Benefício do LcS em adultos saudáveis
Benefício do LcS em adultos saudáveis
Ensaio randomizado controlado foi realizado para determinar os
efeitos da ingestão da cepa nas células mononucleares fagocíticas
Tomoaki Naito1, Masatoshi Morikawa1, Mayuko Yamamoto-Fujimura1, Akira Iwata1, Ayaka Maki1, Noriko Katonagaoka1, Kosuke Oana1, Junko Kiyoshima-Shibata1, Yumi Matsuura2, Rumi Kaji1, Osamu Watanabe2, Kan Shida1, Satoshi Matsumoto1 e Tetsujiak Hori1
1Yakult Central Institute, Kunitachi, Tóquio; 2Yakult Honsha Co., Ltd, Minato, Tóquio, Japão
Com base na definição de probióticos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP) forneceu a seguinte definição para probióticos em 2013: ‘probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do hospedeiro’. O Lacticaseibacillus paracasei Shirota (LcS – anteriormente Lactobacillus casei Shirota) é um probiótico renomado entre as numerosas espécies de bactérias do ácido lático. Nas últimas décadas, o LcS forneceu continuamente vários efeitos benéficos não apenas na microbiota intestinal, mas também nas funções imunológicas e na condição física diária.
Por exemplo, o LcS pode aumentar ou manter a atividade das células natural killer (NK) e a secreção de imunoglobulina A (IgA). Tais efeitos também foram observados para outras bactérias do ácido láctico. Além disso, algumas dessas bactérias benéficas demonstraram melhorar os sintomas de infecção do trato respiratório superior (IVAS). Ensaios clínicos randomizados em adultos saudáveis mostraram que a ingestão de LcS também teve efeitos positivos nas IVAS, incluindo sintomas subjetivos de dor de garganta, coriza e nariz entupido. Como mencionado acima, foi demonstrado que o LcS afeta a função efetora imune e os benefícios clínicos, entretanto, os mecanismos subjacentes e as células condutoras imunes envolvidas não foram estudados in vivo.
Nas regiões mais distantes do corpo humano, as células mononucleares fagocíticas (MPCs) desempenham um papel fundamental nas respostas imunes contra patógenos, bem como no priming das células efetoras imunes. As MPCs têm sido geralmente categorizadas em células dendríticas (DCs), monócitos (Mos) e macrófagos (MFs). Embora seus fenótipos frequentemente se sobreponham, cada subconjunto de células tem suas próprias características. As DCs compreendem pelo menos três subconjuntos: DCs convencionais tipo 1 (cDC1s), DCs convencionais tipo 2 (cDC2s) e DCs plasmocitoides (pDCs).
As cDC1s são especializadas na captação de células que estão morrendo, apresentação cruzada, ativação de células T CD8+ via complexo principal de histocompatibilidade (MHC) classe I e promoção de T helper tipo I (Th1) e resposta natural killer. As DCs convencionais tipo 2 estimulam células T CD4+ naïve e ativam células Th2, Th17, Th22, Treg e B. As pDCs são especializadas para detectar e responder à infecção viral por meio de vários mecanismos via produção de interferon tipo I e tipo III, e ativam as células T CD4+ e CD8+ em resposta ao vírus Influenza.
Geralmente, a função desses três subconjuntos de DC é fazer a ponte entre o sistema imune inato, que protege contra microrganismos patogênicos, e o sistema imune adaptativo, que apresenta as informações adquiridas dos patógenos às células efetoras imunes. Os Mos são os precursores definitivos de MFs e DCs. Fenotipicamente, os Mos são classificados em três subconjuntos: monócitos clássicos (cMos), monócitos intermediários (iMos) e monócitos não clássicos (ncMos), dependendo das diferenças na expressão de CD14 e CD16. Cada subconjunto de Mo contribui para a defesa imunológica, eliminando patógenos e células mortas, reparando tecidos e instruindo a imunidade adaptativa. Os MFs consistem em uma população heterogênea de células e sua diversidade é influenciada pela variedade de tecidos em que residem. Geralmente, são bem conhecidos por sua capacidade de fagocitar, eliminar patógenos, sinalizar o sistema imunológico e reparar tecidos, e são limitados da área periférica porque seu desenvolvimento depende do tecido local.
