Ameaça ao coração dos bebês
Cardiopatias congênitas ocorrem durante a gestação e o diagnóstico precoce é essencial para o tratamento
Malformações na estrutura ou na função do coração
Todos os anos, cerca de 130 milhões de crianças no mundo nascem com algum tipo de cardiopatia congênita, classificada como um conjunto de malformações na estrutura ou na função do coração que surgem durante o desenvolvimento fetal. A incidência é de 8 a 10 por 1.000 nascidos vivos, portanto, apesar de rara, há muitas crianças com o problema. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a condição está entre as malformações que mais matam na infância, permanecendo como a terceira causa de óbito no período neonatal. As cardiopatias afetam cerca de 30 mil crianças por ano no Brasil, e perto de 40% vão necessitar de cirurgia no primeiro ano de vida. Além disso, das crianças nascidas com essa condição anualmente, aproximadamente 6% morrem antes de completar um ano. A forma grave da doença pode ser responsável por 30% dos óbitos no período neonatal.
Essa malformação no coração pode ter característica genética, poligênica e multifatorial e ocorre entre a 4ª e 8ª semanas gestacionais – quando acontece a formação do coração do feto. De acordo com a médica cardiologista pediátrica do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Isabela de Carlos Back, integrante da Comissão Científica do Departamento de Cardiologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), quando o pai e a mãe possuem uma cardiopatia congênita há mais chances de o problema ocorrer na criança. “Além disso, o uso de medicação sem prescrição médica, infecções causadas por rubéola, toxoplasmose, sífilis, herpes, aids e citomegalovírus, contato com radiação e deficiência nutricional durante a gravidez podem prejudicar a correta formação do coração do feto”, alerta.
As cardiopatias congênitas são classificadas em cianóticas, quando o bebê apresenta coloração azul-arroxeada de pele, leitos ungueais ou mucosas, e acianóticas. As acianóticas se caracterizam por cansaço, dificuldade de ganho de peso e infecções respiratórias frequentes, mas as crianças não ficam roxas. A comunicação interventricular é a mais comum e favorece as infecções pulmonares e o cansaço, além da comunicação interatrial, persistência do canal arterial e defeito do septo atrioventricular. Já as cardiopatias cianóticas têm como característica mais evidente a tonalidade azulada de lábios e pele, sinalizando que não há oxigênio suficiente no sangue. Dentre este grupo estão a transposição das grandes artérias, hipoplasia do coração esquerdo e tetralogia de Fallot. O tratamento depende do tipo, mas, se tratadas no momento certo e da melhor forma – por meio de cirurgia ou cateterismo –, as crianças podem ter uma condição de vida próxima ao normal”, pontua a cardiologista Ieda Biscegli Jatene, líder médica da Cardiologia Pediátrica do Hospital do Coração (HCor), em São Paulo.
Os sintomas e sinais variam conforme a gravidade e podem surgir como franca insuficiência cardiorrespiratória, cianose ou mesmo choque logo após o nascimento. No lactente, frequentemente ocorre taquidispneia, arritmias, síncope, hipertensão arterial, cansaço às mamadas, falência no desenvolvimento pondero-estatural (para acompanhamento do crescimento) e alterações de pulsos. “Em crianças maiores e adolescentes, o exame físico minucioso com ausculta cardíaca e investigação de sintomas sugestivos ajuda no diagnóstico de casos mais leves que não foram diagnosticados previamente”, afirma a médica Isabela de Carlos Back.
Diagnóstico precoce
As cardiopatias congênitas também podem ocorrer no estágio final da gestação, e a gravidade vai depender do momento em que aparecem: quanto mais cedo, mais grave. Além disso, quanto mais tarde for feito o diagnóstico, menor será a chance de a criança sobreviver e maior o risco para ter complicações. “Como o diagnóstico deve ser realizado durante a gravidez, o pré-natal é essencial. Por meio do ecocardiograma fetal o médico consegue saber o tipo de cardiopatia antes do nascimento e se há necessidade de a criança nascer em um local especial”, reforça a médica Ieda Biscegli Jatene.
As cardiopatias mais complexas, como a transposição das grandes artérias e a hipoplasia do coração esquerdo, devem ser operadas nos primeiros dias de vida. As acianóticas não são operadas após o nascimento e é preciso esperar por volta de quatro a seis meses para regularizar o sistema de pressão dentro do pulmão do recém-nascido e entender qual é a repercussão do defeito. Outra opção é o cateterismo realizado no coração do bebê ainda no ventre da mãe até 26 semanas de gestação. O procedimento visa dilatar a válvula aórtica para evitar a hipoplasia do coração esquerdo.
Atividades físicas com orientação médica são recomendadas
Paciente pode fazer atividades físicas
Pacientes com cardiopatias e familiares de crianças com o problema costumam ter receio de praticar exercícios físicos devido à possibilidade de sobrecarregar o sistema cardiovascular. No entanto, embora existam limitações conforme a cardiopatia, o paciente pode fazer atividades físicas com orientação do médico e supervisão de um profissional de Educação Física. Ao passar pela consulta médica, o profissional que acompanha a criança ou um cardiologista fará a avaliação para saber qual atividade, intensidade e tipo de cardiopatia, além de solicitar exames como teste ergométrico, ecocardiograma e raio-X do tórax. No caso dos esportes de alto rendimento como ciclismo, corrida de rua e futebol, é necessária avaliação médica mais rígida. Já os esportes com excesso de contato físico brusco tendem a ser contraindicados em alguns casos.
De acordo com a professora doutora Daniela Agostinho, coordenadora geral do Departamento de Educação Física da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) e colaboradora em projetos de pesquisa na área de cardiopatia congênita no Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a vida normal para esses pacientes é possível porque, na maioria das vezes, passaram pelos procedimentos de correção das malformações congênitas do coração ainda bebês. “Quando não apresentam lesões residuais ou necessidade de novos reparos cirúrgicos estão liberados para praticamente todos os esportes recreativos, como andar de bicicleta, frequentar o parquinho e outras brincadeiras comuns da infância”, exemplifica.
Pesquisas mais recentes reforçam, sobretudo, a importância de essas crianças crescerem fisicamente ativas para não se tornarem adultos sedentários e com todas as complicações que o sedentarismo acarreta, a exemplo de obesidade, hipertensão e dislipidemia. “Há muitos pacientes jovens, de 20 anos a 40 anos, desenvolvendo síndrome metabólica com glicemia, colesterol e pressão arterial acima do indicado, assim como circunferência de abdômen no limite, pois, na infância, não podiam fazer nada. As estratégias de promoção de saúde devem ser adotadas e voltadas a esse grupo”, acentua a professora Daniela Agostinho. Assim, a prática de atividades físicas e de exercícios planejados, aliada à alimentação saudável e balanceada e ao controle de doenças psíquicas como ansiedade e depressão, é fundamental para uma vida mais saudável.
Avaliação médica criteriosa
Cinco critérios devem ser considerados durante a avaliação médica de um indivíduo com cardiopatia congênita que deseja praticar atividade física: função do coração, saturação de oxigênio em repouso e no esforço, arritmia, dilatação da aorta e pressão da artéria pulmonar. Outra variante a ser analisada são os dispositivos implantáveis, como o marcapasso, e o uso de anticoagulantes. Os profissionais devem seguir as diretrizes do 2020 ESC Guidelines on Sports cardiology and exercise in patients with cardiovascular disease, desenvolvido pela European Society of Cardiology, que traz recomendações de exercícios e critérios de elegibilidade para participação esportiva de atletas competitivos com doença cardiovascular. •