Saúde gastrointestinal e qualidade de vida

Evitar fatores de risco e estar atento a sintomas de repetição podem reduzir as chances de desenvolver ou agravar as doenças digestivas

Fernanda Ortiz

Embora a função primária do trato gastrointestinal humano seja atuar no processamento dos alimentos e garantir a absorção dos nutrientes fundamentais para a manutenção do organismo, esse complexo sistema que começa na cavidade bucal e termina no ânus também exerce um importante papel para o desenvolvimento do sistema imunológico, para a produção de energia, para a biossíntese de vitaminas e para a proteção contra patógenos por meio da barreira intestinal. O pleno funcionamento do sistema digestivo exige a adoção de hábitos de vida mais saudáveis, evitando fatores de risco como má alimentação, falta de atividade física, estresse, automedicação e consumo de álcool, entre outros. O descompasso nessas funções pode se apresentar através de sintomas em diferentes graus de intensidade e frequência, que vão de um simples desconforto até enfermidades que merecem mais atenção e tratamento imediato, a exemplo das doenças funcionais, inflamatórias, imunológicas e neoplásicas.

A partir da cavidade oral o sistema gastrointestinal segue pela faringe, área de transição para um longo tubo musculoso com aproximadamente nove metros que é subdividido em esôfago, estômago, intestino delgado (duodeno, jejuno e íleo), intestino grosso (cólon ascendente, cólon transverso, cólon descendente e cólon sigmoide), reto e ânus. “Esse conjunto de estruturas tem suas ações otimizadas por órgãos e glândulas acessórias, como dentes, língua, glândulas salivares, fígado, vesícula biliar e pâncreas, que participam direta ou indiretamente da digestão, absorção dos nutrientes e decomposição química dos resíduos alimentares”, explica o médico gastroenterologista Tomas Navarro Rodriguez, docente de Pós-graduação na área de Gastroenterologia Clínica e chefe do Grupo de Esôfago e Motilidade Digestiva do Serviço de Gastroenterologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). A digestão passa por dois processos: o mecânico, que envolve as etapas de mastigação e deglutição; e o químico, que ocorre com auxílio de enzimas produzidas pelo pâncreas e fígado, e do suco gástrico presente no estômago.

A instabilidade desse complexo sistema pode ocorrer por causa genética, fatores ambientais, desregulação da microbiota intestinal, por um sistema imune comprometido e, inclusive, pelo uso prolongado de medicamentos – especialmente os anti-inflamatórios sem prescrição médica de dosagem ou tempo de uso. Como resposta, o sistema digestivo manifesta sintomas que podem se apresentar em graus de intensidade e frequência de acordo com cada indivíduo e área afetada. “Os sintomas mais descritos na literatura médica são a constipação intestinal, diarreia (em casos mais preocupantes, com sangramento nas fezes), cólicas abdominais, perda de peso sem razão aparente, refluxo, náuseas, vômitos, inchaço e queimação estomacal, entre outros. Quando passam a ser recorrentes e oferecem danos à qualidade de vida, exigem atenção de um especialista”, destaca o gastroenterologista Tomas Navarro Rodriguez. Além de avaliação clínica para identificar a origem dos sintomas, o médico poderá solicitar exames laboratoriais e de imagem para um diagnóstico mais assertivo e tratamento adequado.

Muito prevalentes em todo o mundo e principal causa de consultas ambulatoriais de Gastroenterologia e Clínica Geral, as doenças funcionais do aparelho digestivo formam um grupo de condições que se caracteriza por sintomas relacionados ao comprometimento de qualquer segmento do trato gastrointestinal, superior e inferior, sem que haja evidências clínicas, laboratoriais ou de imagem que identifiquem uma doença orgânica. Embora sua real fisiopatologia ainda seja pouco conhecida, especialistas defendem que uma combinação de fatores psicossociais (estresse e ansiedade) e fisiológicos (motilidade alterada, hipersensibilidade visceral e desregulação da comunicação do eixo cérebro-intestino) sejam responsáveis pelo aparecimento da sintomatologia digestiva. Dentre essas manifestações, as mais comuns são a dispepsia funcional, a síndrome do intestino irritável e a constipação intestinal que, apesar de serem benignas e não evoluírem para formas mais graves, são condições crônicas que demandam cuidado especializado.