Nos últimos anos, algumas bactérias do ácido láctico que afetam as MPCs foram relatadas em estudos in vivo. Tavares-Silva e colaboradores indicaram que 30 dias de suplementação com cinco cepas de probióticos em maratonistas, incluindo dois da espécie Lactobacillus spp., um Lactococcus sp., e duas Bifidobacterium spp., melhorou os sintomas de IVAS e que este foi acompanhado de uma baixa produção de IL-6 pelos Mos imediatamente após a corrida. O Lactococcus lactis JCM 5805 foi estudado para redução dos sintomas de resfriado comum e Influenza em adultos saudáveis, estimulando as pDCs. No caso do LcS, um estudo ex vivo com células mononucleares de sangue periférico (PBMCs) de adultos saudáveis demonstrou que os estímulos do LcS promoveram a expressão da CD40 na superfície e outros marcadores de maturação nas DCs e induziram a ativação das células T. No entanto, evidências in vivo mostrando efeitos do LcS em MPCs humanos ainda não foram elucidadas. Este ensaio randomizado controlado foi realizado em pessoas saudáveis que trabalham em escritório para determinar os efeitos da ingestão do LcS nas MPCs.
Desenho do estudo
Doze indivíduos do sexo masculino entre 30 e 40 anos de idade foram recrutados e divididos em dois grupos: um consumiu uma bebida láctea fermentada contendo LcS (LcS-FM) e o outro grupo consumiu uma bebida láctea controle (CM) – cada grupo consumiu um frasco por dia, durante seis semanas. Amostras de sangue (18ml) foram coletadas dos voluntários antes e nos dias 3, 10, 28 e 43 depois do início do consumo, após uma consulta médica para confirmar o estado de saúde dos voluntários na clínica. Depois, foram transportadas para o Yakult Central Institute (Kunitachi, Tóquio, Japão) para preparo do sangue. O estudo foi firmado com o CPCC Co., Ltd. (Chuo, Tóquio, Japão) para manter o sigilo e foi revisado pelo Conselho de Ética da Chiyoda Para Medical Care Clinic (IRB nº: 15000088). O protocolo do estudo foi registrado na University Hospital Medical Information Network (UMIN-CTR: 000044809).
Composição da bebida teste e controle
A bebida controle (CM) era um leite não fermentado. O LcS-FM foi produzido na Unidade Fabril Miki da Yakult Honsha Co., Ltd. (Miki, Hyogo, Japão), e o CM no setor de Pesquisa de Processo de Produto, Departamento de Desenvolvimento, Yakult Honsha Co., Ltd. (Kunitachi, Tóquio, Japão). Ambos foram transportados para o Yakult Central Institute sob refrigeração. Uma vez por semana, as bebidas teste e controle eram transportadas do Instituto para a CPCC Co., Ltd., sob refrigeração, para serem entregues aos voluntários.
Tratamento do sangue
Cada amostra de sangue de 18ml foi misturada com um volume igual de solução salina (Otsuka Pharmaceutical, Tóquio, Japão) em temperatura ambiente (RT; entre 20°C– 25°C). Metade do sangue diluído resultante (18ml) foi colocado em 15ml de Lymphoprep (STEMCELL Technologies, AS, Oslo, Noruega; dois tubos para centrífuga de 50ml por amostra). Após centrifugação a 800×g em temperatura ambiente e desaceleração lenta por 30min, a camada do meio foi coletada como PBMCs. As células coletadas foram centrifugadas com solução salina tamponada com fosfato de Dulbecco (D-PBS; Nacalai Tesque, Kyoto, Japão) contendo 2% de soro fetal bovino (FBS; 2% FBS/PBS) a 460×g por 10min a 4°C, e o sobrenadante foi removido. O sedimento da PBMC foi suspenso em D-PBS (Nacalai Tesque) e as células foram contadas. As PBMCs foram submetidas a análise de citometria de fluxo (FCM) e citometria por tempo de voo (CyTOF). As amostras clínicas foram manuseadas seguindo as diretrizes do Comitê de Biossegurança do Yakult Central Institute (Aprovação No. 312).
