Novos marcadores para o TEA

O ­­­­­transtorno do espectro ­autista (TEA) se caracteriza pela alteração das funções do neurodesenvolvimento que interfere na capacidade de comunicação, linguagem verbal e não verbal, interação social e comportamento. Dentro do espectro são identificados graus que podem ser leves e com total independência – apresentando discretas dificuldades de adaptação – até níveis mais severos e de total dependência para atividades cotidianas por toda a vida. Essencialmente clínico, o diagnóstico é feito a partir da identificação de traços do espectro autista observados na criança, entrevistas com os pais e aplicação de métodos de monitoramento do desenvolvimento infantil durante as consultas de avaliação.

Alguns estudos relatam associação do TEA com alterações no metabolismo de proteínas e aminoácidos, levando pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, a desenvolverem uma pesquisa para identificar o perfil de proteínas e aminoácidos na urina de crianças com o transtorno para observar possíveis alterações que possam contribuir para o diagnóstico. Embora o TEA não tenha cura, o diagnóstico precoce permite o desenvolvimento de práticas para estimular a independência e a promoção de qualidade de vida e acessibilidade para essas crianças. De acordo com o pesquisador Ivo Lebrun, coordenador do estudo realizado pelo Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Butantan, por meio dos biomarcadores presentes na urina é possível caracterizar melhor uma patologia ou disfunção, assim como verificar os estados fisiológicos de cada indivíduo.

Estes marcadores fisiológicos estão presentes nos exames de rotina que avaliam a população e vários podem ser dosados, como a glicose na urina e até mesmo os marcadores proteicos. A vantagem, segundo o pesquisador, é que esse tipo de monitoramento pode ser contínuo, é mais limpo do que trabalhar com fezes e menos invasivo que o sangue, cuja coleta causa estresse nas crianças – principalmente naquelas que têm o transtorno. “Além disso, a urina é um material de fácil coleta, feita em domicílio, gerando conforto para as crianças e os responsáveis”, acentua. Para o estudo, a primeira urina do dia foi coletada e armazenada em coletor estéril. As amostras foram transportadas com gelo seco até o laboratório do Instituto Butantan e colocadas em temperatura de -80°C.

Análises – Os pesquisadores analisaram amostras de urina de crianças ­diagnosticadas com TEA com idades entre 3 e 10 anos, e de crianças neurotípicas como grupo controle. Os participantes foram selecio­nados no Centro de Especialização Municipal do Autista, em Limeira, e na Associação de Pais e Amigos do Autista da Baixa Mogiana, em Mogi Guaçu, ambas no Estado de São Paulo. “Quando falamos de TEA há uma gama de indivíduos, desde aqueles com autonomia e vida social até os que não interagem com ninguém. Por isso, procuramos optar pelos casos médios a graves do ponto de vista médico para o estudo”, pontua o pesquisador.

Os testes apontaram alterações nas quantidades dos aminoácidos arginina, glicina, leucina, treonina, ácido aspártico, alanina, histidina e tirosina na urina das crianças com TEA, quando comparadas com o grupo controle. A concentração de proteínas na urina do grupo neurotípico foi significativamente maior do que aquela observada em crianças com o transtorno. Além disso, as concentrações dos aminoácidos ácido aspártico, alanina, histidina e tirosina foram menores nas amostras de urina de crianças com TEA em comparação às amostras de urina de crianças neurotípicas. “Embora ainda não existam respostas para essas diferenças, há uma hipótese de que a disfunção no metabolismo de proteínas e aminoácidos pode atuar de várias maneiras na fisiopatologia do TEA”, sinaliza o pesquisador.

Uma delas pode ocorrer durante o período fetal e pós-natal, quando os receptores de neurotransmissores estão em desenvolvimento funcional, tornando o cérebro seletivamente imaturo e vulnerável à superestimulação. De acordo com o pesquisador Ivo Lebrun, a desregulação metabólica também pode contribuir para a exacerbação do núcleo de sintomas do transtorno e suas comorbidades, como problemas gastrointestinais. “Assim, chegamos à conclusão de que a concentração de proteínas totais e o perfil de aminoácidos na urina são bons candidatos como biomarcadores para indivíduos com TEA, facilitando o diagnóstico”, acentua. O pesquisador lembra que os resultados ainda não são definitivos para um possível teste diagnóstico, uma vez que o número de crianças foi pequeno – embora os resultados obtidos sejam considerados promissores. O artigo ‘Searching for biomarkers candidates of autism spectrum disorder with metabolic disorders evidence for a possible role of proteins and amino acids content in urine’ foi publicado em 2023 no Biomarkers Journal. •