Treino reverte a perda muscular
Estudo mostra que Volume de treinamento de força influencia o ganho de massa muscular em idosos não responsivos
A perda de força e massa muscular é um aspecto inerente ao processo de envelhecimento, que começa a partir dos 30 anos e progride ao longo da vida. Essa condição torna o indivíduo mais vulnerável a quedas, fraturas e outros tipos de traumas. Apesar de nem todos responderem da mesma forma, a capacidade funcional – inclusive em idosos – pode ser melhorada através de treinamentos de força como a musculação, considerados eficazes para promover ganhos de massa muscular (hipertrofia). Essa é a conclusão de um estudo realizado recentemente por pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), que demonstrou que o aumento no volume de treinamento pode mitigar a falta de resposta entre idosos, melhorando a hipertrofia dos membros inferiores.
O estudo, que fez parte da tese de doutorado do profissional de Educação Física Manoel Lixandrão na EEFE-USP, contou com a participação de 85 voluntários com idade superior a 60 anos, de ambos os sexos, com índice médio de massa corporal (IMC) de 26,4 kg/m2. Os participantes, que não estavam envolvidos em treinamentos por pelo menos seis meses antes do início da pesquisa, eram clinicamente saudáveis, com pressão arterial controlada, sem histórico de diabetes tipo I, lesões ou doenças musculoesqueléticas. Antes e após o período de intervenção, todos foram submetidos a exames de ressonância magnética das áreas transversais bilaterais do músculo quadríceps femoral para avaliar as alterações nas medidas. Além disso, passaram por testes unilaterais de extensão dos joelhos para analisar os ganhos de força muscular.
Segundo o nutricionista e fisiologista clínico do exercício Hamilton Roschel, professor doutor associado da EEFE e diretor científico do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, os treinos propostos para a intervenção foram realizados em duas sessões semanais, por um período de 10 semanas. “Cada uma das pernas foi aleatoriamente determinada, de modo contrabalanceado, para um dos dois modelos de treinos. Enquanto uma das pernas realizou apenas uma série, a outra executou um volume maior de quatro séries de extensão de joelhos, com oito a 15 repetições máximas”, descreve. Ao longo dos treinos, as cargas foram ajustadas de acordo com o desempenho dos voluntários.
Os achados mostraram que a resposta de ganho de massa muscular foi modificada pela manipulação do volume de treino. “Após as 10 semanas de exercícios, a perna que foi submetida ao treino de quatro séries teve melhor resposta hipertrófica em comparação à outra que executou o primeiro treino de série única, o que sugere que ajustes na dose de exercício podem amenizar a não responsividade”, explica o professor Hamilton Roschel, que foi orientador do estudo. A análise de dados individual revelou que, do total de voluntários não responsivos, 80% responderam melhor ao aumento do volume de treino. Entre aqueles já responsivos à serie única de exercícios, 47% melhoraram ainda mais a massa muscular ao aumentar a capacidade de treino.
De acordo com o estudo, é possível especular que os outros 20% de idosos não responsivos sejam resistentes aos efeitos anabólicos do treinamento de força devido a uma incapacidade parcial de ativar as principais vias de sinalização para suportar o crescimento muscular. “Mesmo que os exercícios padronizados não resultem em respostas similares entre indivíduos, é preciso considerar que fatores extrínsecos, como estilo de vida, hábitos alimentares, qualidade do sono e níveis de estresse, e intrínsecos como questão hormonal e genética, representam papel importante no desempenho de ganho de massa muscular”, avalia o professor Hamilton Roschel.
Estratégia
Em conclusão, os dados sugerem que o volume de treinamento de força pode ser uma estratégia eficaz para melhorar o ganho de massa muscular entre adultos mais velhos não responsivos, diminuindo os declínios morfológicos e funcionais relacionados ao envelhecimento. “Entretanto, é importante ressaltar que o aumento e a intensidade de treinamento, independentemente da modalidade, devem ser realizados exclusivamente com orientação especializada para evitar lesões causadas pelo excesso de esforço”, acentua o professor Hamilton Roschel. O artigo ‘Resistance training volume and non responsiveness in older individual’ foi publicado em fevereiro de 2024 no Journal of Applied Physiology. •
Benefícios para hipertensos
A prática de exercícios aeróbicos proporciona inúmeros benefícios à saúde, pois tem a capacidade de aumentar a aptidão cardiorrespiratória, melhorar o condicionamento físico e a imunidade, controlar o peso e os níveis de glicose no sangue, além de fortalecer músculos e ossos. De acordo com outro estudo conduzido na EEFE-USP, os exercícios aeróbicos podem contribuir, inclusive, para a regulação da pressão arterial de idosos hipertensos, especialmente em treinos realizados no período noturno. A explicação está relacionada à melhor regulação da sensibilidade barorreflexa, um mecanismo que controla mudanças bruscas na pressão arterial em curto prazo, e diminuição da atividade nervosa simpática, um mecanismo que controla a resistência vascular.
