ser viagens, trabalho e assistir à televisão, enquanto na fase atual os centenários também destacam as práticas religiosas e os passeios. “Embora as atividades sociais tenham permanecido presentes em boa parte de suas vidas, os resultados mostram que as atividades de lazer foram reduzidas ao longo do tempo”, descreve a pesquisadora Giovana Zarpellon Mazo.

Os centenários avaliados também apresentam pouca participação em grupos sociais, com atividades cotidianas restritas ao ambiente domiciliar envolvendo cuidados e contato com familiares, além de lazer passivo. A pesquisadora comenta que, entre aqueles com cognição preservada e ativos fisicamente, as atividades de lazer incluem visitas a familiares, jardinagem, dança, ida à igreja e até cavalgadas, indicando envolvimento em atividades externas e relações sociais mais amplas. Por outro lado, os centenários insuficientemente ativos realizam atividades mais passivas, como assistir à televisão, ouvir rádio e música, ler e jogar baralho – geralmente dentro do ambiente residencial.

Políticas públicas 

De acordo com a professora Giovana Zarpellon Mazo, ao oferecer informações importantes sobre o perfil sociodemográfico, de saúde, hábitos de vida e aspectos cineantropométricos e físicos predominantes, o estudo evidencia a necessidade de políticas públicas voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças e incapacidades para este grupo da população. “Pensando no envelhecimento saudável é preciso melhorar o acesso aos serviços de saúde, especialmente com a ampliação das equipes para cuidados multidisciplinares e com maior cobertura de ILPI públicas que atendam os centenários em situação de fragilidade, vulnerabilidade e risco social”, avalia. A pesquisa propõe, ainda, a realização de estudos longitudinais e epidemiológicos com centenários em diferentes estados do Brasil, considerando as características regionais, ambientais e culturais.