Câncer também ameaça o aparelho digestivo

Alimentação inadequada, bebidas alcoólicas, sedentarismo e fumo contribuem para o aumento da incidência

Elessandra Asevedo

Estimativas do Global Cancer Observatory (Globocan), elaboradas em 2020 pela International Agency for Research on Cancer (IARC), indicam que um em cada cinco indivíduos terá câncer durante a vida. O relatório sugere, ainda, que 1,9 milhão de casos novos de câncer de cólon e reto serão diagnosticados neste período, e aponta a neoplasia como o terceiro tumor mais incidente no mundo. As Estimativas 2023 – Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), preveem 704 mil casos novos da doença (de todos os tipos) por ano no triênio 2023-2025 no País e estimam 45.630 novos casos de câncer de intestino a cada ano do triênio – com as mulheres liderando o índice, com previsão de 23.660 casos.

Caracterizada como uma doença que se desenvolve predominantemente a partir de mutações genéticas em lesões benignas, como pólipos adenomatosos e serrilhados, a probabilidade de óbito prematuro por causa do câncer colorretal entre pessoas de 30 a 69 anos pode ter um aumento de 10% até 2030, segundo o INCA. Outros tumores que acometem o sistema gastrointestinal são estômago (5ª posição), cavidade oral (8ª), esôfago (13ª), pâncreas (14ª) e fígado (15ª). No Brasil, o Sudeste concentra metade dos casos de câncer (geral). Sudeste, Centro-oeste e Sul, regiões com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), também têm maior incidência de câncer colorretal – que ocupa a segunda ou a terceira posição. No Nordeste e Norte, o câncer de estômago é o segundo ou o terceiro mais frequente.

Estudos apontam uma relação entre hábitos alimentares e estilo de vida, assim como exposições ambientais e ocupacionais – especialmente nas grandes cidades – como fatores de maior risco da população para o desenvolvimento dessas neoplasias malignas. O risco de desenvolvimento de câncer gastrointestinal também está associado ao comportamento moderno, pautado por sedentarismo, obesidade, consumo regular de álcool e tabaco e baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras. “No Brasil e no Ocidente, de forma geral, o câncer colorretal é o mais comum dentre os possíveis no sistema gastrointestinal e tem relação com a nova dieta que é repleta de comidas industrializadas, fast food e embutidos. Quanto mais gordura, maior o risco. Já os asiáticos são mais acometidos pelo câncer gástrico porque consomem alimentos muito salgados”, sinaliza a médica gastroenterologista e oncologista Nora Manoukian Forones, coordenadora do setor de Oncologia Gastrointestinal da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e presidente da Associação Brasileira de Câncer Gástrico (ABCG).

Outros fatores de risco estão associados ao comportamento moderno que alterou a forma de mobilidade e recreação humana, e elevou a exposição a poluentes ambientais. O médico oncologista Tiago Felismino, líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, lembra que os índices são resultado de um fenômeno que vem acontecendo desde o fim do século 20. “As doenças que mais matavam a população, como as infecciosas e cardiovasculares, vêm sendo mais controladas, tornando o câncer uma causa cada vez mais comum de óbitos. É preciso destacar que o perfil dos pacientes acometidos por algumas neoplasias também está mudando e, atualmente, há um aumento na incidência em pessoas mais jovens, principalmente com câncer de intestino”, indica. Esse quadro, inicialmente descrito nos Estados Unidos, já é realidade no Brasil – onde indivíduos com idade entre 40 e 50 anos estão sendo cada vez mais diagnosticados.