Processamento das amostras e análises para FCM
Coloração do anticorpo marcado fluorescentemente
Aproximadamente 1,1×107 PBMCs foram lavadas com D-PBS, suspensas em 275 μL de Zombie Aqua (BioLegend, San Diego, CA, EUA), diluídas 100 vezes em D-PBS e mantidas em gelo por 15min. Além disso, foram adicionados 275 μL de TruStain FcX (BioLegend) diluído 10 vezes em D-PBS, e a mistura foi suavemente agitada no agitador de vortex e mantida em gelo por 15min. Após a reação, 50 μL (aproximadamente 1,0×106 células) da suspensão celular foram dispensados em placas de cultura de 96 poços, fundo em V (Thermo Fisher Scientific, Waltham, MA, EUA) para análise da intensidade média de fluorescência (MFI), e o mesmo volume de diluente de anticorpo foi adicionado a cada placa e misturado com a suspensão celular. O Brilliant Stain Buffer Plus (BD Biosciences, San Jose, CA, EUA) foi adicionado à mistura de anticorpos. As placas foram incubadas em gelo por 30min. Após lavagem com 2% FBS/PBS, as células foram fixadas com 200 μL de FluoroFix Buffer (BioLegend) e deixadas reagindo por 30min sob proteção de luz em temperatura ambiente. Após centrifugação (460×g, 5min, 20°C), 200 μL de 2% FBS/PBS foram adicionados a cada poço e as células foram armazenadas a 4°C até a análise da FCM.
Resultado indica que cepa pode modular uma conexão imune
A elegibilidade foi avaliada para 25 voluntários do sexo masculino que trabalham em escritório. Cinco deles foram excluídos devido à presença de doenças infecciosas (vírus da hepatite B, vírus da hepatite C, vírus da imunodeficiência humana, Treponema pallidum), resultados de exames bioquímicos de sangue e de pressão arterial. Dos 20 participantes restantes, 12 foram recrutados para o estudo e alocados para o grupo LcS-FM ou CM. Um indivíduo do grupo controle não pôde comparecer à clínica no dia 28 devido ao trabalho, mas compareceu nos demais dias de coleta de sangue. Os dados dos seis participantes do grupo LcS-FM e dos seis participantes do grupo CM foram usados para análise. Em relação às características basais dos participantes nos dois grupos, não houve diferenças substanciais em idade, IMC, frequência de defecação, tempo de sono, pressão arterial, pulsação, hábitos de fumar, hábitos de consumo de álcool e hábitos de exercício. Ambos os grupos apresentaram boa adesão em relação ao consumo de bebida-teste. Não houve diferença na taxa de incidência de eventos adversos ou estado de saúde entre os dois grupos (dados não apresentados).
Para confirmar o efeito do consumo de LcS-FM nas MPCs representativas focou-se primeiro nas pDCs por causa de suas múltiplas funções, bem como sua resposta antiviral e iniciação de células efetoras imunes. Não houve diferença na proporção de números de células entre os grupos LcS-FM e CM, no entanto, a pDC% no grupo LcS-FM tendeu a ser maior do que no grupo CM no 3º dia de consumo. Em termos de expressão de moléculas funcionais de superfície celular e marcadores de ativação, as proporções de MFIs e PP de HLAABC, MICA, CD40 e GPR43 no grupo LcS-FM foram substancialmente maiores do que no grupo CM (MICA e GPR43 no grupo 3º e 43º dias de consumo; HLAABC e CD40 no 3º dia de consumo). Esses resultados indicam que a ingestão de leite fermentado contendo LcS afeta a população e a expressão de moléculas de superfície celular em pDCs, o que implica em o LcS poder modular a expressão de várias moléculas em pDCs e interagir com as células efetoras imunes.
Em seguida, o impacto do consumo de LcS-FM foi investigado nas DCs, mas não em pDCs. Não houve diferença na proporção de cDC1%, cDC2% e número de células entre os grupos LcS-FM e CM. Embora não houvesse diferenças nas proporções de expressão de CD86, HLAABC, MICA, GPR43 e HLADR em cDCs entre os dois grupos (dados não mostrados), a proporção de expressão de CD40 em cDCs no grupo LcS-FM foi substancialmente maior do que no grupo CM no 3º dia de consumo. Além disso, na população cDC, a proporção do subconjunto de cDC2 que expressa CD40 no grupo LcS-FM mostrou um aumento notável em comparação com o grupo CM, sugerindo que a ingestão de LcS-FM afetou não apenas pDCs, mas também cDCs – especialmente a expressão de CD40 em cDC2s.