As doenças funcionais digestivas foram definidas e classificadas a partir de critérios clínicos específicos (obrigatórios e associados) conceituados como Consenso de Roma – com última revisão em 2016 (Roma IV) –, de acordo com as regiões anatômicas e separadas em seis grupos: esofágico, gastroduodenal, intestinal, dor abdominal funcional, biliar e anorretal. Segundo a gastroenterologista Maria do Carmo Friche Passos, médica do Instituto Alfa de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), esses critérios permitem identificar a doença funcional de acordo com a área da queixa. “O diagnóstico é de inclusão, confirmado quando todos os critérios obrigatórios e pelo menos dois critérios associados estão presentes. Além disso, a abordagem inicial, a história clínica e o exame físico, junto com os exames laboratoriais de hemograma, urina, fezes e, ocasionalmente, glicemia e dosagem do hormônio estimulante da tireoide (TSH), são importantes para validar a identificação ou exclusão de causa orgânica para os sintomas apresentados”, descreve.

Prevenção aliada a hábitos saudáveis

O tratamento é individualizado, a depender da intensidade dos sintomas, da região acometida, do grau de comprometimento funcional e de fatores psicossociais envolvidos. “Além de uma alimentação equilibrada, reduzindo ou suspendendo o consumo de alimentos gordurosos e industrializados, e aumentando a ingestão de fibras e líquidos, é preciso identificar se o paciente tem intolerâncias específicas, como ao glúten ou à lactose e, em caso positivo, adotar uma dieta de exclusão. A utilização de medicamentos será indicada exclusivamente nas fases sintomáticas, com duração a depender da resposta individual”, orienta a médica Maria do Carmo Friche Passos.

Apesar do fator benigno, tais condições podem alterar a qualidade de vida, afetar a saúde emocional e ser a causa de absenteísmo no trabalho e na vida social. Por isso, além da boa relação médico-paciente, o apoio psicológico pode ajudar o indivíduo a lidar com questões emocionais e a se sentir melhor, tanto física como mentalmente. A gastroenterologista lembra que tudo que atrapalha o equilíbrio interfere a dinâmica do trato gastrointestinal.

Portanto, a adoção de hábitos de vida saudáveis é fundamental para prevenir ou reduzir o risco do desenvolvimento de doenças digestivas. “Criar uma rotina de alimentação equilibrada e rica em fibras, sem pular refeições; evitar excesso de sal, de açúcar, de alimentos gordurosos e ultraprocessados, assim como o consumo de álcool e o tabagismo; manter-se hidratado com água potável; fazer atividade física; higienizar as mãos e os alimentos antes do preparo das refeições; ter sono de qualidade; evitar situações de estresse e controlar a ansiedade são essenciais para a boa saúde do sistema digestivo”, enumera a gastroenterologista. Além disso, se o indivíduo tiver histórico de sintomas deve manter a periodicidade de consultas médicas com um especialista.

Dispepsia funcional está entre as mais prevalentes

Caracterizada por sintomas persistentes ou recorrentes que afetam a região superior e central do abdômen (epigástrio), a dispepsia funcional é um dos problemas mais prevalentes nos consultórios. As queixas mais comuns incluem dor ou queimação epigástrica, má digestão, saciedade precoce e eructação (excesso de gases no estômago). Segundo os critérios do consenso de Roma IV, a dispepsia funcional engloba a síndrome da dor epigástrica, que geralmente apresenta dor ou queimação epigástrica moderada a intensa intermitente – no mínimo uma vez por semana nos últimos três meses – e a síndrome do desconforto pós-prandial, cujos sintomas predominantes incluem empachamento pós-prandial e/ou saciedade precoce, no mínimo uma vez por semana, por três meses consecutivos.