A hipertensão é uma doença crônica e multifatorial que afeta cerca de um terço dos adultos em todo o mundo. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que a incidência chega a 27,9%. Embora a causa primária seja indefinida, essa disfunção é, entre outros mecanismos, ocasionada pela diminuição da sensibilidade barorreflexa que regula as mudanças de pressão, e por um aumento da atividade do sistema nervoso simpático que, no controle da pressão arterial, atua principalmente controlando a resistência vascular. De acordo com o pesquisador Leandro Campos de Brito, principal autor do estudo, um dos tratamentos não medicamentosos no controle da pressão arterial são os exercícios de característica aeróbica, como caminhar ou pedalar. “Ainda que os treinos matinais ofereçam benefícios, identificamos no estudo que apenas no período noturno houve um avanço no controle da pressão arterial de curto prazo, melhorando a sensibilidade barorreflexa com redução da atividade nervosa simpática”, observa.
A pesquisa teve participação de 23 pacientes de ambos os sexos, com idade superior a 60 anos, diagnosticados e medicados para hipertensão arterial por pelo menos quatro meses antes de iniciarem na pesquisa. Divididos nos grupos de treinamento matutino ou noturno, todos foram submetidos a exame clínico antes do início do experimento. “Por um período de 10 semanas, os idosos realizaram treinos na bicicleta ergométrica em intensidade moderada durante 45 minutos, três vezes na semana”, descreve o pesquisador, que atualmente é professor assistente de Pesquisa na Oregon Health and Science University, nos Estados Unidos. Durante os treinos foram avaliados parâmetros cardiovasculares como frequência cardíaca e pressão arterial sistólica e diastólica, para garantir a intensidade correta dos exercícios e a segurança dos voluntários.
Os dados para avaliar o efeito do treinamento foram coletados em dias separados, antes e após as 10 semanas de treinamento. Já a avaliação pós-treinamento ocorreu pelo menos três dias depois de os voluntários completarem a última sessão de treino. Além da pressão arterial de repouso, também foram analisados os mecanismos do sistema nervoso autonômico que controlam o funcionamento involuntário dos batimentos cardíacos e da pressão arterial. Ou seja, a atividade nervosa simpática muscular responsável por controlar o fluxo sanguíneo periférico por meio da contração ou relaxamento dos vasos no tecido muscular; e a sensibilidade barorreflexa cardíaca e simpática, descrita pela avaliação do controle da pressão arterial via alterações da frequência cardíaca e da atividade nervosa simpática muscular, respectivamente. “Ao examinar os dados, constatamos que os pacientes que realizaram o treinamento noturno exibiram melhora nos quatro quesitos analisados. Enquanto os idosos do grupo matutino não apresentaram índices reduzidos em nenhum dos pontos”, relata o pesquisador.
Controle cardiovascular
O treinamento aeróbico noturno foi mais eficiente em relação à melhora autonômica cardiovascular e à redução da pressão arterial, muito provavelmente por estar relacionado a uma resposta positiva da sensibilidade barorreflexa e da redução da atividade nervosa simpática muscular. O controle barroreflexo é um mecanismo atrelado a fibras sensíveis a deformações nas paredes das artérias localizadas no arco aórtico e no corpo carotídeo. O pesquisador explica que, se a pressão abaixa além do limiar de sensibilidade desse mecanismo, essa região manda uma informação para a área do cérebro que controla o sistema nervoso autonômico que, por sua vez, envia uma mensagem ao coração para bater mais rápido e às artérias para se contraírem com mais força. “Em contrapartida, quando a pressão aumenta, a mensagem é que o coração reduza o ritmo e que a contração das artérias seja menor, modulando a pressão arterial a cada batimento”, completa. O artigo ‘Evening but not morning aerobic training improves sympathetic activity and baroreflex sensitivity in elderly patients with treated hypertension’ foi publicado em fevereiro de 2024 no The Journal of Physiology. •