Posteriormente, foi investigado o efeito da ingestão de LcS-FM nos Mos, conforme descrito em estudos anteriores. As porcentagens de iMos e ncMos no grupo LcS-FM foram notavelmente superiores às do grupo CM (iMos no 3º e 10º dias de consumo e ncMos no 3º dia de consumo). A mesma alteração foi observada para cMos no grupo LcS-FM, com a porcentagem tendendo a ser maior do que no grupo controle no 3º dia de consumo. A proporção de iMo% em células HLADR+ do grupo LcS-FM foi substancialmente maior do que a do grupo controle no 3º dia de consumo. Observando o número de células, a proporção de iMo no grupo LcS-FM foi consideravelmente maior do que no grupo CM no 10º dia de consumo. Além disso, a ingestão de LcS-FM também afetou a expressão de uma molécula funcional da superfície celular, CD40, em Mos em PBMCs.
A proporção de expressão de CD40 em Mos no grupo LcS-FM foi substancialmente maior do que no grupo CM no 3º dia de consumo, e a proporção de expressão de CD40 em cDCs no grupo LcS-FM também foi maior do que no CM grupo no 3º dia de consumo. Além disso, na população dos Mos a proporção de expressão de CD40 nos subconjuntos ncMos e iMos não diferiu entre os grupos, no entanto, isso em cMos no grupo LcS-FM foi consideravelmente maior do que no grupo CM. Portanto, esses resultados indicam que a porcentagem ou o número de células de Mos em PBMCs aumenta e que a expressão de CD40 em subconjuntos de Mo é aumentada em 10 dias após o consumo de LcS-FM. Considerando os resultados para CD40 neste estudo, o aumento na expressão de CD40 em pDCs, cDCs e Mos no grupo LcS-FM indica que LcS pode afetar vários MPCs e provavelmente modular uma conexão imune.
Processamento e análise de amostras para CyTOF
Coloração de anticorpos marcados com metal
Os métodos e reagentes utilizados para análise do CyTOF estavam de acordo com o protocolo do fabricante. Em resumo, o desenho para as combinações de metais e anticorpos foi preparado com base nas sugestões da Standard BioTools K.K. (f.k.a Fluidigm KK) (Chuo, Tóquio, Japão). Entre eles, MICA, GPR43 e GPR109a foram marcados de forma personalizada usando o kit de marcação de anticorpos Maxpar [Standard BioTools K.K. (f.k.a Fluidigm), San Francisco, CA, EUA], e seus títulos foram verificados preliminarmente com PBMCs humanos (dados não mostrados). As células (3,0×106) foram incubadas com 1 µM Cell-ID Cisplatina-198Pt (Standard BioTools) para coloração de células mortas. Após centrifugação (500xg, 5min, 20°C), as células foram incubadas com TruStain FcX (BioLegend) diluído 10 vezes em Maxpar Cell Staining Buffer (CSB; Standard BioTools), e a mistura de anticorpos foi adicionada à célula suspensão. As células foram, então, coradas por 30min em temperatura ambiente. Após lavagem centrífuga, as células foram fixadas com 1,6% (p/v) de formaldeído (sem metanol) por 10min em temperatura ambiente e mantidas a 4°C até a análise de CyTOF. A análise de citometria de massa foi realizada no laboratório Standard BioTools (Edogawa, Tóquio, Japão). Depois de lavadas e coradas com o Cell-ID Intercalator-Ir (Standard BioTools) como marcador de viabilidade celular, as células foram aplicadas a um citômetro de massa Helios® (Standard BioTools) dentro de 48 horas. Os dados CyTOF foram adquiridos para 300 mil eventos no total. Os dados fcs brutos obtidos foram analisados usando o software FlowJo v10 (BD Biosciences).
Estratégia de gating de CyTOF
O conceito básico da estratégia de gating CyTOF para pDCs foi semelhante ao da estratégia de gating da FCM. Depois de excluir detritos, microesferas de normalização, doublets e células mortas (gating de células vivas), foi bloqueado o marcador de linhagem negativo células – como populações de células CD3, CD19, CD20, CD56, CD66b e HLADR+. Em seguida, foram expandidos os CD16 e CD14 para separar os Mos, marcando a população de células CD14–CD16– e expandindo CD11c e CD303 para discriminação de pDCs. Finalmente, a população de células CD11c–CD303+ foi definida como pDCs. A expressão dos marcadores de ativação foi avaliada calculando dois valores: ‘mean metal intensity’ (MMI) e porcentagem de positividade (PP).