“Embora a presença da sintomatologia possa estar relacionada a uma doença gastroduodenal específica, a maior parte dos pacientes com queixas dispépticas crônicas submetidos a investigações laboratoriais, endoscópicas e ultrassonográficas não apresenta qualquer alteração orgânica que justifique os sintomas”, acentua o gastroenterologista Jorge Mugayar Filho, responsável pelo Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital Universitário Antônio Pedro e professor coordenador do curso de especialização lato sensu em Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro. O tratamento farmacológico é mais eficaz quando dirigido ao sintoma predominante, por isso, anamnese e diagnóstico adequados são indicados. A gastroenterologista Maria do Carmo Friche Passos comenta que, em pacientes jovens e sem sinais de alerta como emagrecimento, vômitos recorrentes, disfagia progressiva, presença de sangramento e icterícia, por exemplo, testes não invasivos para pesquisa de infecção por H. pylori podem ser realizados e, quando positivos, demandam tratamento de erradicação da bactéria com uso de antibióticos.

Também prevalente, a síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio na motilidade intestinal que se caracteriza por episódios de desconforto abdominal, dor, diarreia ou constipação por pelo menos 12 semanas (consecutivas ou não). As causas podem incluir motilidade anormal do intestino durante o jejum; contrações anormais após a ingestão de alimentos gordurosos ou em resposta ao estresse; ansiedade ou depressão; hipersensibilidade dos receptores da parede intestinal à distensão gasosa, conteúdo fecal ou infecções; e desregulação de neurotransmissores como, por exemplo, a serotonina em nível intestinal. “Com alta prevalência e caráter crônico, os sintomas associados à síndrome, apesar de não causarem danos permanentes, exercem considerável impacto sobre a qualidade de vida dos pacientes, refletindo em suas relações pessoais, sociais e laborais, e ocasionando alterações psicológicas, do sono e da atividade sexual”, enfatiza o gastroenterologista Jorge Mugayar Filho.

O diagnóstico é baseado em sintomas, padrão das fezes, frequência evacuatória e ausência de sinais relevantes verificados no exame físico e, se preciso, por meio de análises de sangue, exame de fezes ou na visualização direta do intestino por colonoscopia – inclusive para exclusão de doenças orgânicas do intestino. “O tratamento visa administrar os sintomas através de mudanças na dieta, identificando alimentos que ativem os episódios, e no estilo de vida, além do uso de medicamentos em fases mais intensas e que provoquem muito desconforto. Pode ser necessário incorporar suplementos de fibras e formulações específicas para lidar com sintomas como diarreia e gases, assim como antidepressivos como forma de gerenciar a ansiedade e a depressão como gatilhos da doença funcional”, destaca o médico Jorge Mugayar Filho. O indivíduo pode passar longos períodos sem manifestações clínicas, mas o problema tende a retornar, seja em decorrência de excessos alimentares ou de fatores emocionais.

Outras doenças funcionais intestinais são a constipação (mais comum em mulheres jovens e idosos) e a diarreia. A constipação é caracterizada por evacuações dificultosas ou incompletas, geralmente acompanhadas de sensação de desconforto e distensão abdominal. Na maioria dos casos é idiopática, causada por alimentação pobre em fibras, sedentarismo e baixa ingesta hídrica. “Entretanto, os sintomas podem ser secundários a distúrbios intestinais orgânicos, como lesões estruturais do intestino grosso e da região anorretal, uso de medicamentos, doenças metabólicas ou distúrbios neurológicos”, adverte a gastroenterologista Maria do Carmo Friche Passos. Já a diarreia funcional é definida pelo aumento do volume e número de evacuações e diminuição da consistência das fezes, persistentes por mais de três semanas. Como não existe lesão orgânica no intestino, a causa pode estar associada ao consumo de certos alimentos e medicamentos.

Outras manifestações

Além das disfunções mais comuns, a literatura científica descreve várias outras manifestações, como disfagia funcional (dificuldade de deglutição), dor torácica de origem esofagiana, pirose funcional (queimação ou desconforto retroesternal), síndrome da dor abdominal funcional, náuseas e vômitos crônicos, distúrbios da vesícula biliar e do esfíncter de Oddi, incontinência fecal funcional, dor anorretal e distúrbios funcionais de defecação, que também precisam ser investigadas por um especialista para chegar ao diagnóstico correto. O gastroenterologista Jorge Mugayar Filho comenta que alguns distúrbios funcionais são específicos da fase pediátrica. “Entre os neonatos e crianças até quatro anos de idade observa-se regurgitação do lactente, síndromes da ruminação infantil e dos vômitos cíclicos, cólica do lactente, diarreia, disquesia do lactente (evacuação desordenada) e constipação. Já nas crianças maiores e adolescentes podem ocorrer vômitos e aerofagia, que é a excessiva e inadequada deglutição de ar; e distúrbios funcionais relacionados à dor, constipação e incontinência fecal”, orienta.