O médico pontua que há um avanço nas pesquisas que buscam colaborar para diminuir a incidência deste tipo de neoplasia, como os estudos que correlacionam obesidade, consumo exagerado de carnes vermelhas e deficiência de vitamina D e o câncer do intestino. “Há indícios de que o déficit desta vitamina pode até colaborar com maior agressividade depois da doença diagnosticada. Pode ser que, no futuro breve, seja recomendada reposição de vitamina D não apenas para proteção óssea, mas também como fator protetor contra o câncer intestinal”, acredita. Outra substância estudada é a aspirina, um medicamento barato e seguro que poderia diminuir as chances da neoplasia, mas ainda não está definida como medida de saúde pública e não pode ser utilizada sem prescrição médica. Outro fator de risco pode ser o microbioma intestinal. Pesquisadores da Wayne State University School of Medicine, nos Estados Unidos, sugerem que o microbioma equilibrado é a chave para reduzir o risco de desenvolver a doença. Um estudo realizado na China também mostra que há uma diferença significativa nas comunidades bacterianas fecais entre pessoas saudáveis e pacientes em quatro estágios de tumores colorretais.

Prevenção e detecção precoce por ações de rastreamento

Indivíduos com familiares diretos diagnosticados com esse tipo de câncer e pacientes com retocolite ulcerativa ou doença de Crohn de cólon devem fazer o acompanhamento rotineiramente para não serem surpreendidos com um diagnóstico de câncer colorretal. Embora a doença apresente alto potencial para prevenção com cuidados com o estilo de vida e a detecção precoce por ações de rastreamento, como a colonoscopia, parte da população ainda tem receio e preconceito em relação ao exame, principalmente os homens, devido à cultura de que partes do corpo não podem ser tocadas.

O médico gastroenterologista Áureo Delgado, professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e diretor de Comunicação da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), afirma que todas as pessoas a partir de 45 anos de idade deveriam fazer o exame como check-up e, caso não tenham problemas, devem retornar para seguimento a cada cinco anos. “No entanto, faltam políticas públicas e a colonoscopia não chega a locais remotos e sem recursos”, lamenta. Uma alternativa mais acessível para locais sem disponibilidade de colonoscopia é solicitar ao paciente o exame de sangue oculto nas fezes e, se der positivo, encaminhar para a colonoscopia.

Para o médico Áureo Delgado, o que mais chama atenção em relação a esse tipo de câncer é exatamente a possibilidade de prevenção, pois, normalmente o surgimento começa com um pólipo benigno que tem potencial de se tornar maligno. “A verruga é benigna, mas, se não for retirada, tem a tendência de evoluir com o tempo. Mas não é pouco tempo; estamos falando de 10 a 15 anos. Por isso, é importante retirar esse pólipo assim que descoberto, e isso só é possível por meio da colonoscopia”, alerta. Caso o indivíduo perceba alteração no hábito intestinal, como constipação, diarreia, sangramento e afilamento das fezes, deve procurar o gastroenterologista o mais rápido possível.

Alta incidência na população em geral

As maiores taxas de incidência de câncer de estômago têm sido observadas na Ásia Oriental, Europa Central, Europa Oriental e América do Sul sendo que, no Brasil, as taxas mais elevadas ocorrem na região Sul. Essa neoplasia tem como principal causa a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, particularmente prevalente na África, América Latina e Ásia. O artigo ‘Fatores de risco do câncer gástrico: Revisão de literatura’, realizado em parceria por pesquisadores de diferentes universidades brasileiras e publicado no The Research, Society and Development Jornal, aponta estudos epidemiológicos que demonstram o risco aumentado de até seis vezes para o desenvolvimento de adenocarcinoma gástrico em indivíduos infectados pela bactéria.

A gastroenterologista e oncologista Nora Manoukian Forones informa que a maioria dos indivíduos infectados pela Helicobacter pylori não apresenta sintomas. “A pessoa se infecta ao comer alimentos que possuem a bactéria, por isso, é importante lavar bem os itens crus, como verduras e frutas e, se possível, deixar 20 minutos de molho no hipoclorito de sódio”, orienta. Pesquisadores também trabalham para o desenvolvimento de uma vacina contra essa bactéria, que será essencial para diminuir os casos de câncer gástrico. Mas, até o momento, os pacientes têm à disposição apenas o tratamento com antibiótico.

O consumo excessivo de carne bovina frita, grelhada ou assada é outro fator de risco para o câncer gástrico, porque a exposição ao calor produz componentes carcinogênicos na superfície da carne, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e aminas heterocíclicas. “Excesso de peso e obesidade, alimentação composta de embutidos e enlatados, baixa ingestão de fibras, frutas e vegetais, consumo frequente de bebida alcoólica e tabagismo podem contribuir para o surgimento da doença”, enfatiza o oncologista Tiago Felismino.