Análise estatística
Após inserir os valores de cada teste foram calculadas as estatísticas básicas (médias e desvios padrão) dos grupos LcS-FM e CM. Em seguida, as estatísticas básicas (média e desvio padrão) foram calculadas para cada valor de teste, calculando a quantidade de alteração do valor da linha basal antes de consumir as bebidas. Para análise estatística das diferenças na quantidade de mudança entre os grupos foi considerado significativo o p<0,05, e as análises foram realizadas usando o teste Mann-Whitney U com GraphPad Prism versão 8 para Windows (GraphPad Software, San Diego, CA, EUA).
Estratégia de gating da FCM
A suspensão de células coradas com anticorpos foi aplicada a um citômetro de fluxo CytoFLEX S (Beckman Coulter, Miami, FL, EUA). A estratégia de gating foi parcialmente modificada. Em resumo, após a exclusão de células mortas (gating de células vivas) foram bloqueadas todas as células T negativas para marcadores (CD3), células B (CD19 e CD20), células NK (CD56), granulócitos (CD66b) e células HLADR+. Em seguida, os CD16 e CD14 foram expandidos para separar os Mos em três subconjuntos: cMos (CD14+CD16–), iMos (CD14+CD16+) e ncMos (CD14loCD16+). Para isso, foi marcada a população de células CD14–CD16– e reexpandida a linhagem e HLADR para selecionar estritamente a população de células da linhagem –HLADR+. Em seguida, as células foram expandidas em CD11c e CD303 e marcadas em pDCs (CD11–CD303+). A população de células CD11c+CD303– foi expandida com CD141 e CD1c e separada em cDC1s (CD141+CD1c–/+) e cDC2s (CD141–CD1c+). Os dados FCM foram acumulados até que os portões da linhagem HLADR+ atingissem 30 mil eventos ou 180 segundos de tempo de aquisição sob condições de alto fluxo de operação (60 μL/min). O software FlowJo v10 (BD Biosciences, Ashland, OR, EUA) foi usado para analisar os dados adquiridos. As porcentagens de subconjuntos de MPC (pDC%, cDC% e Mo%) em PBMCs e de subconjuntos de MPC em células HLADR+ foram calculadas com base na estratégia de gating da FCM. As porcentagens de subconjuntos de MPC em PBMCs indicam a composição de cada subconjunto de MPC entre todos os PBMCs viáveis. As porcentagens de subconjuntos de MPC em células HLADR+ indicam a composição de cada subconjunto de MPC entre as células de linhagem –HLADR+. Os números de células foram calculados para cada subconjunto de MPC multiplicando a porcentagem do subconjunto de MPC em PBMCs por contagens de células reais em 01ml de sangue obtido com um contador de células automatizado TC20 (Bio Rad Laboratories, Inc. Hercules, CA, EUA).
Estudo cita outros benefícios do probiótico
Recentemente, foi relatado que algumas bactérias do ácido lático exercem efeitos benéficos em MPCs, incluindo Mos e pDCs, in vivo. O L. lactis JCM 5805 influencia todo o sistema imunológico, aumentando a expressão de CD86 e HLADR em pDCs humanos. No entanto, o envolvimento do LcS em MPCs em um estudo humano in vivo não foi relatado. Portanto, foi conduzido um estudo randomizado controlado para explorar a dinâmica e o estado de ativação de MPCs após a ingestão de um LcS-FM. Este estudo não detectou nenhum efeito do LcS na expressão de CD86 e HLADR em pDCs (dados não mostrados). No entanto, a ingestão de LcS-FM aumentou a pDC% em PBMCs e afetou a expressão de outras moléculas funcionais, como HLAABC, MICA, CD40 e GPR43. O HLAABC, uma molécula do MHC de classe Ia, está envolvido na apresentação de antígenos às células T CD8+ e sua ativação. MICA, uma molécula MHC classe Ib induzida por estresse, ativa as células NK. Sabe-se que o CD40 está envolvido na resposta imune adquirida, induzindo respostas imunes e de produção de anticorpos do tipo Th1, ligando-se ao CD40L nas células T e B. O GPR43 é, principalmente, um receptor para acetato e propionato conhecido por contribuir para a homeostase da mucosa intestinal por meio de metabólitos derivados de bactérias intestinais.