O desconforto das doenças gastroesofágicas

Localizados na parte superior do trato gastrointestinal, o esôfago e o estômago são responsáveis pelo início da digestão química. Enquanto o primeiro realiza o transporte do bolo alimentar por meio de contrações da musculatura lisa, o estômago recebe os alimentos e, através da liberação do suco gástrico, quebra as proteínas em polipeptídeos menores (quimo) que, após um período, seguem para o intestino delgado. Se o funcionamento entre os dois órgãos não está adequado podem ocorrer manifestações clínicas crônicas que causam grande desconforto, como dor irradiada, queimação, regurgitação, dificuldade de deglutição e estufamento. Se forem negligenciados, esses sintomas podem evoluir para casos mais graves, comprometendo a saúde e a qualidade de vida. Entre as doenças esofágicas e estomacais, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é a mais prevalente, atingindo cerca de 20% da população adulta brasileira.

Crônica ou com sintomas por longa duração, a DRGE é a forma mais intensa do refluxo, em que ocorre retorno involuntário e repetitivo do conteúdo estomacal para o esôfago. “No processo digestivo regular, os alimentos mastigados passam pela faringe e pelo esôfago e caem no estômago. Entre os dois últimos, o esfíncter abre para dar passagem aos alimentos e se fecha imediatamente para impedir que o suco gástrico penetre na mucosa do esôfago. Quando esse sistema não funciona adequadamente, o esfíncter fica enfraquecido, permitindo que a comida e os sucos digestivos estomacais retornem ao esôfago atacando a mucosa que o reveste e causando sintomas que podem evoluir para um quadro inflamatório”, descreve o gastroenterologista Tomas Navarro Rodriguez, do HC-FMUSP. Pacientes que apresentam hérnia de hiato (deslocamento da parte superior do estômago para dentro do tórax) estão mais predispostos a ter a doença. Obesidade, tabagismo, uso de determinados medicamentos (anti-histamínicos, analgésicos e antidepressivos) e consumo excessivo de alimentos como chocolate, condimentados, café, bebidas gasosas ou alcoólicas representam fator de risco

A azia ou pirose, causada pelo retorno do conteúdo gástrico para o esôfago, é o sintoma clássico da DRGE, e é mais comum a sensação de retorno de conteúdo líquido ácido ou azedo. Em alguns casos pode haver regurgitação, caracterizada pelo retorno de alimentos mais sólidos ou mal digeridos. Essa sensação de queimação que vem do estômago e sobe pelo meio do peito em direção à garganta, quando persistente, pode acarretar complicações esofágicas como erosões, úlceras e até estreitamento (estenose) que dificulta a progressão dos alimentos (disfagia). “Sintomas extraesofágicos como rouquidão, laringite, queimação na garganta, tosse persistente e chiado no peito denotam que o conteúdo gástrico está atingindo a região acima do esôfago e o trato respiratório. Em casos mais raros, a exposição mais intensa e longa do esôfago ao ácido gástrico pode alterar o tipo de mucosa na junção com o estômago, denominado esôfago de Barrett, podendo evoluir ou não para o câncer”, adverte o gastroenterologista Renato Duffles Martins, médico assistente da disciplina de Gastroenterologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp).

Os sintomas clínicos são os principais indícios para a DRGE, mas é importante que o médico avalie a necessidade de realizar endoscopia digestiva alta para obter uma visão direta da mucosa esofágica, realizar biópsias e avaliar se existe ou não hérnia de hiato. Exames complementares como pHmetria ou manometria esofágica podem ser necessários em alguns casos. O tratamento clínico é o mais usado e se baseia na administração de fármacos que diminuem a produção de ácido pelo estômago. “Nos casos de hérnia de hiato maiores, esofagite grave ou outras condições em que o paciente não responda bem aos medicamentos, procedimentos cirúrgicos podem ser indicados para controlar o refluxo de longa duração”, comenta o gastroenterologista Renato Duffles Martins. Paralelamente, o tratamento inclui mudanças de hábitos de vida como perda de peso e a adoção de refeições de menor volume e com baixo teor de gordura. É importante também a identificação de possíveis alergias – como ao leite e glúten –, e evitar cafeína, álcool e nicotina. Para desfrutarem de uma noite de sono repousante, refeições noturnas menores e se deitar com intervalo de duas horas após a refeição são medidas que auxiliam bastante o tratamento.

