Aversão a sons repetitivos é sinal de misofonia
Aversão a sons repetitivos é sinal de misofonia
Síndrome é responsável pela intolerância sonora
que gera irritabilidade e sensação de raiva
Elessandra Asevedo
Especial para Super Saudável
Nomeada no começo deste século pelo médico norte-americano Pawel J. Jastreboff, a misofonia é uma intolerância sonora caracterizada pela hipersensibilidade de sons específicos que são baixos e repetitivos e podem ser feitos pela boca, pelo nariz, por mãos e pés. Os sons também podem ser provocados por animais ao mastigar e deglutir alimentos, soar ou fungar as narinas, miar ou latir, assim como pelo barulho sutil de teclas de computador, chaves, gelo no copo e até do andar de salto alto ou do arrastar de pés. Pouco disseminada entre a maioria dos médicos e a população em geral, observações da literatura indicam que essa hipersensibilidade possui início súbito e agudo e pode se manifestar ainda na infância ou na adolescência.
Também conhecida como síndrome da sensibilidade seletiva a sons, a misofonia está associada a reações agressivas de luta ou fuga incontroláveis e desproporcionais, prejudicando o convívio social e a qualidade de vida. Dados de diferentes nações apontam entre 8% e 17% da população com o problema. Mas esses números podem ser ainda maiores devido à falta de conhecimento, até mesmo por parte do paciente que apresenta os sintomas, não foi diagnosticado e, por isso, não entende porque reage de forma agressiva a sons que são ignorados por outras pessoas.
A médica otorrinolaringologista Tanit Ganz Sanchez, professora associada da disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretora do Instituto Ganz Sanchez, explica que o cérebro humano tem a habilidade de deixar em segundo plano o que não é relevante, mas, com o misofônico, essa reação é diferente. “Tudo o que ouvimos ativa três regiões do cérebro: a área do córtex auditivo; o sistema límbico, que controla as emoções; e o córtex pré-frontal responsável pela atenção. O misofônico ouve como todos os outros indivíduos, mas tem uma hiperativação do sistema límbico e do córtex pré-frontal gerando mais emoções, que são negativas”, detalha.
Os ruídos incômodos vão além de um simples aborrecimento, uma vez que os misofônicos geralmente relatam ansiedade, pânico e raiva quando expostos a esses gatilhos, podendo ter um acesso de fúria a ponto de se descontrolarem e terem uma agressão verbal ou até mesmo física contra a pessoa que está fazendo o barulho. No ambiente de trabalho, devido ao risco de uma reação de raiva, o misofônico acaba se machucando para segurar a emoção. Muitos apertam as mãos e as pernas, travam os dentes e torcem os dedos. E, imediatamente após o ato incontrolado, se arrependem profundamente, além de sofrerem pelo julgamento próprio e de quem observou a cena.
Segundo o médico otorrinolaringologista Ítalo Medeiros, especialista da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e professor doutor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a misofonia teve um boom na pandemia, com mais casos sendo relatados nos consultórios porque, com o isolamento, as pessoas ficaram convivendo demais. “Na maior parte das vezes, o incômodo está relacionado aos sons feitos pelos humanos e o paciente tem reação de luta ou fuga, ou seja, vai embora ou tem uma resposta agressiva e irracional. Isso compromete as tarefas cotidianas e prejudica as interações sociais, fazendo com que muitos se isolem da família, se afastem dos amigos e evitem locais públicos”, alerta.
O otorrinolaringologista é o profissional apto a realizar o diagnóstico e indicar a melhor forma de conduzir o tratamento. No entanto, devido à necessidade de se isolar e aos episódios de raiva e agressão, muitos pacientes buscam ajuda em outras especialidades e prorrogam a solução. A mudança de comportamento também pode ser confundida com a chegada da adolescência, como aconteceu com a estudante Nicole Esses, de 14 anos, que desde criança se incomodava com barulhos durante a refeição e, aos 10 anos, passou a ficar agressiva diante de familiares mastigando. Os pais a levaram a um psiquiatra, que suspeitou de misofonia e encaminhou para a otorrinolaringologista Tanit Ganz Sanchez. Com o acompanhamento médico e a medicação, a jovem aprendeu a conviver com a síndrome e o incômodo não é mais generalizado. “Essas pessoas têm imagem de antissocial, pois evitam comer junto com familiares e, por serem rotuladas desde a infância como problemáticas, crescem se considerando anormais. Ao descobrirem que são misofônicas ficam aliviadas por entenderem que não têm culpa pelas reações. Isso mostra a importância do domínio público do tema”, alerta a médica.
Cuidados
Para o diagnóstico, deve ser realizada anamnese para identificar se o paciente tem seletividade e sensibilidade a sons e reação incontrolável de raiva, irritabilidade ou nojo. Alguns testes audiométricos colaboram para a exclusão de outros problemas e o médico também pode solicitar avaliações psicológicas para verificar se a misofonia está associada com ansiedade e depressão. O tratamento é feito com medicações, terapias cognitivas comportamentais e terapias sonoras. “É necessária equipe formada por otorrinolaringologista, fonoaudiólogo, psiquiatra e psicólogo. Muitas vezes, as estratégias permitem que os pacientes tenham condição de vida saudável e voltem a se sentir parte da sociedade”, afirma o médico Ítalo Medeiros.
Estudos buscam mais dados sobre a síndrome
Ainda há estudos em andamento para entender melhor o mecanismo da misofonia, assim como a comprovação da hereditariedade e a possível associação com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). O estudo ‘Sintomas de misofonia em estudantes, professores e técnicos na Universidade Federal da Bahia’, que é a tese de doutorado da fonoaudióloga Julia Valente no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia (ICS-UFBA), investiga a prevalência de sintomas na população universitária para avaliar questões auditivas periféricas e centrais e queixas auditivas, realizar triagem para depressão e ansiedade e observar se estão relacionados à misofonia. Os voluntários foram divididos em dois grupos – sem e com misofonia – e os dados foram comparados para auxiliar o diagnóstico e tratamento. “Já posso adiantar que os sintomas são bem presentes na população estudada. É necessário aprofundar nesse transtorno que impacta de forma importante a vida das pessoas”, alerta a doutoranda.
A médica Tanit Ganz Sanchez lembra que existe uma teoria, ainda não confirmada, de que a misofonia poderia ser multifatorial e estar relacionada a algum transtorno psiquiátrico. “Também há chances de ser hereditária, porque mais da metade dos pacientes tem alguém na família com o problema. Estamos realizando uma pesquisa científica com uma família do nordeste na qual 15 pessoas, de três diferentes gerações, foram diagnosticadas”, pontua. Alterações cerebrais também vêm sendo estudadas nessa população. Uma pesquisa demonstrou, por exemplo, que misofônicos apresentam aumento da atividade neural no córtex visual, córtex temporal, amígdala e ínsula anterior quando comparados com pessoas sem a síndrome. Além disso, apesar de os misofônicos terem audição normal, podem apresentar perda auditiva relacionada à parte periférica do sistema auditivo. A parte central, relacionada a estruturas superiores como o córtex auditivo, ainda não foi amplamente estudada nesses indivíduos. A fonoaudióloga Julia Valente explica que as áreas mais centrais da audição são responsáveis pela forma como o som é processado e diversas alterações podem ocorrer afetando a qualidade do processamento do som.