Esses achados levantam a possibilidade de que o LcS possa atuar tanto na citotoxicidade das células NK quanto na produção de IgA por meio da ativação do MPCs, como as pDC in vivo. Em estudos anteriores ex vivo e in vitro foi relatado que o LcS estimula DCs derivadas de Mo, estimula MFs e aumenta a produção de algumas citocinas, como IL-12, por meio de sua estrutura específica de superfície celular. Essas descobertas levantam a possibilidade de que o LcS afeta não apenas os pDCs, mas também outros MPCs. Entre as várias moléculas coestimuladoras, foi focado nas CD40 em MPCs porque a sinalização de CD40 é conhecida por induzir alterações em células apresentadoras de antígenos, como regulação positiva de HLADR e CD80/CD86.
Neste estudo, a intensidade da expressão de CD40 em cDCs e Mos (ou seja, cDC2s e cMos) foi aumentada pela ingestão de bebida láctea fermentada contendo LcS. Além disso, a correlação positiva significativa entre as proporções de expressão de CD40 e CD86 em cDCs no dia 10 sugere que a expressão de CD40 pode estar envolvida na regulação de moléculas a jusante. Acredita-se que CD40 expressa em DCs esteja envolvida em respostas imunes adquiridas, induzindo respostas imunes do tipo Th1 e respostas de produção de anticorpos por ligação a CD40L em células T e B. Como mencionado, o cMos é uma das células precursoras de DCs derivadas de monócitos. You e colaboradores relataram que a expressão de CD40 em DCs derivadas de PBMCs foi aumentada pela adição de LcS in vitro, e resultados semelhantes foram obtidos in vivo.
O consumo de LcS-FM afetou as populações e o número de células dos subconjuntos de Mo. Neste estudo, foi descoberto que consumir LcS-FM induziu um aumento nas porcentagens dos três subconjuntos de Mo e aumentou o número de células de cMos e iMos no dia 3. Essas respostas proliferativas rápidas de subconjuntos de Mo levantam o novo conceito de que LcS pode ter uma influência nos órgãos linfoides primários. Tendo em vista os nichos para o desenvolvimento de Mos, o LcS poderia estimular a medula óssea (BM) a fornecer Mos para a periferia nos períodos iniciais imediatamente após o consumo de LcS. Embora não haja relatos de que os probióticos afetem a BM, o conceito de probióticos que afetam a BM pode ser significativo nos esforços para compreender a homeostase da imunidade.
Foi relatado que metabólitos e componentes bacterianos intestinais podem atuar em eventos hematopoiéticos e granulopoiéticos na BM, e que a BM pode servir como reservatório para subconjuntos de células imunes – como células B virgens e Mos – em resposta à restrição calórica e aos períodos curtos de jejum. O presente estudo também confirmou que o LcS afetou os Mos, bem como as DCs, pelo menos três dias após a ingestão de LcS-FM, e que influenciou as células T e B posteriormente. Um estudo anterior mostrou que seis semanas de ingestão de LcS impediu uma redução na atividade das células NK. Supõe-se que os resultados indicando regulação positiva de MICA em células T e pDCs no 43º dia de ingestão de LcS-FM estejam relacionados à ativação de células NK. Pesquisadores acreditam que esse fenômeno pode ser significativo em termos de capturar aspectos das conexões entre os sistemas imunes inato e adquirido. Para consolidar essas hipóteses, mais estudos são necessários.
Por fim, foi considerado qual seria o componente do LcS-FM que causou esse efeito nos MPCs. Estudos anteriores mostraram que o LcS e seus componentes têm o potencial de ativar os Mos e MFs por meio da produção de citocinas. Além disso, a ingestão contínua de LcS-FM pelos idosos aumentou a concentração de ácido acético fecal. Esses achados sugerem que componentes celulares derivados de LcS e alguns metabólitos produzidos no intestino afetam as MPCs. Ademais, os produtos de fermentação incluídos no LcS-FM podem desempenhar alguns papéis. Este estudo sugere que o LcS afeta várias células imunes, como pDCs, cDCs e Mos (ncMos, iMos, cMos), de diversas maneiras, e influencia o sistema imunológico inato e adquirido através da expressão de CD40. Esta pesquisa representa o primeiro passo para a compreensão do envolvimento do LcS nos sistemas imunológicos in vivo e como contribui para a saúde do hospedeiro.
Tradução do artigo ‘Diverse impact of a probiotic strain, Lacticaseibacillus paracasei Shirota, on peripheral mononuclear phagocytic cells in healthy Japanese office workers: a randomized, double-blind, controlled trial’ publicado no Bioscience of Microbiota, Food and Health – Vol. 42 (1), 65-72, 2023 – doi: 10.12938/bmfh.2022-043