Outras doenças relacionadas com a parte superior do trato gastrointestinal também merecem atenção, como pancreatite e cálculos biliares. Causada pelo consumo excessivo de álcool, a pancreatite na fase aguda forma pequenos cálculos que provocam dor muito forte no estômago, enquanto na fase crônica ocorre enrijecimento dos tecidos, com atrofia do órgão. Sem cura, o problema pode ser tratado com fármacos para controle dos sintomas. Já os cálculos na vesícula biliar ocorrem quando o fígado produz colesterol e/ou sais biliares em excesso, resultando na precipitação da bile e formando pequenos grânulos que evoluem para pedras. Além da dor insuportável, o problema pode causar náuseas e vômitos. “Os cálculos podem até ser eliminados naturalmente com a ajuda de medicamentos, porém, o mais indicado é a cirurgia”, orienta o médico Tomas Navarro Rodriguez.

  

Helicobacter pylori

Estima-se que a bactéria H. pylori, uma das principais causas de inflamação no estômago, esteja presente em 50% da população adulta no planeta, sendo mais frequente nas regiões de baixo índice socioeconômico. A contaminação ocorre principalmente na infância e pode se manifestar anos mais tarde ou até ser assintomática por toda a vida. A infecção acontece quando a bactéria se instala na mucosa superficial do estômago, pois consegue sobreviver a esse ambiente por ter mobilidade e produzir amônia para se proteger contra a acidez estomacal. A H. pylori participa como fator causal na maior parte das úlceras gástricas e duodenais e, após muitos anos, sua presença pode levar à atrofia da mucosa gástrica e predispor ao câncer de estômago (leia mais na página 14). Em geral, os sintomas incluem dor na região do estômago, azia, queimação e indigestão. Como podem ser confundidos com outras doenças, o médico deve fazer uma investigação criteriosa dos sintomas, e a endoscopia com biópsia é o meio mais utilizado para diagnóstico. “Quando o paciente não pode se submeter à endoscopia, exames como teste de antígeno fecal e teste respiratório podem ser usados, mas são situações pouco frequentes. O tratamento consiste no uso de antibiótico e protetores gástricos, como os inibidores da bomba de prótons, com objetivo de eliminar a bactéria, diminuir a acidez do estômago e melhorar o quadro de saúde”, destaca o gastroenterologista Renato Duffles Martins, da EPM-Unifesp.

DII apresentam incidência global elevada

Crônicas e recidivas, as doenças inflamatórias intestinais (DII) – doença de Crohn e retocolite ulcerativa – acometem cerca de 5 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, estima-se que a prevalência de mais de 200 mil habitantes atendidos no sistema público de saúde, com maior concentração nas regiões Sul e Sudeste. Imunomediadas e de etiologia multifatorial, essas enfermidades são de difícil diagnóstico, demandam tratamento individualizado e impactam negativamente a qualidade de vida, a depender do grau e local afetado. Até pouco tempo, as DII acometiam principalmente jovens em idade ativa. Nos últimos anos, houve uma explosão de casos em todas as faixas etárias, com aumento entre crianças e idosos.