De acordo com o INCA, a neoplasia de esôfago é mais incidente nos homens. Um fator que merece atenção é o refluxo gastroesofágico, que promove a queimadura química do epitélio do esôfago mudando sua característica de tecido escamoso para se tornar intestinalizado, com um tecido parecido com o do intestino. Essa mudança, denominada esôfago de Barrett, é considerada uma lesão pré-maligna para o câncer de esôfago. “A doença tem índice de letalidade alto por causa da localização do tumor e necessita de tratamento cirúrgico, como a retirada do esôfago”, reforça o gastroenterologista Áureo Delgado. Pâncreas e fígado têm número estimado de casos novos de 10.980 e 10.700, respectivamente, para cada ano do triênio 2023-2025 no Brasil.

A neoplasia no pâncreas normalmente não leva ao aparecimento de sinais e sintomas nos estágios iniciais. “Em razão do diagnóstico tardio, o prognóstico é ruim para o paciente, com expectativa de vida entre 6 e 12 meses”, alerta o médico Áureo Delgado. A sobrevida melhora com a introdução da terapia-alvo no tratamento do câncer de pâncreas, mas 95% dos casos ainda não têm cura. Por ter íntima relação com tabagismo, obesidade, genética, diabetes mellitus tipo 2, pancreatite e etilismo crônicos, o ideal para prevenir a doença é evitar esses hábitos e fazer uma avaliação médica anual do aparelho digestivo, principalmente após os 50 anos de idade.

O oncologista Tiago Felismino acentua que a maioria dos casos de câncer de fígado ocorre em razão das hepatopatias crônicas ligadas a infecções pelos vírus das hepatites B e C e por doenças metabólicas, devido ao acúmulo de gordura no fígado e ao diabetes tipo 2. “É importante lembrar que existe vacina contra a hepatite B, que é muito eficaz e segura”, esclarece. Outros fatores de risco também envolvem bebida alcoólica, tabagismo, obesidade e consumo de alimentos que contenham aflatoxina, um tipo de fungo que pode estar presente na mandioca, no milho e no amendoim quando armazenados de forma inadequada.

Taxa de sobrevivência

Segundo dados do INCA, nos países com alto IDH, intervenções relacionadas a prevenção, detecção precoce e tratamento têm melhorado as taxas de incidência e mortalidade pelo câncer. No entanto, em países em transição para o desenvolvimento, as taxas seguem aumentando ou, no máximo, mantendo-se estáveis. Dados da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) mostram que aproximadamente 70% das mortes por câncer ocorrem em países de baixa e média renda. Enquanto na América do Norte a taxa de sobrevivência de crianças com câncer, por exemplo, ultrapassa 80%, na América Central e no Caribe esse número é de apenas 45%.

Os gastos com a assistência oncológica também vêm crescendo de forma expressiva e ameaçam a viabilidade financeira dos sistemas de saúde. Em 2040, se nada for feito e a tendência de aumento de casos se mantiver na mesma velocidade, o INCA projeta que o governo federal gastará

R$ 7,84 bilhões com pacientes oncológicos. Entre as estratégias de controle da doença, a prevenção primária é a única capaz de diminuir os casos novos e as mortes, sendo considerada pelos especialistas como o melhor custo-benefício em longo prazo. Isso inclui adotar um modo de vida mais saudável e diminuir (ou evitar) a exposição às substâncias causadoras de câncer.

No Brasil, na última década também houve um aumento expressivo de informações e campanhas sobre os vários tipos de câncer e de orientação para a população buscar ajuda médica a qualquer sinal de que há algo diferente com o corpo. “Infelizmente, nem sempre existem recursos de diagnóstico e tratamento em todo o território nacional para atender à demanda, o que reforça a necessidade de que sejam criadas políticas públicas com foco na doença e na medicina preventiva”, afirma a gastroenterologista e oncologista Nora Manoukian Forones.