As DII podem ser ocasionadas por fator genético, fator ambiental, excesso de radiação, deficiência no sistema imunológico, mudança no padrão alimentar com o consumo exagerado de alimentos industrializados, açúcar e álcool, que causam desequilíbrio na microbiota intestinal (leia mais em Microbiota & Probióticos), e pelo uso abusivo de antibióticos durante a infância. “Outros fatores como sedentarismo, tabagismo, estresse e transtornos depressivos podem ser gatilhos para o aumento dos sintomas”, pontua a médica gastroenterologista Marta Brenner Machado, presidente da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) e coordenadora do Ambulatório de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Com manifestações clínicas muito semelhantes, as DII se diferem de acordo com a área afetada. Na doença de Crohn, a inflamação é transmural e pode ocorrer em qualquer segmento do trato gastrointestinal – da boca ao ânus –, sendo mais comum no final do intestino delgado (íleo terminal), intestino grosso e perianal com formação de fístulas. Já na retocolite ulcerativa, apenas o intestino grosso é acometido, atingindo preferencialmente a mucosa que reveste o cólon e o reto. “Estima-se que entre 10% e 15% das pessoas com DII tenham colite não classificada, mesmo após exames clínicos e de imagem. Inúmeros estudos apontam que a qualidade de vida dos pacientes pode ficar muito prejudicada, podendo trazer complicações em médio e longo prazo como anemia, desnutrição e atraso de crescimento, assim como implicações psicossociais que incluem isolamento, depressão e ansiedade”, descreve o médico coloproctologista Cláudio Saddy Rodrigues Coy, professor titular de Coloproctologia e diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), em São Paulo.

Os sintomas mais importantes são a alteração do hábito intestinal com diarreia, presença de produtos patológicos nas fezes – como sangue e muco –, dor abdominal muito frequente, quadros de distensão abdominal, emagrecimento, náuseas e vômito. “De 20% a 40% dos pacientes também apresentam manifestações extraintestinais na pele, nos olhos, no fígado, nos rins, na coluna, nas articulações e nos ossos”, pontua a médica gastroenterologista Marta Brenner Machado, ao acrescentar que pacientes pediátricos com qualquer DII podem apresentar, ainda, problemas de crescimento e desenvolvimento.

Diagnóstico desafiador

Uma série de fatores precisa ser observada para a identificação assertiva das DII. O diagnóstico parte da anamnese e de exame físico cuidadoso para investigação dos sintomas, intensidade e período que se estendem, mudanças no hábito intestinal e febre. Alguns indicadores de inflamação, desnutrição e anemia são determinados por exames de sangue, mas a investigação também pode incluir análise hepática, marcadores inflamatórios (como a velocidade de hemossedimentação e a proteína C-reativa), e biomarcadores como a calprotectina fecal. Ileocolonoscopia e endoscopia do intestino delgado com estudo histopatológico também são fundamentais para o correto diagnóstico. “Exames radiológicos como tomografia, ressonância magnética, ecografia com doppler colorido e cápsula endoscópica fazem parte do arsenal utilizado no diagnóstico”, informa a médica Marta Brenner Machado.

O tratamento é individualizado de acordo com a manifestação, extensão dos sintomas e gravidade. A maioria dos pacientes é tratada com medicações que inibem a inflamação (nunca usar anti-inflamatórios comuns, que pioram as doenças), imunossupressores e, em alguns casos, antibióticos. “Muitos medicamentos, a maioria disponível no SUS, podem ajudar a reduzir a inflamação e aliviar os sintomas, mantendo a doença em remissão. Entre as classes prescritas estão aminossalicilatos, corticosteroides, imunossupressores, agentes biológicos e antibióticos. Alguns medicamentos podem ter efeitos colaterais leves, moderados ou graves, e o médico que acompanha o paciente deverá decidir pela continuidade ou não da medicação, de acordo com essas reações”, detalha o coloproctologista Cláudio Saddy Rodrigues Coy. Alguns pacientes não respondem aos fármacos e evoluem com complicações, a exemplo de perfuração intestinal, fístulas, abscessos, estenoses e neoplasias, que exigem intervenção cirúrgica para fazer desde a limpeza da região afetada ou drenagem até a retirada do segmento intestinal inflamado.

A médica Marta Brenner Machado acentua que, embora não seja possível curar as DII, os sintomas são minimizados com tratamento adequado e, assim, haverá menor impacto na qualidade de vida do paciente. Os grupos de apoio também são muito importantes. “Ao conversar com outras pessoas que passam pela mesma situação, os pacientes podem compartilhar experiências e dúvidas para um aprendizado de convivência com a doença e para entender que não estão sozinhos nessa caminhada”, argumenta. O acompanhamento dos pacientes demanda consultas periódicas que podem ser feitas em centros especializados e ambulatórios – a maioria em hospitais universitários – que oferecem atendimento multidisciplinar. •